Arquivo da categoria ‘Cinema’

Leaving Las Vegas (1995 – EUA)

O estranho casos dos solitários que se atraem, não que isso, necessariamente, possa trazer um final feliz. O diretor Mike Figgis tenta empregar sofisticação, seja pela trilha com trompete (que ele mesmo gravou), seja pela vista marcante de Las Vegas e seus cassinos. Mas, o que temos aqui é uma história de autodestruição e fragelo. De um lado o desempregado dramaturgo de Hollywood (Nicolas Cage) que se entregou à bebida, a ponto de abandonar tudo e ir beber até morrer em Las Vegas. De outro, a prostituta (Elisabeth Shue) envolvida com cafetões do leste europeu.

Um improvável romance a partir da fragilidades, afinal, um relacionamento não é só sexo, carinho, pagar as contas e eventos sociais, e sim o companheirismo, o dividir momentos, também preencher a sensação que a solidão poderia causar. Por mais que o filme de Figgis não seja desafiador, ao público, o algo diferente é a narrativa intercalada entre a cronologia e um depoimento (bem pessoal) de Sera, roteiro baseado num livro autobiográfico de John O’Brien (que se suicidou logo no início das filmagens), o desconsolo emocional pela completa desistência de lutar frente ao alcoolismo é sempre impactante: “não sei se bebo porque minha esposa me deixou, ou se ela me deixou porque bebo”.

Como muletas, os dois fragilizados se equilibram como podem, até quando a relação pode trazer mais preenchimento do vazio do que decepção. O tempo passou e o Oscar de ator vencido por Cage deixou a impressão que o filme é mais dele, o que não é verdade. Ele está sempre com um copo, ou garrafa, com as olheiras e o olhar mais e mais perdido, mas ela é quem está na roda gigante de sofrer por ele e sobreviver ao trabalho noturno. De ver uma vida escapando bem à sua frente, e pouco pode fazer além de deitar em seu ombro ou dividir um café da manha. E, sensação desse nível pode ser demolidora, além da fragilidade, a impotência.

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Free Solo

Publicado: março 14, 2019 em Cinema
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Free Solo (2018 – EUA)

A ideia é acompanhar a preparação e o feito do alpinista Alex Honnold, em subir a montanha El Capitan, em estilo free solo, sem ajuda de cordas ou qualquer equipamento de alpinismo. Em resumo, na raça. Tudo que se refere às cenas nas alturas são fascinantes, de dar vertigem, tudo captado pelo cinegrafitas e co-diretor Jimmy Chin, que assina esse filme com a documentarista Elizabeth Chai Vasarhelyi. A tensão, ou a emoção de Alex, a cada dificuldade alcançada, sem dúvida uma escalada espetacular.

Fora as imagens impressionantes, há a fase de preparação, que toma boa parte da história e seria bem padrão, se não fosse a entrada em cena da namorada de Alex, que vivia da irresponsabilidade dos 30 anos, morando dentro de um carro, e começa a ter planos a dois, montar uma casa com móveis, e perebemos o quanto a entrada dela em sua vida causa uma total transformação. E, meio sem jeito, ele vai se adaptando, enquanto treina e se prepara para um feito incrível, kamikaze, quase inaceitável por tamanha falta de segurança.

Tchelovek Kotorij Udivil Vsekh / The Man Who Surprised Everyone (2018 – RUS)

Casado, a mulher grávida do segundo filho, vivendo num vilarejo na floresta da Sibéria, Egor parecia ter a vida estabilizada até descobrir que tem câncer terminal. Qual sua reação? Passa a se vestir de mulher. Já imaginou como poderia ser recebido por essa sociedade conservadora dos rincões da Rússia. O filme da dupla Aleksey Chupov e Natalya Merkulova é sobre a crise de identificade, mas acima de tudo sobre a não aceitação, sobre o exemplo negativo, enfim, sobre aparências. Violência, respeito, dor, tudo está ali, de maneira simples, direta, distante de sentimentalismo, da mesma maneira crua  com que aquela sociedade se estabelece.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

Prêmio: Melhor Atriz

Beatiful Boy (2018 – EUA)

Despois do destaque que conseguiu com Alabama Monroe, o cineasta Felix Van Groeningen ganha espaço e astros em Hollywood, e merecia melhor destaque do que uma estreia esprimida no final da temporada do Oscar, que sem indicações o renega ao quase esquecimento. É fato que não há nada de novo em tratar os traumas de uma família lutando contra o vicio de drogas do filho, afinal, os caminhos de roteiro são bem delineados (recaídas, família em frangalhos, desespero, internações e etc), mas há algo de emocionamente íntegro que tem méritos.

