Ao Cair da Noite

It Comes at Night (2017 – EUA) 

Após a elogiada estreia em Krisha, o diretor Trey Edward Shults surge com um filme que vaga entre o terror e o thriller psicológico, com grau de elogios que já coloca seu nome em destaque. E, assim como seu longa anterior, esse aqui oferece elementos interessantes, mesmo que dentro de um contexto que já vimos antes.

Os personagens vivem um momento caótico, trancafiados numa casa na floresta, Paul (Joel Edgerton), sua esposa (Carment Ejogo) e o filho adolescente (Kelvin Harrison) sobrevivem entre a segurança de uma rotina restritiva e aterrorizado pelo desconhecido, enquanto uma estranha doença mortal ronda a região. A trama realmente se configura com a chegada de um estranho (Christopher Abbott) e se estabelece o clima de desconfiança que se torna a grande atmosfera conduzida por Shults.

Do medo do desconhecido, relativamente controlado fora de casa, adiciona-se agora o medo do estranho que agora está dentro de sua “fortaleza”, e nesse clima de desconfiança e parceria que tenta se reestabelecer as relações sociais entre parentes e hóspedes. Tensão sexual, questões raciais, panos de fundo que podem ser levantados, enquanto Shults mantém-se assustando o público com cenas entre a penumbra e a luminosidade tímida.

Colossal

Colossal (2016 – EUA) 

A premissa soa inusitada. E não só ela, porque o filme dirigido pelo espanhol Nacho Vigalondo mistura a narrativa indie (aquela típica de Sundance) de dramas pessoais e personagens losers, com monstros gigantes (sim, algo como o Godzilla). E me pergunto, porquê não? Até ai tudo bem, o que mais buscamos é o novo, o inusitado. Pois bem, o resultado… bem, o resultado são outros quinhentos.

Vigalondo nunca abre mão dos preceitos desse cinema indie americano mesmo, nossa protagonista (Anne Hathaway) surge desempregada, à beira do alcoolismo e ganha um pé-na-bunda do namorado (Dan Stevens) nada mais indie americano, não é? Ao voltar a sua cidade natal, e reencontrar antigos amigos, estranhos monstros aparecem em Seul. Só que o filme dá uma guinada ainda mais forte no lado dramático de seus personagens, algo entre o vilão e o politicamente incorreto. Fragilidades como ciúmes e aceitação se tornam armas nas mãos de vilões, e o que parecia ser um filme divertido, nunca se sustenta como sua proposta se colocava. E a decepção pode vir como um tombo de uma altura ainda maior do que as expectativas prometidas.

Neve Negra

Nieve Negra (2017 – ARG) 

Filme após filme, é impressionante a capacidade de Ricardo Darín em mobilizar público, dentro do circuito de cinema nacional, não importa seja um drama, um thriller, uma comédia ou um melodrama. Afinal, esse segundo filme do diretor Martín Hodara nem devesse ser digno de nota, pois não foge do esquema de uma “reviravolta” para mexer com o público, e claramente se estabelece como o grande mote do filme.

O irmão ermitão (Darín), que vive na Patagônia, é procura pelo outro irmão (Leonardo Sbaraglia) a fim de aceitar a venda de um negócio da família. Pouco a pouco, o roteiro tenta construir as razões do distanciamento, a tragédia do passado, e a aspereza com que o sujeito isolado do mundo age com qualquer ser humano. Mesma a coragem em tratar um assunto tabu, no grande momento da virada da trama, apresenta ser um OVNI dentro de uma narrativa tão sedimentada em suas bases de didatismo em tom de tragédia sulamericana.

Coração e Alma

Reparer Les Vivants (2016 – FRA) 

Indicado a melhor roteiro no César e integrante da Mostra Horizonte, do Festival de Veneza, o novo filme da diretora Katell Quillévéré muda completamente a rota, da leveza dramática de seu filme anterior (Suzanne), para o peso do drama familiar que enfrenta tragédias e nova esperanças. De um lado a fatídica morte de um jovem, de outro a possibilidade de recuperar a vida com um transplante de órgãos.

Quillévéré cria a falsa leveza nas primeiras cenas, um acidente de carro quase hipnótico, para a seguir tratar da dor da perda dos pais, enquanto, em paralelo, corre a história de uma mãe que nem subir as escadas sozinha consegue e precisa, desesperadamente, de um coração. Não deixa de trazer à tona o sempre importante tema da doação de órgãos, mas não precisa gastar mais de vinte minutos vislumbrando um coração batendo, durante uma operação de transplante. Se perde num drama banal, para um tema tão urgente.

