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Conto da Primavera

Publicado: maio 3, 2020 em Cinema, Domingo de Clássicos
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Conte de Printemps “A Tale of Springtime”, 1990 – FRA)

Lá se vão 30 anos desde o lançamento desse primeiro capítulo do Conto das Quatro Estações de Rohmer, e curioso como as relações pessoais e dilemas românticos mudaram tantos nos últimos anos. Os mais críticos, a um estereótipo de cinema francês blasé, podem encontrar aqui um prato cheio para suas críticas, afinal os franceses discutem filosofia transcendental, Klant e Platão, ou estão ouvindo Schumann num simples jantar. Mas, o cinema de Rohmer apenas utiliza os aspectos culturais para florear essas relações pessoais tão caras em seus filmes. Boa parte dos seus filmes são simples na forma, almejam a naturalidade, e um prazer especial maior de discutir emoções e sentimentos do que vivenciá-los.

A trama pode parecer fulgaz na maneira como aproxima duas jovens a se tornarem amigas tão rapidamente, o importante são as pequenas descobertas de suas manias e perfis, então referências como a mania de organização de uma delas, que respeita fortemente a organização dos outros, são mais importantes do que quem essas pessoas são. Mas as tramas desses contos são assim rapidamente colocam à mesa esses dilemas de personagens, aqui a moça que se incomoda com a namorada do pai, e queria que a nova amiga assumisse esse lugar.

Invariavelmente os personagens se encontram, conversam, discutem, convivem num jardim em plena primavera. Os diálogos e dramas parecem arquitetados demais, naturalistas de menos, ainda mais envelhecidos pelos dilemas que ficaram três década atrás, aqui, a vida real que Rohmer tanto quer espelhar, parece mais convincente na teoria exatamente porque desejo e paixão não são sensações vivida entre esses personagens.

Satantango

Publicado: maio 1, 2020 em Cinema
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Sátántangó (1994 – HUN)

Pessoas entusiasmadas com o dinheiro que irão receber após o insucesso da fazenda coletiva em que buscavam sua subsistência, até que um homem, tido como morto, reaparece e traz outra perspectiva à comunidade. Estamos nos derradeiros dias do Socialismo na Hungria, em seu Tango de Satã (tradução literal do título). Béla Tarr divide a história em doze capítulos, sempre em seu tom de realismo pessimista e desolação por um grupo de personagens que se mistura com a melancolia, chuva e pobreza que o barro remete. Sempre me encanto com o rigor estético e o tempo de seus planos-sequencias, mas aqui há um filme de dilemas morais mais contundentes, que se intercalam entre sonhos/pesadelos e a herança socialista de ser sempre regidos/traídos por líderes. A infidelidade conjugal, os planos de se aproveitar dos outros (governo, adultos e crianças), a falta de empatia, a solidão, tudo isso camuflado pelos encontros etílicos e musicados no bar, quase um oásis nesse mar barrento da desesperança.

La Trinchera Infinita (2019 – ESP)

Os cineastas Aitor Arregi, Jon Garaño e Jose Mari Goenaga desde o início vem se destacando na cena do cinema espanhol atual. Filmes mais recentes como Loreak e Handia, e esse novo ganharam destaque nos Goya, principalmente nos quesitos mais técnicos. São filmes de um cuidado meticuloso com a imagem, e a forma. Aqui, o trio de cineastas volta a uma das maiores feridas de todos os países que sofreram com governos ditatoriais. Na trama um homem foragido, se esconde em sua casa, por mais de trinta anos trancado numa trincheira, para escapar dos capangas de Franco da Guerra Civil Espanhola.

Muitas cenas com pouca luz, num ambiente diminuto, e a visão do mundo através de revistas, rádio ou de frestas que dão para a sala de casa. É um filme sobre um drama pessoal, mas também familiar porque todos precisam viver à mercê do estado de alerta ininterrupto. Para dar ritmo ao filme, os diretores vão além da preocupação com a passagem de tempo e conseguem criar tensão em visitas à casa enquanto todos vivem a expectativa de mudanças políticas na Espanha com uma possível vitória dos Aliados na Guerra, ou da entrada do país na ONU. Viver como um rato por não aceitar o autoritarismo do governo foi o que o destino reservou aos que ficaram conhecidos como “topos”.

