Repercussão: Cannes 2017

Obviamente, sem ter visto nenhum filme de Cannes 2017 (ainda), portanto, baseando-se só na repercussão de criticas e redes sociais, já podemos ter uma expectativa-formada do que a maior vitrine do cinema de autor reservou para essa 70ª edição.

A confusão já começou com o poster e as criticas do “photoshop” empregado na foto (acima) da musa Claudia Caradinale. Juri presidido por Pedro Almodóvar foi complementado pela diretora alemã Maren Ade e a francesa Agnès Jaoui, a atriz Jessica Chastain e Fan Binbing (uma das estrelas chinesas do momento) . Entre os homens, Will Smith, o diretor coreano Park Chan-Wook e o italiano Paolo Sorrentino, e o compositor francês Gabriel Yared. Importante destaca-los porque, afinal, são eles quem escolhem os premiados, portanto, podem facilmente ficar longe da opinião da maioria da critica.

O festival começou com a confusão de Almodovar sobre não premiar filmes da Netflix para não se correr o risco de uma Palma de Ouro não passar nos cinemas. Nas telas, os 2 filmes da Netflix nunca agradaram a critica a ponto de figurar entre os favoritos mesmo. Entre a imprensa, exceto aqueles que já tem suas predileções fortes (como fãs de Sangsoo, Ozon, Kawase e Haynes), os grandes favoritos do festival eram 120 BPM (Robin Campillo), Loveless (Andrei Zvyagintsev), Good Time (irmãos Safdie) e You Were Never Really Here (Lynne Ramsay).

Se bem que mesmo esses títulos chegaram à reta final com recepção morna, nenhum com a unanimidade de um Toni Erdmann do ano passado (que acabou de mãos abanando). Nem mesmo Haneke, detentor de duas Palmas de Ouro, conseguiu animar ao público.

O júri tinha oportunidade de finalmente premiar uma mulher (apenas Jane Campion ganhou o prêmio máximo em Cannes, com O Piano), ou buscar propostas mais novas como Safdie. O cinema francês com Campillo (foto acima), e seu filme sobre AIDS pareciam a cara de Almodovar (realmente elogiou muito o filme na coletiva), mesmo que tenha uma estrutura mais convencional. Por outro lado, Cannes adora premiar o arthouse, e nisso Zvyagintsev era boa aposta.

A premiação praticamente atendeu as expectativas (seguem os vencedores no final desse post), com domínio total dos favoritos, exceto à Palma de Ouro vencida pela Suécia, com Ruben Oustlund (foto abaixo) que não deixa de ser um dos casos de cria de Cannes, que vai subindo até a consagração na Mostra Principal. Numa primeira análise, antes do filme, pode-se enxergar a tentativa de renovação, um cineasta jovem cujo filme anterior fez sucesso no festival com Força Maior (antes dirigiu Sem Querer), por outro lado, ele também faz parte dessa leva de diretores da grife arthouse, que tentam impressionar pela arte burguesa, ou pela estranheza (podemos colocar no mesmo saco Lanthimos e Von Trier, por exemplo). Sem dúvida, não era favorito, mas nunca esteve na lista de piores filmes.

Os cinéfilos hipters podem comemorar a vitória de Sofia Coppola do prestigioso premio de direção, mesmo que o filme faça parte desse time dos que agradaram, pero no mucho. Ao que tudo indica, os melhores filmes podem estar na Quinzena dos Realizadores, vide os elogios a Claire Denis, Varda (rainha das imagens graciosas desse festival, como a da fotoa abaixo) e Garrel. Agora, é aguardar pela oportunidade em conferir todos esses filmes, se bem que alguns dos que naufragaram podemos deixar passar em branco porque a empolgação dessa edição é bem menor do que a do ano passado (que se provou uma ótima edição com premiação desastrada).


