Cronos

Cronos (1993 – MEX) 

Mesmo em sua estreia em longa-metrangens, bastante irregular de foma geral, Guillermo del Toro já construía muito do que se tornaria um típico filme com sua marca. O fantástico representado por monstros, a preocupação estética e a melancolia que vem representada na figura dramática. Além, de já ter no elenco, aqueles que seriam costumeiros em seu início de filmografia: Federico Luppi e Ron Perlman.

Na trama, o dono de uma loja de antiguidades e um estranho objeto que solta garras e busca por sangue. É o mito do vampiro e da vida eterna narrado sem os dentões, estacas e balas de prata. O corpo rejuvenesce, a obsessão por sangue cresce e sempre tem alguém atrás das benesses que o cronos pode oferecer.

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Os Refugiados do Barco

Tau Ban No Hoi / Boat People (1982 – HK) 

A história trágica dos refugiados não se acaba, apenas muda de endereço. Se, atualmente, a Europa se divide na questão (Brexit, direita conservadora crescendo, governos sólidos balançando), o filme da diretora Ann Hui fica como um importante registro, um de tantos outros capítulos do drama de refugiados desse planeta.

Entre os anos 70-90, quase um milhão de pessoas fugiram do Vietnã comunista, de barco, para diferentes destinos no Sudeste Asiático (Hong Kong principalmente), ficaram conhecidos como Boat People. O roteiro traz um fotojornalista japonês, levado ao país, para revelar ao mundo como o povo estava feliz e bem tratado, o quanto o país se reestabelecia bem no pós-guerra. Bastou um pouquinho de curiosidade, além do protocolo, para o estrangeiro se tornar testemunha da verdadeira situação social, das influências políticas de um país em frangalhos, e do desespero de uma guerra que deixou resquícios.

Fome, prostituição, instinto de sobrevivência, apenas alguns dos exemplos da miséria humana vivida pelo conjunto de personagens que interagem com o fotógrafo. Execuções, um regime autoritário que se impõe via violência, crianças obrigados a desarmar campos minados. Ann Hui filma o horror através de uma pureza tocante e personagens que facilmente ficarão na memória.

Rio, 40 Graus

Rio, 40 Graus (1955 – BRA) 

O cinema nacional brasileiro em sua melhor forma. Naquele que é considerado o primeiro filme independente nacional, Nelson Pereira dos Santos retrata o povo carioca em suas mais genuínas formas. Dos garotos que vivem na favela e vivem entre a vontade de jogar pelada e a necessidade de pedir esmola, passando por toda a marginalidade à sua volta, até o sonho do trabalhador de casar e ter filhos, uma casa decente. A gravidez antes do casamento e todo o tabu em sociedade.

E o futebol, ah o futebol, o ópio das massas, aquele que unifica o roteiro com o desenrolar dos interesses escusos de empresários para que seus pupilos sejam escalados e assim rendam frutos. Enquanto isso, o povo carioca na arquibancada, discute, grita, se diverte com o esporte das massas, enfrentando o calor da Cidade Maravilhosa e toda a malandragem impregnada em seus cidadãos.

Vá e Veja

Idi i Smotri / Come and See (1985 – BIE) 

Guarda algumas da imagens mais poderosos que o cinema criou para exemplificar os horrores da guerra. Trata-se da invasão Nazista em aldeias da bielorússia, durante a Segunda Guerra Mundial. O amadorismo militar dos moradores locais frente a máquina de guerra alemã, e como fio condutor, um garoto (Aleksey Kravchenko) correndo como barata tonta, por entre as mãos da liderança local ou dos soldados alemães.

O diretor Elem Klimov trafega por entre o brutal e o irracional, principalmente pelas expressões impressionantes do rosto de Kravchenko. É o horror traduzido nas feições e olhares, na luta por sobrevivência. Estamos acostumados a atos de heroísmo no cinema, aqui temos apenas sequencias de horror  e comportamentos nefastos, em que impressiona o poder com que Klimov pode conceber imagens tão potentes ou claustrofóbicas. É o pior da guerra através de seu funcionamento ilógico e devatador. Um dos filmes mais acachapantes que o cinema poderá produzir, e sem dúvida inesquecível e perturbador.