La Mafia Non E Piu Quella Di Una Volta / The Mafia Is No Longer What It Used to Be (2019 – ITA)

Talvez tardiamente, mas descobrindo agora o cinema de Franco Maresco, e a primeira sensação é e um Michael Moore à italiana, que manipula seu filmes entre o documentário e o humor negro. O diretor se impõe com cinismo entre os diálogos, e assim dá o direcionamento critico que deseja sobre os temas abordados.

Aqui ele retoma personagens de fimes anteriores, e cria um antagonismo entre a fotógrafa Letizia Battaglia e o apresentador de shows Ciccio Mira. Sob o pretexto de relembrar os 25 anos da morte de Falcone e Borsellino pela máfia de Palermo. Battaglia dedicou parte de sua vida dedicando-se a tirar fotos dos homicidos orquestrados pelso mafiosos, enquanto Ciccio usaria seus shows e programas de tv para mandar mensagens aos mafiosos presos.

O mais interessante, talvez encenado, são as cenas em que os personagens preferem se esquisar de falar da máfia, criticar, fazer qualquer menção, saindo sempre pela tangete ou preferindo silencio. Temor de represálias até hoje ou respeito e preferencia pela Cosa Nostra? Maresco gasta tempo demais com personagens pitorescos e os shows bregas de Ciccio, mas tem seus momentos cínicos e curiosos quando expõe essa sociedade de Palermo tão enraizada pelo respeito e convívio com os mafiosos

La Mala Noche

Publicado: fevereiro 19, 2020 em Cinema, Mostra SP
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La Mala Noche / The Longest Night (2019 – EQU)

O escolhido pelo Equador para a corrida do Oscar de Filme Estrangeiro resgata o tema do tráfico de pessoas e prostituição. A pauta sempre será urgente, uma das muitas formas de escravidão da sociedade moderna, mas o filme de Gabriela Calvache não escapa dos clichês com filho doente, e uma fase final thriller dos mais banais que apenas generalizam e suavizam a força da denúncia que a primeira parte poderia pregar.

Fourteen

Publicado: fevereiro 13, 2020 em Cinema
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Fourteen (2019 – EUA)

Interessante como o diretor Dan Sallitt dá protagonismo à melhor amiga, uma espécie de voyeurismo da destruição psicológica de quem seria, normalmente, a protagonista da história. Se coloca como um filme pequeno, essencialmente pacato, estabelecido através de muitos diálogos, e dessa visão de camarote de uma jovem cuja carisma e autoconfiança vão se diluindo com o passar do tempo.

Uma década de amizade e os vai e vem da vida diminuem o ritmo do contato pessoal, mas nunca o grau de intimidade delas, por meio de elipses o filme faz notar os estágios avançando da depressão, e como a amiga faz o que pode para dar suporte, enquanto tenta levar sua vida cotidiana. Fica esse sabor interessante de sempre acompanhar uma personagem cuja vida se desenvolve, mas toda a carga dramática do filme está na coadjuvante que nem sempre se encontra na tela.

The Lighthouse (2019 – EUA/BRA)

Da turma dos grandes filmes do ano, o novo trabalho de Robert Eggers flerta com o cinema de Bergman, mas prefere o humor e o horror do que o estudo psicológico de um Persona, por exemplo. Talvez porque aqui estejamos diante do tese de convivência de dois homens, e sua virilidade e fragilidades estão expostas de maneiras bem diferentes do que a manipulação sugeria no clássico do cineasta sueco.

Um farol no meio do nado, os dois homens (Dafoe e Pattinson) chegam para trabalhar por uma temporada ali, completamente isolados de qualquer sinal de sinalização. Os dias passam entre confrontos, bebedeiras, imposição de poder, e os seus maiores medos deflagrados. Eggers opta por sugerir tudo, de alguma tensão sexual à fantasia com uma sereia, até os segredos e barulhos da sala trancada em que só homem mais velho pode entrar, assim como os segredos que levaram o mais jovem a aceitar aquele emprego.

