Arquivo da categoria ‘Cinema’

Notturno

Publicado: maio 2, 2021 em Cinema
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Notturno (2020 – ITA)

Trata-se da fórmula Gianfranco Rosi de fazer documentários num retrato dos escombros de guerras civis em países como Iraque, Curdistão, Síria e Líbano. Escombros esses dos edifícios, da geografria, mas, principalmente os escombros humanos que tentam sobreviver com tantas feridas, violência, o verdadeiro horror. Digo a fórmula porque quem conhece o estilo do documentarista italiano já pode imaginar o formato observacional, o ritmo lento, a predileção em testemunhar detalhes de cotiadiano dos personagens, enquanto fica evidente a herança que os conflitos trouxeram.

Em seu filme anterior, Rosi punha em foco os imigrantes chegando à Europa, dessa vez ele vai às origens desses imigrantes, onde estão e como vivem. É novamente um retrato bem íntimo, e até devastador, e da maneira quase poética e melodramática com que o filme usa as nuvens e os silêncios, e outros elementos, talvez um pouco explorador.

Walden

Publicado: maio 1, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Walden (2020 – FRA)

“É triste ver pessoas que no passado colocavam sua esperança no futuro, e agora, no futuro, eles colocam sua esperança no passado”

Uma história de amor que camufla a esperança com desesperança. A narrativa se divide em dois tempos, no hoje uma mulher retorna a Vilnius, após 30 anos vivendo em Paris, gostaria de voltar ao lago onde viveu bons momentos com seu primeiro amor. De outro lado a construção do romance entre a filha de um médico com um bad-boy cujo pai está desempregado, por isso vive da venda de moeda estrangeira no mercado negro. 1989, na Lituânia, que ainda fazia parte da União Soviética. Os jovens ouvem que as coisas estão mudando, mas continuam descrentes, muitos sonham em emigrar ao Ocidente.

O caso de amor, com toques de Rohmer, afinal são tantas e tantas cenas de conversas entre jovens na saída da escola, ou à beira do lago, mas há sempre a adição dos aspectos político-econômicos. O contraste entre classes, o incomodo que alguns expressam mais, outros menos, mas quase sempre de forma amena, como quem aceita seu destino. É desse contraste entre amor e esperança opaca que o filme encontra sua força, personagens que nem felizes e cheios de planos inspiram tanta alegria, de pessoas que não enxergam grandes mudanças entre passado e futuro, uma esperança opaca.

Below Sea Level

Publicado: abril 30, 2021 em Cinema
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Below Sea Level (2008 – ITA)

Visto  atualmente vai ser sempre considerado o Nomadland de Gianfranco Rosi, meio justo já que foi realizado 12 anos antes, mas a semelhança da temática será inevitável. Resumidamente é o estilo documental do cineasta italiano retratando a vida dos sem teto no EUA. Vivendo em trailers, no meio do deserto, esses esquecidos pela sociedade estão se virando para sobreviver. O filme observacional de Rosi permite que seus personagens falem calmamente, conversem ou briguem entre si, sempre sob essa falta de perspectiva, de limitações, a que a falsa simplicidade do cinema desse cineasta dá espaço pra vidar nada romanceadas.

Apenas Mortais

Publicado: abril 29, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Being Mortal (2020 – CHI)

Num melodrama simples, parte da história de uma filha cuja pai sofe de Alzheimer, e as terríveis consequencia que você pode imaginar, uma cena no banheiro, em especial, é simples e fortíssima, por mais que explore as mazelas e as vergonhas sem pudores. Mas é também um filme sobre ainda ser solteira (o) na China, sobre ser família (unida, mas longe da propaganda de margarina), sobre o sistema de saúde chinês. Enfim, é mais sobre a vida cotidiana, menos metáfora e poesia e menos realidade (pelo menos em grande parte do filme).

