Guia: Olhar de Cinema 2018

O Olhar de Cinema (Festival Internacional de Curitiba) vem se solidificando como um dos mais importantes canais de exibição dos filmes em destaque dos grandes festivais de cinema. Ocorrendo em Junho consegue focar nas novidades do semestre e ajuda a não concentrar que os cinéfilos brasileiros tenham que esperar até Setembro-Outubro para os mais tradicionais festivais disputarem os filmes.

A edição ocorrerá entre os dias 6 e 14, e ficam aqui alguns destaques que a Toca já viu:

Filme Título Original País Diretor Festival Seleção Ano Prêmio
Drvo Drvo “The Tree” Portugal André Gil Mata Berlim Forum 2018
Nossa Loucura Our Madness Moçambique João Viana Berlim Forum 2018
Umas Perguntas Unas Preguntas Uruguai Kristina Konrad Berlim Forum 2018
A Casa Lobo La Casa Lobo Chile Joaquín Cociña, Cristóbal León Berlim Forum 2018
Djon África Djon África Portugal João Miller Guerra/Filipa Reis Rotterdã Competição 2018
Visto e Não Visto Sekala Niskala “The Seen and Unseen” Indonésia Kamila Andini Berlim Generation Plus 2018
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Drvo: A Árvore

Drvo: A Árvore / The Tree (2018 – POR) 

De uma fotografia de árvore que marca o encontro de dois rios, em Saravejo, o estreante diretor português, André Gil Mata, teve a inspiração para seu filme. A visão de um estrangeiro de um país e sua herança de guerras. Uma cidade dilacerada, um país em ruínas. Filmando bem ao estilo de Bela Tarr, o lusitano tece sua poesia em forma de imagens poderosas. Um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, ao esmo, retalhos da sobrevivência numa alusão aos resquícios da Segunda Guerra Mundial e da Guerra da Bósnia.

Não devemos ter mais que uma dúzia de longos planos, a arte do slow movie como forma de imersão pelo caótico do ambiente. Gil Mata filma o menor dos movimentos, a penumbra por meio de sequencias hipnotizantes de um tipo de cinema raro e difícil, mas de um virtuosismo ímpar.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Panorama

Bostofrio, où Le Ciel Rejoint la Terre

Bostofrio, où Le Ciel Rejoint la Terre (2018 – POR) 

O diretor Paulo Carneiro em busca de sua avô, e assim enteder mais de suas origens, ideia semelhante ao também interessante Djon África. Mas, as semelhanças para aqui, enquanto um mergulha na África, este aqui busca pistas por entre ansiãos de uma pequena vila portuguesa. Mais do que sua busca, o que Carneiro consegue é um retrato desse português campestre que forma parte importante da população e vive escondido entre os vilarejos, num mundo próprio, que parece caminhar distante da modernidade das metrópoles. O caminho de Carneiro segue, ao público fica mais forte as lembranças do povo genuíno, simples, que guarda em seu modo autêntico o charme que marca a própria Nação.

The Hungry Lion

Ueta Raion / The Hungry Lion (2017 – JAP) 

A praga das Fake News! Expondo o sistema educacional japonês, o diretor Takaomi Ogata coloca em discussão o poder e a velocidade com que falsas noticias viralizam, causam polêmica e até se tornam verdades. No centro da trama, uma jovem estudante confundida num vídeo de sexo. A história ganha proporções maiores a cada dia, fogem do controle e o que era um simples negar, se torna uma perseguição com difamação e um nível de stress maior do que uma adolescente pode suportar.

