Arquivo da categoria ‘Cinema’

Parasita

Publicado: outubro 9, 2019 em 5 Estrelas, Cinema
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Gisaengchung / Parasite (2019 – COR)

Bacurau, Nós, Coringa, e agora Parasita. Alguns dos principais filmes do ano carregam o encontro da violência e luta pela sobrevivência no confronto entre os privilegiados e os não-privilegiados. Seja no nordeste do Brasil, em Gotham City, nos duplos no subsolo e na Coréia do Sul. É o cinema trazendo à tona a completa insatisfação global que chega à flor da pele, e pode explicar porque tantos governos extremistas tem ocupado um espaço que não mais lhes pertencia.

O filme de Bong Joon-ho é excelente em todos os aspectos, do tom crítico aproveitando-se de um humor ligeiro e moderno, das atuações precisas (com personagens que variam de vigaristas a ingênuos-românticos), do domínio completo da arte do cinema entre trilha sonora, timing, movimentos de câmera, é uma aula milimétrica para encaixar o roteiro arquitetado dentro desse estilo tão caro ao cinema sul-coreano de misturar gêneros.

E enquanto você se deleita com essa direção impecável, entre cenas marcantes, as sacadas de crítica social são ainda mais interessantes e intrigantes. Esse confronto entre pobre e rico, entre malandro e ingênuo, a violência gráfica e debochada. Da futilidade à autoproteção sem piedade, está tudo lá exemplificado e criticado, mas quando entra em cena a segregação de classes pelo cheiro, Bong chega num outro patamar, seu filme chega num outro patamar, o preconceito como algo primitivo, natural, não é só a questão de estar sem privilegios e precisar “roubar” wifi de alguém, é mais a questão de ser mesmo.

The Sex Thief

Publicado: outubro 3, 2019 em Cinema
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Die Beischlafdiebin / The Sex Thief (1998 – ALE)

Encerrando sua trilogia de telefilmes com personagens femininas, quase, fora-da-lei, Christian Petzold tece também sua crítica à economia e o mercado de trabalho da Alemanha dos anos 90. São duas irmãs que mentem sobre seus empregos, seu sucesso profissional e o verdadeira ganha-pão. Novamente com fotografia suja, e de forma bastante cru, o diretor explora a oportunidade pelo caminho fácil e os destemperos que tais escolham podem sugerir.

O título já dão os indícios de que as artimanhas sexuais fazem parte do jogo de perde e ganha, mas Petzold vai além ao criar essa relação fraternal de rixa, orgulho e compaixão. De querer o melhor ao ente querido, de proteger, mas também não admitir a derrota. Assim, de uma aparente trama de duas mulheres dando golpes para sobreviver, surge um pequeno filmes de outras camadas.

Febre de Juventude

Publicado: setembro 26, 2019 em Cinema
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I Wanna Hold Your Hand (1978 – EUA)

Não surpreende que a estreia de Robert Zemeckis como diretor tenha sido com um filme despretensioso e elétrico, afinal sua carreira heterogênea se solidificou através de aventuras juvenis (principalmente De Volta para o Futuro). Mas, esse primeiro trabalho consegue, mais do que representar a geração beatlemaníaca, e sim pegar emprestado as características centrais e inserir na própria narrativa. É tudo meio histérico, meio atrapalhado, mas na medida certa para que o humor funcione.

Um grupo de 6 jovens se acotovelando com o mar de fãs em frente ao hotel onde os garotos de Liverpool estão hospedados para sua primeira apresentação na TV dos EUA. Vale tudo para com os Beatles em carne e osso, e enquanto o grupo se divide em aventuras individuais, o filme de Zemeckis vai construindo novas relações ou romances, descobrindo novos fãs, convencendo rabugentos, e assim contaminando a todos com o iê-iê-iê. Essa capacidade de usar o que mais chama atenção em ferramenta para o próprio resulta nesse resumo de uma geração.

Dolor y Gloria (2019 – ESP)

O tempo vai passando, as pessoas comentando com você, e mesmo depois de alguns meses, fica essa vontade de revistar, mesmo que não seja revendo, nem que seja recordar. E esse recente trabalho de Pedro Almodóvar é um desses casos. O que fica na memória depois de algum tempo?

O mais forte é essa sensação de proximidade, uma intimidade que o cineasta nos convida a visitar, a sua própria intimidade. Antonio Banderas é seu alter-ego, seu apartamento, seu armário, algumas pequenas cápsulas da própria vida de Almodovar, que ele se aproveita para desenvolver a história de um personagem em angustia, mas também dor (inclusive física), e da força interior de se reconectar com pontos e pessoas da sua vida.

