Arquivo da categoria ‘Cinema’

Pilots

Publicado: abril 8, 2019 em Cinema
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Pilotinnen / Pilots (1995 – ALE)

Trabalho de conclusão de curso de Christian Petzold, foi o primeiro de um total de três telefilmes que o cineasta alemão dirigiu no início de carreira. Em entrevistas ele diz que se inspirou muito em O Último Golpe, de Michael Cimino, nessa estrutura de um fora da lei mais velho e outro apenas começando. Mas, a referência a cultura americana vem de outra forma em sua estreia, na tv e no rádio a noticia da morte de Frank Sinatra, filmes e músicas a todo o momento, as mulheres lamentam a morte do galã.

A trama gira em torno de duas mulheres, vendedoras externas de uma empresa de cosméticos (Blue Eyes, coincidência ou Sinatra novamente?) viajando pela Alemanha a fim de bater as metas de vendas. Rivalidade acirrada pelo emprego entre a mais jovem e a experimente é a tônica da primeira fase da trama. Promiscuidade e ganância competem com desesperança e a submissão feminina. Não se poderia esperar que toda a disputa e humilhações entre as mulheres a levariam a segunda parte da trama, uma espécie de fuga à Bonnie & Clyde (mas sem que exista relação  sexual entre elas).

Petzold já emprega os primeiros sinais do que usaria na narrativa para realizar seus melodramas mais recentes, mas aqui bem num estilo bem mais cru. Pouco a pouco o capitalismo se torna um dos grandes vilões da história (o outro é obviamente o chefe/amante, que representa a figura masculina opressora que se impõe através do seu poder), o que une as mulheres que viviam sob ódio mortal. O sonho de enriquecer, de mudar para Paris, mas mesmo a proximidade ainda guarda resquícios da rivalidade e da visão vulgar da amiga/oponente.

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Girl

Publicado: março 25, 2019 em Cinema
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Girl (2018 – BEL)

Sensação do Festival de Cannes, onde venceu (entre outros prêmio) o Camera D’or, o estreante belga Lukas Dhont traz a história de uma adolescente transgênero que tenta ser bailarina. Parte da recepção calorosa deve vir da necessidade de boa parte do público encontrar uma história sim, sem exageros, com seus dramas, mase sem nada espalhafatoso. Todos os pontos são tratados de maneira sensível, começando pela utilização dos espelhos, diversas cenas de observação e esse confronto da imagem vista x vontade de mudança do corpo.

O filme já começa nos 15 anos da garota, que se coloca numa posição de total definição de sua sexualidade, de quem ela se sente exatamente, por mais que haja sofrimento (físico, afinal a preparação para uma cirurgia causa transformações no corpo), social (como ser abraçada normalmente pela sociedade) e pessoal (a relação com o pai, além dos já corriqueiros traumas da adolescência).

O filme de Dhont sempre prefere a delicadeza, até nos momentos mais extremos, ainda que seja um filme ligado ao aspecto observacional, ao processo físico pela qual passa a adolescente. Há polêmicas imagens de nudez, do esforço fisico antagônico aos preparativos médicos, mas fica a sensação de um filme que foge do confronto do tema, por ser tão benevolente no trato social com essa personagem, afinal, sabemos que raros espectros da sociedade lidariam de forma nada cruel com personagens nessa condição de buscar o seu eu.

Leaving Las Vegas (1995 – EUA)

O estranho casos dos solitários que se atraem, não que isso, necessariamente, possa trazer um final feliz. O diretor Mike Figgis tenta empregar sofisticação, seja pela trilha com trompete (que ele mesmo gravou), seja pela vista marcante de Las Vegas e seus cassinos. Mas, o que temos aqui é uma história de autodestruição e fragelo. De um lado o desempregado dramaturgo de Hollywood (Nicolas Cage) que se entregou à bebida, a ponto de abandonar tudo e ir beber até morrer em Las Vegas. De outro, a prostituta (Elisabeth Shue) envolvida com cafetões do leste europeu.

Um improvável romance a partir da fragilidades, afinal, um relacionamento não é só sexo, carinho, pagar as contas e eventos sociais, e sim o companheirismo, o dividir momentos, também preencher a sensação que a solidão poderia causar. Por mais que o filme de Figgis não seja desafiador, ao público, o algo diferente é a narrativa intercalada entre a cronologia e um depoimento (bem pessoal) de Sera, roteiro baseado num livro autobiográfico de John O’Brien (que se suicidou logo no início das filmagens), o desconsolo emocional pela completa desistência de lutar frente ao alcoolismo é sempre impactante: “não sei se bebo porque minha esposa me deixou, ou se ela me deixou porque bebo”.

Como muletas, os dois fragilizados se equilibram como podem, até quando a relação pode trazer mais preenchimento do vazio do que decepção. O tempo passou e o Oscar de ator vencido por Cage deixou a impressão que o filme é mais dele, o que não é verdade. Ele está sempre com um copo, ou garrafa, com as olheiras e o olhar mais e mais perdido, mas ela é quem está na roda gigante de sofrer por ele e sobreviver ao trabalho noturno. De ver uma vida escapando bem à sua frente, e pouco pode fazer além de deitar em seu ombro ou dividir um café da manha. E, sensação desse nível pode ser demolidora, além da fragilidade, a impotência.

