Um Elefante Sentado Quieto

Da xiang xi di er zuo / An Elephant Sitting Still (2018 – CHI) 

O pessimismo por todos os lados, a visão negativa do mundo e das relações pessoais pesa em cada cena do filme de estreia de Hu Bo. Quem já leu algo sobre o filme já sabe que o jovem cineasta se suicidou aos 29 anos, e não é de se estranhar com uma obra tão desesperançada. Olhando agora é quase um filme-testamento sobre questões tão caras e atuais, e que o cineasta expõe sua visão da sociedade. Temos as consequências de bullying na escola, a jovem menor de idade num relacionamento com um adulto, o avô cujos filhos pretendem que ele vá morar num asilo. É menos um filme sobre os atos e mais sobre as consequencias, a câmera lembra os filmes dos Dardenne, mas os planos são mais fechados, ou até mesmo inusitados. Algumas vezes o travelling parte da nuca ao rosto dos personagens.
Há ainda um quarto elemento, um irmão de um dos jovens envolvidos no bullying, que pretende vingança com seu estilo meio gangster. Enquanto isso, os outros três personagens planejam viajar juntos ao norte da China, encontrar o tal elefante do título. Não deixa de ser uma alegoria de fuga, num roteiro que fala muito sobre dilemas tão atuais, mas enxerga o mundo com essa desesperança de que ninguém está livre de seus pesadelos. De pessimismo se reflete a vida, ou se pesa demais nas tintas da construção dos personagens, e aqui Hu Bo, tão aflito com seus ensejos flerta com ambos.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum
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Indie 2018

Alguns comentários rápidos de vários dos filmes que fazem parte do Indie 2018, festival que resiste em meio a crise econômica do Brasil. Bem menor, só em SP (dessa vez), mas segue com sua curadoria singular e com alguns dos principais destaques dos festivais internacionais.

 

 

A Viagem da Família” o reencontro após a distancia causada pelo exílio. O chines Liang Ying coloca uma mulher como seu alter-ego, e narra um melodrama para o reencontro mãe (doente) e filha e os hiatos dessa relação.

 

Já “Torre. Um Dia Brilhante” achei bem desencontrado, sobre uma mãe ausente que retorna na 1ª comunhão da filha que ficou sob os cuidados da tia. E o ciúmes e medo da mãe biológica retomar a criação da filha começa a corroer a família por todos os lados.

 

À Deriva” filme alemão com narrativa bem poética, ao ritmo do mar e suas ondas, do vento, com duas mulheres que passam um fim de semana juntas no Mar do Norte

 

Lamaland” Reflexão dos últimos dois sobreviventes da colônia ariana, fundada pela irmã de Nietzsche, no Paraguai, num filme que quer ser o Bela Tarr latino

 

Os Indesejados da Europa” a saga dos últimos dias na vida do filósofo alemão Walter Benjamin, que tentou fugir da Alemanha ocupada, como tantos outros, e se perdeu no grupo. Um filme de longas caminhadas, de indesejados em busca da sobrevivência desesperançada.

Guia: Olhar de Cinema 2018

O Olhar de Cinema (Festival Internacional de Curitiba) vem se solidificando como um dos mais importantes canais de exibição dos filmes em destaque dos grandes festivais de cinema. Ocorrendo em Junho consegue focar nas novidades do semestre e ajuda a não concentrar que os cinéfilos brasileiros tenham que esperar até Setembro-Outubro para os mais tradicionais festivais disputarem os filmes.

A edição ocorrerá entre os dias 6 e 14, e ficam aqui alguns destaques que a Toca já viu:

Filme Título Original País Diretor Festival Seleção Ano Prêmio
Drvo Drvo “The Tree” Portugal André Gil Mata Berlim Forum 2018
Nossa Loucura Our Madness Moçambique João Viana Berlim Forum 2018
Umas Perguntas Unas Preguntas Uruguai Kristina Konrad Berlim Forum 2018
A Casa Lobo La Casa Lobo Chile Joaquín Cociña, Cristóbal León Berlim Forum 2018
Djon África Djon África Portugal João Miller Guerra/Filipa Reis Rotterdã Competição 2018
Visto e Não Visto Sekala Niskala “The Seen and Unseen” Indonésia Kamila Andini Berlim Generation Plus 2018

Drvo: A Árvore

Drvo: A Árvore / The Tree (2018 – POR) 

De uma fotografia de árvore que marca o encontro de dois rios, em Saravejo, o estreante diretor português, André Gil Mata, teve a inspiração para seu filme. A visão de um estrangeiro de um país e sua herança de guerras. Uma cidade dilacerada, um país em ruínas. Filmando bem ao estilo de Bela Tarr, o lusitano tece sua poesia em forma de imagens poderosas. Um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, ao esmo, retalhos da sobrevivência numa alusão aos resquícios da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Bósnia.

