Greta Garbo Empoderada – A Carne e o Diabo | Rainha Cristina | Ninotchka

A Carne e o Diabo (Flesh and the Devil, 1926 – EUA) 

Rainha Cristina (Queen Christina, 1933 – EUA) 

Ninotchka (Ninotchka, 1939 – EUA) 

Pela oportunidade de, finalmente, descobrir um pouco do cinema de Greta Garbo, uma característica que dialoga muito com o que a sociedade vive em 2018: o empoderamento feminino. Pode ser que haja mais exemplos em sua carreira, mas partimos aqui de três exemplos, de como Greta, no cinema, construiu personagens fortes, marcantes e que se impuseram integralmente.

Ainda no cinema mudo, A Carne e o Diabo (sob direção de Clarence Brown) traz a amizade de dois amigos abalada pelo amor de uma mulher (Greta). De donzela indefesa à manipuladora irresistível, o filme nem a faz a protagonista da história, ainda assim é forte como sua presença domina as cenas, além desse poder de manipulação frente aos homens. O roteiro é corajoso, questiona lealdade x amor, verdade x conveniência, e guarda um final bem inesperado para esse triângulo amoroso.

Na cinebiografia da Rainha Cristina, da Suécia, o roteiro omite alguns pequenos detalhes, e é até compreensível para não chocar o público (dizem que era uma mulher muiti masculina, talvez até hermafrodita), os demais fatos são verídicos, inclusive a tímida insinuação de um romance lésbico, logo no início do filme. Assim, Greta é essa mulher a dominar um reinado, mas que não se casa por acreditar no amor e não nutrir verdadeiramente por nenhum dos possíveis candidatos à coroa. De um lado essa mulher forte, que enfrenta guerras e revoluções, de outro à frente do seu tempo, lutando pelo amor acima das convenções, por mais difíceis que algumas decisões sejam.

O amor também prevalece em Ninotchka. Pré-Segunda Guerra Mundial, três russos são mandados à Paris para vender jóias, e lá descobrem as maravilhas do mundo ocidental, por mais que morram de medo do chefe linha dura. Eis que surge, novamente, Greta, com sua personagem poderosa e que se impõe frente aos homens, ela era o tal chefe linha-dura. Depois o filme emplaca um romance que amolece o coração dessa mulher, é sim uma provocação ao jeito russo de ser, mas também uma posição forte de uma mulher em plena liderança.

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O Estranho

The Stranger (1946 – EUA) 

Pouco celebrado atualmente, este filme noir de Orson Welles veio logo após o fim da II Guerra Mundial. No roteiro, um detetive da comissão de Crimes de Guerra (Edward G. Robinson) investiga Nazistas que fugiram e tentam se camuflar na sociedade americana, após o desaparecimento de um suspeito recém-chegado aos EUA, acaba na cola de um professor universitário (o próprio Welles) prestes a se casar (Loretta Young) numa cidade de Connecticut.

Ainda que seja um trabalho de brilho restrito, até convencional em alguns pontos (narrativa, credibilidade do personagem central, o discurso Nazista didático), o segredo da trama é como Welles a torna sufocante, principalmente quando o detetive encurrala a noiva, em busca das confirmações de sua suspeita. Além, é claro, da beleza do noir, o branco e preto, e as sombras, sempre auxiliando no clima de suspense do filme.

Cronos

Cronos (1993 – MEX) 

Mesmo em sua estreia em longa-metrangens, bastante irregular de foma geral, Guillermo del Toro já construía muito do que se tornaria um típico filme com sua marca. O fantástico representado por monstros, a preocupação estética e a melancolia que vem representada na figura dramática. Além, de já ter no elenco, aqueles que seriam costumeiros em seu início de filmografia: Federico Luppi e Ron Perlman.

Na trama, o dono de uma loja de antiguidades e um estranho objeto que solta garras e busca por sangue. É o mito do vampiro e da vida eterna narrado sem os dentões, estacas e balas de prata. O corpo rejuvenesce, a obsessão por sangue cresce e sempre tem alguém atrás das benesses que o cronos pode oferecer.

Os Refugiados do Barco

Tau Ban No Hoi / Boat People (1982 – HK) 

A história trágica dos refugiados não se acaba, apenas muda de endereço. Se, atualmente, a Europa se divide na questão (Brexit, direita conservadora crescendo, governos sólidos balançando), o filme da diretora Ann Hui fica como um importante registro, um de tantos outros capítulos do drama de refugiados desse planeta.

