Arquivo da categoria ‘Cinema’

System Crasher

Publicado: novembro 5, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Systemsprenger / System Crasher (2019 – ALE)

Um crash no sistem de todos à sua volta. O filme dirigido por Nora Fingscheidt é bem competente em causar esse turbilhão no público. Trilha sonora agitada, uma garota de 9 anos explosiva, inquieta, realmente incontrolável. Que boa surpresa o escolhido da Alemanha ao Oscar.

Sua fortaleza vem da capacidade de provocar o público, em deixar sensação parecida ao estar à flor da pele, tal qual vivem todos os responsáveis por Benni. Que precisa tanto de carinho, e sua carência se reatroalimenta em mais explosividade. Moderninho na montagem e aflitivo em tantas sequências que nem te dá tempo de ter pena desse pequeno furacão humano cuja impulsividade parece mais que o estado de espírito, mas sim o modus operandi. E quando você consegue respirar, por um segundo, bate a tristeza em constatar que é só uma criança.

Dente de Leite

Publicado: novembro 4, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Babyteeth (2019 – AUS)

Com todas as afetações dos losers de Sundance, e ainda bebendo da fonte de A Culpa é das Estrelas, o filme  constrói um coming-of-age de personagens desregrados, dependentes químicos, cheios de problemas familiares, e a adolescente com câncer. Dirigido por Shannon Murphy, funciona melhor nos momentos de comédia romântica adolescente, ou nos dramas e carências do pai, mas é tanta afetação que só poderia acabar em sentimentalistmo barato.

Official Secrets (2019 – EUA)

Um pouco da história de Katharine Gun (Keira Knightley), uma tradutora de mandarim da agência britânica de segurança nacional, que tomou coragem de trair os procedimentos e vazar à imprensa um memorando secreto que entregava mentiras do primeiro-ministro britânico quanto a posse de armas de destruição de massa por parte de Saddam Hussein, não justificando assim a Guerra do Iraque.

Dito isso, e toda a coragem de seguir seus princípios, e arcar com as consequências, Gavin Hood transforma essa história num thriller político banal, apenas preocupado em reconstituir a história, o julgamento, e os trâmites jurídicos. Um filme preguiçoso que facilmente poderia ser substituído por um bom artigo de algum órgão de imprensa.

La Odisea de Los Giles (2019 – ARG/ESP)

Seguindo a forte tradição de um cinema popular argentino, de roteiro bem amarrado e narrativa simplória, com grande penetração no mercado internacional, o diretor Sebastián Borensztein volta a trabalhar com Ricardo Darín (basta lembrar de Um Conto Chinês?) e é a aposta de nosso Hermanos para a temporada de premiações.

Alguém se lembra do corralito? Quando o governo argentino confiscou o dinheiro de todos nos bancos e causou um alvoroço inacreditável? A trama parte do fato histórico e crua uma comédia de assalto de um grupo que quer vingança de quem os enganou um dia antes do corralito. Trafegando entre o humor e uma fantasia pé no chão, o cineasta Borensztein está mesmo entregando diversão ao público pouco exigente, que pode se esbaldar com pitorestas piadas de pequenos absurdos. Atores no piloto automático, pequenas provocações de política regional. É o argentino rindo de suas próprias desgraças, em breve teremos filmes sobre medidas dos governos Kichners ou Macri, porque o material é farto para esse tipo de cinema.

Technoboss (2019 – POR)

As neuras de quem está à beira da aposentadoria e já perdeu o filtro de manter estabilidade de todas as facetas da etiqueta social. Ele é rabugento, é cínico, ele canta (todos os estilos musicais que vc possa imaginar). Technoboss é daqueles filmes que fogem dos padrões, tal qual os filmes de João Nicolau que ataca novamente com seu cinema despojado e irreverente, de humor de pequenos absurdos, das pequenas manias, sempre em direção aos mesmos dilemas que todos temos. Divertido, sem precisar ser hilário, um saboroso devaneio sobre a velhice, sobre o choque entre o velho x novo, uma pequesa sátira ao estilo português médio de ser, e às conveções profissionais que perduram até hoje.

Surdina

Publicado: outubro 29, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Surdina (2019 – POR)

Muito tenra a comédia dramática dirigida por Rodrigo Areias através dos rincões portugueses. A história de um homem “viúvo” e solitário, cuja mulher reaparece. Ferramenta para inserir tantos elementos da cultura popular portuguesa, do lado beato do povo às fofocas e intromissões de um pequeno vilarejo, dos costumes casamenteiros à aspereza no trato. E, no meio de tudo isso, através desse olhar singelo do diretor, de planos fixos e profundidade calculada para nos envolver, sem sufocar os personagens, uma população alheia à mudança e um homem antiquado até ter seu brios provocados.

WASP Network (2019 – EUA/BRA)

Olivier Assayas não conseguiu, dessa vez, realizar um thriller de espionagem daqueles. Adaptando o livro escrito por Fernando Morais, e entre tanta preocupação em contar mais e mais fatos da trama de espiões cubanos, em Miami, infiltrados para desmantelar grupos anticastristas, o que o filme deixou foi a sensação de faltar aquele punch. O todo é genérico, tal qual o elenco de estrelas latinas, de diversos países, tentando imitar o sotaque cubano.

O cineasta francês é sempre elegante na forma de filmar, e aqui realiza, talvez, seu filme mais radiante, influenciado pelo sol dos mares que separam EUA e Cuba. Porém, O resultado é um conjunto de fatos embaralhados em ordem não-cronologica, sem que você entenda muito bem o porquê de embaralhar tanto arcos e fatos que corriam paralelamente, mas são revelados tão a posterior. A trama era intrigante por si, afinal tantos agentes infiltrados, a Rede Vespa, e os arcos quase se fecham como capítulos, quase como um seriado. Destaque mesmo para Penelope Cruz e os dramas de uma esposa de militar envolvido em atividades de guerrilha.