A Grande Jogada

Molly’s Game (2017 – EUA) 

Narração em off acelerada, marcada no ritmo da trilha e das imagens. Um turbilhão de informações que o público tenta captar entre nomes, números, conexões da personagem e memórias da personagem. Isso, sem falar, nos embates de diálogos acelerados, bem no estilo de A Rede Social. É a estreia na direção de Aaron Sorkin, o roteirista de filmes como o citado de Fincher, ou o de Steve Jobs (do Danny Boyle). A eficiência de seus roteiros está agora explicita em sua direção. Seu estilo é informativo, altamente explicativo, e capaz de dar um perfil completo de personagens e fatos. Se isso é bom cinema, podemos discutir?

Jessica Chastain surge glamourosa na pele de uma mulher que movimentava milhões de dólares em jogos ilegais de poker com celebridades e figurões. Tenta se defender nos tribunais, enquanto enfrenta as sombras de um pai exigente e complicado (Kevin Costner). O filme é curioso e envolvente como narrativa, maçante com esse turbilhão de informações e desgastante com tamanha agilidade e eficiência. Era de se esperar de Aaron Sorkin.

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Pequena Grande Vida

Downsizing (2017 – EUA) 

Estamos sempre esperando o grande filme de Alexander Payne, seus projetos tem prometido, criado expectativas, mas nem sempre correspondem. Com seu ar de sempre ter uma comédia dramática na manga, seu novo trabalho esteve na competição principal em Veneza, onde passou em branco. E o filme realmente prometia, afinal, há algo tão americano nele, essa ideia de vida perfeita em comunidade, pregando o bem a todos, vivendo em harmonia.

E de quebra, a oportunidade de tratar temas como aquecimento global, superpopulação, e possibilidades de preservar nosso planeta. Lembre-se de Querida, Encolhi as Crianças, e pense em tratar no tema de maneira séria. Um experimento que possa diminuir as pessoas de tamanho, dessa forma gastaríamos menos dinheiro com tudo, produziríamos menos lixo e etc.

O ponto é que o roteiro quer sair dos temas globais para ter algo mais individual, uma maneira de dramatizar e assim ter mais apelo com o público. Matt Damon é quem interpreta o personagem que nos permite invadir esse mundo de gente pequena, e com ele vem suas características dramas pessoais, e os temas são banalizados pela problemática pessoal de um personagem que já vimos zilhões de vezes no cinema. E os temas vão passando, desperdiçados, surge uma oportunidade de ouro quando trata diferença de classes, trabalhadores braçais, e rapidamente o tema se esvai. O que resta? Meia-duzia de personagens que orbitam em torno do protagonista, entre piadas e dramas de uma vida cotidiana, e tão trivialmente individual. Payne nos entrega seu pior filme, saudade do curta dele em Paris, Te Amo.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Competição Principal

O Insulto

The Insult (2017 – LIB) 

Aproveitando a herança do vizinho cinema iraniano, de pequenas histórias que sirvam como metáforas de alta critica social, o diretor libanês Ziad Doueiri chega, com chances, ao Oscar de Filme Estrangeiro. O ódio religioso, um passado de lutas, violência e injustiças, que permanece até hoje. E o quanto esse histórico pode influenciar, mesmo em situações corriqueiras.

Afinal, como uma briga de rua vem pode ir parar num tribunal, e envolver mídias e movimentos inflamados pelas ruas. É o peso de um passado que cobra preços mais caros por valores como honra e justiça, e promove a violência onde não se faz necessário. É possível discutir o alicerce por onde a história é construída, mas inegável que ao compreender um caso tão isolado, num contexto histórico, as proporções de um simples insulto são mesmo de discutir a origem do problema (palestino, judeus, cristianismo). É fácil gostar do filme de Doueiri, de sua visão imparcial dos lados, mas também é possível enxergar um filme que se estabelece, quase que exclusivamente, de seu grande tema como se o cinema fosse apenas isso.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator

Lady Bird – A Hora de Voar

Lady Bird (2017 – EUA) 

Chega como um dos filmes mais badalados da corrida do Oscar, estreia na direção de uma das atrizes queridinhas do indie americano (Greta Gerwig, eternizada como Frances Ha e a musa do Mumblecore). Surpreende os mais tradicionalistas por tanto destaque para um típico coming-of-age, que se coloca como representante do início desse século, num mundo pré-smartphone.

