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La Mafia Non E Piu Quella Di Una Volta / The Mafia Is No Longer What It Used to Be (2019 – ITA)

Talvez tardiamente, mas descobrindo agora o cinema de Franco Maresco, e a primeira sensação é e um Michael Moore à italiana, que manipula seu filmes entre o documentário e o humor negro. O diretor se impõe com cinismo entre os diálogos, e assim dá o direcionamento critico que deseja sobre os temas abordados.

Aqui ele retoma personagens de fimes anteriores, e cria um antagonismo entre a fotógrafa Letizia Battaglia e o apresentador de shows Ciccio Mira. Sob o pretexto de relembrar os 25 anos da morte de Falcone e Borsellino pela máfia de Palermo. Battaglia dedicou parte de sua vida dedicando-se a tirar fotos dos homicidos orquestrados pelso mafiosos, enquanto Ciccio usaria seus shows e programas de tv para mandar mensagens aos mafiosos presos.

O mais interessante, talvez encenado, são as cenas em que os personagens preferem se esquisar de falar da máfia, criticar, fazer qualquer menção, saindo sempre pela tangete ou preferindo silencio. Temor de represálias até hoje ou respeito e preferencia pela Cosa Nostra? Maresco gasta tempo demais com personagens pitorescos e os shows bregas de Ciccio, mas tem seus momentos cínicos e curiosos quando expõe essa sociedade de Palermo tão enraizada pelo respeito e convívio com os mafiosos

La Mala Noche

Publicado: fevereiro 19, 2020 em Cinema, Mostra SP
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La Mala Noche / The Longest Night (2019 – EQU)

O escolhido pelo Equador para a corrida do Oscar de Filme Estrangeiro resgata o tema do tráfico de pessoas e prostituição. A pauta sempre será urgente, uma das muitas formas de escravidão da sociedade moderna, mas o filme de Gabriela Calvache não escapa dos clichês com filho doente, e uma fase final thriller dos mais banais que apenas generalizam e suavizam a força da denúncia que a primeira parte poderia pregar.

Fourteen

Publicado: fevereiro 13, 2020 em Cinema
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Fourteen (2019 – EUA)

Interessante como o diretor Dan Sallitt dá protagonismo à melhor amiga, uma espécie de voyeurismo da destruição psicológica de quem seria, normalmente, a protagonista da história. Se coloca como um filme pequeno, essencialmente pacato, estabelecido através de muitos diálogos, e dessa visão de camarote de uma jovem cuja carisma e autoconfiança vão se diluindo com o passar do tempo.

Uma década de amizade e os vai e vem da vida diminuem o ritmo do contato pessoal, mas nunca o grau de intimidade delas, por meio de elipses o filme faz notar os estágios avançando da depressão, e como a amiga faz o que pode para dar suporte, enquanto tenta levar sua vida cotidiana. Fica esse sabor interessante de sempre acompanhar uma personagem cuja vida se desenvolve, mas toda a carga dramática do filme está na coadjuvante que nem sempre se encontra na tela.

The Lighthouse (2019 – EUA/BRA)

Da turma dos grandes filmes do ano, o novo trabalho de Robert Eggers flerta com o cinema de Bergman, mas prefere o humor e o horror do que o estudo psicológico de um Persona, por exemplo. Talvez porque aqui estejamos diante do tese de convivência de dois homens, e sua virilidade e fragilidades estão expostas de maneiras bem diferentes do que a manipulação sugeria no clássico do cineasta sueco.

Um farol no meio do nado, os dois homens (Dafoe e Pattinson) chegam para trabalhar por uma temporada ali, completamente isolados de qualquer sinal de sinalização. Os dias passam entre confrontos, bebedeiras, imposição de poder, e os seus maiores medos deflagrados. Eggers opta por sugerir tudo, de alguma tensão sexual à fantasia com uma sereia, até os segredos e barulhos da sala trancada em que só homem mais velho pode entrar, assim como os segredos que levaram o mais jovem a aceitar aquele emprego.

Memórias, histórias, respeito e desaforo. O Farol é sobre essa relação masculina, é sobre os altos e baixos, sobre angústia e caos. Interessante como o filme não ganha tom teatral, Eggers opta pela fotografia em preto e branco, por enquadramentos que explorem corpos, relações e espaços, e além de dar sua dose de fantasia, realizando assim um filme que foge muito dos padrões mais comerciais, que grita por uma tela grande e som potente, e pela possibilidade de imersão do público nesse lugar fétido e misterioso.

