Arquivo da categoria ‘Domingo de Clássicos’

Chutando Milhões

Publicado: abril 18, 2021 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Brewster’s Millions (1945 – EUA)

O último remake com Richard Pryor e John Candy preencheu muitas tardes da minha adolescência. Esta aqui foi a versão clássica, dirigida por Allan Dwan, para animar os EUA logo após a Segunda Guerra Mundial. Claramente adaptado de uma peça de teatro, o filme não tem mais que 3 ambientes, e é deliciosamente angustiante assistir alguém gastar dinheiro loucamente, em todo e qualque tipo de projeto: bolsa de valores, corrida de cavalos, grandiosas peças teatrais, tudo isso sem nenhum critério. Claro que no filme há um propósito, uma herança que só será ganha se ele gastar uma grande quantia de dinheiro. Mas é como diz o mantra “dinheiro atrai dinheiro” e nem sempre traz felicidade.

Conto da Primavera

Publicado: maio 3, 2020 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Conte de Printemps “A Tale of Springtime”, 1990 – FRA)

Lá se vão 30 anos desde o lançamento desse primeiro capítulo do Conto das Quatro Estações de Rohmer, e curioso como as relações pessoais e dilemas românticos mudaram tantos nos últimos anos. Os mais críticos, a um estereótipo de cinema francês blasé, podem encontrar aqui um prato cheio para suas críticas, afinal os franceses discutem filosofia transcendental, Klant e Platão, ou estão ouvindo Schumann num simples jantar. Mas, o cinema de Rohmer apenas utiliza os aspectos culturais para florear essas relações pessoais tão caras em seus filmes. Boa parte dos seus filmes são simples na forma, almejam a naturalidade, e um prazer especial maior de discutir emoções e sentimentos do que vivenciá-los.

A trama pode parecer fulgaz na maneira como aproxima duas jovens a se tornarem amigas tão rapidamente, o importante são as pequenas descobertas de suas manias e perfis, então referências como a mania de organização de uma delas, que respeita fortemente a organização dos outros, são mais importantes do que quem essas pessoas são. Mas as tramas desses contos são assim rapidamente colocam à mesa esses dilemas de personagens, aqui a moça que se incomoda com a namorada do pai, e queria que a nova amiga assumisse esse lugar.

Invariavelmente os personagens se encontram, conversam, discutem, convivem num jardim em plena primavera. Os diálogos e dramas parecem arquitetados demais, naturalistas de menos, ainda mais envelhecidos pelos dilemas que ficaram três década atrás, aqui, a vida real que Rohmer tanto quer espelhar, parece mais convincente na teoria exatamente porque desejo e paixão não são sensações vivida entre esses personagens.

Der Letzte Mann / The Last Laugh (1924 – ALE) 

A desconstrução através da decepção. O porteiro de um hotel vivia orgulhoso, como se fosse aquele um dos empregos mais pomposos do mundo, abrir as portas e carregas malas aos hóspedes. Um novo gerente, um pequeno fraquejo e o porteiro é transferido para uma atividade mais leve, cuidar da higiene do banheiro masculino.

Começa a destruição moral e social do sujeito. O ator Emil Jannings é vital para o filme de Friedrich Wilhelm Murnau, capaz de transparecer todo o processo que perda de sua autoconfiança, do orgulho pessoal, até a posição caquética, quase um ser vegetativo, nem sombra daquele homem tão realizado. O epílogo guarda uma surpresa, um plot twist de roteiro, mas o marcante ficou mesmo um pouco antes, a solidão daquele olhar completamente desiludido, a desesperança marcada pela completa entrega à derrota. Um filme surpreendente, de uma cineasta que não se cansava de nos surpreender.

A Carne e o Diabo (Flesh and the Devil, 1926 – EUA) 

Rainha Cristina (Queen Christina, 1933 – EUA) 

Ninotchka (Ninotchka, 1939 – EUA) 

Pela oportunidade de, finalmente, descobrir um pouco do cinema de Greta Garbo, uma característica que dialoga muito com o que a sociedade vive em 2018: o empoderamento feminino. Pode ser que haja mais exemplos em sua carreira, mas partimos aqui de três exemplos, de como Greta, no cinema, construiu personagens fortes, marcantes e que se impuseram integralmente.

