Arquivo da categoria ‘Cinema’

Reflexão

Publicado: outubro 26, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Vidblysk / Reflection (2021 – UCR)

Novamente em foco a Guerra Rússia-Ucrânia, se em Atlantis Valentyn Vasyanovych havia olhado para o futuro, no que sobrou e nos efeitos psicológicos, aqui ele retrata o primeiro ano. E o faz seguindo um cirurgião ucraniano, o antes, o durante e o depois de sua saída do front.

Vasyanovych mantém seu rigor em poucos planos fixos e simétricos, quase sempre amplos. Filma uma cena de adolescentes jogando paintball e soldados torturados ou um jantar solitário em casa com esse mesmo rigor. O que me soa mais impressionante é essa normalidade de vida normal, guerra e seus horrores, retornar a vida normal e lidar com seus efeitos solitariamente, ao tentar se reerguer. É a falência e hipocrisia de estado e sociedade, como se o que acontecesse na guerra ficasse por lá.

Algumas cenas são de fortes a grotescas, e seu filme também é para reinvidicar a lembrança dos comportamentos desumanos, mas essa crueldade me parece ainda mais forte no retorno à sociedade, na volta aos problemas caseiros após o horror.

Compartimento No. 6

Publicado: outubro 25, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Hytti nro 6 / Compartment No. 6 (2021 – FIN)

Vem da Finlândia um dos filmes mais inesperados do ano, Juho Kuosmanen já havia causado frisson com seu filme em preto e branco sobre o pugilista Olli Maki, agora ele coloca uma compatriota na russia, uma arqueóloga que mantém relacionamento com uma mulher mais velha. O filme começa no apartamento que dividem, em tom de despedida, a finlandesa está se preparando para uma viagem de trem, até o Artico, para conhecer algumas formações paleolíticas.

De cara se nota que a relação esá desgatada, que a viagem é praticamente um rompimento velado. No vagão-cama ela conhece um mineiro grosseiro, que  bebe álcool compulsivamente (sim, é proposital essa criação do homem russo clichê ao estrangeiro). O filme é sobre essa relação improvável, obtusa, a forma como Kuosmanen constrói da repulsa à intimidade, sem os clichês narrativos de uma comédia romântica. A construção é mais orgânica, afinal são dias e horas naquele vagão, outros passageiros compartilham com eles o espaço, os momentos de longas paradas em que caminham pelos lugares gélidos, o vagão-restaurante, tudo permite que a estranheza inicial vá se descontruindo num belo exercício do desabrochar de algo novo ante a solidão que os perseguia.

Terra Estrangeira

Publicado: outubro 24, 2021 em Cinema
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Terra Estrangeira (1996)

Era o segundo filme de Walter Salles, aqui dividindo a direção com Daniela Thomas. O retrato do Brasil no início do governo Collor, um momento cujo exôdo foi gritante, o presidente e a Ministra da Economia (Zelia Cardoso de Melo) congelam depósitos em contas-correntes e poupanças causando um alvoroço. Sonhos castrados, economias transformadas em pó, desespero. O dinheiro é seu, mas será devolvido quando setembro chegar (já dizia a música de Jorge Ben Jor).

É nesse estado caótico que o filme narra a história de alguns personagens que se cruzam em Portugal. Jovens apelando para formas ilicitas de sobrevivência (Alexandre Borges e Fernanda Torres), ou pecando pela ingenuidade (Fernando Alves Ponto), mas de maneira geral buscando oportunidades já que aqui ligou-se o modo sobrevivência.

É claramente um filme de transição, exergando principalmente a carreira de Salles. Se o road movie surge na fase final (e seria a grande marca de seu cinema), há muito da marginalidade e da violência nas esquinas que vem de A Grande Arte. Um cinema bem cru e direto, soluções por vezes paupérrimas, mas sempre alternadas com sequencias muito bem construídas.

De forma bem didática o filme posiciona esse retrato caótico de situação economica brasileiro até migrar definitivamente a Portugal. A distancia de casa, os desencontros amorosos, a ausencia de um alicerce. Do sonho à fuga desesperada pela sobrevivência, da esperança à necessidade de não confiar em ninguém. O road movie vira uma fuga, contrabando de jóias, o desejo de conhecer a cidade de seus antepassados, tudo se mistura com aquela fotografia preto e branco, que à beira da praia mostra um barco e um casal, na cena mais bela do filme, que mesmo irregular guarda seus momentos.