Da solidão ao redescobrimento, o passado e presente ajudam a construir esse alter-ego que, realmente, não é o próprio cineasta, mas está embriagado dele mesmo. Dessa forma, ele volta a nos emocionar, logo ele que já fez isso tantas vezes, e vinha ensaiando a acertar em cheio novamente, aqui conseguiu porque é difícil não se envolver com a cólera, o corpo entorpecido, as memórias que criam novas histórias, e como uma fênix, o renascimento para um novo personagem, uma nova pessoa, que é uma variação amadurecida daquele que conhecemos no início, e mesmo assim não deixa de ser o mesmo, inclusive ele, Almodovar.

Bacurau (2019 – BRA)

É catarse, é resistência, é o grito dos esquecidos. O trabalho da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles está sacudindo o Brasil. E se vivemos num país tão polarizado, pode ser que o filme nem esteja dialogando com um lado dessa disputa, mas tem sim sacudido parte da turma que se sente exprimida pelos dois lados que dominam nossa política recente. Claro que é um filme político, extremamente político, quem acompanha a dupla sabe de suas posições. Mas ao fugir do panfletário e universalizar questões, os diretores conseguem ir além do pregar para torcida única.

Western futurista, praticamente uma nova vertente do cinema de gênero, o filme vai causando frisson e chegando a mais e mais cidades porque ele tem seus momentos apoteóticos mesmo, sem deixar de lado as homenagens a cineastas importantes na cinefilia dos criadores (John Carpenter principalmente). Afinal, em meio ao suspense e à violência, o que temos é a luta pela sobrevivência, do povo oprimido versus a força do opressor (que pode ser o rico Sudeste x pobre Nordeste, países ricos x terceiro mundo), através de uma metáfora sangrenta, que deve sim desagradar parte do público, mas uma alegoria tão justificável.

E Kleber e Juliano filmam tudo sem perder o genuíno daquela gente, criando mistérios ou personagens que ficarão, eternamente, no imaginário. Bacurau é um desses filmes-fenômeno que dá esperança aos que andam desanimado, e que provoca alguns que nem percebiam pontos óbvios que o dia-a-dia nos cega.

Once Upon a Time in… Hollywood (2019 – EUA)

O título já sugere o conto de fadas, mas um conto de fadas tarantinesco, com tudo que o liquidificador do cineasta consegue bater até produzir outro filme delicioso. Delírios de cinéfilos à parte, com ênfase nas referências que Tarantino tanta gosta de usar, o que temos é uma homenagem à Hollywood dos anos 70. E uma homenagem que se concentra num ator em decadência e em seu dublê, e a partir dele transitar por um grupo de personagens reais que vão desde a família Manson, até Roman Polanski e Sharon Tate, até desembocar no trágico momento em que esses dois grupos se encontraram na história.

Em tom de comédia dramática, Tarantino nos guia pelos bastidores da indústria do cinema: casting, series genéricas, jantares de emprego, famosos arrogantes,  mansões e suas festas, mas também pelo prazer da estrela em ascensão. Enfim, um apanhado de comportamentos e personagens que revelam um belo raio-x da época.

Personagens carismáticos, grandes sequencias em que Tarantino destila todo seu estilo, até um final apoteótico e sanguinário que leva muitos ao delírio. O diretor novamente entrega muito do que se esperava. Ainda me permito questionar se suas escolhas não possam soar ofensivas, quando sabemos como a história real transcorreu, e a violência debochada pode parecer agressiva, mas que condiz totalmente com seu cinema, isso não se pode negar, por isso que é um questionamento, e não uma afirmação. O filme de Tarantino está ai, para ser admirado, questionado, porque indiferentes eles nunca serão.

A Longa Caminhada

Publicado: setembro 5, 2019 em Cinema
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Walkabout (1971 – RU/AUS)

Walkabout faz referência a um costume aborígene de lançar jovens, quando chegam na adolescência, a passar um tempo vagando no deserto, uma forma de acelerar a maturidade. O diretor britânico Nicolas Roeg parte do conceito para criar o walkabout de uma jovem, e seu irmão pequeno, vagando perdidos pelo deserto, após a morte do pai, até encontrarem com um aborígene em seu período de walkabout.

Os três passam alguns dias vagando, criando uma forma de comunicação, se adaptando entre si. E assim, o cineasta cria um filme tão cru e inesperado em seus caminhos, tanto no que se refete à sobrevivência, quanto à comunicação, ou os sonhos. A paisagem árida, o tom de aventura e de total noção de estar perdido dá lugar a essa possibilidade de explorar o desconhecido, de vivenciar  a caça para ter o que comer, ou cavar a terra para encontrar água.

E Roeg não fica apenas com essa vivência das diferenças, ele também ousa ao inserir imagens, entre cortes secos, que fazem referência ao nosso capitalismo perverso. Em provocar a proximidade sem que haja tensão sexual explicita, ou sensualizar uma Lolita. Prefere a poesia dura do final do filme, quando a esperança renovada de um marca a desesperança de outros. É o tipo de filme que só cresce na memória.