Ainda no cinema mudo, A Carne e o Diabo (sob direção de Clarence Brown) traz a amizade de dois amigos abalada pelo amor de uma mulher (Greta). De donzela indefesa à manipuladora irresistível, o filme nem a faz a protagonista da história, ainda assim é forte como sua presença domina as cenas, além desse poder de manipulação frente aos homens. O roteiro é corajoso, questiona lealdade x amor, verdade x conveniência, e guarda um final bem inesperado para esse triângulo amoroso.

Na cinebiografia da Rainha Cristina, da Suécia, o roteiro omite alguns pequenos detalhes, e é até compreensível para não chocar o público (dizem que era uma mulher muiti masculina, talvez até hermafrodita), os demais fatos são verídicos, inclusive a tímida insinuação de um romance lésbico, logo no início do filme. Assim, Greta é essa mulher a dominar um reinado, mas que não se casa por acreditar no amor e não nutrir verdadeiramente por nenhum dos possíveis candidatos à coroa. De um lado essa mulher forte, que enfrenta guerras e revoluções, de outro à frente do seu tempo, lutando pelo amor acima das convenções, por mais difíceis que algumas decisões sejam.

O amor também prevalece em Ninotchka. Pré-Segunda Guerra Mundial, três russos são mandados à Paris para vender jóias, e lá descobrem as maravilhas do mundo ocidental, por mais que morram de medo do chefe linha dura. Eis que surge, novamente, Greta, com sua personagem poderosa e que se impõe frente aos homens, ela era o tal chefe linha-dura. Depois o filme emplaca um romance que amolece o coração dessa mulher, é sim uma provocação ao jeito russo de ser, mas também uma posição forte de uma mulher em plena liderança.

The Stranger (1946 – EUA) 

Pouco celebrado atualmente, este filme noir de Orson Welles veio logo após o fim da II Guerra Mundial. No roteiro, um detetive da comissão de Crimes de Guerra (Edward G. Robinson) investiga Nazistas que fugiram e tentam se camuflar na sociedade americana, após o desaparecimento de um suspeito recém-chegado aos EUA, acaba na cola de um professor universitário (o próprio Welles) prestes a se casar (Loretta Young) numa cidade de Connecticut.

Ainda que seja um trabalho de brilho restrito, até convencional em alguns pontos (narrativa, credibilidade do personagem central, o discurso Nazista didático), o segredo da trama é como Welles a torna sufocante, principalmente quando o detetive encurrala a noiva, em busca das confirmações de sua suspeita. Além, é claro, da beleza do noir, o branco e preto, e as sombras, sempre auxiliando no clima de suspense do filme.

Cronos (1993 – MEX) 

Mesmo em sua estreia em longa-metrangens, bastante irregular de foma geral, Guillermo del Toro já construía muito do que se tornaria um típico filme com sua marca. O fantástico representado por monstros, a preocupação estética e a melancolia que vem representada na figura dramática. Além, de já ter no elenco, aqueles que seriam costumeiros em seu início de filmografia: Federico Luppi e Ron Perlman.

Na trama, o dono de uma loja de antiguidades e um estranho objeto que solta garras e busca por sangue. É o mito do vampiro e da vida eterna narrado sem os dentões, estacas e balas de prata. O corpo rejuvenesce, a obsessão por sangue cresce e sempre tem alguém atrás das benesses que o cronos pode oferecer.

Os Refugiados do Barco

Publicado: julho 15, 2018 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Tau Ban No Hoi / Boat People (1982 – HK) 

A história trágica dos refugiados não se acaba, apenas muda de endereço. Se, atualmente, a Europa se divide na questão (Brexit, direita conservadora crescendo, governos sólidos balançando), o filme da diretora Ann Hui fica como um importante registro, um de tantos outros capítulos do drama de refugiados desse planeta.