Um Lugar ao Sol

Publicado: abril 28, 2021 em Cinema
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Um Lugar ao Sol (2008)

Hoje, no meio da pandemia e dos protestos pela morte de George Floyd, esse documentário e muito do que é dito nele, soam com peso ainda gritante. O peso da incompreensão, do distanciamento, e também uma sensação de traição do próprio diretor para com seus personagens.

A traição vem  das próprias escolhas, do recorte, do que foi escolhido daquelas pessoas para ser exibido, dá uma discussão interessante dessa “realidade absoluta” que muitos enxergam num documentário. Claro que tudo foi que foi dito, foi realmente dito, e a ingenuidade e soberba dos moradores dessas coberturas oferecem esses depoimentos que soam tão ignorantes a realidade do que eles classificam como “pobres”. Por outro lado, eles soam fortemente como retrato fidedigno de uma elite que chega a ver graça no colorido dos tiroteiros em um morro carioca. Ah sim, os personagens se expuseram de ingenuidade e soberba, porque esse material só poderia dar um filme desse viés, com certeza.

O mais fundamental está exatamente nesse escancarar da visão elitista, visão essa que as redes sociais hoje potencializaram, que causam nojo, repulsa, mas que outros defendem agressivamente. É a humildade assassinada pelo orgulho dos privilégios. E, escrevendo esse texto, no alto da minha quarentena, longe do conforto daquelas coberturas (onde alguns podem esfregar na cara de um policial o quanto ganham após um chamado de violência doméstica), mas também muito longe dos que nem sabem o que é conforto e tem preocupações mais reais e graves que as minhas, me questiono onde estou inserido? Porque a gente pode sentir até culpa, porque a gente pode perceber que mesmo sem querer ajuda com a desigualdade, e simplesmente pode até refletir rapidamente e seguir não fazendo nada.

Como filme, Mascaro tem mais a proeza de liberar as línguas a falarem do que ter feito uma obra surpreendente, mas, os tempos são outros, a pandemia deve nos fazer ser pessoas diferentes do que eramos antes de tudo, se bem que volto às redes sociais e a dúvida é ainda maior se, muita gente, vai mesmo se sensibilizar e acordar para tantos absurdos que testemunhamos hoje da elite, do governo, de quem comanda a sociedade brasileira.  Um Lugar ao Sol fica como esse testemunho do que já esperávamos desses personagens, e eles entregam exatamente o esperado.

Nomadland

Publicado: abril 25, 2021 em Cinema
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Nomadland (2020 – EUA)

Já ouvimos falar muito de americanos cuja crise econômica os fez perder tudo e passarem a viver dentro de seus carros. Sem fugir um milímetro das raízes de seu cinema, a cineasta Chloe Zhao mergulha, através de sua protagonista nesse mundo de baby boomers nômades, que vivem de empregos temporários e se solidarizam em pequenos campings. Por mais que a trilha sonora intensifique o melodrama em algumas vezes, na maior parte do tempo é um drama seco, duro, cujo aspereza é sempre notada nas expressões faciais de Frances McDormand (além dela, só David Straitharn também ator, os demais estão todos interpretando suas próprias vidas). A precarização dos postos de trabalho os joga à marginalização da sociedade é, sem dúvidas, a questão central, afinal, como a maior economia do mundo não consegue abraçar essa parte da sociedade que trabalha, que produz, e ainda assim não conseguem sustentar uma moradia?

Há também, é claro, os dramas e histórias individuais, questões familiares como o orgulho de não depender dos outros, empresas que faliram e com idade avançada as pessoas não conseguiram recolocação, é tanta complexidade dentro de uma sociedade onde o capital prevalece que Zhao faz muito bem em observar, em se aproximar ao ponto de nos proporcionar esse mergulho dolorido de um EUA implacável e penoso.

