Arquivo da categoria ‘Cinema’

The Miseducation of Cameron Post (2018 – EUA)

A homossexualidade tratada, por alguns, como doença, não é novidade na história do cinema. Adaptando o livro homônimo de Emily M. Danforth, a diretora Desiree Akhavan conta sobre a jovem que é mandada para um acampamento religioso “especializado” em jovens que tenham essa propensão de atração pelo sexo oposto. Praticamente um AA para quem tem comportamentos “atípicos”.

O filme aponta a fragilidade da visão moralista que grande parte da sociedade carrega sobre a homossexualidade, e a maneira como esse grupo acredita que possa corrigir esse deslize. Passa longe de ser um coming-of-age transformador, ainda que consiga construir relações interessantes entre personagens marginalizados por essa sociedade. Akhavan não escapa muito do estigma do filme indie típico de Sundance, e pouco avança nos personagens, além da protagonista, interpretada por Chloë Grace Moretz que trafega bem entre a doçura e a solidão de sentimentos reprimidos. Bater no moralismo não é tarefa tão difícil, mas em tempos como os atuais, volta a ser mais que necessário.

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Take Me Somewhere Nice (HOL – 2019)

A jovem bosnia mora com a mae na Holanda e volta a seu país para visitar o pai hospitalizado. Ela nao consegue abrir a mala, o primo é nada amistoso, e ela ali para visitar um pai que ela nem conhece. Vazio, indiferença e ingenuidade se misturam com liberdade, aventuras, tristeza, melancolia e sexo num road movie curioso, e meio torto, numa sociedade que ainda tenta se refazer das feridas de guerra. Dirigido com jovialidade  por Ena Sendijarević, com traços de um cinema nórico mais gélido, com um quê de indie americano dos balcãs.


Festival: Rotterdam 2019

Pilots

Publicado: abril 8, 2019 em Cinema
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Pilotinnen / Pilots (1995 – ALE)

Trabalho de conclusão de curso de Christian Petzold, foi o primeiro de um total de três telefilmes que o cineasta alemão dirigiu no início de carreira. Em entrevistas ele diz que se inspirou muito em O Último Golpe, de Michael Cimino, nessa estrutura de um fora da lei mais velho e outro apenas começando. Mas, a referência a cultura americana vem de outra forma em sua estreia, na tv e no rádio a noticia da morte de Frank Sinatra, filmes e músicas a todo o momento, as mulheres lamentam a morte do galã.

A trama gira em torno de duas mulheres, vendedoras externas de uma empresa de cosméticos (Blue Eyes, coincidência ou Sinatra novamente?) viajando pela Alemanha a fim de bater as metas de vendas. Rivalidade acirrada pelo emprego entre a mais jovem e a experimente é a tônica da primeira fase da trama. Promiscuidade e ganância competem com desesperança e a submissão feminina. Não se poderia esperar que toda a disputa e humilhações entre as mulheres a levariam a segunda parte da trama, uma espécie de fuga à Bonnie & Clyde (mas sem que exista relação  sexual entre elas).

Petzold já emprega os primeiros sinais do que usaria na narrativa para realizar seus melodramas mais recentes, mas aqui bem num estilo bem mais cru. Pouco a pouco o capitalismo se torna um dos grandes vilões da história (o outro é obviamente o chefe/amante, que representa a figura masculina opressora que se impõe através do seu poder), o que une as mulheres que viviam sob ódio mortal. O sonho de enriquecer, de mudar para Paris, mas mesmo a proximidade ainda guarda resquícios da rivalidade e da visão vulgar da amiga/oponente.

Girl

Publicado: março 25, 2019 em Cinema
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Girl (2018 – BEL)

Sensação do Festival de Cannes, onde venceu (entre outros prêmio) o Camera D’or, o estreante belga Lukas Dhont traz a história de uma adolescente transgênero que tenta ser bailarina. Parte da recepção calorosa deve vir da necessidade de boa parte do público encontrar uma história sim, sem exageros, com seus dramas, mase sem nada espalhafatoso. Todos os pontos são tratados de maneira sensível, começando pela utilização dos espelhos, diversas cenas de observação e esse confronto da imagem vista x vontade de mudança do corpo.

O filme já começa nos 15 anos da garota, que se coloca numa posição de total definição de sua sexualidade, de quem ela se sente exatamente, por mais que haja sofrimento (físico, afinal a preparação para uma cirurgia causa transformações no corpo), social (como ser abraçada normalmente pela sociedade) e pessoal (a relação com o pai, além dos já corriqueiros traumas da adolescência).