Premiados:

Palma de Ouro: The Square, de Ruben Ostlund 

Grand Prix: 120 Battements per Minute, de Robin Campillo 
Prêmio do Júri: Loveless, de Andrei Zvyagintsev 
Direção: Sofia Coppola, The Beguild
Ator: Joaquin Phoenix, You Were Never Really Here
Atriz: Diane Kruger, In The Fade
Roteiro: The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos, e You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay

Caméra d’Or: Jeune Femme, de Léonor Serraille

Na Vertical

naverticalRester Vertical / Staying Vertical (2016 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O cinema de Alain Guiraudie, novamente, buscando no bucólico sua forma de expressão. No anterior, era ao redor de um lago que personagens interagiam, que o mistério se intensificava. Já, dessa vez, o filme traz um personagem de fora para dentro do universo rural, que vem interagir e movimentar a vida pacata dos moradores, e através dele (O escritor – Damien Bonnard – com bloqueio criativo) Guiraudie redesenha conceitos elementares de sociedade e vida familiar.

Pai e filha pastores de ovelha, um senhor e o jovem que mora com ele numa estranha relação de necessidade e desagrado, fora as viagens fantásticas do escritor para uma misteriosa arvore na floresta. Guiraudie explora amor e desejo, hetero e homossexual, relações de paternidade fora dos padrões, jovialidade e velhice, sempre com sua pitada de mistério, não aquele mistério de que algo pode estar prestes a acontecer, e sim pela incerteza de compreender aqueles personagens. A diferença dessa vez é que na Vertical tem conceitos muito bem fundamentados que esse flerte com o fantástico não encaixam, fora a metáfora do título que Guiraudie tenta unificar tudo nessa única explicação que dá nome ao filme e aproxima-se mais do didático do que o lirismo de Um Estranho no Lago.

Creepy

creepyCreepy (2016 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Thriller psicológico travestido de filme policial, o novo trabalho de Kiyoshi Kurosawa mostra a elegância (assim como em seu outro filme deste ano, O Segredo da Câmara Escura) que combina perfeitamente com a brutalidade de crimes e outras cenas chocantes. Um dos expoentes do J-horror (cinema de terror japonês) deste século, o cineasta nipônico parece aprimorar, a cada filme, essa proximidade com o arthouse (que já demonstra quando não está em filmes de gênero).

A história é a de um casal, ele ex-policial e agora dando aulas, atormentados pelos comportamentos estranhos (o creepy do título  do vizinho. Entre a simpatia e a tendência a serial killer, a narrativa conduz ao público a um jogo de incertezas e atmosfera sufocante enquanto um hediondo, e não explicado, crime antigo também vem à tona. É verdade que o roteiro tem seus momentos questionáveis pela metade da história, mas retoma uma força vital no terço final, capaz de condensar toda aquela atmosfera de thriller em sequencias de tirar o folego.

O Ornitólogo

o-ornitologo-12_30030181561_o-700x293-500x209O Ornitólogo (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

João Pedro Rodrigues veio apresentar seu novo filme no Festival Mix Brasil, e no debate, após sessão, alguns comentários ajudam a imergir melhor, no que ele apresenta como sendo um western e o estudo de um ateu da figura do mito de Santo Antonio. Rodrigues comenta que “o pilar da ditadura em Portugal era a religião, e que os frades franciscanos sempre pregaram o abandono aos bens materiais, mas que na época de Salazar que o Santo Antonio se tornou o casamenteiro”.

Talvez seja mesmo um western sensorial, com o homem sendo caçado em meio a natureza, talvez a natureza seja apenas o cenário mais instigante para que o cineasta transcorra as aventuras do ornitólogo gay que pode ser a nova representação de Santo Antonio. Ao se apropriar da historia do homem que quer se perder na natureza, Rodrigues questiona crenças religiosas ou sociais, o primitivismo da observação de pássaros e de algumas relações interpessoais versus a crueldade (turistas chinesas) ou a pureza (pastor surdo-mudo). Mas, acima de tudo, a sobrevivência, entre a tecnologia e a presença impassiva da natureza e da crenças humanas.

É Apenas o Fim do Mundo

eapenasofimdomundoJuste La Fin Du Monde / It’s Only the end of the World (2016 – CAN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Quanto falta para Xavier Dolan deixar de ser histérico? Não fosse isso, seu novo filme poderia ser bem mais interessante, mas o histerismo é mais forte do que o ainda jovem diretor. Lá está ele com novos diálogos à flor da pele, planos bem fechados nos atores, e cortes e mais cortes com conotação de grande intensidade. Fica tudo a ponto de explodir, mas diferente de um Segredos e Mentiras, são apenas todas as cenas assim, apenas todas, e desse excesso histérico que o que há de melhor escapa-lhe pelas mãos.

