O Outro Lado da Esperança

Toivon Tuolla Puolen / The Other Side of Hope (2017 – FIN) 

Dentro das obsessões estéticas e narrativas de seu cinema, o finlandês Aki Kaurismaki é mais um a trazer o tema dos refugiados sírios à Europa. Seus planos fixos, os ambientes sempre em cores frias e os diálogos que nunca saem do tom dão a tônica de seus filmes, e mesmo quando trata o melodrama do refugiado renegado pelo governo local, o cineasta faz o tema caber bem dentro de seu estilo cinematográfico. E o faz com boas doses de humanismo e otimismo (prática nem tão comum assim em seus trabalhos anteriores).

Se de um lado está o sírio clandestino em busca de abrigo, de outro o homem cansado de seu emprego e casamento que larga tudo para abrir um restaurante. O destino os confronta e o finlandês resolve ajudar ao refugiado desesperado, enquanto os toques de humor de Kaurismaki permeiam as relações sociais. É a bandeira da tolerância sendo estiada, por mais que seus roteiros sempre gostem de criar situações incomuns, discutíveis, ou até exageradas (que dentro da passividade e calma de seus personagens, talvez camufle muito desse exagero).

Não é um cinema que empolgue a muitos, principalmente pela lentidão, ou até pela clareza com que trata de seus temas. Mas, não deixa de ser uma voz importante que não abuse da miséria humana em imagens chocantes, e prefere encontrar personagens e situações que dialoguem com a reflexão de qual Europa “estamos” construindo. Um de seus melhores filmes, vencedor do prêmio de melhor direção no festival de Berlim.

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Detroit | A Guerra dos Sexos

Detroit (2017 – EUA) 

Battle of Sexes (2017 – EUA) 

Dois temas tão latentes em filmes que chegaram ao grande circuito brasileiro com apenas uma semana de diferença. O feminino e a questão racial estão em destaque, mais que necessários no mundo atual, infelizmente necessários na verdade. Compará-los não faria muito sentido, afinal, além da força temática, e da fotografia granulada para trazer essa sensação de décadas passadas e utilizar imagens de tv, mas como propostas de cinema, vale alguma reflexão. É curioso que ambos estejam em cartaz porque nem sempre temos questões fortes discutidas assim, e com essa disponibilidade em quase todos os cinemas do país. De um lado, Kathryn Bigelow resgata os confrontos étnicos na Detroit dos anos 60. De outro, a dupla Valerie Faris e Jonathan Dayton recordam o marcante jogo amistoso de tênis, a tal Batalha dos Sexos, quase um debate político, entre a tenista número 1 do ranking à época (Billie Jean King) e o exibido e provocador já aposentado (Bobby Riggs), ambos ultrapremiados e de personalidades características.

O cinema sempre vigorante de Bigelow encontra aqui muitos aspectos bem convencionais, como o início em animação numa quase aula de história, a decisão de criar proximidade com os personagens ao retratar aspectos pessoais de alguns deles (caso dos postulantes a cantores do The Dramatics), principalmente, o final em que se torna um drama de tribunal. É no miolo, aterrorizante, que a diretora demonstra sua habilidade, numa tensão de quase filme de terror. Em meio a rebeliões nas ruas, saques à lojas, confronto com a polícia e bairros em chamas, um grupo de jovens negros num hotel são torturados por policiais à procura de um suposto atirador. Abuso de poder, violência, a escrotidão humana posta sob a forma de racismo, intolerância e total falta de controle de situações limite. Bigelow filma com câmera na mão, e o clima de injustiça e revolta reflete além das telas.

Faris e Dayton vão ainda mais profundamente no convencional, em clima de comédia dramática, eles bem que tentam desenvolver seus personagens. São mais competentes com Steve Carel e a personalidade de porco chauvinista do tenista viciado em apostas. Enquanto que com Emma Stone, além da atriz pouco combinar com a figura mais bruta da personagem, o desenvolvimento do triângulo amoroso, a revolta das jogadoras com a associação de tênis que não é igualitária com homens e mulheres e todo o didatismo com que trata todos os clichês de seus personagens, resultam num filme irregular, que precisa pontuar tudo para se fazer entender. Se o fato histórico é tão midiático e emblemático, assim como quase todas as figuras masculinas tem comportamentos desprezíveis (e isso é um elogio, melhor o clichê do que suavizar comportamentos que sempre fora e são escrotos) no que tange a comparação homem x mulher, o filme trafega por mares de água morna ao preferir as fragilidades e inseguranças, e até o desenvolvimento incompleto de King. Ao final, não sabemos tanto dela intimamente, do que de Riggs, muito menos da dimensão de peitar a grande entidade de tênis e ainda assumir sua homossexualidade, em pleno anos 70. Rir, nem sempre é o melhor remédio, ainda mais quando ainda precisamos afirmar o feminismo, um conceito que deveria vir original-de-fábrica.

Três Anúncios para um Crime

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (EUA – 2017) 

E já temos o primeiro grande filme sobre a Era Trump. Porque essa conjunção de roteiro dramático com comédia de humor negro (à la irmãos Coen) remete a características socialmente marcantes no mandato do atual presidente dos EUA. De um filme sobre uma mulher (Frances McDormand) revoltada por a policia não ter conseguido desvendar o mistério do assassinato de sua filha, o diretor Martin McDonagh tece esse estudo social dos rincões desse país cuja liderança dá passos para trás e traz a intolerância como palavra de ordem.