O filme de Ogata é bem simples narrativamente, algumas cenas são quase documentais de tão verossímeis em diálogos e até na naturalidade das atuações, por mais que sem brilho ou grandes destaques. Porém, sua força está precisamente nos fins planejados pelo cineasta. Ogata leva a trama para além da resolução do caso polêmico, envolvendo mídia e até o rescaldo do que se torna verdade após a força das fake news.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices

A Obra do Século

La Obra del Siglo (2015 – CUB) 

Com esse segundo trabalho, já é possível afirmar que o cubano Carlos Machado Quintela é um dos nomes mais promissores do cinema latino atual. Dos quatro adolescentes deficientes de A Piscina, dessa vez, em preto e branco, acompanhamos o apartamento onde vivem três homens solteiros, três gerações de uma familia. O avô cuja maior preocupação é o peixe que ele mantém no aquário, o filho que sobrevive de seu fracasso profissional e a tentativa de arrumar uma nova companheira, e o neto, recém-separado, e preocupado com qual será sua próxima tatuagem.

Eles vivem no bairro onde viviam os trabalhadores responsáveis pela construção da usina nuclear patrocinada pelos sociéticos no início dos anos 80. Entre longos travellings, planos gerais e panorâmicos, Quintela invade a imensidão de desesperança desses três homens, simultaneamente com inserções de um programa de tv (cujo título era o mesmo do filme), do canal nuclear, que divulgada a imponente, e inacabada, construção.

O alvo de Quintela são os sinais do abandono financeiro após as mudanças políticas promovidas por Gorbachev, o quanto Cuba era dependente, um espelho do socialismo soviético na América durante a Guerra Fria. Mas, a política está de lado, sua narrativa é cheia de reflexões e provocações quanto ao incomodo de gerações que seguem estática, sufocada pela crise econômica, pela liberdade cerceada, através de uma obra milionária que foi abandonada após o acidente em Chernobyl. O cinema nebuloso de Quintela vem jogar um novo olhar de dentro para Cuba.


Festival: Rotterdã 2015

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Melhor Filme

 

 

The Idea of a Lake

La Idea de un Lago / The idea of a Lake (2016 – ARG) 

Nasce uma nova forma de abordar, no cinema, as violentas ditaduras militares sul-americanas. Batalha do Chile e Exercícios de Memória são exemplos que resgatam desaparecidos através das memórias dos parentes que até hoje nunca tiveram clareza do que realmente ocorreu com tais vítimas. Em seu segundo longa, a diretora argentina Milagros Mumenthaler traz um pouco da visão feminina, entre a perda, e as fragilidades da memória infantil.

Por entre flashback’s que resgatam as memórias dos anos 70, e  os dias atuais em que a fotografa vive numa fase emocionalmente conturbado, durante sua gravidez, a narrativa se escora nesse jogo de vai e vem do tempo para, margear, o drama pessoal do desaparecimento do pai durante o período militar. Além dos filmes citados, há também a cumplicidade que já vimos no brasileiro Elena, essa coisa de fluxos de memórias e sentimentos que se misturam com o granulado das imagens antigas. É uma nova forma, que suspira pela novidade, talvez possa cansar no futuro,mas no hoje tem rendido bons frutos.


Festival: Locarno 2016

Mostra: Competição Principal

A Tiger in Winter

A Tiger in Winter (2017 – COR) 

Kwang-kuk Lee é uma espécie de discípulo de Hong Sang-soo, assistente de direção em Ha Ha Ha e Conto de Cinema, chega a seu quarto longa-metragem como diretor, trazendo muito do que aprendeu com o famoso sul-coreano. A forma como enquadra os diálogos de personagens que se encontram pela rua (plano americano, personagens se olham, sem olhar para a câmera que os focaliza em perfil), o consumo de álcool como parte importante da trama, o vai-e-vem dos relacionamentos amorosos. Até mesmo a veia artística, afinal, o protagonistas é um frustrado aspirante a escritor que de repente perde o emprego e a namorada. Fica sem receita e sem dinheiro.

O tom de narrativa de Kwang-kuk é mais típico de um cinema que flerte com o melodrama, sem perder essa veia de melancolia seca,. Ele reencontra uma antiga namorada e revivem o relacionamento num grau de dependência predatória, de interesses momentâneos e o filme tenta costurar tudo isso os dramas de uma terceira mulher. Dessa necessidade de dilemas morais que seu filme derrapa, bem mais tradicional na forma do que Sang-soo, resta a curiosidade das semelhanças e diferenças entre eles.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Voices