Não devemos ter mais que uma dúzia de longos planos, a arte do slow movie como forma de imersão pelo caótico do ambiente. Gil Mata filma o menor dos movimentos, a penumbra por meio de sequencias hipnotizantes de um tipo de cinema raro e difícil, mas de um virtuosismo ímpar.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Bostofrio, où Le Ciel Rejoint la Terre

Bostofrio, où Le Ciel Rejoint la Terre (2018 – POR) 

O diretor Paulo Carneiro em busca de sua avô, e assim enteder mais de suas origens, ideia semelhante ao também interessante Djon África. Mas, as semelhanças para aqui, enquanto um mergulha na África, este aqui busca pistas por entre ansiãos de uma pequena vila portuguesa. Mais do que sua busca, o que Carneiro consegue é um retrato desse português campestre que forma parte importante da população e vive escondido entre os vilarejos, num mundo próprio, que parece caminhar distante da modernidade das metrópoles. O caminho de Carneiro segue, ao público fica mais forte as lembranças do povo genuíno, simples, que guarda em seu modo autêntico o charme que marca a própria Nação.

The Hungry Lion

Ueta Raion / The Hungry Lion (2017 – JAP) 

A praga das Fake News! Expondo o sistema educacional japonês, o diretor Takaomi Ogata coloca em discussão o poder e a velocidade com que falsas noticias viralizam, causam polêmica e até se tornam verdades. No centro da trama, uma jovem estudante confundida num vídeo de sexo. A história ganha proporções maiores a cada dia, fogem do controle e o que era um simples negar, se torna uma perseguição com difamação e um nível de stress maior do que uma adolescente pode suportar.

O filme de Ogata é bem simples narrativamente, algumas cenas são quase documentais de tão verossímeis em diálogos e até na naturalidade das atuações, por mais que sem brilho ou grandes destaques. Porém, sua força está precisamente nos fins planejados pelo cineasta. Ogata leva a trama para além da resolução do caso polêmico, envolvendo mídia e até o rescaldo do que se torna verdade após a força das fake news.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

A Obra do Século

La Obra del Siglo (2015 – CUB) 

Com esse segundo trabalho, já é possível afirmar que o cubano Carlos Machado Quintela é um dos nomes mais promissores do cinema latino atual. Dos quatro adolescentes deficientes de A Piscina, dessa vez, em preto e branco, acompanhamos o apartamento onde vivem três homens solteiros, três gerações de uma familia. O avô cuja maior preocupação é o peixe que ele mantém no aquário, o filho que sobrevive de seu fracasso profissional e a tentativa de arrumar uma nova companheira, e o neto, recém-separado, e preocupado com qual será sua próxima tatuagem.

Eles vivem no bairro onde viviam os trabalhadores responsáveis pela construção da usina nuclear patrocinada pelos sociéticos no início dos anos 80. Entre longos travellings, planos gerais e panorâmicos, Quintela invade a imensidão de desesperança desses três homens, simultaneamente com inserções de um programa de tv (cujo título era o mesmo do filme), do canal nuclear, que divulgada a imponente, e inacabada, construção.

O alvo de Quintela são os sinais do abandono financeiro após as mudanças políticas promovidas por Gorbachev, o quanto Cuba era dependente, um espelho do socialismo soviético na América durante a Guerra Fria. Mas, a política está de lado, sua narrativa é cheia de reflexões e provocações quanto ao incomodo de gerações que seguem estática, sufocada pela crise econômica, pela liberdade cerceada, através de uma obra milionária que foi abandonada após o acidente em Chernobyl. O cinema nebuloso de Quintela vem jogar um novo olhar de dentro para Cuba.


Festival: Rotterdã 2015

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Filme