O Estranho que Nós Amamos

The Beguiled (2017 – EUA) 

Ao descobrir o filme anterior, quase uma alegoria erótica masculina, dirigido por Don Siegel, em 1971, era de se esperar uma versão cujo o lado feminismo criasse outra leitura para a trama. Afinal, a carreira de Sofia Coppola tem essa vitalidade de trazer o ponto de vista feminismo ao cinema, coisa tão rara, infelizmente. A possibilidade dessa oposição é tentadora.

E realmente, Sofia dá seu toque de feminilidade. E o que, muito provavelmente, não é o que se esperava em tempos de “empoderamento”. Suas opções são sutis, porém definitivas. O estranho de seu filme (Colin Farrel) é mais dúbio, enquanto que quase todas as mulheres são colocadas como joguetes atraídas, pouco se conhece individualmente de cada uma delas. O clima de tensão, quase um filme de terror, ainda que exista, é suavizado. É uma visão mais romântica de um intruso que mexe com a libido de todas, e por mais que a versão anterior fosse machista, essa perde a oportunidade de diferenciar suas personagens, as tornando apenas escravas de uma possível escolha.

Talvez, o ideal fosse tentar não comparar os filmes, por mais impossível seja para quem o viu. Ainda assim, olhando para tudo que Sofia construiu até hoje, parece mais um filme preocupado com reconstruir vestidos, adereços e ambientes, do que explorar seus personagens, seja na questão da Guerra Civil que eclode fora daquela casa, seja na tensão sexual competitiva que enlouquece mulheres tão recatadas e imaturas. Quem mais se destaca é Nicole Kidman, que em sua caricatura entre equilíbrio, seu interesse e senso de justiça próprio, conduz o destino de cada um dos personagens, entre delicadeza e algum toque de brutalidade.

Chi-Raq

Chi-Raq (2015 – EUA) 

Em mais um de seus delírios provocativos, Spike Lee volta com outra proposta critica e contundente contra um tema crucial nos EUA: a violência. Passado em Chicago, o título já faz uma provocação comparando a violência dos subúrbios da cidade com o Iraque (em guerra civil). Duas gangues, de cores vibrantes e líderes macho-alfa, encontram na união pela paz, de suas mulheres/namoradas, uma arma perigosa. Longe de pegar em armas, as garotas decidem organizar uma greve de sexo pelo cessar-fogo, capaz de causar o desmoronamento das gangues, levantar a bandeira da justiça e do feminismos. No tom verborrágico e provocativo de Spike Lee, o filme passou batido pelo Brasil, mas merecia atenção por sua poderosa capacidade de tratar de pequenas ações do cotidiano que podem fazer a diferença.

Lovesong

Lovesong (2016 – EUA) 

A coreana Kim So-Yong cresceu em Los Angeles, e desde que seu tornou diretora de cinema divide sua carreira filmando entre os dois países. De mais recente trabalho foi exibido em Sundance 2016. Depois do sucesso de seu filme Montanha do Abandono, passou a incluir nomes mais conhecidos nos elencos de seus filmes, como Paul Dano, ou neste caso Jena Malone. Mas, ela manteve sua sensibilidade aflorada, e a presença importante de crianças em seus roteiros.

Aqui a criança é filha de Sarah (Riley Keough), a mulher que se sente solitária pelas longas ausências do marido (coreano). É através da amizade dela com Mindy (Jena Malone) que o filme carrega toda essa sensibilidade destacada de So-Yong. A proximidade, que pode insinuar (ou significar) algo mais, surgem por meio desse cinema indie já meio gasto, de músicas fofas e personagens despedaçados pelo caminho da vida. Não deixa de ser bonito, So-Yong trabalha as emoções de maneira íntima e quase irresistível, ainda que navegue pelos mares da cartilha Sundance de fazer filmes.

Verão Danado

Verão Danado (2017 – POR) 

Está acontecendo a 70ª edição do Festival de Locarno, e em primeira mão assistimos a estreia na direção do português Pedro Cabeleira, um dos destaques da seção Cineasti del Presente. O jovem cineasta realiza um filme todo engajado em suas convicções, mesmo com pouco dinheiro e muita gente que acaba de se formar em cinema, e que sabe falar muito bem com o público da sua idade (na casa dos 20 anos).

Chico (Pedro Marujo) é o mais próximo que temos de um protagonista. Recém formado em Filosofia, se muda para Lisboa. É alguém “se enturmando” enquanto a abstrata câmera de Cabeleira capta as interrelações de forma sensorial. Pequenas reuniões de amigos em casa, ou festas com musica eletrônica, tensões sexuais, álcool e drogas, em meio a conversas, momentos, o tempo que passa. Tudo isso captado por muitos planos sequencias e uma preocupação de testemunhar, de capturar a essência. Nada do que é dito é muito importante, os gestos, os olhares, os momentos é que ditam a verdadeira importância desses encontros, dos interesses, das paixões e desejos.

Não é um filme sobre sexo, como Kids ou Shortbus, ele é apenas figura presente. Cabeleira está realmente traduzindo momentos importantes de uma geração “curtindo a vida”, e nisso ele é preciso e lírico. As motivações sã parecidas, a imaturidade e a descobertas são quase senhores do destino desses personagens tão solares, espontâneos e cheios de vida.