O filme de Dhont sempre prefere a delicadeza, até nos momentos mais extremos, ainda que seja um filme ligado ao aspecto observacional, ao processo físico pela qual passa a adolescente. Há polêmicas imagens de nudez, do esforço fisico antagônico aos preparativos médicos, mas fica a sensação de um filme que foge do confronto do tema, por ser tão benevolente no trato social com essa personagem, afinal, sabemos que raros espectros da sociedade lidariam de forma nada cruel com personagens nessa condição de buscar o seu eu.

Leaving Las Vegas (1995 – EUA)

O estranho casos dos solitários que se atraem, não que isso, necessariamente, possa trazer um final feliz. O diretor Mike Figgis tenta empregar sofisticação, seja pela trilha com trompete (que ele mesmo gravou), seja pela vista marcante de Las Vegas e seus cassinos. Mas, o que temos aqui é uma história de autodestruição e fragelo. De um lado o desempregado dramaturgo de Hollywood (Nicolas Cage) que se entregou à bebida, a ponto de abandonar tudo e ir beber até morrer em Las Vegas. De outro, a prostituta (Elisabeth Shue) envolvida com cafetões do leste europeu.

Um improvável romance a partir da fragilidades, afinal, um relacionamento não é só sexo, carinho, pagar as contas e eventos sociais, e sim o companheirismo, o dividir momentos, também preencher a sensação que a solidão poderia causar. Por mais que o filme de Figgis não seja desafiador, ao público, o algo diferente é a narrativa intercalada entre a cronologia e um depoimento (bem pessoal) de Sera, roteiro baseado num livro autobiográfico de John O’Brien (que se suicidou logo no início das filmagens), o desconsolo emocional pela completa desistência de lutar frente ao alcoolismo é sempre impactante: “não sei se bebo porque minha esposa me deixou, ou se ela me deixou porque bebo”.

Como muletas, os dois fragilizados se equilibram como podem, até quando a relação pode trazer mais preenchimento do vazio do que decepção. O tempo passou e o Oscar de ator vencido por Cage deixou a impressão que o filme é mais dele, o que não é verdade. Ele está sempre com um copo, ou garrafa, com as olheiras e o olhar mais e mais perdido, mas ela é quem está na roda gigante de sofrer por ele e sobreviver ao trabalho noturno. De ver uma vida escapando bem à sua frente, e pouco pode fazer além de deitar em seu ombro ou dividir um café da manha. E, sensação desse nível pode ser demolidora, além da fragilidade, a impotência.

Free Solo

Publicado: março 14, 2019 em Cinema
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Free Solo (2018 – EUA)

A ideia é acompanhar a preparação e o feito do alpinista Alex Honnold, em subir a montanha El Capitan, em estilo free solo, sem ajuda de cordas ou qualquer equipamento de alpinismo. Em resumo, na raça. Tudo que se refere às cenas nas alturas são fascinantes, de dar vertigem, tudo captado pelo cinegrafitas e co-diretor Jimmy Chin, que assina esse filme com a documentarista Elizabeth Chai Vasarhelyi. A tensão, ou a emoção de Alex, a cada dificuldade alcançada, sem dúvida uma escalada espetacular.

Fora as imagens impressionantes, há a fase de preparação, que toma boa parte da história e seria bem padrão, se não fosse a entrada em cena da namorada de Alex, que vivia da irresponsabilidade dos 30 anos, morando dentro de um carro, e começa a ter planos a dois, montar uma casa com móveis, e perebemos o quanto a entrada dela em sua vida causa uma total transformação. E, meio sem jeito, ele vai se adaptando, enquanto treina e se prepara para um feito incrível, kamikaze, quase inaceitável por tamanha falta de segurança.

Tchelovek Kotorij Udivil Vsekh / The Man Who Surprised Everyone (2018 – RUS)

Casado, a mulher grávida do segundo filho, vivendo num vilarejo na floresta da Sibéria, Egor parecia ter a vida estabilizada até descobrir que tem câncer terminal. Qual sua reação? Passa a se vestir de mulher. Já imaginou como poderia ser recebido por essa sociedade conservadora dos rincões da Rússia. O filme da dupla Aleksey Chupov e Natalya Merkulova é sobre a crise de identificade, mas acima de tudo sobre a não aceitação, sobre o exemplo negativo, enfim, sobre aparências. Violência, respeito, dor, tudo está ali, de maneira simples, direta, distante de sentimentalismo, da mesma maneira crua  com que aquela sociedade se estabelece.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

Prêmio: Melhor Atriz