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Top 10 – 2018 – Cinema Nacional

Publicado: janeiro 1, 2019 em Cinema, Top

Não foi um ano em que um filme se destacou muito frente aos demais, mas foi um ano de forte presença nos festivais internacionais (principalmente Berlim e Rotterdã), também um ano em que estão surgindo novos autores, a necessária renovação se faz presente. Ainda assim o cinema brasileiro trouxe em 2018 a riqueza de sua diversidade em suas visões e reflexões sobre nosso país contemporâneo.

 Não foi fácil escolher o filme que fecharia a lista, havia um leque de opções, mas o road movie da operária sexagenária recém desempregada pesou mais forte pela presença forte de Magali Biff. Essa possibilidade de descoberta do desconhecido, de sair da zona de conforto, é o que muita gente precisaria para se sentir vivos. Falando em manter vivo, dois bons trabalhos resgataram a chama de dois personagens tão importantes ao cinema nacional. Guarnieri e Paulo José foram homenageados, e bem homenageados, em filmes sensíveis e afetivos. E por falar em memória, o que dizer das lembranças da diretora Flávia Castro, que resgata seu passado adolescente no retorno ao Brasil no início da redemocratização. Deslembro ainda não entrou em cartaz, mas merece ser visto assim que possível.

Carolina Jabor trouxe muita polêmica com as redes sociais e o linchamento virtual de um professor que, supostamente, teria cometido abuso infantil. Aos Teus Olhos fala muito com nosso sociedade moderna, que define tudo por boatos, e não se dá ao luxo de ouvir o que o outro tem a dizer. Já o ator Murilo Benício se destaca ao dirigir a adaptação de O Beijo no Asfalto, e o poder da imprensa em transformar boatos e fatos. A bela coprodução Brasil-Portugal, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, traz a questão indígena de outro prisma, um jovem índio que não se sente bem em sua comunidade e nem é abraçado pela outra, vive num hiato da marginalização.

O pódio se abre com Temporada, o novo filme de André Novais Oliveira sobre esse país precário, sobre a opção pela vida fácil, pela irresponsabilidade pública, e também sobre ser negro e o espaço miserável que lhe cabe. O estreante Tiago Melo vem com Azougue Nazaré, preconceito, religião, é um filme-panela-de-pressão, que fez muito sucesso em Rotterdã. Mas, o grande favorito foi Café com Canela, a surpreendente parceria de Glenda Nicário e Ary Rosa é de uma simplicidade e singeleza que fica difícil não se encantar com seus personagens, e o filme também tem muita experimentação na linguagem, quebra do formalismo, um cinema que foge da zona de conforto.

  1. Café com Canela, de Glenda Nicário e Ary Rosa
  2. Azougue Nazaré, de Tiago Melo
  3. Temporada, de André Novais Oliveira
  4. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Mossora e João Salaviza
  5. Deslembro, de Flávia Castro
  6. O Beijo no Asfalto, de Murilo Benício
  7. Guarnieri, de Francisco Guarnieri
  8. Todos os Paulos do Mundo, de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro
  9. Aos teus Olhos, de Carolina Jabor
  10. Pela Janela, de Caroline Leone

 


Top 10 – 2017 – Cinema Nacional

Top 5 – 2016 – Cinema Nacional

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

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Plaire Aimer et Courir Vite / Sorry Angel (2018 – FRA) 

Christophe Honoré, normalmente, se sai melhor quando trata do amor do que em outros temas. Seu grande filme continua sendo Canções de Amor, e a magia de ser pop e plural, de tratar esse amor de quem gosta de pessoas, e não de gêneros. Seu novo filme se equilibra em certa irregularidade, em conjunto de situações que criam cenas e diálogos que representam melhor o que o cineasta almeja sensibilizar, do que o simples acompanhar uma história.

Há algo de lúdico no maduro autor de teatro, sofrendo com a AIDS, e que encontra um jovem cheio de vitalidade em descobrir a vida, em viver um romance. Talvez o lúdico esteja na mistura de refinamento social,  e sua forma de empregar seu lado culto como um conquistador. Dessa forma honesta e aproveitadora que ele estabelece amizade com o vizinho, que mantém seus relacionamentos profissionais, que cuida do filho, e que causa atração do jovem interiorano apto a se abrir ao mundo.

Por isso tudo que o título original condiz muito com o protagonista, através de encontros ou telefonemas, conquistar, amar e viver intensamente parece um mantra, mas funciona melhor para resumir esse protagonista que parece inquebrável para alguns, mas tão frágil em outros momentos. Afinal, somos assim, mostrando fortalezas e fragilidades, vivendo nessa busca incessante pelo prazer, pela felicidade, ou por viver aquele momento como se fosse o último.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

O Beijo no Asfalto (2018) 

Interessante os caminhos escolhidos pelo ator Murilo Benício em sua estreia na direção. Adaptando uma peça de Nelson Rodrigues, tudo filmado em branco e preto, como se fosse uma leitura preparatória para o  ensaios da peça. Dali surge um debate sobre os próprios temas da peça, enquanto intercala a leitura com a própria representação das cenas. Na trama, um incidente é completamente alterado pela imprensa, e a vida do afetado muda de pernas para o ar. É um filme sobre a beleza da sinceridade de um momento cuja interpretação alheia eclode para fora do controle, onde preconceito e amor se confunde com aceitação e as próprias relações veladas entre cada um dos personagens.