Savovi / Stitches (2019 – BOS)

Mais de 500 bebês desapareceram entre 1998-99, na Guerra de Kosovo. O diretor Miroslav Terzic resgata esse período conturbado, que ainda nem está totalmente resolvido, entre os países da região dos Balcãs, e o faz por um trauma como esses. Já se passaram dezoito anos que seu bebê ter sido declarado morto no parto, ela (Snezana Bogdanovic) tem outra filha, um emprego, sua família, mas o desespero por não superar e duvidar que seu filho não tenha sido sequestrado é latente em seu rosto. O que lhe resta é investigar, tantos anos insistindo com a polícia, com órgãos da prefeitura, com quem se possa imaginar.

São cicatrizes que se fecham, a vida dessa mulher não vai além do piloto-automático, entre o robotizado e o catatônico. Quer resposta, quer o filho, por mais que esteja anos negligenciando a tudo à sua volta. Quem descobrir o filme vai acompanhar a trama e seu desenrolar, o mais importante é como Terzic e sua atriz conduze o filme de forma sóbria, e nunca melodramática, de maneira que possa aprofundar nas cicatrizes e buscar um fio de esperança, onde quer que seja.

The Two Popes (2019 – EUA)

Em alguns momentos, o filme chega a ser delicioso, o confronto de estilos das duas figuras eclesiásticas oferece uma comédia saborosa entre o sisudo alemão e o simpático sulamericano. E, estamos falando dos dois últimos papas da Igreja Católica, figuram tão conhecidas quanto famosas recentemente, o que torna tudo mais difícil.

Os últimos trabalhos internacionais de Fernando Meirelles não vinham obtendo aquele sucesso todo, mas esse filme produzido pela Netflix, e exibido no Festival de Veneza, recoloca o brasileiro na mira dos cinéfilos. Estamos diante da duas últimas sucessões do papado, tanto a que escolheu Bento XVI (Anthony Hopkins), quanto a que tornou Papa Francisco (Jonathan Pryce) o líder do Vaticano. E Meirelles conduz a trama entre curiosidades do processo de votação e outros rituais internos, e esse processo surpreendente que culminou na passagem de bastão entre eles.

É também um veículo interessante para resgatar a biografia do Papa Francisco, ainda que seja a parte mais protocolar e apenas informativo do filme que filma em preto e branco situações na Argentina sob ditadura militar, por exemplo. Bom mesmo são os encontros ensolarados, ou em quartos com tv ligada, entre os dois, divergindo sobre pontos cruciais da Igreja, discutindo aposentadoria, e criam um convívio cuja harmonia quase se alimenta do caos. Meirelles abre um canal de intimidade do público com aquelas duas figuras, cujas interpretações de Hopkins e Pryce evidenciam ainda mais essa familiaridade surpreendente e espontânea. É claro que o filme tem um quê de chapa-branca, que mesmo em assuntos tabus prefere um ar mais leve, mas é realmente calcado nesse embate de estilos, e não o filme definitivo sobre a Igreja Católica e seu lado obscuro.

It Must Be Heaven (2019 – FRA)

Adorável a nova investida cômica de Elia Suleiman, assumindo ele mesmo o papel de protagonista de um imigrante, que deixa seu país, mas quanto mais se distancia, mais encontra proximidades. Um país que não é país, um povo sem nação. Dentro ou fora da Palestina, ele encontra racismo, problemas com a polícia ouo imigração, e essa sensação de não pertencer a lugar nenhum, o ar inferiorizado. Da rua onde mora a Paris ou Nova York, o palco muda, mas os comportamentos e dificuldades permanecem. Um jogo de esquetes de quem procura um paraíso, de quem procura oportunidades para seguir filmando, mas sempre encontra olhares desconfiados, portas fechadas e muita indiferença.