Memórias, histórias, respeito e desaforo. O Farol é sobre essa relação masculina, é sobre os altos e baixos, sobre angústia e caos. Interessante como o filme não ganha tom teatral, Eggers opta pela fotografia em preto e branco, por enquadramentos que explorem corpos, relações e espaços, e além de dar sua dose de fantasia, realizando assim um filme que foge muito dos padrões mais comerciais, que grita por uma tela grande e som potente, e pela possibilidade de imersão do público nesse lugar fétido e misterioso.

Savovi / Stitches (2019 – BOS)

Mais de 500 bebês desapareceram entre 1998-99, na Guerra de Kosovo. O diretor Miroslav Terzic resgata esse período conturbado, que ainda nem está totalmente resolvido, entre os países da região dos Balcãs, e o faz por um trauma como esses. Já se passaram dezoito anos que seu bebê ter sido declarado morto no parto, ela (Snezana Bogdanovic) tem outra filha, um emprego, sua família, mas o desespero por não superar e duvidar que seu filho não tenha sido sequestrado é latente em seu rosto. O que lhe resta é investigar, tantos anos insistindo com a polícia, com órgãos da prefeitura, com quem se possa imaginar.

São cicatrizes que se fecham, a vida dessa mulher não vai além do piloto-automático, entre o robotizado e o catatônico. Quer resposta, quer o filho, por mais que esteja anos negligenciando a tudo à sua volta. Quem descobrir o filme vai acompanhar a trama e seu desenrolar, o mais importante é como Terzic e sua atriz conduze o filme de forma sóbria, e nunca melodramática, de maneira que possa aprofundar nas cicatrizes e buscar um fio de esperança, onde quer que seja.

The Two Popes (2019 – EUA)

Em alguns momentos, o filme chega a ser delicioso, o confronto de estilos das duas figuras eclesiásticas oferece uma comédia saborosa entre o sisudo alemão e o simpático sulamericano. E, estamos falando dos dois últimos papas da Igreja Católica, figuram tão conhecidas quanto famosas recentemente, o que torna tudo mais difícil.

Os últimos trabalhos internacionais de Fernando Meirelles não vinham obtendo aquele sucesso todo, mas esse filme produzido pela Netflix, e exibido no Festival de Veneza, recoloca o brasileiro na mira dos cinéfilos. Estamos diante da duas últimas sucessões do papado, tanto a que escolheu Bento XVI (Anthony Hopkins), quanto a que tornou Papa Francisco (Jonathan Pryce) o líder do Vaticano. E Meirelles conduz a trama entre curiosidades do processo de votação e outros rituais internos, e esse processo surpreendente que culminou na passagem de bastão entre eles.

É também um veículo interessante para resgatar a biografia do Papa Francisco, ainda que seja a parte mais protocolar e apenas informativo do filme que filma em preto e branco situações na Argentina sob ditadura militar, por exemplo. Bom mesmo são os encontros ensolarados, ou em quartos com tv ligada, entre os dois, divergindo sobre pontos cruciais da Igreja, discutindo aposentadoria, e criam um convívio cuja harmonia quase se alimenta do caos. Meirelles abre um canal de intimidade do público com aquelas duas figuras, cujas interpretações de Hopkins e Pryce evidenciam ainda mais essa familiaridade surpreendente e espontânea. É claro que o filme tem um quê de chapa-branca, que mesmo em assuntos tabus prefere um ar mais leve, mas é realmente calcado nesse embate de estilos, e não o filme definitivo sobre a Igreja Católica e seu lado obscuro.

It Must Be Heaven (2019 – FRA)

Adorável a nova investida cômica de Elia Suleiman, assumindo ele mesmo o papel de protagonista de um imigrante, que deixa seu país, mas quanto mais se distancia, mais encontra proximidades. Um país que não é país, um povo sem nação. Dentro ou fora da Palestina, ele encontra racismo, problemas com a polícia ouo imigração, e essa sensação de não pertencer a lugar nenhum, o ar inferiorizado. Da rua onde mora a Paris ou Nova York, o palco muda, mas os comportamentos e dificuldades permanecem. Um jogo de esquetes de quem procura um paraíso, de quem procura oportunidades para seguir filmando, mas sempre encontra olhares desconfiados, portas fechadas e muita indiferença.