Rock’n Roll – Por trás da Fama

Rock’n Roll (2017 – FRA) 

A crise masculina dos 40 anos, Guillaume Canet optou pelo bom-humor, abriu as portas de sua vida, e entregou essa comédia de ficção, mas tão autobiográfica. Estão lá sua esposa Marion Cotillard, um garoto representando o filho deles, amigos, colegas de trabalho, e a vida deles entre filmagens, fazer a janta, e pegar o filho na escola. O cinema levado para dentro da vida real deles, difícil distinguir o quanto de piada interna, o quanto de invenção e o quanto de verdade há naquele retrato de relacionamento. Pouco importa, os personagens que eles criam, para eles mesmos, refletem tantas semelhanças com qualquer outro casal, e esse bom-humor em retratar a crise de um galã vendo seu trono ruir (ou sua posição na lista de desejados pelas mulheres despencar.

Na segunda metade, o filme perde do humor mais natural, a trama traça um caminho mais ficcional do personagem e Canet não sabe trabalhar tão bem, ainda assim há reflexões interessantes dentro daquele humor ingênuo, de um personagem ingênuo, dentro dessa dificuldade masculina em perceber que aquele tempo já passou e o momento é de descobrir as coisas boas de um novo ciclo. Rock’n Roll é sobre Canet, é sobre ser casado com Marion, e, principalmente, sobre lidar com as mudanças físicas e comportamentais que o tempo impõe sobre todos nós.

Z – A Cidade Perdida

The Lost City of Z (2016 – EUA) 

O novo trabalho, de um dos queridinhos da cinefilia mundial, é o mais eloquente de seus filmes. Por mais que seja vendido como aventura para os públicos do multiplexes, é quase inclassificável pela conjunção de fatos históricos, grau de fascínio pelo novo, e diferente, mas também pelos arcas dramáticos que envolvem o protagonistas (Charlie Hunnan).

O explorador britânico sai numa expedição em busca de informações, novas descobertas, pela inexplorada região Amazônica (inexplorado pela Europa, já que os índios sempre estiveram por lá). Seu interesse real é outro, conquistar o prestígio e renome que até então não conseguira em sua profissão. A viagem pela selva se torna uma obsessão, principalmente em encontrar, e provar a existência, de uma cidade perdida, com sinais de uma civilização com avanços tecnológicos.

O filme de James Gray guarda semelhanças com sua filmografia, principalmente na manutenção do núcleo familiar ativo. Idas e vindas da América do Sul, e a cada retorno, um novo degrau dramático dentro do quadro familiar, seja com a esposa (Sienna Miller), ou com os filhos. A família segue importante no cinema de Gray, por outro lado, sua atenção aos detalhes é substituída pela grandiosidade das paisagens, das possibilidades que a floresta lhe permite. E seu filme se torna mais frio do que costumeiramente, talvez pela interpretação pouco inspirada de Hunnan, talvez pelas inúmeras possibilidades com que o estilo elegante de Fray podia retratar aquele espaço idíliaco.

O resultado final é de um filme saboroso de se admirar visualmente, porém incapaz de fazer o público penetrar em suas subtramas, em seus contextos mais íntimos. Sabemos que filmes na selva são difíceis, mas a opção de ter a ânsia do reconhecimento pelo homem comum, diminui a experiência que poderia ser hipinótica do explorador, e seu desconsolo com o mundo que vive.

Digam o que Quiserem

Say Anything… (1989 – EUA) 

Seria provocativo dizer que Cameron Crowe ainda não realizou um filme tão bom quanto sua estreia? Talvez Quase Famosos possa rivalizar e causar discussão, mas sua comédia romântica, ingênua, funciona tão bem dentro dos clichês do gênero, e praticamente marcou a assinatura que encontramos na maior parte dos filmes do diretor.

A trama adolescente em que Lloyd (John Cusack) tenta conquistar o coração da estudante determinada Diane Ione Skye), guarda pequenos momentos inesquecíveis da representação da paixão, e também da explosividade da felicidade juvenil, e da pressão paterna pelas responsabilidades contra as paixonites adolescentes.

Crowe dosa bem a mão quando trata da relação pai e filha, e das transformações a qual passa essa relação enquanto se descobre outro lado do pai e a filha aprende as desenvolturas do amor. Enquanto isso, o inquieto Lloyd vive passionalmente todas as fases de seu relacionamento, seja através da música, das influencias da amizades, mas principalmente no aprendizado da convivência. E dentro dessa complexa equação, Crowe constrói um desses romances saborosos, imperfeitos, mas que carregam muito além do que as simples idas e vindas do amor.