Arquivo da categoria ‘Cinema’

Happy Hour

Publicado: julho 26, 2021 em Cinema
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Happy Hour (2015 – JAP)

Como numa boa novela contemporânea, o cineasta japonês Ryusuke Hamaguchi dá espaço para dramas cotidianos se desenrolarem de maneira palpável. São mais de cinco horas onde mergulhamos nas vidas amorosas de 4 amigas de maneira singela, numa tão sabida sociedade japonesa ainda machista. Divórcio, gravidez, traição, liberdade, decepção, carreira, filhos, as questões são as mesmas de sempre, a diferença é que Hamaguchi é um artesão dessa construção de personagens e diálogos críveis, em seus silêncios, em adiar conflitos que estão nítidos.

Parte da beleza talvez esteja no impulsivo, que nos faz mais humanos, os comportamentos de cada uma delas ecoa num espectro esperado, mas há um limite que nada mais é que um grito de socorro, de liberdade, e o inesperado desconcerta. Uma delas está em processo de divórcio, o marido não aceita, mas a coragem de enfrentar funciona também como chacoalhada na zona de conforto de todas elas. Com o passar das horas o filme vai deixando os homens cada vez mais frágeis, quem sabe um gesto indicativo de mudanças na sociedade contemporânea.

Ordem Moral

Publicado: julho 23, 2021 em Cinema

Ordem Moral (2020 – POR)

Ainda que se esgueire pelo novelão (uma tendência tão forte no cinema português mais tradicional), o filme é forte e atual ao trazer à tona a história da herdeira de um dos mais importantes jornais portugueses. Um exemplar digno da posição submissa que se permitia a mulher, ainda que rica, no início do século XIX. Maria de Medeiros ótima.

Mas não espere muito sobre o jornal, o filme é sobre o drama particular, a impossibilidade de liberdade, o teatro como o frívolo para uma rica desocupada que nao deve se envolver nos negócios que lhe pertencem, a dominação de pai e filho sobre uma mulher madura, a sociedade tratando como loucura quem apenas quer sua liberdade.

Arbusto em Chamas

Publicado: julho 22, 2021 em Cinema
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Horící Ker / Burning Bush (2013 – TCH)

Quem já visitou Praga ouviu falar de Jan Palach, o estudante que morreu após atear fogo em seu próprio corpo como protesto pela ocupação Soviética na Tchecoslováquia no ano anterior. A diretora polonesa Agnieszka Holland estudava cinema em Praga à época, e conheceu alguns dos personagens reais, o que me parece mais que gabaritada para dirigir essa minisserie da HBO, depois exibida nos cinemas.

É um filme que reconstituição da história, com medo da repercussão de sua morte o governo soviético tenta desacreditar o garoto, a família resolve processar um deputado socialista, entra em cena a jovem advogada (que no fim do regime se tornaria a primeira Ministra da Justição da Tchecoslováquia livre).

Não é preciso muito para imaginar o que o autoritarismo faz para encobrir fatos e proteger seus aliados, e o filme é importante para esse resgate não sair da memória, enquanto Holland filma com elegância, além de imprimir a ótica feminina, tanto no olhar do filme, quanto das personagens mulheres que já sofriam a repressão da sociedade, fora a questão política. A primeira parte é confusa com muitos personagens e correria de hospital, depois a trama de tribunal e política se ajeita quando a atriz eslovaca Tatiana Pauhofová assume o protagonismo.

Nádia, Borboleta

Publicado: julho 21, 2021 em Cinema

Nadia, Butterfly (2020 – CAN)

Incômodo, claustrofóbico, competitivo. A primeira parte do filme é muito competente em trazer mais que os bastidores do esporte de alta-perfomance, e sim muito do espírito competitivo, da tensão, do desgaste. A câmera em planos-fechados, a nadadora jovem que já planeja se aposentar, a pressão por uma medalha, rivalidade.

Depois da competição o filme parte para outro pontos de bastidores, as famosas festas na Vila Olimpíca entre atletas jovens e cheios de vida, as entrevistas, e o que vem a seguir. Essa parte não é tão intensa, nossa protagonistas é amargurada, até comum ar superior pelo que decidiu trilhar a seguir, ainda assim o filme parece bastante verossímil e forma um quadro curioso que foge dos clichês de superação que tomaram os dramas esportivos de uma forma que qualquer coisa já é um alívio. Que tristeza ver um filme sobre as Olimpíadas que sabe-se lá quando irão ocorrer.

Os Melhores Anos de uma Vida

Publicado: julho 20, 2021 em Cinema
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Les Pus Belles Années D’Une Vie / The Best Years of a Life (2019 – FRA)

Nostalgia é o combustível que Claude Lelouch usa para resgatar, novamente, os personagens do filme que marcou sua carreira. Ele não economiza em reutilizar cenas e mais cenas do clássico Uma Homem, Uma Mulher. O galanteador piloto agora vive num asilo e passa o dia a recordar daquele amor vivido ou de overdoses de sonhos. A trilha em piano intensifica aquele clima de calmaria e de melancolia romântica, e os diálogos estão sempre indo pouco além desse relembrar de histórias vividas.

