Arquivo da categoria ‘Cinema’

Behemoth

Publicado: fevereiro 11, 2019 em Cinema
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Bei xi mo shuo / Behemott (2015 – CHI) 

As imagens são belíssimas, a paisagem quase sempre cinza ou verde nos longos planos abertos dão sensação de uma imensidão única. O diretor Liang Zhao traz a tona a condição das minas de carvão na Mongólia Interior (província na China ao sul da Mongólia). Cidades fantasmas cujo governo tenta povoar são o menor dos problemas, a situação médica dos trabalhadores das minas é que é chocante. Numa das inúmeras cenas exasperantes um deles mostra as mãos cheias de calos, apenas uma pequena amostra do que o cinema pode oferecer entre dor e beleza. Mas Liang também quer ser poeta, e essa tarefa é bem mais difícil e nem sempre tão bem sucedida.


Festival: Veneza 2015

Mostra: Competição

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The Green Fog (2017 – EUA) 

Guy Maddin já conseguiu ser bem mais criativo do que aqui, onde ele tenta trabalhar só com colagens de outros filmes clássicos para criar uma homenagem a Um Corpo que Cai e à cidade de São Francisco. Codirigido pelos irmãos Evan e Galen Johnson, demora um pouco até sacar que a montagem tenta recriar o clássico de Hitchcock, e logo a seguir a proposta cansa, até porque as conexões não são tão perfeitas assim. O resultado final é um remendo curioso, e um jogo de tentar adivinhar os filmes que estão sendo utilizados na montagem enquanto surge a estranha névoa verde.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Der Letzte Mann / The Last Laugh (1924 – ALE) 

A desconstrução através da decepção. O porteiro de um hotel vivia orgulhoso, como se fosse aquele um dos empregos mais pomposos do mundo, abrir as portas e carregas malas aos hóspedes. Um novo gerente, um pequeno fraquejo e o porteiro é transferido para uma atividade mais leve, cuidar da higiene do banheiro masculino.

Começa a destruição moral e social do sujeito. O ator Emil Jannings é vital para o filme de Friedrich Wilhelm Murnau, capaz de transparecer todo o processo que perda de sua autoconfiança, do orgulho pessoal, até a posição caquética, quase um ser vegetativo, nem sombra daquele homem tão realizado. O epílogo guarda uma surpresa, um plot twist de roteiro, mas o marcante ficou mesmo um pouco antes, a solidão daquele olhar completamente desiludido, a desesperança marcada pela completa entrega à derrota. Um filme surpreendente, de uma cineasta que não se cansava de nos surpreender.

Minding the Gap (2018 – EUA) 

Skate Kitchen (2018 – EUA) 

Skate e Sundance. Além de ambos terem sido destaque no festival indie, chama atenção nos dois filmes dessa ligação umbilical de seus personagens com a prancha com rodinhas. O primeiro é um documentário que acompanha a vida de três amigos (o diretor, Bing Liu, é um desses personagens) entre as pistas de skate e detalhes da vida pessoal, o que temos é um retrato de juventude em uma cidade americana cujo empregos se tornam mais escassos ao longo da vida. Quase um coming-of-age documental, Bing aprofunda o relacionamento de cada um deles com os pais, abusos infantis, paternidade precoce, e o resultado do amadurecimento de cada um.

Já Crystal Moselle havia se destacado pelo documentário Irmãos Lobo, e agora ataca na ficção com a história de uma garota, de origem latina, e todas as dificuldades de sua juventude. Esse sim um típico coming-of-age traz a relação com a internet, a descoberta de novas amizades e afinidades, a relação com drogas e sexo, e os eternos problemas com os pais. Por quase uma hora, Moselle mantém sua câmera e narrativa numa proximidade que quase desnuda sua protagonista, na parte final não mantém o mesmo ritmo. Ainda assim, novamente se coloca como uma cineasta para se manter no radar.


Festival: Sundance 2018

Won’t You Be My Neighbor?

Publicado: janeiro 21, 2019 em Cinema
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Won’t You Be My Neighbor? (2018 – EUA) 

Em foco a figura de Fred Rogers, o apresentador de programas infantis, que marcou época, por décadas, com Mister Rogers’ Neighborhood. O documentário mostra muito sobre sua filosofia de vida, a proximidade religiosa, e a maneira com que conquistava as crianças na maneira simples de falar. A estrutura do filme de Morgan Neville não vai além das entrevistas e imagens de arquivo, o retrato de Fred Rogers é chapa branca, quase de um messias que veio dos céus para nos proteger. Por outro lado, é através dessa figura simples e caridosa que o filme consegue propor o interessante debate sobre intolerância e preconceito,

Fred Rogers teve coragem de aceitar a todos como são, e sociedades moralistas reinvindicaram essa “aceitação” a favor de gays. O debate, que fica reservado para o final é tão atual, com as novas configurações de sociedade que o planeta tem testemunhado, que aquele detalhamento de como Fred Rogers saiu de uma pequena emissora de tv até chegar a debater com o senado, se tornam importantes para a construção desse personagem fiel a suas crenças.

Paulo Autran – O Senhor dos Palcos (2017) 

Recordo de ver Paulo Autran três vezes, e em todas elas reinou uma sensação de fascínio e hipnose. Duas delas foram em peças de teatro (Visitando Sr. Green e O Avarento), ambos no fim da sua carreira. A outra vez foi no cinema, sentamos na mesma fileira, no Espaço Unibanco, para ver Longe do Paraíso. Precisei de uns dez minutos para conseguir me concentrar no filme sem lembrar que ele estava ali, com olhos atentos e admirados à tela.

O documentário produzido pelo canal Curta! É um típico produto televisivo. Cheio de entrevistas e fotos da carreira do “senhor dos palcos” e alguma inserções de atores atuando textos pessoais dele. Tal qual um programa de tv que faça homenagem a um personagem. Nessa colagem, dirigida por Marco Abujamra, fica clara a importância do teatro em sua vida e a relevância de sua figura para o próprio teatro brasileiro. É bonito de ver alguém tão encantado por sua profissão.

Enfim, o filme se encaminha para o seu final, muito mais com seu conteúdo jornalístico do que como experimentação cinematográfica. Eis que surge Fernanda Montenegro em cena e lê uma carta que Paulo Autran escreveu a ela, já em seus últimos dias e o momento se torna arrebatador. Tristeza e melancolia capazes de expressar bem uma vida dedicada à profissão.

The Silence of Others (2018 – ESP) 

O horror em forma de documentário das memórias de parentes que perderam seus familiares durante o regime da ditadura militar de Franco na Espanha. O diretores Almudena Carracedo e Robert Bahar resgatam imagens de arquivo e entrevistas, que auxiliam a recordar a Lei da Anistia e outros tantos absurdos. A denuncia que esses momentos históricos não são bem detalhados nas escolas, o homem que vive perto do seu torturador, as histórias são as mesmas que os regimes latinos também passaram, demonstrando que na Europa a falta de democracia e liberdades também fez suas vitimas e deixou sequelas.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama Doc