Possessão

Possession (1981 – POL) 

Perturbadora alegoria de terror psicológico criada por Andrzej Zulawski a cerca da traumatizadora separação de um casal: Isabelle Adjani e Sam Neill. Infidelidade, violência, loucura, depressão, alguns dos elementos que o diretor polonês impõe a seu filme, em cenas que preferem o perturbador ao explicadinho. Há uma linha de história a se seguir, o marido traído, o amante mais velho e o filho pequeno do casal como arma de negociação. Porém, o filme está longe de buscar uma linha de história para contar, ao contrário, ele cria cenas e mais cenas que exploram a loucura dos comportamentos, que levam o público a se sentir à flor da pele com tantas alegorias tensas e enlouquecedoras.

Possessão é um petardo psicológico de personagens levados aos extremos, que ainda encontra em elementos sobrenaturais a completa personificação de metáforas enlouquecedoras. O horror familiar, a sensação do se sentir sufocado, e a fuga sexual como um refúgio transformador. Lembre-se de O Iluminado, mas também de alguns filmes de Polanski como Repulsa ao Sexo, e adicione estudos psicodramáticos e anda assim não será capaz de resumir a histérica alucinação que as imagens do filme de Zulawski evocam.


Festival: Cannes

Mostra: Competição principal

Prêmio: Melhor Atriz

Gimme Shelter | Grey Gardens

Gimme Shelter (1970 – EUA) 

Grey Gardens (1975 – EUA)

Estes são dois dos mais celebrados trabalhos dos irmãos documentaristas americanos Albert e David Maysles, nomes praticamente sinônimos do cinema-verdade. Do estilo marcante deles, em que tentavam apenas retratar, causando o mínimo de influência nos personagens e ambientes, a dupla extraiu filmes fortes, e a possibilidade de refletir sobre questões contundentes. É o caso desses dois retratos em destaque.

Gimme Shelter foca na turnê dos Rolling Stones, em 1969, momento pós-Woodstock, e momentos de tensão com violência e morte em meio a multidão. As imagens se dividem entre parte das performance de Mick Jagger e sua banda, momentos dos bastidores pós-show e cataclisma, e as imagens das confusões e brigas. Mostra um povo americano intolerante, descontrolado, e com um grupo de fortões querendo colocar ordem “do seu modo”. Impressiona a riqueza de material, mas, principalmente a atmosfera de violência que os Maysles conseguem impor com a edição que desconstrói a cronologia.

Grey Gardens trata da surpreendente história de uma tia e prima da ex-primeira dama Jackie Kennedy, que viviam numa mansão tão mau-cuidada que foram notificadas pela prefeitura “limpem e conservem, ou saiam”. Retrato da degradação de uma família da alta sociedade cuja a queda do padrão financeiro apresenta seus resultados, sem que as duas aceitem mudar seu estilo de vida. Restam os gatos, a sujeira, e as histórias da época de ouro. Duas mulheres completamente alheias ao bom senso, que levam sua vida à deriva, beirando o cômico e o manicômio. Os irmãos Maysles escancaram a degradação humana enquanto elas, sem pudor do caos familiar, agem com a naturalidade pueril de quem nunca perdeu a realeza, mesmo que na miséria.

História de Taipei

Qing Mei Zhu Ma / Taipei Story (1985 – TAW) 

As transformações econômicas da Taiwan dos anos 80 traduzidas num único filme. Quase podemos definir assim a proeza do cineasta Edward Yang, em seu terceiro longa-metragem. O país cresce, se moderniza, ganha destaque econômico, as transformações trazem adaptações (muitas vezes não tão fáceis). Yang se notabiliza pela narrativa cinematográfica hipnótica, através de silêncios, de personagens olhando para a cidade que não pra de crescer, ou apoiado pela musica pop que se mistura com adultos ativos e suas dificuldades dessa adaptação.

No centro temos o ex-promissor jogador de baseball (ninguém menos que Hou Hsiao-hsien atuando) e que agora trabalha numa fábrica de tecidos, e sua esposa (Tsai Chin), executiva de uma construtora à beira da falência. A chegada de capital e da cultura ocidental e suas mutações são sentidas por esse casal, Yang desenvolve histórias e conflitos de personagens que orbitam o casal, enquanto a velocidade das transformações engole o saudosismo e os que não estão preparados à adaptação.