Lamparina da Aurora

Lamparina da Aurora (2017) 

Em entrevistas sobre seu novo filme, o diretor Frederico Machado gosta de frisar sua relação forte com a imagem. E é ela quem salta aos olhos desde o primeiro plano de seu novo longa-metragem. O silêncio, as cores fúnebres, aliás o peso da morte está por todos os cantos. Quase um Bela Tarr maranhense, com a forte presença do onírico. São apenas três personagens, um casal idoso e um jovem que, misteriosamente, passa a frequentar a casa. Os diálogos são trocados por poemas, narrados em off, do poeta Nauro Machado (pai do diretor). E esse conjunto tão elaborado versa sobre velhice, morte, e outras temas que os que se permitirem mergulhar na narrativa lenta e abstrata, podem dialogar de maneira quase espiritual com personagens que vagueiam entre o drama e o horror. Machado se firma como cineasta de autoridade sua, e que coloca sua terra natal na geografia do cinema nacional.

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Verão 1993

Estiu 1993 / Summer 1993 (2017 – ESP) 

Talvez seja o mais destacado filme espanhol do ano, dentro do circuito dos festivais, e por isso o escolhido para representar o país no Oscar. A estreante Carla Simón traz às telas, de maneira tão singela, a própria história da sua infância, que foi definitiva para os rumos de sua vida. Aos nove anos, após a morte dos pais por AIDS, passou a morar com os tios.

Mudar de casa, parentes que se tornam pais, uma prima que vira irmã, e a ausência dos pais biológicos. É muita mudança na cabeça de uma criança, em entrevistas a cineasta diz que não se lembra de todos os detalhes, mas que essa é realmente sua história. Quase sempre com câmera na mão, ela acompanha a menina que tenta se encaixar em sua nova realidade, e varia entre a imaturidade e momentos mais egoístas. Além do próprio caos familiar que os falecimentos causam. Simón consegue transmitir sua história através desse olhar meio desorientado de uma garota sem opção, uma Mia Hansen-Love à espanhola, com a leveza da memórias de quem buscava um novo espaço para superar o estranhamento de um novo mundo.


Festival: Berlim

Mostra: Generation

Prêmios: Melhor filme de estreia

Patti Cake$

Patti Cake$ (2017 – EUA) 

No fundo, não passa de uma história convencional de superação, de buscar seu sonho, como tantos outros filmes já narraram, seja pela música, pelos esportes, ou outras áreas. O que o estreante Geremy Jasper (que além de dirigir, escreveu as músicas) tem de inusitado é essa conectividade instantânea entre filme, o mundo do rap, e seu ritmo narrativo. Porque os personagens estão lá, à beira da amargura, movidos apenas pelo desejo de se sobressair enquanto vivem no subúrbio. Mas, o filme dialoga muito bem com esses pequenos guetos que frequentam, e com os dramas familiares que enfrentam.

Fora isso, é muito do carisma da dupla Danielle Macdonald e Siddharth Dhananjay que ri ou chora, sofre e se emociona, mas sempre se contagia quando a música ganha espaço. Jasper sabe lidar com essa empolgação de quem não tem nada, só seus sonhos e permite que eles possam transpor sua individualidade para, ao menos, tentar.


Festival: Sundance

Mostra: U.S. Dramatic

Prêmios: 

Gimme Shelter | Grey Gardens

Gimme Shelter (1970 – EUA) 

Grey Gardens (1975 – EUA)

Estes são dois dos mais celebrados trabalhos dos irmãos documentaristas americanos Albert e David Maysles, nomes praticamente sinônimos do cinema-verdade. Do estilo marcante deles, em que tentavam apenas retratar, causando o mínimo de influência nos personagens e ambientes, a dupla extraiu filmes fortes, e a possibilidade de refletir sobre questões contundentes. É o caso desses dois retratos em destaque.

Gimme Shelter foca na turnê dos Rolling Stones, em 1969, momento pós-Woodstock, e momentos de tensão com violência e morte em meio a multidão. As imagens se dividem entre parte das performance de Mick Jagger e sua banda, momentos dos bastidores pós-show e cataclisma, e as imagens das confusões e brigas. Mostra um povo americano intolerante, descontrolado, e com um grupo de fortões querendo colocar ordem “do seu modo”. Impressiona a riqueza de material, mas, principalmente a atmosfera de violência que os Maysles conseguem impor com a edição que desconstrói a cronologia.

