Gimme Shelter | Grey Gardens

Gimme Shelter (1970 – EUA) 

Grey Gardens (1975 – EUA)

Estes são dois dos mais celebrados trabalhos dos irmãos documentaristas americanos Albert e David Maysles, nomes praticamente sinônimos do cinema-verdade. Do estilo marcante deles, em que tentavam apenas retratar, causando o mínimo de influência nos personagens e ambientes, a dupla extraiu filmes fortes, e a possibilidade de refletir sobre questões contundentes. É o caso desses dois retratos em destaque.

Gimme Shelter foca na turnê dos Rolling Stones, em 1969, momento pós-Woodstock, e momentos de tensão com violência e morte em meio a multidão. As imagens se dividem entre parte das performance de Mick Jagger e sua banda, momentos dos bastidores pós-show e cataclisma, e as imagens das confusões e brigas. Mostra um povo americano intolerante, descontrolado, e com um grupo de fortões querendo colocar ordem “do seu modo”. Impressiona a riqueza de material, mas, principalmente a atmosfera de violência que os Maysles conseguem impor com a edição que desconstrói a cronologia.

Grey Gardens trata da surpreendente história de uma tia e prima da ex-primeira dama Jackie Kennedy, que viviam numa mansão tão mau-cuidada que foram notificadas pela prefeitura “limpem e conservem, ou saiam”. Retrato da degradação de uma família da alta sociedade cuja a queda do padrão financeiro apresenta seus resultados, sem que as duas aceitem mudar seu estilo de vida. Restam os gatos, a sujeira, e as histórias da época de ouro. Duas mulheres completamente alheias ao bom senso, que levam sua vida à deriva, beirando o cômico e o manicômio. Os irmãos Maysles escancaram a degradação humana enquanto elas, sem pudor do caos familiar, agem com a naturalidade pueril de quem nunca perdeu a realeza, mesmo que na miséria.

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História de Taipei

Qing Mei Zhu Ma / Taipei Story (1985 – TAW) 

As transformações econômicas da Taiwan dos anos 80 traduzidas num único filme. Quase podemos definir assim a proeza do cineasta Edward Yang, em seu terceiro longa-metragem. O país cresce, se moderniza, ganha destaque econômico, as transformações trazem adaptações (muitas vezes não tão fáceis). Yang se notabiliza pela narrativa cinematográfica hipnótica, através de silêncios, de personagens olhando para a cidade que não pra de crescer, ou apoiado pela musica pop que se mistura com adultos ativos e suas dificuldades dessa adaptação.

No centro temos o ex-promissor jogador de baseball (ninguém menos que Hou Hsiao-hsien atuando) e que agora trabalha numa fábrica de tecidos, e sua esposa (Tsai Chin), executiva de uma construtora à beira da falência. A chegada de capital e da cultura ocidental e suas mutações são sentidas por esse casal, Yang desenvolve histórias e conflitos de personagens que orbitam o casal, enquanto a velocidade das transformações engole o saudosismo e os que não estão preparados à adaptação.

Digam o que Quiserem

Say Anything… (1989 – EUA) 

Seria provocativo dizer que Cameron Crowe ainda não realizou um filme tão bom quanto sua estreia? Talvez Quase Famosos possa rivalizar e causar discussão, mas sua comédia romântica, ingênua, funciona tão bem dentro dos clichês do gênero, e praticamente marcou a assinatura que encontramos na maior parte dos filmes do diretor.

A trama adolescente em que Lloyd (John Cusack) tenta conquistar o coração da estudante determinada Diane Ione Skye), guarda pequenos momentos inesquecíveis da representação da paixão, e também da explosividade da felicidade juvenil, e da pressão paterna pelas responsabilidades contra as paixonites adolescentes.

Crowe dosa bem a mão quando trata da relação pai e filha, e das transformações a qual passa essa relação enquanto se descobre outro lado do pai e a filha aprende as desenvolturas do amor. Enquanto isso, o inquieto Lloyd vive passionalmente todas as fases de seu relacionamento, seja através da música, das influencias da amizades, mas principalmente no aprendizado da convivência. E dentro dessa complexa equação, Crowe constrói um desses romances saborosos, imperfeitos, mas que carregam muito além do que as simples idas e vindas do amor.

Uma Noite Após a Guerra

umanoiteaposaguerraUn Soir Après de la Guerre (1998 – CBD/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um dos raros filmes de ficção do documentarista Rithy Panh. Isso não é subterfúgio para o cineasta cambodiano deixar de lado o Khmer Vermelho de Pol Plot, o saldo da ditadura que dizimou parte da população e a pobreza que assola o povo. De uma história de amor, escrita em linhas tortas, Panh emerge a dura e simples realidade local. Ele volta do serviço militar, se apaixona pela moça que trabalha como acompanhante.