Minari

Publicado: abril 23, 2021 em Cinema
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Minari (2020 – EUA)

O filme semi-autobiográfico de Lee Isaac Chung é um conto sobre imigrantes coreanos vivendo o sonho de prosperar na América nos anos 80. Muita luta, muita esperança e muita dor marcam a trajetória dessa família cujo pai arrisca tudo em uma fazenda no interior do Arkansas. Outro importante tema é adaptação, já não basta o país novo, o idioma, a ausência de familiares e amigos, o novo desafio de estar longe da todos parece o desquilibrio que faltava para desestabilizar o núcleo familiar.

Chung prefere dar espaço a todos os membros da família, claro que guardando o tom fofo do filme para priviliegiar o garotinho (seu alterego), mas todo filme tem esse ar de ternura e melancolia, de esperança e de inocomodo, que fica mais evidente nas discussões do casal e na chegada avó. É um filme que mira sempre no belo, na coisa mais sagrada da união familiar, e aproveita da ingenuidade desse pequeno garoto para oferecer alívio ao drama financeiro que acaba contaminando a vida dos adultos. Não me parece um cinema empolgante, apenas delicado, íntimo e apimentado com algumas molecagens.

Bela Vingança

Publicado: abril 22, 2021 em Cinema
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Promissing Your Woman (2020 – EUA)

Uma das grandes revelações da temporada, o filme de Emerald Fennel talvez seja quase tudo que os movimentos atuais de feminismo busquem na forma em dialogar com o grande público. Afinal temos uma narrativa ácida, que flerta com o thriller e com a comédia, sem largar mão do romance. E uma personagem complexa que abriu mão de um futuro na medicina e vive de sua sede de vingança.

De dia uma desanimada atendente de uma cafeteria, que ainda vive com os pais, e se veste como uma menininha com tudo rosa ao se redor, de noite uma cruel Femme fatale contra assediadores que se aproveitma de mulheres em estado vulnerável. Dentro de si um plano de vingança contra os envolvidos no caso que destroçou sua vida. Carey Mulligan é essa mulher intricada que carrega essa sede à toxidade humana.

Flertando com um cinema pop (cores, alguns enquadramentos estilos e música pop sempre em voz de cantoras), o longa deixa sua mensagem sem precisar de discursos verborrágicos. Nossa heroína sente culpa, sente raiva, quer vingança, mas também perdoa, ou se apaixona e Fennel condensa boa parte das bandeiras da luta por respeito, inclusão e igualdade num filme moderninho, de roteiro inesperado, e saboroso que dá a sua personagem central as nuances para uma interpretação que merece todo o reconhecimento que a temporada do Oscar lhe ofereceu.

Winter Vacation

Publicado: abril 21, 2021 em Cinema
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Winter Vacation (2010 – CHI)

“- O que voce quer ser quando crescer?

“- Um órfão”

Desse diálogo forte você tira um pouco da desesperança da juventude representada nesse filme, dirigido por Hongqi Lu, e vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno. Estamos no último dia das férias de inverno em uma pequena cidade no norte da China. Tempo de aproveitar ao máximo antes da volta às aulas, mas o retrato aqui é de adolescentes e crianças numa desesperança latente que soa como herança maldita. Conversas irregulares e ingênuas sobre amor ouo coisas cotidianas, o que sempre prevalece é um abatimento pela falta de perspectivas, de um destino promissor.

Para Ellen

Publicado: abril 20, 2021 em Cinema
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For Ellen (2012 – EUA)

Músico pai-ausente (Paul Dano) descobre ao assinar o divórcio que também estava abrindo mão da guarda da filha, e resolve lutar judicialmente por seus direitos. O drama indie dirigido pela coreana Kim So-Yong tem algumas cenas com a criança que nos fazem lembrar, de longe, seu bonito filme Montanha do Abandono. Mas, essa sensação só apareceu quando não estava atônito de tanta cãmera na mão, em planos fechados, no rosto de Paul Dano, quando eu só conseguia pensar em como Clean (Assayas) é tão poderoso retratando esse mesmo dilema de um músico x sua negligência familiar.