Sinônimos

Publicado: dezembro 16, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Synonymes / Synonyms (2019 – FRA)

Estamos muito acostumados a ver no cinema reflexões da cultura israelense, sempre em oposição ao Islamismo, à Palestina. Nadav Lapid e seu cinema questionador e inquieto parte para um estudo mais profundo do ser israelense. Altamente autobiográfico, Lapid conta de suas experiências quando tentou renegar sua cultura, seu idioma, seu povo e se mudou para a frança, com uma mão na frente e outra atrás, se afastando da família, das crenças religiosas e do exarcebado militarismo israelense

Yoav (Tom Mercier) é esse alterego, que em contraste com dois jovens burgueses franceses, e uma narrativa que quase se divide em esquetes, permite que o cineasta construa um personagem de complexidade ímpar. O desenrolar da trama do jovem que tem sua roupa roubada e quase morre de frio, ao chegar à Paris, é de uma explosão de sensações. Afinal, é tão latente esse desejo de aversão à sua nacionalidade e um desejo de assumir uma nova identidade, mas o choque com a realidade dessa nova sociedade causa ainda mais turbulência nessa mente inquieta. Seria a decepção por encontrar enraizado os mesmos comportamentos, mesmo numa cultura aparentemente tão diferente ou é só diferente pelo ar pedante e a falsa sensação de evoluição cultural?

Lapid filma com a urgência que o discurso de Yoav pede, como na incrível cena inicial em que ele corre por uma Paris vazia, e a imagem granulada focaliza suas pernas aceleradas. E o filme todo tem essa urgência de criticar o Estado de Israel, assim como ao França, ninguém está livre desse olhar destemido de Lapid.

Marriage Story (2019 – EUA) 

O tema da separação, do fim do matrimônio, é um tema caro a Noah Baumbach, e ele está de volta, dessa vez, provavelmente, com mais alcance do que nunca. Scarlett Johanson e Adam Driver formam o casal de atriz e diretor de teatro cujo em processo de separação. Muitos tentam comparar o filme com o clássico Cenas de um Casamento, do Bergman, não façam isso, por favor.

Temos aqui um filme que se equilibra na irregularidade dessa fase de separação. A dor da separação, sentimentos misturados, a imposição de vontades próprias, a descoberta do outro em momentos de fúria, ou de egoísmo. Mas, algumas escolhas do roteiro beiram à vilanização de personagens e situações, ou de criar algumas cenas necessárias para dar palco a interpretações mais explosivas. Há risos e choros, há longas cenas com advogados, e outras com o filho ou com a família que deixa de ser sua. Quando um casal se separa, todos se separam de alguma forma, família, círculo social, e mais adiante, tudo se reestabelece. Mas o filme de Baumbach, talvez seja, condescendente demais com a persona masculina, e o desequilíbrio na balança atrapalha. Ainda assim, é o tipo de filme que não temos visto atualmente, não dessa forma, e com um tipo de situação que segue sendo mais que rotineira. Afinal, esse amor da alma gêmea só se vive mesmo nas músicas pop e nas comédias românticas.

Atlantique / Atlantics (2019 – SEN/FRA)

Ada (Mame Bineta Sane) ama, sofre, se rebela aos costumes, encontra pouco apoio até em suas amigas. Ela é a figura central, aos 17 anos prefere viver pelo que acredita do que a comodidade que a maioria preferiria. Perdidamente apaixonada por Suleiman (Ibrahima Traoré), pedreito de um prédio de luxe em construção, sem receber salários há três meses.

O filme se divide em diversas frentes, uma delas é esse estudo da vida de Ada e das amigas à sua volta. Seu lado guerreira e arredio, antagônico a futilidade de algumas de suas melhores amigas. É desse parte da trama que nasce o aspecto policial, numa investigação confusa, e um policial cuja participação na história parece deslocada, um tipo de mistério que nem carrega tantos questionamentos.

Mati Diop se equilibra entre a poesia do belo mar do Senegal, a generosidade da descoberta do amor entre esses dois jovens e o confronto social entre os empregados sem salário e o patrão e seu casarão. Sua forma não usual de filmar traz beleza mesmo em locais tão pobres como a caçamba de um caminhão ou o jogo de olhares entre os trens. Diop era a atriz do filme 35 Doses de Rum, de Claire Denis, e é fácil notar onde o cinema das duas se encontra, quando o lado fantástico da história ganha espaço.

Atlantique flerta com a poesia, mas é bem direto em seu discurso social e da posição feminina na sociedade. Um acidente trágico, mulheres-zumbis, o olhar enigmático de Ada, há muito para se mergulhar no mar cinematográfico que o filme propõe.