Entre os anos 70-90, quase um milhão de pessoas fugiram do Vietnã comunista, de barco, para diferentes destinos no Sudeste Asiático (Hong Kong principalmente), ficaram conhecidos como Boat People. O roteiro traz um fotojornalista japonês, levado ao país, para revelar ao mundo como o povo estava feliz e bem tratado, o quanto o país se reestabelecia bem no pós-guerra. Bastou um pouquinho de curiosidade, além do protocolo, para o estrangeiro se tornar testemunha da verdadeira situação social, das influências políticas de um país em frangalhos, e do desespero de uma guerra que deixou resquícios.

Fome, prostituição, instinto de sobrevivência, apenas alguns dos exemplos da miséria humana vivida pelo conjunto de personagens que interagem com o fotógrafo. Execuções, um regime autoritário que se impõe via violência, crianças obrigados a desarmar campos minados. Ann Hui filma o horror através de uma pureza tocante e personagens que facilmente ficarão na memória.

Rio, 40 Graus

Rio, 40 Graus (1955 – BRA) 

O cinema nacional brasileiro em sua melhor forma. Naquele que é considerado o primeiro filme independente nacional, Nelson Pereira dos Santos retrata o povo carioca em suas mais genuínas formas. Dos garotos que vivem na favela e vivem entre a vontade de jogar pelada e a necessidade de pedir esmola, passando por toda a marginalidade à sua volta, até o sonho do trabalhador de casar e ter filhos, uma casa decente. A gravidez antes do casamento e todo o tabu em sociedade.

E o futebol, ah o futebol, o ópio das massas, aquele que unifica o roteiro com o desenrolar dos interesses escusos de empresários para que seus pupilos sejam escalados e assim rendam frutos. Enquanto isso, o povo carioca na arquibancada, discute, grita, se diverte com o esporte das massas, enfrentando o calor da Cidade Maravilhosa e toda a malandragem impregnada em seus cidadãos.

Vá e Veja

Idi i Smotri / Come and See (1985 – BIE) 

Guarda algumas da imagens mais poderosos que o cinema criou para exemplificar os horrores da guerra. Trata-se da invasão Nazista em aldeias da bielorússia, durante a Segunda Guerra Mundial. O amadorismo militar dos moradores locais frente a máquina de guerra alemã, e como fio condutor, um garoto (Aleksey Kravchenko) correndo como barata tonta, por entre as mãos da liderança local ou dos soldados alemães.

O diretor Elem Klimov trafega por entre o brutal e o irracional, principalmente pelas expressões impressionantes do rosto de Kravchenko. É o horror traduzido nas feições e olhares, na luta por sobrevivência. Estamos acostumados a atos de heroísmo no cinema, aqui temos apenas sequencias de horror  e comportamentos nefastos, em que impressiona o poder com que Klimov pode conceber imagens tão potentes ou claustrofóbicas. É o pior da guerra através de seu funcionamento ilógico e devatador. Um dos filmes mais acachapantes que o cinema poderá produzir, e sem dúvida inesquecível e perturbador.

Possessão

Possession (1981 – POL) 

Perturbadora alegoria de terror psicológico criada por Andrzej Zulawski a cerca da traumatizadora separação de um casal: Isabelle Adjani e Sam Neill. Infidelidade, violência, loucura, depressão, alguns dos elementos que o diretor polonês impõe a seu filme, em cenas que preferem o perturbador ao explicadinho. Há uma linha de história a se seguir, o marido traído, o amante mais velho e o filho pequeno do casal como arma de negociação. Porém, o filme está longe de buscar uma linha de história para contar, ao contrário, ele cria cenas e mais cenas que exploram a loucura dos comportamentos, que levam o público a se sentir à flor da pele com tantas alegorias tensas e enlouquecedoras.

Possessão é um petardo psicológico de personagens levados aos extremos, que ainda encontra em elementos sobrenaturais a completa personificação de metáforas enlouquecedoras. O horror familiar, a sensação do se sentir sufocado, e a fuga sexual como um refúgio transformador. Lembre-se de O Iluminado, mas também de alguns filmes de Polanski como Repulsa ao Sexo, e adicione estudos psicodramáticos e anda assim não será capaz de resumir a histérica alucinação que as imagens do filme de Zulawski evocam.


Festival: Cannes

Mostra: Competição principal

Prêmio: Melhor Atriz