Arquivo da categoria ‘Cinema’

Não Há Mal Algum

Publicado: agosto 24, 2021 em Cinema
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There Is No Evil (2020 – IRA)

Pena de morte, tão absurdo para alguns, a solução exemplar para punir e servir de lição para outros. O cineasta iraniano Mohammad Rasoulof sempre prezou por um cinema humanista, aqui ele constrói seu filme a partir de 4 histórias independentes, mas que tem sempre em comum o questionamento de como a pena de morte influencia os intimamente ligados a ela.

Com tons diferentes entre sim, as duas últimas, por exemplo, são melodramas bem tradicionais, Rasoulof é mais feliz no conceito, no mostrar o lado de quem fica, dessa forma indo além da discussão sobre um ser humano julgar a vida/morte de outro humano, seja lá qual crime tenha cometido. Se esse conceito é interessante, e funcional (dentro dele ainda há o serviço militar obrigatório), o filme, como um todo, é bem simplório (ainda que haja planos-sequencias nos corredores da segunda, ou o voyeurismo na primeira, que ajudem a quebrar o totalmente acadêmico), e até arrastado, se valendo unicamente do conceito como tripé para se estabelecer como obra.

Carro Rei

Publicado: agosto 18, 2021 em Cinema
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Carro Rei (2021)

O filme de Renata Pinheiro vem inovar na maneira de apresentar os efeitos do crescimento ideológico conservador, totalitário e ditatorial que ressurgiu com forças no Brasil, e em outras partes do mundo. A partir do realismo fantástico e do techno-extravagante, a diretora conta a história de um garoto que nasceu dentro de um carro e desenvolve a mágica capacidade de conversar com eles. O resultado é um embate entre natureza x tecnologia, o poder corrosivo do capitalismo e demonstrações dos perigos desse totalitarismo chegando ao poder. Tudo isso através de uma narrativa que usa Caruaru como um espelho desse país tanto em aspectos políticos, quanto sociais.

Bem interessante como Renata mescla todos esses elementos com essa cultura de amor aos carros que existe por aqui, com o jeitinho brasileiro de burlar as regras, de como as regras são criadas para interesses escusos e etc com esse cinema que representa o nordeste com todo seu jeito distante de como o Sudeste sempre os representou. Ao mesmo tempo que flerta com essa tendência de elementos fantásticos inseridos em dramas sociais.

A Primeira Morte de Joana

Publicado: agosto 17, 2021 em Cinema
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A Primeira Morte de Joana (2021)

Em seu segundo longa-metragem a diretora Cristiane Oliveira já delimita bem um estilo e um espaço a explorar. Esse Rio Grande do Sul longe da metrópole guarda histórias que a cineasta vem contar. Agora estamos na região litorânea, uma pequena comunidade de imigrantes alemães, e no protagonismo uma garota curiosa em descobrir porque sua recém-falecida tia-avó nunca namorou.

Aqui sexualidade á a tônica, desde seu interesse pela sexualidade dos outros, e por notar encontros sexuais antes não percebidos quando menor, até claro, a sua própria sexualidade. Bastante semelhante narrativamente a seu trabalho de estreia (A Mulher do Pai), o filme tece essa bonita mistura de olhar ao horizonte uma vida melhor nos que tem conexão com a Alemanha e esse conjunto de mulheres fortes que vagam entre o futuro e o conservadorismo nos costumes.

Homem Onça

Publicado: agosto 14, 2021 em Cinema

Homem Onça (2021)

Já se filmou o Brasil sob tantos aspectos sociais e políticos, talvez não sobre efeitos das privatizações. O governo FHC acelerou esse processo e muitas estatais foram vendidas em seu governo, os mais ligados à esquerda criticam veemente essa política que obviamente traz prós e contras. O cineasta Vinícius Reis se aproveita de uma história familiar para olhar o lado humano (desumano) das grandes corporações que tomam decisões frias apenas sob os aspectos contábeis.

Narrado paralelamente em duas linhas do tempo, numa delas Pedro (Chico Diaz), casado e com uma filha, é o líder de um projeto importante quando a mineradora estatal está para ser privatizada, anos adiante ele vive aposentado com uma namorada num sítio no interior. De um lado o combativo cinema de realismo social, capitalismo selvagem, desemprego, lucro, vários nomes de cineastas podem ser citados, mas aqui há uma brasilidade. De outro o sujeito que gosta de MPB e de seus vícios, porém murchou ao ser afastado do que o motivava, num flerte bem tímido com Mal dos Trópicos de Apichatpong.

Esses dois tipos de cinema citados podem parecer tão distantes, e o mérito de Vinícius Reis é mesmo de fazê-los convergir num filme de personagens complexos e tão brasileiros, de usar tantas referências e ainda assim fazer um filme seu.

Jogo do Poder

Publicado: agosto 13, 2021 em Cinema
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Adults in the Room (2019 – FRA/GRE)

Quem conhece o cinema de Costa-Gavras não duvida de suas convicções políticas, ainda que seu cinema revigorante do passado tenha ficado para tras em narrativas recentes mais preguiçosas, o embate de suas ideias estão sempre lá. Portanto, não seria surpresa se ele resgatasse a recente história político-economica de sua terra natal, que em 2015 tomou conta da União Europeia e dos noticiários internacionais.