Grey Gardens trata da surpreendente história de uma tia e prima da ex-primeira dama Jackie Kennedy, que viviam numa mansão tão mau-cuidada que foram notificadas pela prefeitura “limpem e conservem, ou saiam”. Retrato da degradação de uma família da alta sociedade cuja a queda do padrão financeiro apresenta seus resultados, sem que as duas aceitem mudar seu estilo de vida. Restam os gatos, a sujeira, e as histórias da época de ouro. Duas mulheres completamente alheias ao bom senso, que levam sua vida à deriva, beirando o cômico e o manicômio. Os irmãos Maysles escancaram a degradação humana enquanto elas, sem pudor do caos familiar, agem com a naturalidade pueril de quem nunca perdeu a realeza, mesmo que na miséria.

Thelma

Thelma (2017 – NOR) 

Bastante promissor em sua metade inicial, a nova empreitada do cineasta norueguês Joachim Trier. A universitária de pais católico e ultraprotetores, descobrindo liberdades e uma sociedade cujs tentações provocam sua criação ortodoxa e claustrofóbica. O clima de sobrenatural ajuda nessa construção opressora, enquanto os desejos sexuais reprimidos começam a pular da tela como alucinações.

Na segunda parte, o roteiro explica melhor sobre os poderes de Thelma, os perigos que ela causa à sociedade e a forma com que seus pais sempre lidaram com ela. É nesse momento que o filme escapa das mãos de Trier, perde-se a angustia aflitiva da jovem pela necessidade de flashbacks e segredos trancados que elucidam a Thelma sobre quem ela é, mas deixam a narrativa cinematográfica bem menos insinuante do que antes.


Joachim Trier na Toca: Oslo, 31 de Agosto (2011), Mais Forte que Bombas (2015)

 

Nossas Noites

Our Souls at Night (2017 – EUA) 

Trata-se de outra produção original da Netflix, que tem Jane Fonda e Robert Redford como protagonistas. Não precisa dizer mais nada, o filme dirigido por Ritesh Batra já tem mídia o bastante garantida. Não é atora que a Netflix adicionou em seu catálogo um dos filmes que a dupla trabalha junta: Descalços no Parque. Poucos filmes oferecem visão carinhosa do romance na terceira idade e esse cumpre seu papel de provar que não há idade para se apaixonar. É bonita a forma como o casal busca diminuir a solidão na proposta dela de passarem noites juntas, inclusive dormir na mesma cama, sem que haja obrigatoriedade de sexo.

E assim, pouco a pouco, vão entrando na vida um do outro, sempre com Batra buscando construir um conjunto de cenas doces (preparar o jantar, caminhar no centro no domingo de braços dados, brincar com o neto), que pesem mais pela maturidade do que a explosão amorosa. O combate á solidão tem seus efeitos, dos comentários da vizinhança ao resgate de problemas passado que o tempo parecia ter enterrado no fundo da memória. As noites deles os deixam mais humanos, por mais que isso tenha seus prós e contras, e o julgamento de tudo e todos.

EP 101 – Liga Sem Bigode

O novo filme da DC é a principal atração da semana no podcast… com direito a um papo com Chico FiremanCris LumiMichel Simões e Tiago Faria sobre as polêmicas envolvendo a participação do diretor Zack Snyder e, é claro, o bigode do Superman, apagado digitalmente. Liga da Justiça (23:00) superou Mulher-Maravilha e Batman vs Superman? Os novos heróis empolgam ao ponto de querermos seus filmes solo? A DC está copiando a fórmula de humor da Marvel? O blockbuster fica ou cai da Varanda?

A Trama (1:03:54) novo trabalho do diretor Laurent Cantet, também gera debate com sua narrativa em que uma oficina de escrita se transforma num thriller psicológico sobre a relação entre uma professora e um aluno de extrema-direita. No Boletim do Oscar (10:43), em foco os favoritos para as indicações ao Independent Spirit Awards.

Nas Recomendações (1:25:11), algumas séries, filmes disponíveis em streaming no Brasil e destaque para a estreia de Human Flow nos cinemas. E ainda tem Cantinho do Ouvinte e muito mais. Bom podcast!

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