O Filme da Minha Vida

O Filme da Minha Vida (2017) 

Selton Mello está empenhado no lançamento de seu novo filme, talvez mirando a escolha do Brasil para concorrer ao Oscar. Entrevistas, festas e pré-estreias, pelo Brasil, é assim que se lança um filme no exterior. Que se faça assim mais vezes. É uma adaptação do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta e resgata bem o que conhecemos do livro mais famoso desse autor: O Carteiro e o Poeta.

Desde que Selton começou a também dirigir, surgiu um contador de histórias, com olhar sentimental e melancólico. Flertando muito com um cinema mais clássico (nesse novo trabalho, talvez, até envelhecido). Selton narra, cheio de lirismo estético e silêncios estudados, a transformação para vida adulta de um garoto, que pouco se encaixa no tipo normal que vive no interior das Serras Gaucha. Professor de francês, sofre com a inexplicada ausência do pai, enquanto descobre o amor, o sexo, e desenvolve sua paixão por cinema.

Não deixa de ser uma homenagem à sétima arte, que deixa mais o gosto de repetição do que já foi visto tantas vezes, do que o sabor de algo novo e inspirador que esse início de carreira de Selton poderia indicar. É um tamanho de filme que falta ao cinema brasileiro, e tomara que ocupe seu espaço, mas, tomara também que possa trazer algo novo, e que Selton continue com seu entusiasmo nesse desafio colossal que é fazer cinema no Brasil.

Dunkirk

Dunkirk (2017 – RU) 

Christopher Nolan e sua grandiloquência atacam novamente. E parafraseando a canção de Gal, o cineasta britânico vem “no céu, no ar, na terra”. É o recordar de uma derrota, mas também de uma vitória histórica. Segunda Guerra Mundial, soldados britânicos e franceses são a cada dia mais encurralados, por tropas alemães. Churchill planeja a retirada das tropas na região de Dunquerque, na França. É Nolan revisitando um fato histórico, sem se afastar de seu estilo que causa tantas contestações e paixões, entre cinéfilos e críticos pelo mundo.

Seja na praia, onde soldados desesperados tentam embarcar nos navios. Seja no ar, onde três caças tentam proteger a retirada das tropas. E seja no mar, onde a batalha pela sobrevivência continua com ataques contínuos dos inimigos, Nolan se cerca do som perturbador de explosões (ou da trilha sonora que insiste em trazer suspense aonde se vê tragédia). O filme exibe o horror da guerra como nunca antes visto, tal a sensação de veracidade, de presença naquela praia, entre tantas imagens belas e chocantes. Tamanha beleza capaz de questionar se suas intenções são a de uma mensagem antibelica, ou fetiche pelo espetáculo.

Nunca veremos um soldado alemão em cena, afinal é a história da retirada de mais de 330 mil homens, e Nolan não nos poupa de momentos de nacionalismo, de sentimentalismo barato. A segunda metade está repleta de momentos em que a eloquência dos atos de heroísmo sobressaem, enquanto a primeira parte funciona como um espetáculo, quase mudo, de reconstituição de ataques contra soldados indefesos, que nada podem além de esperar o ataque mortal. Essa dualidade é prato cheio para criticas, mas é inegável que Nolan leva os filmes de guerra a um outro patamar, sua defesa é pelos indefesos, seja qual for a nacionalidade, seja  qual for o lado em que empunha suas armas na guerra. Não deixa de ser uma extravagancia, mas filma com beleza alguns dos momentos mais hediondos da humanidade, e quando é para fazer espetáculo, Nolan sabe como poucos aproximar o cinema autoral dos Blockbusters, e nisso Dunkirk é inesquecível.

Em Ritmo de Fuga

Baby Driver (2017 – EUA) 

Nos fones de ouvido, que não tira em nenhum momento, música pop para disfarçar o zunido intermitente (resultado de um acidente quando ainda era criança). Baby (Ansel Elgort) é o ás ao volante, com feições de anjinho, que espera para acelerar com seu arrojo e habilidade, após mais um assalto da quadrilha liderada por Doc (Kevin Spacey). Sua figura de bom moço, que cuida do pai adotivo debilitado, e se apaixona pela garçonete da lanchonete de beira de estrada, não parece se encaixar com a de tímido, e fechado, motorista de fuga de assaltos espetaculares.

A trama irá cuidar de explicar esses detalhes, enquanto o romance e as sequencias de ação alucinantes, sempre acompanhadas de música pop antiga, deixam alucinados grande parte do público. Ação, comédia e romance, não é de hoje que o britânico Edgar Wright vem se destacando por um estilo próprio de cinema, mas sempre acabava preso a um público restrito, praticamente um nicho dentro da cinefilia geek. Seu humor,a edição acelerada, e um quê de super-herói nerd, que encontrou em Scott Pilgrim Contra o Mundo, praticamente, a tradução do êxtase, entre super-poderes, muito videogame e romance – e aquele filme realmente é uma delícia.

O que temos dessa vez é um Edgar Wright para um público mais amplo, filmando nos EUA. E não decepciona, e talvez até entregue o seu melhor filme. O impressionante é como ele não traiu suas origens, e conseguiu implementar outras características que deixaram seu filme: mais pop, mais frenético, porque não mais família? E também mais caricato, é verdade, mas, acima de tudo, mais visível (já é o seu maior sucesso de bilheteria). Consegue ser o Velozes e Furiosos que alguns (eu) gostariam de ver, mas nunca encontraram essa leveza pop, essa descontração moderna. Wright nos entrega planos-sequencias de triar o fôlego, enquanto a trilha sonora vital, e vibrante, mistura essa energia com um swing que dificilmente não te deixe o sabor de querer revê-lo em breve.