Arquivo da categoria ‘Cinema’

Por Que Você Não Chora?

Publicado: setembro 20, 2020 em Cinema

Por Que Você Não Chora? (2020)

O filme de Cibele Amaral encara de frente muitos temas: o transtorno boderline, a depressão, o drama da mulher sem direito à guarda do filho, suicídio. Tudo isso baseado numa “amizade” muleta entre duas mulheres, em dificuldade, que podem se ajudar a se manter em pé, ou até mesmo aumentar o poder da queda. E com tantos assuntos e dramas, o filme não consegue se estabelecer muito bem, inciando o protagonismo com a aprendiz de terapeuta, passando para a mulher com transtorno, e na reta final o protagonismo volta à terapeuta. Nesse jogo de equilibrar pratos, os temas ficam no superficial, afinal são abandonados a cada troca de protagonista.

É um filme contactado com o feminismo, mas sem estabelecer um discurso verborrágico, todas as personagens relevantes são mulheres, o único homem ali é o ex-marido canastrão. Barbara Paz tenta convencer com sua personagem intensa, problemática, mas não ajuda muito. Eu ainda me interesso pelo drama da terapeuta, a jovem que cuida da irmã, que trabalha de recepcionista, e vive dentro de si uma solidão própria. Bem que tenta se conectar com sua paciente, quanto mais se envolve, menos preparada técnica e psicologicamente ela prova estar.

Três Verões

Publicado: setembro 16, 2020 em Cinema
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Três Verões (2019)

Sandra Kogut recoloca Regina Casé no personagem de empregada doméstica. Dessa vez no Rio de Janeiro, para retratar as transformações de uma família burguesa, envolvida na Lava Jato, e de seus empregados. O filme passa longe de questões políticas, ou jurídicas, dividindo-se em três partes (3 verões, na semana entre Natal e Ano Novo). A degradação da mansão vem conectada à situação financeira da família e a arte dos empregados em se reinventar para sobreviver. Essa artimanha é catapulta para mais espaço do alívio cômico que Regina Casé sabe como poucos usar, mas o encontro da critica social e humor popular parece distante de um encaixe perfeito aqui.

Pacificado

Publicado: julho 26, 2020 em Cinema
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Pacified (2019 – BRA)

Eleito melhor filme em San Sebastian, um filme sobre favelas brasileiros dirigido por um jornalista americano (Paxton Winters) que passou um tempo no Brasil. A expectativa de um filme perfeitinho para os gringos, aquele favela made in exportação, é mesmo sintomático. Mas o filme, mesmo sem fugir de suas armadilhas, consegue até surpreender por uma vontade, maior que o normal, em estudar esses personagens. O ex-chefão do trafico que sai da prisão, a ex-namorada dependente de drogas, a filha adolescente tentando se equilibrar em tanta desestabilidade, o irmão gerente de “boca”.

Olhando essa descrição, a sensação é mesmo dos clichês de sempre. Felizmente, Winters preferiu tentar entender um pouco da dinâmica de quem está próximo do movimento, mas não consegue escapar dele. E nos inserir de forma quase genuína naquela casa, naqueles dramas. Como dito no começo, ele cai em suas armadilhas, mas cai de pé e sobrevive.

A Criança do Inverno

Publicado: julho 19, 2020 em Cinema
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L’Enfant de L’hiver / Winter’s Child (1989 – FRA)

Os personagens vivem de egoísmos amorosos, um deles larga a namorada grávida para se envolver com uma atriz que vive alimentada da paixão de um outro ator que apenas a manipula. Relacionamentos contruidos da decepção de outros, da esperança de conquistar quem não está verdadeiramente envolvido com você. Do início de carreira de Olivier Assayas, que filma quase em tom de amores platônicos, de vidas vividas em prol desse sentimento que escapa da racionalidade. Longe de seus trabalhos mais virtuosos, ainda assim um exercício que não chega a se aproximar do cinema de Garrel, mas que tem seus pontos em comum.

Honeyland

Publicado: junho 26, 2020 em Cinema

Medena Zemja / Honeyland (2019 – MAC)

As imagens são tão belas que a atividade do apicultor se torna, realmente, arte sob as lentes dos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov. Numa região inóspita da Macdônia do Norte, acompanhamos um pouco do equilíbrio entre apicultores e o ecossistema, afinal, parece até agressivo que o humano conduza a produção do mel e retire dali o quanto lhe interessa. Porém, a personagem central, uma mulher tão simplória que cuida também da mãe e do casebre sem luz ou qualquer outro conforto, tem forte esse aprendizado milenar de respeitar e extrair apenas parte do que as abelhas produzem.

Chega na região uma família, cujo patriarca é menos experiente e com a visão mais capitalista e imediata. O documentário se vira ao confronto entre o estilo dos dois apicultores, e os efeitos desses comportamentos díspares. Além da beleza das imagens, o importante do documentário está nessas pequenas coisas, o trato com a mãe, a vida modesta, as crenças e costumes, a esperança que um casamento possa trazer vida melhor…

Sete Anos em Maio

Publicado: junho 19, 2020 em Cinema
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Sete Anos em Maio (2019)

Penumbra e violência. “Vivo, morto, morto, vivo”, não é apenas uma representação teatral proposta na segunda parte do média-metragem dirigido por Affonso Uchôa, mas muito do estado de espírito que desemboca do depoimento de Rafael (que constitui a primeira parte). Ele que trafega pela sociedade, como um zumbi na marginalidade, no vício das drogas, envolto ao mundo do crime, num sistema que parece não leh permitir possibilidade de fugir, mesmo se quisesse. Uma bola de neve que cada vez mais o mergulha na desemperança.