Louis-Jean (Gaspard Ulliel) vem visitar sua família, após doze anos só por cartas. A visita não é à toa, ele é um doente terminal, e vem contar seu drama à família. Lá encontra todos amargurados pela distância, em discussões intermináveis e recorrentes, que nada resolvem e muito machucam. Com mais sensibilidade, esse encontro de Nathalie Baye, Vincent Cassel, Marion Cotillard e Léa Seydoux poderia ser um filme não menos que inesquecível. Acabou sendo apenas estridente aos ouvidos.

40ª Mostra SP

40mostraEstamos prestes a começar mais uma edição da Mostra SP, e novamente com ampla cobertura neste espaço aqui. Agora quarentona, a Mostra SP sofreu fortemente com a crise financeira que assola o país. Na coletiva de imprensa, Renata de Almeida deixou clara a dificuldade em realizar o festival, mas foi bem feliz em afirmar que ela sempre ocorrerá e terá o tamanho que seja possível ter. São 321 filmes que serão exibidos pela cidade a partir dessa quinta-feira, pela cidade porque as salas SPCine (os Céus) entram com tudo na programação. A maioria dos grandes destaques são das interessantíssimas retrospectivas, isso é um fato porque a disputa com os demais festivais do país (principalmente o Festival do Rio), este ano, deixou o festival paulistano com poucas opções dentro da sua política do ineditismo.

Sem dúvida que os principais destaques são Elle (Paul Verhoeven), Paterson (Jim Jarmusch), Canção para um Doloroso Mistério (Lav Diaz) e O Nascimento de uma Nação (Nate Parker) este já abrangendo um possível público mais “pop”. Eles fazem parte da lista de filmes mais comentados nos principais festivais do ano, se você foi para para o Rio teve um leque mais recheado desse tipo de destaques. Já entre as retrospectivas, as opções são fartas, e para quem vai “maratonar”, deva ser difícil encaixar tantos filmes de Bellocchio, Kieslowski, Wajda, Friedkin, etc, etc, etc… Aliás, Bellocchio assina o cartaz da Mostra e seu novo filme, Belos Sonhos, marcará a abertura do evento. Vale frisar que a vinheta talvez seja a mais bonita e impactante de todas, vejamos depois de umas 20, 30, 40 sessões, se essa impressão permanece.

Nos próximos dias, textos e mais textos de filmes exibidos, mas antes, cinéfilo também vive de expectativas, de informações, do boca a boca, por isso, deixo aqui uma lista de recomendações baseado na leitura e no termômetro de criticas internacionais, além dos filmes premiados. Boa Mostra SP!

 

Canção para um Doloroso Mistério, de Lav Diaz [Berlim, Competição]

Hedi, Mohamed Bem Attia [Berlim, Competição] {Melhor Ator e 1º Filme}

Zero Days, de Alex Gibney [Berlim, Competição]

Junction 48, de Udi Aloni [Berlim, Panorama] {Melhor Filme}

Más Notícias para o Sr. Mars, de Dominik Moll [Berlim, Fora de Competição]

O Anjo Ferido, de Emir Baigazin [Berlim, Panorama Especial]

Elle, Paul Verhoeven [Cannes, Competição]

Paterson, Jim Jarmusch [Cannes, Competição]

O Estudante, Kirill Serebrenniko [Cannes, Un Certain Regard]

O Dia Mais feliz da Vida de Olli Mäki, Juho Kuosmanen [Cannes, Un Certain Regard] {Melhor Filme}

Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda [Cannes, Un Certain Regard]

Invasão Zumbi “Train to Busan”, de Yeon Sang-ho [Cannes, Midnight Screening]

Cinema Novo, de Eryk Rocha [Cannes, Cannes Classics]

Belos Sonhos, de Marco Bellocchio [Cannes, Quinzena dos Realizadores]

A Garota Desconhecida, de Jean-Pierre e Luc Dardenne [Cannes, Competição]

The Stopover, de Delphine e Muriel Coulin [Cannes, Un Certain Regard] {Melhor Roteiro}

Mimosas, de Oliver Laxe [Cannes, Semana da Critica] {Melhor Filme}

O Ignorante, de Paul Vecchiali [Cannes, Special Screening]