Do inconformismo vem a ideia do anúncio provocativo nos três outdoors da cidade. A policia se revolta, e a cidade se divide apoiando ou revidando ao inconformismo dessa mãe. Surgem reações, reviravoltas, e atitudes inconsequentes e irracionais, onde o desrespeito pelo outro é presença central nas relações humanas. McDonaugh realmente se aproxima muito dos primeiros filmes do Coen, o humor e a violência são muito parecidos, mas essa carga dramática que tanto McDormand, como Woody Harrelson carregando em suas histórias é um elemento novo nesse cinema provocativo e ácido.

A trama leva alguns atos às últimas consequências, mas é um retrato tão vibrante de uma nação que está mais desunidada a cada dia, onde cada um pessoa exclusivamente em si mesmo, e troca o discordar (ou não aceitar) por brigar até aniquilar o que tenha visão de mundo contrária a sua. Trump e seu governo agressivo e intolerante são a linha mestra para um povo que perde sua unidade e só se deteriora em aspectos humanos. E nisso tudo, o novo filme de McDonaugh é feroz, elevando seu cinema a um patamar bem superior ao que realizou em seus dois trabalhos anteriores. Devemos vê-lo, com protagonismo, na corrida do Oscar, no Festival de Veneza já foi destacado com prêmio de Melhor Roteiro.

O Fantasma da Sicília

Sicilian Ghost Story (2017 – ITA) 

Uma pena que o filme esteja passando tão despercebido, em meio a agitação dos festivais de cinema no Brasil, e acabe com um espaço ainda menor do que já teria. A dupla de diretores Fabio Grassadonia e Antonio Piazza já se destacara com Salvo – Uma História Sobre Amor e Máfia, e dessa vez, realiza um outro consistente trabalho.

Partem da verídica história de um sequestro (entre tantos nos sombrios anos noventa italianos) de um jovem, que durou mais de dois anos. Ao invés de mostrar sofrimento da familia e do sequestrado, prefere ter como protagonista a garota apaixonada por ele. Dessa forma o filme pode fantasiar, brincar com sonhos e com o onírico e criar um efeito abstrato, enquanto entrega lentamente detalhes do caso. Não deixa de ser uma bela história de amor, aquele amor platônico juvenil, e também uma maneira de refletir e aliviar anos tão duros da força do crime organizado na Itália.

Últimos Homens em Aleppo

Last Men in Aleppo (2017 – DIN) 

Cinema-verdade daqueles com câmera na mão, no meio das explosões e ataques áereos na Síria. O documentário vencedor do Grande Prêmio do Juri em Sundance dialoga muito com o curta que ganhou o oscar (Os Capacetes Brancos). Os diretores Feras Fayyad e Steen Johannessen tratam do mesmo grupo de homens que trabalha nos escombros, tirando adultos e crianças soterrados após os ataques.

Portanto, é de uma tristeza sem fim. Serve sempre para relembrar que os noticiários de todo dia não podem passar indiferentes a nós, acostumados a ler uma noticia ou outra entre a manchete do futebol e do que está rolando no BBB. A tragédia é irreparável, a Europa sente na pele com os imigrantes, mas quem está morrendo aos montes são os sírios, e seguir um pouco alguns dos Capacetes Brancos nos fazem enxergar o absurdo que ocorre diariamente.

A Vilã

Ak-Nyeo / The Villainess (2017 – COR) 

Foi exibido fora de competição na última edição de Cannes. A abertura se dá com um plano-sequencia alucinante, a câmera se colocando como os olhos de um personagem desconhecido que entra por corredores entre golpes e tiros, destruindo uma quadrilha até finalizar a ação numa escola de artes marciais. Quase no final dessa grande sequencia descobre-se que trata-se de uma mulher e a câmera se separa quando sua cabeça bate num espelho.

Haverá outras grandes cenas de ação, o diretor Jung Byung-Gil dá um folego novo entre seus travellings e cortes bruscos. Só que entre elas, o roteiro peca pelo excesso de explicações dos dramas pessoais da assassina profissional Sook-Hee (Kim Ok-Vin), sua infância, o relacionamento com o “vizinho” e o antigo amante que volta a tona. The Villainess fica bom quando a porrada corre solto, mas é uma tradição do cinema coreano de dramatizar seu cinema de ação, dialogando assim com outros públicos que possam enxergar pontos de interesse onde só haveria sangue e artes marciais.

Doentes de Amor

The Big Sick (2017 – EUA) 

Eis a nova comediazinha romântica indie do momento. A direção é de Michael Showalter, mas o nome que se destaca é mesmo do paquistanês Kumail Najiani que assina o roteiro, e protagoniza o filme, que não deixa de ser parte da história de sua vida. O momento de Uber que tenta a vida como comediante de stand-up e se apaixona por Emily (Zoe Kazan).

Espere por todos os cacoetes do filme fofo, beijos e carinhos, o humor, e as brigas e separação. O combo completo está lá até que ela adoece e a trama toda rumos inesperados. Estão lá os pais da garota com senões para o ex que não-foi-o-par-perfeito, ou a família paquistanesa que tenta acertar o casamento arranjado para o filho. Sobra não só humor  e o clássico choque de culturas, além das doses de arrependimento, mas no fundo algo genuíno que só quem se entrega na história de Kumail pode perceber. Por entre os clichês e a ingenuidade que o filme se estabelece como destaque dentro de suas pretensões pequenas e atuações singelas.