Os Verdes Anos

Publicado: outubro 22, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Os Verdes Anos (1963 – POR)

Com a estreia de Paulo Rocha nascia a nouvelle vague portuguesa. O jovem que chega a Lisboa a ganhar a vida e se apaixona pela garota que trabalha como doméstica, ela se torna tudo a ele. O cineasta português encanta pela simplicidade, mesmo que seja um filme sobre frustração. E tal sentimento está nas expectativas não atendidas tanto financeiramente, quanto amorosas. Rocha os filma caminhando pela cidade, uma cidade em transformação, só que se ele pega emprestado ideias do movimento que revolucionou o cinema francês. Ele também incorpora algo genuinamente português, que é menos criativo e visceral, e mais açucarado, e mais íntimo. Sem falar em mais ingênuo, e o narrador (o tio do personagem, dono da hospedagem onde o jovem de dezenove anos se abriga) é astuto em apontar os indícios do rumo, quase anunciado, dessa ambição, desse amor, da pressa por realizar.

As Bruxas do Oriente

Publicado: outubro 21, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Les Sorcières de l’Orient  / The Witches of the Orient (2021 – FRA)

Julien Faraut não veio, exatamente, revolucionar os documentários esportivos porque não imagino que ele vá ter um grau de alcance para isso. O público dos documentários mais vistos quer mesmo relembrar ou conhecer histórias, descobrir detalhes de bastidores, os formatos bem padrões de entrevistas e imagens de arquivo com trilha sonora emocionante atendem. Talvez por isso são poucos exemplares de filmes de esportes que são, realmente, bons filmes.

Em seu terceiro trabalho do tipo, o cineasta francês veio mesmo incorporar o cinema aos esportes sem os excessos costumeiros. Sua narrativa não deixa de lado as necessidades básicas citadas, mas incorpora muito mais, desde a cultura de narrativa cinematográfica mais elaborada, as escolhas de trilha sonora, e principalmente como aproveitar ao máximo o material e seus personagens. Aqui, ele não chega ao resultado que tinha obtido com o doc sobre John McEnroe, mas segue em sua linha autoral.

Em foco o grupo de japonesas que nos anos 50 e 60 trabalhavam numa fábrica pela manha e treinavam vôlei à tarde e à noite, em jornadas exaustivas e chegaram a vencer as Olimpíadas de Toquio em 1964. Algumas delas se reúnem para um almoço, para relembrar aquela época, aos 70 anos contam detalhes sobre os apelidos, os treinamentos, o orgulho pelo passado e as dificuldades.

As Bruxas do Oriente ficaram conhecidas pela impressionante marca de vitórias consecutivas, pela magia de não deixar a bola cair em seu lado da quadra, e também pelas condições e exigências desumanas de seu treinador. O filme mescla imagens de arquivo, o papo desse almoço e animações que complementam o que  não se tem de imagens da época (além de dar um ar de heroínas e mais moderno para a narrativa). Faraut prefere tentar não interferir, deixa que os méritos e os horrores surjam em igual medida. Os traumas e fascínio pelo treinador ditador que chegava a machucá-las, mas que também causava paixões, o custo pela busca da perfeição e pelos resultados são temas mais importantes do que detalhes táticos, por exemplo. A trajetória está mais ou menos contada, Faraut não está interessado nisso, ele quer compreender o que as unia, a cultura esportiva, um olhar mais para a equipe ainda que parta dos depoimentos individuais.

Deserto Particular

Publicado: outubro 21, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Deserto Particular (2021)

O protagonista é um homem em crise. Policial afastado por algum erro grave em campo enfrenta essa crise na rotina de cuidar do pai, que ele não aceita deixar numa clínica. É na figura paterna (militar reformado) que encontramos os primeiros indícios de quem é nosso protagonista, alguém que cresceu sob o alicerce da família, da ordem, e de costumes conservadores. Nesse único refugio é Sara, com quem troca mensagens amorosas, mesmo que ainda não tenham se conhecido. De repente ele parar de receber as mensagens e sai de Curutiba a fim de encontra-la no nordeste.

“Um filme de encontros”, é assim que Aly Muritiba define seu filme em poucas palavras, e a citação é certeira. Encontros pelo caminho enquanto procura por Sara, e também uma oportunidade de sair do olho do furacão para se reencontrar consigo. O tom narrativo é mais próximo de Para Minha Amada Morta do que Ferrugem (seus dois filmes anteriores). O ritmo cadenciado, o tempo de cada cena, de cada diálogo, as trocas de olhares e esse embate entre o personagem do sudeste estranho ao Brasil do Nordeste formam esse misto  de descoberta e desolação que o protagonista, bruto e apaixonado, enfrenta em sua vulnerabilidade e conservadorismo. Muritiba olha para personagens carregados de suas frustrações e aposta nas relações humanas como um sopro de esperanças.

