Cronos

Cronos (1993 – MEX) 

Mesmo em sua estreia em longa-metrangens, bastante irregular de foma geral, Guillermo del Toro já construía muito do que se tornaria um típico filme com sua marca. O fantástico representado por monstros, a preocupação estética e a melancolia que vem representada na figura dramática. Além, de já ter no elenco, aqueles que seriam costumeiros em seu início de filmografia: Federico Luppi e Ron Perlman.

Na trama, o dono de uma loja de antiguidades e um estranho objeto que solta garras e busca por sangue. É o mito do vampiro e da vida eterna narrado sem os dentões, estacas e balas de prata. O corpo rejuvenesce, a obsessão por sangue cresce e sempre tem alguém atrás das benesses que o cronos pode oferecer.

Anúncios

A Região Selvagem

La Región Salvaje (2017 – MEX) 

Amat Escalante, dessa vez, flerta com o desconhecido, com o sobrenatural, enquanto volta a retratar um México rural. A sexualidade e a violência interligadas aos relacionamentos, personagens que de alguma forma vivem à margem da sociedade estão sempre em seus filmes. Um jovem casal com casamento em crise, o irmão dela um enfermeiro gay. Uma desconhecida que surge e passa a se relacionar com eles. Ali perto, uma estranha criatura e seus desejos sexuais saciados. O filme perturba por imagens ousadas, entre o belo e estranhíssimo, e essa reação do público é curiosa. Como também, essa proximidade entre a violência e a tensão sexual, além das possibilidades com que o ímpeto sexual pode manipular cada um, que o filme propõe.


Festival: Veneza 2016

Mostra: Competição

Prêmios: Direção

Os Refugiados do Barco

Tau Ban No Hoi / Boat People (1982 – HK) 

A história trágica dos refugiados não se acaba, apenas muda de endereço. Se, atualmente, a Europa se divide na questão (Brexit, direita conservadora crescendo, governos sólidos balançando), o filme da diretora Ann Hui fica como um importante registro, um de tantos outros capítulos do drama de refugiados desse planeta.

Entre os anos 70-90, quase um milhão de pessoas fugiram do Vietnã comunista, de barco, para diferentes destinos no Sudeste Asiático (Hong Kong principalmente), ficaram conhecidos como Boat People. O roteiro traz um fotojornalista japonês, levado ao país, para revelar ao mundo como o povo estava feliz e bem tratado, o quanto o país se reestabelecia bem no pós-guerra. Bastou um pouquinho de curiosidade, além do protocolo, para o estrangeiro se tornar testemunha da verdadeira situação social, das influências políticas de um país em frangalhos, e do desespero de uma guerra que deixou resquícios.

Fome, prostituição, instinto de sobrevivência, apenas alguns dos exemplos da miséria humana vivida pelo conjunto de personagens que interagem com o fotógrafo. Execuções, um regime autoritário que se impõe via violência, crianças obrigados a desarmar campos minados. Ann Hui filma o horror através de uma pureza tocante e personagens que facilmente ficarão na memória.

Hannah

Hannah (2017 – ITA) 

O cinema dos silêncios é uma arte dificílima. Afinal, numa era que tudo está tão acessível ao alcance da mãos, via smartphone, incluindo vídeos em tantas redes sociais, realizar um filme em que os silêncios são a figura dominante da estrutura narrativa, e conseguir assim deixar seu público intrigado, é algo raro. A sempre sensacional Charlotte Rampling foi escolhida melhor atriz em Veneza, não era por menos, o filme do italiano Andrea Pallaoro não se afasta um segundo de sua protagonista silenciosa.

Os planos fechados intensificam a rotina dessa mulher que sofre com o marido preso e com o distanciamento do filho. As informações são escassas, um quebra-cabeças pouco claro para o público, e bem curioso como a protagonista cria uma realidade paralela, quase uma negação dos fatos. Unir a familia parece impossível, mas ela segue ali, impassível ou apenas incapaz de enxergar a realidade bem diante dos seus olhos. Não é um filme arrebatador, mas é dentro do meticuloso que permite a compreensão dessa protagonista que não sabe, ou não quer acreditar no que possa ter ocorrido para destruir aquela familia.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição

Prêmios: Melhor Atriz

Rio, 40 Graus

Rio, 40 Graus (1955 – BRA) 

O cinema nacional brasileiro em sua melhor forma. Naquele que é considerado o primeiro filme independente nacional, Nelson Pereira dos Santos retrata o povo carioca em suas mais genuínas formas. Dos garotos que vivem na favela e vivem entre a vontade de jogar pelada e a necessidade de pedir esmola, passando por toda a marginalidade à sua volta, até o sonho do trabalhador de casar e ter filhos, uma casa decente. A gravidez antes do casamento e todo o tabu em sociedade.

E o futebol, ah o futebol, o ópio das massas, aquele que unifica o roteiro com o desenrolar dos interesses escusos de empresários para que seus pupilos sejam escalados e assim rendam frutos. Enquanto isso, o povo carioca na arquibancada, discute, grita, se diverte com o esporte das massas, enfrentando o calor da Cidade Maravilhosa e toda a malandragem impregnada em seus cidadãos.

Desobediência

Disobedience (2017 – RU) 

Sebastián Lelio segue firme clamando pela liberdade em sua filmografia. Pela primeira vez filmando no exterior, o cineasta chileno opta, dessa vez, por uma abordagem mais contida, ainda que sse mantenha entre temas e personagens que persistem como tabus da sociedade moderna.

Começa apresentando Ronit (Rachel Weisz), fotógrafa nos EUA, e que numa rápida montagem o filme deixa claro que preza por sua liberdade. Se sente obriga a voltar à Inglaterra e enfrentar o luto pela morte de seu pai, um importante líder religioso de uma pequena e ortodoxa comunidade judaica. Lelio é muito cuidadoso com as informações ao público, a verdade da relação de Ronit com seu pai e aquela comunidade só vai clareando com o passr do filme,  o reencontro com parentes e amigos é doloroso e cheio de dedos, ou até mesmo de preconceito, uma persona non grata.

A fotografia acizentada, aquela imagem com aspecto de “lavada”, Lelio tenta fazer com que tudo ao redor represente o vulcão de emoções veladas. Ronit se reencontra com Enit (Rachel McAdams) e todo o desprezo dessa pequena sociedade faz sentido quando a chama daquele relacionamento reaparece. Amor, desejo, e também hipocrisia, dogmas religiosos, aversão, o mesmo passado vem à tona. E Lelio mantém a imagem em planos fechados nos rostos das duas atrizes, o que era luto se torna um misto de infelicidade e esperança. A trama segue seus caminhos, sempre contida, ainda que guarde momentos bem sentimentais nos minutos finais (com direito a discurso clichê e tudo mais), ainda que à moda antiga, o chileno tenha coragem de realizar um filme feminino, mergulhado numa sociedade tão machista e capte essa odiosidade geral exposta acima da liberdade.

Soldado

Soldado (2017 – ARG) 

A câmera observacional de Manuel Abramovich acompanha a trajetória de um jovem soldado. Do alistamento espontâneo à rotina no quartel. É outro exemplar do cinema argentino independente que coloca foco em personagens comuns, sem nada espetacular, além de suas próprias vidas e rotinas. Como se fosse um documentário, temos um personagem cuja presença da solidão e de poucas expressões emotivas tornam-se a vértice para que Abramovich exponha a radiografia de um coadjuvante que no cinema se torna um protagonista.


Festival: Berlim 2017

Mostra: Generation 14plus