Entre os anos 70-90, quase um milhão de pessoas fugiram do Vietnã comunista, de barco, para diferentes destinos no Sudeste Asiático (Hong Kong principalmente), ficaram conhecidos como Boat People. O roteiro traz um fotojornalista japonês, levado ao país, para revelar ao mundo como o povo estava feliz e bem tratado, o quanto o país se reestabelecia bem no pós-guerra. Bastou um pouquinho de curiosidade, além do protocolo, para o estrangeiro se tornar testemunha da verdadeira situação social, das influências políticas de um país em frangalhos, e do desespero de uma guerra que deixou resquícios.

Fome, prostituição, instinto de sobrevivência, apenas alguns dos exemplos da miséria humana vivida pelo conjunto de personagens que interagem com o fotógrafo. Execuções, um regime autoritário que se impõe via violência, crianças obrigados a desarmar campos minados. Ann Hui filma o horror através de uma pureza tocante e personagens que facilmente ficarão na memória.

Rio, 40 Graus (1955 – BRA) 

O cinema nacional brasileiro em sua melhor forma. Naquele que é considerado o primeiro filme independente nacional, Nelson Pereira dos Santos retrata o povo carioca em suas mais genuínas formas. Dos garotos que vivem na favela e vivem entre a vontade de jogar pelada e a necessidade de pedir esmola, passando por toda a marginalidade à sua volta, até o sonho do trabalhador de casar e ter filhos, uma casa decente. A gravidez antes do casamento e todo o tabu em sociedade.

E o futebol, ah o futebol, o ópio das massas, aquele que unifica o roteiro com o desenrolar dos interesses escusos de empresários para que seus pupilos sejam escalados e assim rendam frutos. Enquanto isso, o povo carioca na arquibancada, discute, grita, se diverte com o esporte das massas, enfrentando o calor da Cidade Maravilhosa e toda a malandragem impregnada em seus cidadãos.

Idi i Smotri / Come and See (1985 – BIE) 

Guarda algumas da imagens mais poderosos que o cinema criou para exemplificar os horrores da guerra. Trata-se da invasão Nazista em aldeias da bielorússia, durante a Segunda Guerra Mundial. O amadorismo militar dos moradores locais frente a máquina de guerra alemã, e como fio condutor, um garoto (Aleksey Kravchenko) correndo como barata tonta, por entre as mãos da liderança local ou dos soldados alemães.

O diretor Elem Klimov trafega por entre o brutal e o irracional, principalmente pelas expressões impressionantes do rosto de Kravchenko. É o horror traduzido nas feições e olhares, na luta por sobrevivência. Estamos acostumados a atos de heroísmo no cinema, aqui temos apenas sequencias de horror  e comportamentos nefastos, em que impressiona o poder com que Klimov pode conceber imagens tão potentes ou claustrofóbicas. É o pior da guerra através de seu funcionamento ilógico e devatador. Um dos filmes mais acachapantes que o cinema poderá produzir, e sem dúvida inesquecível e perturbador.

Possession (1981 – POL) 

Perturbadora alegoria de terror psicológico criada por Andrzej Zulawski a cerca da traumatizadora separação de um casal: Isabelle Adjani e Sam Neill. Infidelidade, violência, loucura, depressão, alguns dos elementos que o diretor polonês impõe a seu filme, em cenas que preferem o perturbador ao explicadinho. Há uma linha de história a se seguir, o marido traído, o amante mais velho e o filho pequeno do casal como arma de negociação. Porém, o filme está longe de buscar uma linha de história para contar, ao contrário, ele cria cenas e mais cenas que exploram a loucura dos comportamentos, que levam o público a se sentir à flor da pele com tantas alegorias tensas e enlouquecedoras.

Possessão é um petardo psicológico de personagens levados aos extremos, que ainda encontra em elementos sobrenaturais a completa personificação de metáforas enlouquecedoras. O horror familiar, a sensação do se sentir sufocado, e a fuga sexual como um refúgio transformador. Lembre-se de O Iluminado, mas também de alguns filmes de Polanski como Repulsa ao Sexo, e adicione estudos psicodramáticos e anda assim não será capaz de resumir a histérica alucinação que as imagens do filme de Zulawski evocam.


Festival: Cannes

Mostra: Competição principal

Prêmio: Melhor Atriz