O Herói

Publicado: outubro 20, 2021 em Cinema
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Ghahreman / A Hero (2021 – IRA)

Prepare-se para um mais dos contos morais de Asghar Farhadi, com todos os artifícios que sua filmografia tem apresentado ao longo do tempo. A câmera acompanha os personagens intimamente, e se movimenta pro ambientes fechados enquanto a edição é ágil como as falas, no ir e vir que dá um ritmo específico e se tornou uma de suas marcas. O roteiro intricado como sempre, minuciosamente planejado para questionamentos humanos dúbios, pontos e contrapontos que podem tornar qualquere um herói e vilão de uma história, num passe de mágica. Portanto, defensores e detratores podem usar as mesmas armas usadas anteriormente para tecer sua opinião.

De um lado é forte como Farhadi realmente consegue criar essas situações complexas, que não só remetem culturalmente ao povo iraniano, através de pequenas excepcionalidades, a ponto de talvez todos terem razão, todos serem vítimas e culpados. Aqui um presidiário ganha dois dias livre do presidio e vê uma oportunidade de se livrar da sua pena, por um ato bondoso, mas quanto mais se aprofunda no ato, mais em dúvida se coloca o tal feito. Por outro lado, a fórmula pode soar gasta para quem acompanha todos seus trabalhos, uma narrativa que se repete, tanto no uso quase único dos diálogos quanto na carga melodramática que sempre pesa em seus filmes. Alguns roteiros se vendem melhores, outros nem tanto, mas você só precisa descobrir os meandros, porque o jeitão é sempre o mesmo de fazer cinema.

Pegando a Estrada

Publicado: outubro 19, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Jadde Khaki / Hit the Road (2021 – IRA)

A mãe em tons melancólicos, o caçula frenético por estar tanto tempo dentro do carro, o pai com pé engessado reclama, meio que por natureza, e o filho mais velho dirige o carro nesse road movie em tom de de despedida. Por entre a paisagem seca e acidentada iraniana que o diretor estreante Panah Panahi (filho de Jafar Panahi) nos conduz numa mescla do bom e velho cinema iraniano com elementos mais modernos, até mesmo flertando com o realismo mágico, enfim uma assinatura mais sua.

Pouco a pouco as peças para se entender a despedida vão  surgindo e o que fica é um filme amoroso, bem familiar, daquele tipo de união em que a intimidade causa atritos e emoções. Divertido, dramático, sem negar as raízes desse cinema tradicional iraniano, e principalmente, sem deixar as criticas a uma sociedade em que fugir é a única saída. Afinal, todo esse filme as vezes melancólico, as vezes caótico, está contando é uma necessidade de fuga de um regime autoritário, os porquês são mero detalhe.

France

Publicado: outubro 19, 2021 em Cinema
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France (2021 – FRA)

O olhar do novo filme de Bruno Dumont se dá ao jornalismo, talvez o mais narrativa de seus últimos trabalhos se faz em tom de sátira provocativa. Sua nova protagonista feminina é antagônica a Joana D’arc de 2 de seus filmes mais recentes. Ela (Lea Seydoux) é uma apresentadora de um programa jornalístico de muito sucesso, uma mulher forte, e também frágil. Poderosa, determinada, valente, inescrupulosa, sem deixar de ser infeliz, de viver uma relação complicada com o marido e distante do filho, mas principalmente infeliz, dona de um vazio que a fama e a ambição por mais e mais sucesso não preenchem.

A ironia, o cinismo estão presentes em cada um dos planos que forma o filme de Dumont, e é sim interessante como ele conduz essa narrativa, da cena inicial com piadas de cunho sexual nua coletiva do presidente Macron, passando pelos desajeitados encontros com a família do motoboy que ela atropelou, até as tintas finais de sua via-crucis de altos e baixos em todas as esferas.

O que Dumont não consegue é controlar a medida de sua ferocidade, ele precisa realmente transformar sua jornalista pedante e egocêntrica numa sobrevivente de tragédias e erros, como se essa figura fosse incapaz de ter variações, como se o ser humano não tivesse realmente suas imperfeições e por isso precisa ser massacrado por ser tão vil.

Luzzu

Publicado: outubro 18, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Luzzu (2021 – Malta)

O diretor Alex Camilleri conta a história que já vimos diversas vezes, troca-se os atores, os locais, e detalhes dos personagens, mas a essência é a mesma. O protagonista vem de uma família de pescadores, o barco e a pesca são quase sagrados, uma tradição que passa entre gerações. A União Europeia (outras regiões também) tem controles cada vez mais rígido de fiscalização de uma pesca que seja possível manter um pouco de harmonia das espécies. O resultado é de ganhos cada vez mais apertados.

Os problemas não param por ai, há ainda a esposa e o bebê, e a relação nada amistosa com a sogra, e quando precisam de ajuda e nela que acabam recorrendo. Enfim, estamos falando de um drama social e familiar, a história do homem se impor como capaz financeiramente, de perseguir/manter o sonho de viver como viviam seus antepassados. Os caminhos para isso podem ser através de atalhos questionáveis ou de dar o braço a torcer, o que nem sempre está nos planos de quem toca um barco com toda dedicação.