Arquivo da categoria ‘Cinema’

Once Upon a Time in… Hollywood (2019 – EUA)

O título já sugere o conto de fadas, mas um conto de fadas tarantinesco, com tudo que o liquidificador do cineasta consegue bater até produzir outro filme delicioso. Delírios de cinéfilos à parte, com ênfase nas referências que Tarantino tanta gosta de usar, o que temos é uma homenagem à Hollywood dos anos 70. E uma homenagem que se concentra num ator em decadência e em seu dublê, e a partir dele transitar por um grupo de personagens reais que vão desde a família Manson, até Roman Polanski e Sharon Tate, até desembocar no trágico momento em que esses dois grupos se encontraram na história.

Em tom de comédia dramática, Tarantino nos guia pelos bastidores da indústria do cinema: casting, series genéricas, jantares de emprego, famosos arrogantes,  mansões e suas festas, mas também pelo prazer da estrela em ascensão. Enfim, um apanhado de comportamentos e personagens que revelam um belo raio-x da época.

Personagens carismáticos, grandes sequencias em que Tarantino destila todo seu estilo, até um final apoteótico e sanguinário que leva muitos ao delírio. O diretor novamente entrega muito do que se esperava. Ainda me permito questionar se suas escolhas não possam soar ofensivas, quando sabemos como a história real transcorreu, e a violência debochada pode parecer agressiva, mas que condiz totalmente com seu cinema, isso não se pode negar, por isso que é um questionamento, e não uma afirmação. O filme de Tarantino está ai, para ser admirado, questionado, porque indiferentes eles nunca serão.

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A Longa Caminhada

Publicado: setembro 5, 2019 em Cinema
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Walkabout (1971 – RU/AUS)

Walkabout faz referência a um costume aborígene de lançar jovens, quando chegam na adolescência, a passar um tempo vagando no deserto, uma forma de acelerar a maturidade. O diretor britânico Nicolas Roeg parte do conceito para criar o walkabout de uma jovem, e seu irmão pequeno, vagando perdidos pelo deserto, após a morte do pai, até encontrarem com um aborígene em seu período de walkabout.

Os três passam alguns dias vagando, criando uma forma de comunicação, se adaptando entre si. E assim, o cineasta cria um filme tão cru e inesperado em seus caminhos, tanto no que se refete à sobrevivência, quanto à comunicação, ou os sonhos. A paisagem árida, o tom de aventura e de total noção de estar perdido dá lugar a essa possibilidade de explorar o desconhecido, de vivenciar  a caça para ter o que comer, ou cavar a terra para encontrar água.

E Roeg não fica apenas com essa vivência das diferenças, ele também ousa ao inserir imagens, entre cortes secos, que fazem referência ao nosso capitalismo perverso. Em provocar a proximidade sem que haja tensão sexual explicita, ou sensualizar uma Lolita. Prefere a poesia dura do final do filme, quando a esperança renovada de um marca a desesperança de outros. É o tipo de filme que só cresce na memória.

Alice et Le Maire / Alice and the Mayor (2019 – FRA)

Diretamente da Quinzena dos Realizadores, de Cannes 2019, o filme dirigido por Nicolas Pariser é uma comédia dramática política de uma jovem (Anaïs Demoustier) recém-formada em Filosofia que entra para a equipe do prefeito de Lyon, porque ele está sofrendo um bloqueio criativo de ideias.

Entre apresentar um pouco do caos da administração da prefeitura, jogo de egos, mudanças de direção, o filme ainda tenta se estabelecer na vida da própria jovem: vida amorosa, capacidade de sintetizar ideias, ou rapidamente criar uma relação de admiração e ascenção politica sob o prefeito. Tirando o plano-sequencia com sua chegada à prefeitura, o restante varia entre um cinema pouco criativo e uma personagem que agrada sem parecer se encaixar no grupo de personagens que orbitam à sua volta.