Asako I & II

Publicado: dezembro 20, 2018 em Cinema
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Netemo Sametemo / Asako I & II (2018 – JAP)  

Vem surgindo o nome de Ryusuke Hamaguchi, com destaque, no cenário internacional de cinema. Seu novo filme é uma fábula romântica que trata do amor à primeira vista, do idealização do outro, e das fragilidades invisíveis de um relacionamento. A grande preocupação do cineasta japonês com pequenos detalhes cotidianos e a narrativa doce ajudam a situar bem personagens e envolver o público com eles.

Asako é a nossa tímida heroína romântica, que se apaixona por um jovem, um desses espíritos-livres, que apenas cruzou seu caminho pelas ruas. O filme percorre anos da vida de Asako, quanto mais o tempo passa, e mais mergulhamos em sua alma frágil e altamente sonhadora, mais nos sentimos próximos e compreendemos seus sentimentos, por mais que ela pouco se expresse diretamente.

O espírito livre desaparece, anos depois ela conhece outro jovem, muito parecido com o primeiro e por ai a história segue. Quem nunca idealizou o que seria de um romance que terminou precocemente, ou que nunca chegou a acontecer? A vida é formada de fantasias e realizações, mas também de escolhas. O roteiro guarda reviravoltas, seja qual for o caminho dos personagens, Hamaguchi deixa seu trabalho mais marcante pela humanidade dos personagens, pela construção dos ambientes e a atmosfera criada entre amores e amizades.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição principal

Transit (2018 – ALE) 

O perído histórico não está bem definido, mas fica claro que vem muito depois do que conhecemos como o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma França ainda ocupada pelos Nazistas. O novo melodrama do alemão Christian Petzold faz um paralelo entre àquela caça aos Judeus e a atual contra os imigrantes. Novamente com seu estilo sutil e delicado, onde cada plano oferece charme e requinte.

São personagens com dramas que se entrecruzam, uns que esperam alguém (a esposa, o marido) para fugirem, outros que tenta regularizar os papéis para conseguirem permissão para partir. Nesse contexto Petzold narra histórias de amor, carnais ou não, outras com interesse, mas, sobretudo histórias de amor. E sob sua narrativa peculiar e hipnotizante acompanhamos as idas e vindas de personagens, as expectativas de desventuras. Petzold trazendo questões atuais e urgentes, sem perder sua linha autoral, num dos grandes filmes do ano. Nos resta lamentar que seus filmes não tem conseguido espaço nos cinemas brasileiros.


Festival: Berlim 2018

Mostra: competição principal

Roe x Wade

Publicado: dezembro 15, 2018 em Cinema
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Reversing Roe (2018 – EUA) 

Um raio-x completo da questão do aborto nos EUA. O documentário da dupla Annie Sundberg e Ricki Stern resgata mais de 40 anos de luta e discussões sobre o tema. As decisões estaduais, leis federais, o movimento feminita pró-aberto e a revolta de religiosos. É um importante documento sobre liberdade de expressão e outra porta para a reflexão sobre o direito de se intrometer na vida do outro que não te afeta diretamente. Clínicas federais de aborto legal, protestos e violência a médicos e mulheres que optam por abortar. Não é um assunto fácil, e mesmo bem convencional em seu formato, o filme é bem competente em suscitar tais discussões e ouvir todos os lados dessa moeda.

Roma

Publicado: dezembro 13, 2018 em Cinema
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Roma (2018 – MEX) 

Sempre difícil lidar com o filme que você cria em sua cabeça através das expectativas. E no caso do novo trabalho de Alfonso Cuarón elas são altas, diria altíssimas. E realmente é um grande filme, e tão pessoal ao cineasta que foi resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. Todo filmado em preto e branco, o primeiro destaque é o clima de nostalgia (potencializado pelo uso constante de travelings pela casa) e de grandiosidade, quando trata de uma história pequena e pessoal, os dramas de uma empregada doméstica.

Tem um pouco da proposta de Santiago, mas as coincidências param em dar foco a empregados da época de infância dos cineasta que foram muito marcantes em suas vidas. O filme de João Moreira Salles tem uma proposta bem mais radical, a de Cuarón é mais afetiva, e elaborada no plano visual. Esses travelings desnudam ambientes, a casa parece viva, cada canto com sua vida própria. As coisas vão acontecendo com tantos filhos e empregadas.

Roma guarda a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo (Yalitza Aparicio) que vive a vida dos donos da casa, que cuida das crianças em tempo integral e tem pouco espaço para sua individualidade. E quanto há espaço, são problemas, desilusões e alguns raios de felicidade. O novo filme de Cuaron não vem redescobrir novas formas de contar histórias, mas de dar voz a personagens coadjuvantes, mas que falam tanto de uma parcela tão grande da população. É um personagem das massas, que dá de frente com a violência das ruas, com a fragilidade de sua situação financeira e com a relação quase umbilical com seus chefes.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Filme