Arquivo da categoria ‘Cinema’

Beatiful Boy (2018 – EUA)

Despois do destaque que conseguiu com Alabama Monroe, o cineasta Felix Van Groeningen ganha espaço e astros em Hollywood, e merecia melhor destaque do que uma estreia esprimida no final da temporada do Oscar, que sem indicações o renega ao quase esquecimento. É fato que não há nada de novo em tratar os traumas de uma família lutando contra o vicio de drogas do filho, afinal, os caminhos de roteiro são bem delineados (recaídas, família em frangalhos, desespero, internações e etc), mas há algo de emocionamente íntegro que tem méritos.

Um dos pilares é Steve Carrel, assumindo o personagem do pai carinho que não acredita que seu filho (aquele querido menino do título) se tornou um viciado químico. Talvez seja essa abordagem que o filme seja, minimamente, diferente dos demais, a incredualidade de um pai em aceitar que tanta dedicação tenha sido corrompida pelas drogas. É dolorido, o peso da culpa, a impossibilidade de resolver porque a situação foge completamente do seu controle. Nesse aspecto, o filme fortalece tanto essa abordagem que usa a mãe do garoto à distância (em ligações telefônicas, imagem sempre ausente), pois se trata da visão paterna e masculina dessa dor.

Obviamente que há asa cenas em que o drama do garoto é o foco, está lá Timothée Chalamet chorando ou se drogando compulsivamente, mas elas parecem apenas utilizadas para intensificar a situação, e logo a seguir voltar às reações do pai, ou da madrasta, e novamente o quão crível pode ser para um pai de um lar estável.

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A Mula

Publicado: fevereiro 24, 2019 em Cinema
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The Mule (2018 – EUA)

Aos 88 anos, Clint Eastwood está de volta? Dirigindo e atuando, e, acima de tudo, nos oferecendo seu olhar, a voz de sua experiência. A partir de um caso verídico, de um octagenário falido, que encontrou no transporte de drogas, uma forma de sobreviver, o tido durão  estabelece uma narrativa clássica, mescla entre  humor e drama, mas com ecos de uma voz que mira fortemente ao contemporâneo, alguém contectado ao seu tempo.

Entre uma viagem e outra, com as drogas no porta-malas, o filme explora a tentativa de um homem, que quase sempre viveu em prol de seu egocentrismo e dos pequenos prazeres da vida, deixando sempre de lado um dos pontos tão fundamentais da vida: a família. Agora ele tenta recuperar o convívio familiar, não magoar a neta, e construir alguma ponte no relacionamento perdido com sua filha e sua ex-mulher. De outro lado da história há a policia investigando mais um grupo de traficantes, precisa mostrar serviço.

E por mais que haja pontos questionáveis no todo (personagens que desaparecem, por exemplo), no filme de Clint há espaço para todos os ângulos, o sentimentalismo do resgate de algum respeito familiar, o humor debochado de um velhinho curtindo a vida mesmo na contravenção, e a necessidade de show midiático pela polícia pressionada por resultados.

Todos Lo Saben (2018 – ESP)

Do glamour em ser o filme de abertura do Festival de Cannes ao esquecimento, inclusive no próprio festival, afinal, o iraniano Asghar Farhadi tão premiado e passou 2018 com seu filme nada lembrado. Agora que começou a ser lançado em alguns países, e é fácil notar esse ostracismo.

O estilo de diálogos e dramas familiares de Farhadi está lá,como sempre, mas falta sangue latino para esse enredo, e principalmente aos personagens. Na trama, um casamento marcando reencontros, uma tragédia “exasperante”, segredos do passado, e plot twists, que ajudariam a envolver o publico. Sem doses de melodrama, mas com personagens e diálogos apáticos, o filme trafega por surpresas telegrafadas e só se equilibra mesmo pelo dilema moral do personagem de Javier Bardem. O resto é tudo no piloto-automático, muito aquém da vividez que Farhadi já mostrou quando tratava de questões bem mais próximas a culturas que ele conhece bem.

The Kindergarten Teacher (2018 – EUA) 

Remake americanos de filmes estrangeiros sofrem quase sempre na comparação, porque resgatam a história, nem sempre o melhor do cinema que havia. Esse é o caso desse trabalho da diretora Sara Colangelo, homônimo do filme israelense de Nadav Lapid, sobre a professora que se torna tão maravilhada pela poesia precoce de um seus alunos, que a admiração se torna obsessão.

A trama é a mesma, o pai ausente, a professora que ama poesia e o garoto que solta versos, mas só quer ser uma criança normal e brincar, quando possível. O filme traz o incômodo através dos comportamentos da professora, que algumas vezes ultrapassa a irresponsabilidade. O peso da cultura está em seus discursos aos filhos, a babá do garoto, a todos a sua volta. E acompanhamos, passo-a-passo, o desequilíbrio gerado por sua compulsividade em notar e intensificar um possível dom precoce. É bem possível acompanhar, com interesse, o desenrolar desse relacionamento, tentar compreender as fragilidades dessa mulher madura, enquanto Colangelo busca a visão intimista e delicada, mas fica bem aquém do que Lapid oferecia com o filme original.

Behemoth

Publicado: fevereiro 11, 2019 em Cinema
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Bei xi mo shuo / Behemott (2015 – CHI) 

As imagens são belíssimas, a paisagem quase sempre cinza ou verde nos longos planos abertos dão sensação de uma imensidão única. O diretor Liang Zhao traz a tona a condição das minas de carvão na Mongólia Interior (província na China ao sul da Mongólia). Cidades fantasmas cujo governo tenta povoar são o menor dos problemas, a situação médica dos trabalhadores das minas é que é chocante. Numa das inúmeras cenas exasperantes um deles mostra as mãos cheias de calos, apenas uma pequena amostra do que o cinema pode oferecer entre dor e beleza. Mas Liang também quer ser poeta, e essa tarefa é bem mais difícil e nem sempre tão bem sucedida.


Festival: Veneza 2015

Mostra: Competição

The Green Fog (2017 – EUA) 

Guy Maddin já conseguiu ser bem mais criativo do que aqui, onde ele tenta trabalhar só com colagens de outros filmes clássicos para criar uma homenagem a Um Corpo que Cai e à cidade de São Francisco. Codirigido pelos irmãos Evan e Galen Johnson, demora um pouco até sacar que a montagem tenta recriar o clássico de Hitchcock, e logo a seguir a proposta cansa, até porque as conexões não são tão perfeitas assim. O resultado final é um remendo curioso, e um jogo de tentar adivinhar os filmes que estão sendo utilizados na montagem enquanto surge a estranha névoa verde.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Der Letzte Mann / The Last Laugh (1924 – ALE) 

A desconstrução através da decepção. O porteiro de um hotel vivia orgulhoso, como se fosse aquele um dos empregos mais pomposos do mundo, abrir as portas e carregas malas aos hóspedes. Um novo gerente, um pequeno fraquejo e o porteiro é transferido para uma atividade mais leve, cuidar da higiene do banheiro masculino.

Começa a destruição moral e social do sujeito. O ator Emil Jannings é vital para o filme de Friedrich Wilhelm Murnau, capaz de transparecer todo o processo que perda de sua autoconfiança, do orgulho pessoal, até a posição caquética, quase um ser vegetativo, nem sombra daquele homem tão realizado. O epílogo guarda uma surpresa, um plot twist de roteiro, mas o marcante ficou mesmo um pouco antes, a solidão daquele olhar completamente desiludido, a desesperança marcada pela completa entrega à derrota. Um filme surpreendente, de uma cineasta que não se cansava de nos surpreender.