O Rio

Publicado: agosto 22, 2019 em Cinema
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Ozen / The River (2018 – CAZ)

Agora em seu terceiro filme, Emir Baigazin segue fiel as características marcantes de sua filmografia. Pelos temas, novamente partindo do prisma de crianças e adolescentes, bullying, conflitos, amadurecimento precoce e rivalidade. O Anjo Ferido trazia quatro contos, de diferentes jovens, em suas situações desse tipo. Mais vigorosa era sua estreia, Lições de Harmonia, com mais foco em bullying e e violência caseira. Não é diferente nessa história de cinco irmãos vivendo numa vila remota, longe de tudo e de todos. O pai nunca os levara ao rio, perto de casa, e a descoberta desencandeia a trama.

Agora podemos falar na questão visual, e Baigazin segue com seus planos que mais parecem fotografias belíssimas, um cuidado meticuloso com cada posicionamento de câmera, com cada ângulo que possa entregar a conjunção perfeita entre homem e natureza, as vezes flertando com a natureza morta de quadros de Paul Cézanne, em outras com o resplendor do encontro entre céu e rio. A trama em si pouco se desenrola além dos conceitos morais de crianças tão ingênuas, um deles desaparece e há o peso da culpa recaindo. Além disso, as interpretações não são nada naturais, quase sempre falam em posição estática (assim como os planos fixos permanentes). Ocasionando assim, em mais um filme lindo, mas que não instiga.

Cubra Libre

Publicado: agosto 15, 2019 em Cinema
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Cubra Libre (1996 – ALE)

Em outro filme feito para a TV, Christian Petzold filma inspirado pelo clássico noir Curvas do Destino. Personagens marginais, fotografia suja, o cineasta alemão deixa tudo muito cru enquanto retrata os encontros e desencontros de um homem e uma mulher, com um passado de mágoas e desconfianças, que ainda nutrem o sonho de fugir, com dinheiro, para Cuba. Trambiques, gangsters, chave de cofre de um banco, sexo, sangue e morte. Por meio de personagens tão encardidos, Petzold filma os sonhos de uma vida fácil, de pessoas à procura do atalho no meio de uma estrada barrenta e cheia de competidores.

Ilha

Publicado: agosto 8, 2019 em Cinema
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Ilha (2018)

Depois do sucesso de critica, a dupla Glenda Nicário e Ary Rosa volta com altas doses de experimentação. Começando pela trama onde um jovem da periferia quer fazer um filme sobre sua vida e sequestra um cineasta baiano e o obriga a realizar as filmagens. Muita licença poética na forma de convencer, de evoluir entre ficção e docudrama, enquanto os diretores filmam ângulos mais que inusitados e um ritmo narrativo que foge, completamente, dos padrões estabelecidos.

Tanta experimentação é um risco que a dupla corre, e nem tudo funciona. Algumas cenas são vistosas e funcionais, outras ficam apenas na vontade de experimentar formatos e maneiras de abordar esse misto de repulsa, amizade e atração. Música, o beira-mar, o vento do fim de tarde, e o resgate de memórias afetivas ou traumáticas, está longe do onírico, mas quase radical em muitas de suas propostas.

Heartboud: A Different Kind of Love Story

Publicado: agosto 1, 2019 em Cinema

Hjertelandet / Heartbound (2018 – DIN)

Janus Metz é um cineasta para ficar atento, após seus dois bons filmes anteriores: o documentário Armadillo e a ficção Borg vs McEnroe. Aqui ele divide a direção com sua esposa, Sine Palmbech, e juntos acompanharam por mais de 10 anos um grupo de mulheres tailandeses que se mudaram para a Dinamarca para arranjar marido.

São histórias de todos os tipos após os encontros arranjados, de relacionamentos duradouros a separações traumáticas, de filhos a desolação da separação. Mulheres que saíram da prostituição, as que deixaram famílias que dependem delas economicamente. Acima de tudo são  histórias de amor, que o casal de cineastas pouco interferem, e assim confirmamos que não há regras para coisas do coração.