Saiorse Ronan é Lady Bird, a garota intensa que sonha em ser artista e vive em pé de guerra com sua mãe durona (Laurie Mecalf). E ela é realmente a luz, o brilho, por sua capacidade de externar todos os anseios, inseguranças, explosividade e melancolia de uma jovem intensa, corajosa e cheia de si. Bem possível que o grande sucesso do filme esteja em sua interpretação tão capaz de causar empatia imediata.

O sucesso da estreia de Greta parece ser a sinceridade com que dirige, é possível notar algo parecido com suas interpretações, mas ela não nega que há muito de autobiográfico (além de ser a mesma cidade onde ela cresceu, ter estudado num colégio católico e ser filha de uma enfermeira), é quase a adolescência de Frances Ha, uma prequel espiritual.

Alguns diálogos de impacto, quase sempre calcados do desequilíbrio comportamental, na velocidade de mudança de humor. A garota prestes a florescer, a eclodir, por mais que tenha que magoar, passar por cima, e em outros momentos, ser tão doce. O cinema pede filmes femininos, conduzidos por mulheres, e ao preencher essa lacuna, o filme talvez esteja ocupando mais espaço do que mereceria, por outro lado, é tão raro o tema ser levado mais “a sério”, e não apenas, visto como outra comédia só para divertir. Greta traduz a idade, a seu modo, mas não o faz gratuitamente, e a simplicidade aparente é apenas a camada superficial de uma cebola que merece ser descascada e descoberta.

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

Mudbound (2017 – EUA) 

Estamos de volta com as tensões raciais no sul dos EUA. Acompanhamos duas famílias, no pós Segunda Guerra Mundial, refazendo suas vidas no Mississipi. De um lado os brancos, com toda a petulância e preconceito que a cor da pele e a condição racial lhes oferece. De outro os negros, com sua posição de submissão na sociedade.

A diretora Dee Rees conduz com esmero técnico, e de forma bem tradicional a narrativa. Os filhos que voltaram da guerra, de ambas as famílias, se aproximam, talvez pela intimidade militar, talvez pela sensação de não se enquadrar naquela sociedade antiquada, ou ainda pela rebeldia de provocar suas famílias. Óbvio que haverá consequências nessa relação, e enquanto a diretora nos prepara para momentos dolorosos, e doloridos, permanece engessada nas convenções de um tipo de cinema necessário, porém um pouco antiquado.

Eu, Tonya

I, Tonya (2017 – EUA) 

A opção da narrativa, exclusivamente, no freak show do relacionamento entre esposa (Margot Robbie), mãe (Allison Janney) e marido (Sebastian Stan), diz muito sobre o filme e suas escolhas. Narrado como num documentário falso, com depoimentos que engatam em flashbacks, a cinebiografia das mais controversas patinadoras olimpíacas é tão obtusa quanto a vida de seus retratados.

O filme dirigido por Craig Gillespeie não consegue dar dimensão exata do tamanha de Tonya Harding para o esporte, por mais que os fatos estejam lá, jogados ao léu. Foco no casos de policia (alusão até a O. J. Simpson está explícita no filme), seja na mãe estranha ou no casamento violento. Desse desequilíbrio surgia uma esportista sempre arredia, pouco profissional, e que entra para a história pelas manchas graves de causou no fair play. Como cinema, apenas um show de personagens histéricos e conturbados, e com boas interpretações que fazem o filme parte integrante da corrida ao Oscar deste ano.

A Woman Captured

A Woman Captured (2017 – HUN) 

O documentário informa um número impressionante de pessoas mantidas como escravas, nos dias de hoje, por toda a Europa. Só na Hungria, se estima mais de dez mil. O filme de Bernardett Tuza-Ritter é chocante por capturar, com tantos detalhes, a forma com que a doméstica era tratada pela família, donos da casa onde vivia, sem receber salário e com limitada permissão para sair de casa, por anos e anos.

Os tempos do feudalismo no mundo contemporâneo. É até crueldade confundir com convencional o trabalho de Tuza-Ritter, só por sua narrativa seguir um padrão bem estabelecido no cinema, por mais que isso seja um fato, o feito é a riqueza do material, expositivo e cheio de afeto, mas facilmente revoltante por ainda se viver num mundo cão de exploração humana até os dias atuais.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema – Documentary