Sim, cinematograficamente seu filme segue nesse ritmo nada criativo da última safra de sua filmografia, basicamente aqui um filme de diálogos e mais diálogos entre políticos e economistas (portanto, chato para muita gente, no é o meu caso que lembro bem de ter acompanhado todos os preços dessa confusão financeira grega. Alguém lembra dos bancos fechados e saques diários com valor máximo limitado?).

Dito isso, o que Costa-Gavras consegue, adaptando as memória do ex-ministro greto de finanças, é reconstruir fatos (do ponto de vista do ministro) e demonstrar como a Europa ficou refém de tecnocratas que só tomam suas decisões em suas roupas sociais chiques e hotéis caros. Com toques de uma trilha sonora levemente irônica, e a cena musical final surpreendente o cineasta consegue deixar suas alfinetadas com classe.

Tristana, Uma Paixão Mórbida

Publicado: agosto 2, 2021 em Cinema
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Tristana (1970 – ESP)

Este grande clássico marca o reencontro do cineasta Luis Buñuel com Catherine Deneuve após A Bela da Tarde, e sempre chama a atenção quando o cineasta espanhol usa também da narrativa mais clássica, ainda que sempre se destaque por criticas cruéis à sociedade. Aqui, seu alvo central é a Igreja católica que aceita que o tutor (Fernando Rey) de uma jovem (Deneuve) a tome por sua amante, quando se encanta por sua beleza.

É a política da aceitação da sociedade, o homem mais velho pode decidir por seus desejos, a jovem precisa aceitar e seguir a cartilha da etiqueta da aristocracia. Mas, ela se apaixona, e as consequências dessa realação se tornam desastrosas, até o final surpreendente que remete a uma inexplicável mistura de nojo e sensação de afeto familiar.

A Estrutura de Cristal

Publicado: julho 30, 2021 em Cinema
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The Structure of Crystals (1969 – POL)

A aparente simplicidade é apenas um despiste, a estreia de Krzysztof Zanussi é tuo menos simples. A sensação vem da vida dessa família que vive num local inóspito da Polônia, no meio da neve, enquanto os filhos crescem, ela é professora e ele administra um centro metereológico. A chegada de um grande amigo vem para trazer o que está acontecendo mundo afora e questionar essa escolha de se distanciar, vem ser o questionador, a provocação. São seis semanas de bate papo, e Zanussi nos faz acompanhar com intimidade a fraternidade, as opinioes opostas, os momentos mais simples da vida.

Piedra Sola

Publicado: julho 29, 2021 em Cinema

Piedra Sola / Lonely Rock (2020 – ARG)

Norte da Argentina e Chile, sul de Peru e Bolívia, e ainda um pedacinho de Brasil, por ali fica locais turísticos conhecidos como o Atacama e Salar do Yuni. É uma região onde as fronteiras entre os países nem fazem sentido, há até uma bandeira própria para a região, uma maneira de chamar o continente que não América, um movimento para criar um Estado independente. Muitas crenças e tradições, talvez o povo indígena mais presente da região sejam os aymaras (Evo Morales é um deles). Quem viajou por essas bandas vai entender melhor tudo isso.

Quando se viaja por esses pontos o que mais chama atenção é a beleza da natureza, os Andes, o pôr do sol. Exceto nas cidades maiores, quase nao se vê pessoas, espalhados por lugares inóspitos, em alta altitude. O filme é um pequeno mergulho nas pessoas, sem abandonar a natureza. Os pequenos fazendeiros que vendem carne de lhama, o puma que tem matado animais e eles discutem como lidar com ele, um funeral. As cores vibrantes da região, seus tons de marrom são substituídos por uma paleta de cinzas, pelos planos fechados nos rostos cujas marcas da vida escassa são marcantes. É um daqueles documentários pacatos, observacionais, que tenta resgatar o dia-a-dia com um mínimo de interferências nessas vidas.

Eu Vejo Nu

Publicado: julho 28, 2021 em Cinema
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Vedo Nudo / I See Naked (1969 – ITA)

Quando eu era criança, um livro na estante de casa me fascinava porque o título Eu Vim Nu me despertava curiosidade. Quando finalmente cresci e o li que fui descobrir que se tratava da biografia do escultor Rodin. O filme de Dino Risi não me enganou como o livro (que alias, recomendo), mas traz aquele pequeno sabor de promiscuidade soft, de divertir sem querer agredir a ninguém. Um conjunto de sketches que tem na sexualidade sua referência. Vai desde o a musa que atrai mais atenção num hospital que o acidentado que ela socorre, até o homem que gosta de se vestir de mulher, passando pelo que tem fetiche por trens e termina com a história do que vê todas as mulheres nuas. Nada engenhoso, mas bastante divertido.

Tratamento Diabólico

Publicado: julho 27, 2021 em Cinema
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Traitement de Choc / Shock Treatment (1973 – FRA)

“Paraíso de pobre é enterro” parte da canção de Martinho da Vila que fecha o filme é apenas mais um dos elementos de critica que o filme evidencia. Além da questão da exploração da imigração, há a crítica ao culto da beleza, uma clinica que encontrou um estranho tratamento para rejuvenescer seus clientes enquanto os jovens atendentes vão desaparecendo lentamente.

O thriller psicológico dirigido por Alain Jessua, e que tem Alain Delon como vilão é só esforçado, mas guarda umas duas sequencias razoáveis. Duro é buscar nos selvagens brasileiros, e a música brasileira está lá várias vezes para nao fazer esquecer, a inspiração para atender os caprichos dos “fortes” (podemos dizer fortes economicamente aqui)