Um dos pilares é Steve Carrel, assumindo o personagem do pai carinho que não acredita que seu filho (aquele querido menino do título) se tornou um viciado químico. Talvez seja essa abordagem que o filme seja, minimamente, diferente dos demais, a incredualidade de um pai em aceitar que tanta dedicação tenha sido corrompida pelas drogas. É dolorido, o peso da culpa, a impossibilidade de resolver porque a situação foge completamente do seu controle. Nesse aspecto, o filme fortalece tanto essa abordagem que usa a mãe do garoto à distância (em ligações telefônicas, imagem sempre ausente), pois se trata da visão paterna e masculina dessa dor.

Obviamente que há asa cenas em que o drama do garoto é o foco, está lá Timothée Chalamet chorando ou se drogando compulsivamente, mas elas parecem apenas utilizadas para intensificar a situação, e logo a seguir voltar às reações do pai, ou da madrasta, e novamente o quão crível pode ser para um pai de um lar estável.

A Mula

Publicado: fevereiro 24, 2019 em Cinema
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The Mule (2018 – EUA)

Aos 88 anos, Clint Eastwood está de volta? Dirigindo e atuando, e, acima de tudo, nos oferecendo seu olhar, a voz de sua experiência. A partir de um caso verídico, de um octagenário falido, que encontrou no transporte de drogas, uma forma de sobreviver, o tido durão  estabelece uma narrativa clássica, mescla entre  humor e drama, mas com ecos de uma voz que mira fortemente ao contemporâneo, alguém contectado ao seu tempo.

Entre uma viagem e outra, com as drogas no porta-malas, o filme explora a tentativa de um homem, que quase sempre viveu em prol de seu egocentrismo e dos pequenos prazeres da vida, deixando sempre de lado um dos pontos tão fundamentais da vida: a família. Agora ele tenta recuperar o convívio familiar, não magoar a neta, e construir alguma ponte no relacionamento perdido com sua filha e sua ex-mulher. De outro lado da história há a policia investigando mais um grupo de traficantes, precisa mostrar serviço.

E por mais que haja pontos questionáveis no todo (personagens que desaparecem, por exemplo), no filme de Clint há espaço para todos os ângulos, o sentimentalismo do resgate de algum respeito familiar, o humor debochado de um velhinho curtindo a vida mesmo na contravenção, e a necessidade de show midiático pela polícia pressionada por resultados.

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

The Kindergarten Teacher (2018 – EUA) 

Remake americanos de filmes estrangeiros sofrem quase sempre na comparação, porque resgatam a história, nem sempre o melhor do cinema que havia. Esse é o caso desse trabalho da diretora Sara Colangelo, homônimo do filme israelense de Nadav Lapid, sobre a professora que se torna tão maravilhada pela poesia precoce de um seus alunos, que a admiração se torna obsessão.

A trama é a mesma, o pai ausente, a professora que ama poesia e o garoto que solta versos, mas só quer ser uma criança normal e brincar, quando possível. O filme traz o incômodo através dos comportamentos da professora, que algumas vezes ultrapassa a irresponsabilidade. O peso da cultura está em seus discursos aos filhos, a babá do garoto, a todos a sua volta. E acompanhamos, passo-a-passo, o desequilíbrio gerado por sua compulsividade em notar e intensificar um possível dom precoce. É bem possível acompanhar, com interesse, o desenrolar desse relacionamento, tentar compreender as fragilidades dessa mulher madura, enquanto Colangelo busca a visão intimista e delicada, mas fica bem aquém do que Lapid oferecia com o filme original.