Free Solo

Publicado: março 14, 2019 em Cinema
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Free Solo (2018 – EUA)

A ideia é acompanhar a preparação e o feito do alpinista Alex Honnold, em subir a montanha El Capitan, em estilo free solo, sem ajuda de cordas ou qualquer equipamento de alpinismo. Em resumo, na raça. Tudo que se refere às cenas nas alturas são fascinantes, de dar vertigem, tudo captado pelo cinegrafitas e co-diretor Jimmy Chin, que assina esse filme com a documentarista Elizabeth Chai Vasarhelyi. A tensão, ou a emoção de Alex, a cada dificuldade alcançada, sem dúvida uma escalada espetacular.

Fora as imagens impressionantes, há a fase de preparação, que toma boa parte da história e seria bem padrão, se não fosse a entrada em cena da namorada de Alex, que vivia da irresponsabilidade dos 30 anos, morando dentro de um carro, e começa a ter planos a dois, montar uma casa com móveis, e perebemos o quanto a entrada dela em sua vida causa uma total transformação. E, meio sem jeito, ele vai se adaptando, enquanto treina e se prepara para um feito incrível, kamikaze, quase inaceitável por tamanha falta de segurança.

Tchelovek Kotorij Udivil Vsekh / The Man Who Surprised Everyone (2018 – RUS)

Casado, a mulher grávida do segundo filho, vivendo num vilarejo na floresta da Sibéria, Egor parecia ter a vida estabilizada até descobrir que tem câncer terminal. Qual sua reação? Passa a se vestir de mulher. Já imaginou como poderia ser recebido por essa sociedade conservadora dos rincões da Rússia. O filme da dupla Aleksey Chupov e Natalya Merkulova é sobre a crise de identificade, mas acima de tudo sobre a não aceitação, sobre o exemplo negativo, enfim, sobre aparências. Violência, respeito, dor, tudo está ali, de maneira simples, direta, distante de sentimentalismo, da mesma maneira crua  com que aquela sociedade se estabelece.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

Prêmio: Melhor Atriz

Beatiful Boy (2018 – EUA)

Despois do destaque que conseguiu com Alabama Monroe, o cineasta Felix Van Groeningen ganha espaço e astros em Hollywood, e merecia melhor destaque do que uma estreia esprimida no final da temporada do Oscar, que sem indicações o renega ao quase esquecimento. É fato que não há nada de novo em tratar os traumas de uma família lutando contra o vicio de drogas do filho, afinal, os caminhos de roteiro são bem delineados (recaídas, família em frangalhos, desespero, internações e etc), mas há algo de emocionamente íntegro que tem méritos.

Um dos pilares é Steve Carrel, assumindo o personagem do pai carinho que não acredita que seu filho (aquele querido menino do título) se tornou um viciado químico. Talvez seja essa abordagem que o filme seja, minimamente, diferente dos demais, a incredualidade de um pai em aceitar que tanta dedicação tenha sido corrompida pelas drogas. É dolorido, o peso da culpa, a impossibilidade de resolver porque a situação foge completamente do seu controle. Nesse aspecto, o filme fortalece tanto essa abordagem que usa a mãe do garoto à distância (em ligações telefônicas, imagem sempre ausente), pois se trata da visão paterna e masculina dessa dor.

Obviamente que há asa cenas em que o drama do garoto é o foco, está lá Timothée Chalamet chorando ou se drogando compulsivamente, mas elas parecem apenas utilizadas para intensificar a situação, e logo a seguir voltar às reações do pai, ou da madrasta, e novamente o quão crível pode ser para um pai de um lar estável.

A Mula

Publicado: fevereiro 24, 2019 em Cinema
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The Mule (2018 – EUA)

Aos 88 anos, Clint Eastwood está de volta? Dirigindo e atuando, e, acima de tudo, nos oferecendo seu olhar, a voz de sua experiência. A partir de um caso verídico, de um octagenário falido, que encontrou no transporte de drogas, uma forma de sobreviver, o tido durão  estabelece uma narrativa clássica, mescla entre  humor e drama, mas com ecos de uma voz que mira fortemente ao contemporâneo, alguém contectado ao seu tempo.

Entre uma viagem e outra, com as drogas no porta-malas, o filme explora a tentativa de um homem, que quase sempre viveu em prol de seu egocentrismo e dos pequenos prazeres da vida, deixando sempre de lado um dos pontos tão fundamentais da vida: a família. Agora ele tenta recuperar o convívio familiar, não magoar a neta, e construir alguma ponte no relacionamento perdido com sua filha e sua ex-mulher. De outro lado da história há a policia investigando mais um grupo de traficantes, precisa mostrar serviço.

E por mais que haja pontos questionáveis no todo (personagens que desaparecem, por exemplo), no filme de Clint há espaço para todos os ângulos, o sentimentalismo do resgate de algum respeito familiar, o humor debochado de um velhinho curtindo a vida mesmo na contravenção, e a necessidade de show midiático pela polícia pressionada por resultados.