Panh deixa de lado o romantismo, a relação é criada em meio a aguras, teimosias, como se a paixão fosse cativando o outro. A ditadura chegou ao fim, a liberdade não. Os militares que voltam do front tem dificuldade em encontrar trabalho. Mulheres são vendidas aos donos das boates. Panh filma tudo com crueldade bucólica, é tudo tão pobre: as casas, as frutas que chegam de canoa ao piquenique, o “glamour” da casa noturna e as roupas desajeitadas em jeans surrados.

É também um filme sobre adaptação, enquanto o país se adapta ao fim do regime de Pol Plot, os que voltaram agora à sociedade tem maior dificuldade de adaptação. Os que já vem sofrendo preencheram os espaços, os empregos. O retorno à vida civil em Phnom Penh parece ainda mais irrealizável que os períodos de massacre e injustiça (maiores, porque ela simplesmente ainda não acabou).

Honkytonk Man

honkytonk-manHonkytonk Man (EUA – 1982) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Baseado na novela escrita por Clancy Carlile, e transcorrida no período da Grande Depressão nos EUA, Clint Eastwood dirige e protagoniza (junto com seu filho Kyle Eastwood) este road movie sobre um cantor country, sem grana e com tuberculose, que conta com a ajuda de seu sobrinho, ainda criança, para dirigir o carro e levá-lo a um programa de tv em Nashville que oferece um bom dinheiro.

O protagonismo é do Tio (Clint), mas as grandes transformações e possibilidades que o filme resgata são todas calcadas no garoto, na possibilidade de descobrir um mundo desconhecido, de amadurecer pela forma como o tio o trata como um igual, com poderes de decisão próprios, e até mais responsabilidade que o tio. Além, é claro da música que permeia toda a narrativa, com Clint tocando e cantando. A partir do politicamente incorreto do tio, que o garoto conduz suas decisões e se torna o verdadeiro porto seguro do irresponsável cantor e compositor que ainda busca seu lugar ao sol. Honkytonk Man é belo e triste, tal qual a canção que Red Stovall tenta gravar ao longo do filme.

Vidas Secas


vidassecasVidas Secas
(1963) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Nelson Pereira dos Santos adaptando o clássico livro de Graciliano Ramos. A história de Fabiano (Átila Iório) e sua família se passa na década de 40, ainda poderia ser hoje. A saga dessa família de retirantes pelo nordeste, esfregando na cara do público a miséria, a fome, a exploração humana. O livro é perturbador, do desespero da família à cachorra Baleia, são páginas e mais páginas dilacerantes. O filme de Nelson Pereira dos Santos não fica muito atrás, recriando a aridez do terreno, da vida, e do trato dessa família com o patrão, a polícia ou agentes do governo. Tudo é exploração, tudo recai sobre a miséria dos miseráveis.

Talvez seja o filme que mais aproxima o Neo-Realismo italiano do Cinema Novo (a qual o diretor seria figura destacada), sempre num misto de candura e ingenuidade, versus a aspereza da vida. A seca, e a vontade de, ao menos, dormir numa cama “de gente”. Sempre filmado nessa sensação de urgência (principalmente na montagem) tornando ainda mais aflitiva cada uma das cenas dramáticas, Vidas Secas toca fundo na consciência de qualquer um, enquanto aquela gente segue caminhando rumo a um futuro que não deverá ser nada diferente.

Encurralado

encurraladoDuel (1971 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Conhecido como o primeiro longa-metragem de Steven Spielberg, ainda que foi feito para tv, e depois lançado no cinema, mostra o jovem cineasta numa completa demonstração das possibilidades que o cinema oferece. O roteiro tem apenas um fiapo, um motorista de carro e um de caminhão (que jamais aparecerá frente às câmeras) rivalizando após uma simples ultrapassagem na estrada. Spielberg cria um suspense eletrizante, cheio de cortes e enquadramentos que contribuem para a atmosfera perfeita.

Quem não conhece o início de carreira de Spielberg vai estranhar o ritmo e temática tão distantes que o consagrou em filmes de fantasia (ET) ou aventuras como Indiana Jones. Sinal da versatilidade e das possibilidades que a juventude de experimentação permite. Mesmo após tantos e tantos sucessos de critica e bilheteria, os anos 70 são a década que guarda os melhores filmes do provável cineasta mais famoso do mundo.