Poesia Sem Fim, de Alejandro Jodorowsky [Cannes, Quinzena dos Realizadores]

Correspondências, Rita Azevedo Gomes [Locarno, Competição]

Futuro Perfeito, de Nele Wohlatz [Locarno, Cineastas do presente] {Melhor 1º Filme}

Sem Deus, de Ralitza Petrova [Locarno, Competição] {Melhor Filme}

A Última Família, de Jan P. Matsuszynski [Locarno, Competição] {Melhor Ator}

Beduíno, de Julio Bressane [Locarno, Signs of Life]

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé [San Sebastián, Horizontes Latinos]

Porto, de Gabe Klinger [San Sebastián, New Directors]

Os Demônios, de Philippe Lesage [San Sebastián, Competição]

Mercado de Capitais, de Meera Menon [Sundance, US Dramatic]

Tempestade de Areia, de Elite Zexer [Sundance, Word Cinema Dramatic]

Alba, de Ana Cristina Barragan [Rotterdam] {Lions Film}

O Ídolo, de Hany Abu-Assad [Rotterdam]

Radio Dreams, de Babak Jalali [Rotterdam] {Melhor Filme}

Desconhecida, de Joshua Marston [Sundance, Premières]

O Nascimento de uma Nação, de Nate Parker [Sundance, Competição] {Melhor Filme}

O Segredo da Câmara Escura, de Kyoshi Kurosawa [Toronto]

São Jorge, de Marco Martins [Veneza, Horizonte] {Melhor Ator}

A Família, de Shumin Liu [Veneza, Semana da Critica]

O Caminho para Mandalay, de Midi Z [Veneza, Semana da Critica]

Tharlo, de Pema Tedsen [Veneza, Horizonte]

Os Hedonistas [curta], de Jia Zhang-ke

Me Leve pra Casa [curta], de Abbas Kiarostami

Sexta-feira 13, de Nicolas Klotz

Her Composition, de Stephan Littger

O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, de João Botelho

 

Se todos estes filmes são bons, ou não, vamos descobrir em breve. Se houvesse tempo, estes seriam todos que gostaria de conferir.

 

Filmes presentes na Mostra SP que você já encontra algumas linhas sobre eles aqui na Toca:

 

Persona – Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

Operação França, de William Friedkin

Killer Joe, de William Friedkin

Possuídos, de William Friedkin

A General, de Buster Keaton e Clyde Bruckman

O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte

A China Está Próxima, de Marco Bellocchio

Vencer, de Marco Bellocchio

De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio

Bom dia, Noite, de Marco Bellocchio

Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio

A Intrusa, de Marco Bellocchio

A Bela que Dorme, de Marco Bellocchio

Daunbailó, de Jim Jarmusch

Estranhos no Paraíso, de Jim Jarmusch

O Homem de Ferro, De Andrzej Wajda

O Homem de Mármore, de Andrzej Wajda

Curriculum Vitae, de Kieslowski

Barravento, de Glauber Rocha

Midnight Special

midnightspecialMidnight Special (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Na tv, o ano de 2016 já foi marcado pela série Stranger Things e todas suas referências (que viraram até piada) a famosos filmes dos anos 80 (ET, Goonies e outros). Porém, antes mesmo da série do Netflix fazer sucesso, Jeff Nichols lançava no festival de Berlim sua nova parceria com Michael Shannon, em temática parecida a toda essas referências.

Confesso que Nichols tem sido alvo de algumas decepções, seus filmes geram enorme expectativa e o resultado não tem respondido a toda a expectativa criada. E, dessa vez, a distância entre esperado x resultado foi ainda maior. Vejamos se Loving (seu novo filme que figura postulante a indicações ao Oscar) seja diferente.

Na trama, já entramos diretamente no jogo de gato e rato, um pai (Shannon) tentando proteger seu filho, a todo custo, de uma estranha seita religiosa e do próprio FBI. O garoto usa um óculo que cobre seus olhos, sem eles um estranho raio de luz sai de seus olhos. Entre as peças do quebra-cabeças, que lentamente começa a fazer sentido, a presença extraterrestre se torna cada vez mais evidente, porém sem a mística que os filmes dos anos 80 possuíam. Não se cria identidade nenhuma com personagens, resta uma perseguição que o cinema já apresentou versões mais inspiradas.