Mas, essa nostalgia até que funciona a quem descobriu o filme clássico, o reencontro de Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant sempre guarda um sabor especial, mesmo num filme que nem se esforça muito. Os gracejos dele, o mexer no cabelo dela, há no casal um magnetismo que se torna, facilmente, a única razão de desistir desse filme.

Black (2015 – BEL)

Adaptação de Romeu e Julieta da dupla Adil El Arbi e Bilall Fallah, que transpõe a história shakespeariana de amor inocente e ódio entre famílias/gangues para a guerra social na Bélgica contemporânea. Nos subúrbios de Bruxelas se formam gangues rivais de jovens africanos, negros de um lado (não peguei qual a nacionalidade), e marroquinos de outro. Trafico, peguemos assaltos, bairros perigosos, essa história que conhecemos tão bem.

Em meio a marginalidade, um jovem casal se apaixona. O romance não é recebido bem por nenhum dos lados. É um filme muito bonito visualmente, com boas tentativas de ir além da história, em travellings e enquadramentos inusitados, algumas cenas com pouca luz. Por outro, não vai além dos clichês do cinema social, da violência entre as gangues e da rebeldia. Além do aspecto positivo visual, há uma cena, em especial, de violência (que não briga) que vai além do marcante, é realmente assustadora e chave para o clímax do final.

Prazer em Roubar

Publicado: maio 20, 2021 em Cinema
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The Pleasure of Being Robbed (2008 – EUA)

Sim, a personagem central é uma cleptomaníaca, e esse prazer em roubar é o fim condutor do jovem estreante Josh Safdie (assina ainda sem o irmão), mas a impressão é de que o filme utiliza essa “hábito” como maneira de facilitar a compreensão desse espírito-livre que anda pelas ruas de Nova York fuçando em bolsas, roubando despreocupada, talvez aguçada pela curiosidade. Muita câmera na mão tremendo, imagem granulada, e a sensação de testemunhar essa liberdade misturada com solidão. Poderia ser um coming-of-age tardio, mas nem isso, é apenas o acompanhamento desse fluxo irresponsável em frequente movimento, e o exercício de um cineasta, que nem terminaram seus estudos, mas já fincava um estilo que só se confirmou como um dos mais interessentes do cinema indie americano atual.

Heremias: Book One – The Legend of the Lizard Princess (2006 – FIL)

Poderia ser visto como o sofrimento de um homem que tem tudo seu roubado e não sofre nenhuma assistência policial/governamental, parte do filme é isso, dentro dessa longa jornada de dificuldades e solidão do personagem (e bota dificuldades nisso, o cineasta não nos poupa de um segundo sequer de desgraças). Mesmo miserável, Heremias ainda tem o gesto nobre de se importar pelas pessoas, de tentar ajudar, isso fica evidente na nova guinada de domina as duas horas finais do filme. Possivelmente o filme de Lav Diaz é sobre isso, em levar o miserável aos limites, mas ainda encontrar algo nobre em quem tem isso dentro de si, mesmo que tudo a sua volta seja corrupto, egoísta, sujo ou simplesmente prevaleça o descaso. O choro desesperado pode sere um elemento apelativo, algumas vezes é a única coisa que ninguém nos pode tirar.

A Metamorfose dos Pássaros (2020 – POR)

Queria eu ter o poder de resumir a história da família com essa beleza harmônica entre imagem e palavras, entre tom e melancolia, e assim transformar o íntimo num sentimento capaz de causar identificação com um espectador do outro lado lado continente, que talvez nem fale sua língua. O filme da estreante Catarina Vasconcellos é impressionante. Através de cartas, fluxos de memória, ou pequenas conversas, ela relata o luto, resgata a infância, narra a história de três gerações de uma família, a sua família. Já vi muitos cineastas importantes trazerem para o cinema histórias de suas famílias, memórias, que muitas vezes se tornaram filmes que deveriam ter ficado apenas no âmbito familiar. Catarina prova que é possível realizar um filme lindo, tocante, e dar significado e criar proximidade com desconhecidos. Poderia resgatar diálogos, cenas, mas prefiro deixar sem spoilers para os que ainda vão descobrir esse poema filmado. Desde já um dos grandes filmes do ano.

Hebe: A Estrela do Brasil (2019)

Ainda que o filme dirigido por Maurício Farias caia na armadilha de dividir a vida dela em pequenos capítulos, bem definidos (ao invés de criar mais naturalmente), com alguns momentos marcantes de sua trajetória (saída da Band, a luta contra censura, morte de amigo, Silvio Santos, violência doméstica e etc), há uma nítida preocupação estética de encarar sua biografada por ângulos não convencionais que o deixa como um filme além do simples contar uma historinha. E tem Andrea Beltrão que não tenta imitá-la em tudo, que absorve trejeitos, mas se coloca também na personagem, fugindo das interpretações de imitação que levam tantos Óscares por ai