Introduzione all’oscuro

Publicado: maio 29, 2020 em Cinema
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Introduzione all’oscuro (ARG – 2018)

Bonita homenagem do argentino Gastón Solnicki ao falecido diretor do Festival de Viena (Hans Hurch), criaram amizade por conta do festival e o diretor argentio faz uma viagem à Viena para falar do amigo, da cidade, e como um cineasta pode se encaixar e tornar um filme numa declaração de amor de amizade. Em uma das cenas, a câmera focaliza túmulos de artistas famosos no cemitério da cidade, Beethoven, por exemplo, e encerra com Hans, que trabalhou por vinte anos na Vienale e resgatou parte da importância do festival. Cheio de experimentações e contato direto com os mais diversos setores da arte, Solnicki não se furta de criticar a modernidade, como as redes sociais, também faz um cinema que não dialoga com todos os públicos, mas tem ali essa bela homenagem a quem deixou seu legado para o cinema.

Todos Somos Marinheiros

Publicado: maio 22, 2020 em Cinema
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Todos Somos Marineros / We’re All Sailors (2018 – PER)

Um navio pesqueiro russo parado na costa do Peru, a empresa dona da embarcação está quase falida, um embroglio para os três tripulantes que restaram. Elem passam semanas por ali, quase à deriva em terra firme, vendendo equipamentos para sobreviver. Vão se acostumando com o local, criando uma vida provisória, ou quase paralela a deles.

O diretor Miguel Angel Moulet surpreende ao criar essa sensação de personagens completamente perdidos, sem destino na imensidão daquelas paisagens. Muito mais que o fiapo de história, interessante é a maneira como Moulet transforma seu filme num conjunto de planos, muitos deles belíssimos, que captam o sentido de desorientação, sempre sob uma perspectiva de obervação. O carinho dos corpos nus sob a cama, o beijo e o abraço na cozinha do restaurante, a pequena discussão sob o barco num plano aberto que capta mais o espaço e menos o que fazem. Sonhos? Futuro? Ou viver um dia após o outro? E como ficam as pessoas com que eles se relacionam? Um dos mais interessantes filmes de estreia do ano.

A Segurança Interna

Publicado: maio 15, 2020 em Cinema
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Die Innere Sicherheit / The State I am In (2000 – ALE)

Um drama político e também um coming-of-age, o primeiro filme da Trilogia dos Fantasmas do cineasta alemão Christian Petzold unifica esses dois subgêneros, tão distantes aparentemente. Um casal de ex-terroristas alemães da década de 70 vive se esconcendo pela Europa, uma vida na clandestinidade com a filah adolescente. Enquanto se desenrola a trama de viver sob identidades falsas, com poucos recursos financeiros e quase como nômades, a filha chega numa fase em que precisa se descobrir, que se apaixona, que deseja, que precisa de amigos. A necessidade x estilo de vida criam um novo conflito familiar, e Petzold transforma os fantasmas do passado em novos obstáculos .

A Criança Zombie

Publicado: maio 9, 2020 em Cinema
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Zombi Child (2019 – FRA)

Novamente Bertrando Bonello navegando por grupos de jovens para tratar de temas que, normalmente, estão alheios a esse universo. Se em Nocturama ele tratava de terrorismo e de uma juventude que por falta de uma rebeldia mais contundente em casa, busca desafogar (seu vazio?) muito além. Aqui a juventude é representada num pequeno grupo de garotas, de um colégio interno de Paris, um pequeno clã que resolve aceitar a mais nova aluna, que se mudou do Haiti após a morte dos seus país no terretomo de 2010.

O filme também se passa em 1962, no  Haiti, o cineasta francês faz uma livre adaptação da história de Clairvius Narcisse, que diz ter voltado à vida como “zombie” para ser escravizado numa plantação de cana. Vale dizer que o cinema transformou a crença zumbi para o que conhecemos hoje, mas por séculos esteve ligada a vudus e um desprendimento da vida como se conhece, vagando quase sem vida, como uma nova entidade.

A unificação dos dois tempos seria o parentesco entre os haitianos. Enquanto Bonello constrói esse Haiti de cólera e identidade cultural, o desenlance amoroso de uma das garotas e o interesse das demais pelas histórias caribenhas completa a conexão entre fantasia e crenças espirituais, num estado parecido com que Nocturama possuía, o de deixar o público flutuando ao léu. Porque era essa minha sensação, meio anestesiado pelo zombi haitiano, e pela ingenuidade definitiva de um amor entre cartas. Reflexões sobre racismo e o colonialismo francês são possíveis, mas há principalmente esse toque de estranhamento de temas que o cineasta nunca permite que você possa tocar, mas estão ali, nessa mescla improvável de subgêneros do cinema que pode soar pedante ou densa.