Menashe

Menashe (2017 – EUA) 

Com certo destaque na última edição de Sundance, o filme dirigido por Joshua Z. Weinstein não vai além de trazer um pouco mais dos aspectos sociais da cultura judaica ortodoxa. No cerne, o viúvo atrapalhado que não pode morar com o filho, enquanto não tenha uma nova esposa. Nessa tentativa de retrato cultural que foge dos padrões ocidentais mais difundidos, o filme é cheio de boa vontade, mas passa longe de qualquer apuro cinematográfico. É só uma historinha sendo contada, com elementos religiosos e sociais importantes, que surgem como novidade aos que não fazem parte da comunidade judaica.


Festival: Sundance 2017

Mostra: Next <>

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Comrades: Almost a Love Story

Tian Mi Mi / Comrades: Almost a Love Story (1996 – HK) 

Quase uma fábula romântica contemporânea, o filme de Peter Chan narra o encontro de dois imigrantes da China continental, que chegam a Hong Kong em busca do conforto financeiro. Jun Li (Leon Lai) é o garoto ingênuo que pretende conseguir dinheiro para se casar com a namorada. Qiao Li (Maggie Cheung) é bem mais astuta, prática e interessada em voos maiores.

Há no filme muito do vislumbre de estar em Hong Kong, a China capitalista, onde se pode comer no McDonald’s, ou que o caminho para se dar bem na vida é aprender a falar inglês. Sem perder essa essência de imigrantes em busca de seus sonhos, a narrativa vai naturalmente aproximando esses amigos para uma atração incontestável, quase um amor irrealizável como dos filmes de Kar-Wai. Mas aqui, a mão de Peter Chan leva os personagens para outros caminhos, seja pelo clima adocicado que se coloca entre o brega-romântico e o hipnótico, seja pelos circulas altos e baixos que a dupla enfrenta em sua jornada financeira.

Olhares, silêncios, o não-dito, as canções de Teresa Teng (uma delas faz referência ao título original do filme), além da impressionante capacidade do cineasta em criar pequenas e saborosas (algumas até inesquecíveis) cenas, fazem do filme essa representação de personagens comuns vivendo um romance avassalador, tanto para eles, quanto ao público.

Terra de Ninguém

Terra de Ninguém / No Man’s Land (2012 – POR)  

Num fundo preto, um homem sentado numa cadeira marrom, e nada mais. O foco é total sobre ele que inquieto conta sua história da época de comando militar na Guerra Colonial em que Portugal se meteu com suas colônias africanas. Um mercenário, um serial killer contratado pelo governo de seu país para cometer crimes. Chega a ser assustador como Salomé Lamas cria a atmosfera para que Paulo de Figueiredo, em mini-capítulos (são mais de 50), narre histórias hediondas num discurso de bom-senso e sem papas nas línguas.

Exercícios de Memória

Ejercicio de Memoria (2016 – PAR) 

E a cineasta paraguaia Paz Encina acertou novamente. Através de imagens quase oníricas ou abstratas, que refazem as lembranças de criança de três irmãos, através dos depoimentos de suas memórias, o documentário resgata a época do desaparecimento de Agustín Goiburú durante seu exílio na Argentina. Maior adversário político da ditadura de Alfredo Stroessner, seu corpo ou pistas do paradeiro jamais foram encontrados desde deixou de ser visto em 1976.

É um filme em que Encina segue pregando o distanciamento, a preocupação em permitir que a narrativa transcorra através de fluxos, dessa sensação de que a memória é quem conduz o todo. Foge de um discurso inflamado para conquistar através do singelo, num envolvente exercício de memória que dá novos significados ao já tão combalido, pelo cinema, temas das ditaduras militares sul-americanas.

Con El Viento

Con El Viento / Facing the Wind (2018 – ESP) 

A estreia na direção de Meritxell Colell é, ao mesmo tempo, minimalista e grandiosa. Um filme de silêncios, de gestos, e também da expressão de uma tempestade de sentimentos através apenas da dança. A câmera inquieta, a paisagem rural da Espanha meio árida, palco para o retorno de Mónica após vinte anos longe de sua terra natal, por conta da morte de seu pai.

As recordações, sentimentos de culpa e outras aflições pelo distanciamento alongam a estada, talvez até a mãe vender a casa. Junto com outras mulheres da familia, permite que o tempo passe, que as feridas sejam remexidas, um reencontro e um acerto de contas com sua própria consciência. Colell é muito precisa em aproveitar o ambiente, e os não atores, para oferecer atmosfera precisa, a sensação de um pessoas e um vilarejo longe dos tempos modernos, por outro lado, o aspecto geral é de um filme demasiado fluido, talvez preso demais a necessidade de expressar todos os sentimentos através da dança ou de outras expressões silenciosas e individuais.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Baseado em Fatos Reais

D’après Une Histoire Vraie / Based on a True Story (2017 – FRA) 

O novo thriller de Roman Polanski é bem genérico, ainda mais se lembrarmos que Elle (de Paul Verhoeven) é tão recente e bem mais desafiador, ou mesmo com os últimos filmes que ele próprio fez recentemente. A trama também é movida por elementos que já vimos recentemente em seus trabalhos, da escritora ghost-writer, até o protagonismo de Emanuelle Seigner, com flerte bem mais tímido para o lado erótico.

O roteiro pega um momento de instabilidade emocional de uma escritora renomada, que acaba manipulada social e psicologicamente por uma misteriosa ghost-writer (Eva Green). Uma relação de dependência e desconfiança, com traços de Louca Obsessão, muito suspense psicológico, e um desenrolar bem preguiçoso. Polanski segue filmando anualmente, talvez pudesse depurar melhor suas ideias, quem sabe até nos poupar dessas supresinhas de roteiro tão batidas.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Special Screenings

A Cordilheira

La Cordillera / The Summit (2017 – ARG) 

A todo custo Santiago Mitre tenta dar peso a seu novo filme. Começa escalando Ricardo Darín como um presidente da Argentina, passa pela trilha sonora, excessivamente presente, que busca o tom de Thriller, os dramas familiares do chefe de Estado que se sobrepõe a vital cúpula de países Sul-americanos que ocorre num hotel nas Cordilheiras Chilenas. Intrigas politicas ocorrendo, dentro e fora de seu país.

A cada nova carga dramática, a cada novo movimento no tabuleiro de xadrez, o filme só aparenta ainda mais equivocado. Culpa do peso de cada cena, do ar complacente do personagem, do uso das tramas políticas apenas como preenchimento dos hiatos das questões particulares. A Cordilheira não convence com nem pelos problemas pessoais, e muito menos pelas artimanhas políticas e Mitre cria um abismo onde seu filme só tende a mergulhar, cada vez mais.


Festival: Cannes 2017

Mostra: Un Certain Regard