Arquivo da categoria ‘Mostra SP’

Sportin’ Life

Publicado: dezembro 3, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Sportin’ Life (2020 – ITA)

O que é esse documentário? Abel Ferrara e Williem Dafoe dizem ser sobre fazer um documentário. Será? Acaba sendo sobre os dois, e sobre o cinema que construíram juntos. E também sobre os bastidores de um festival, e sobre Ferrara tocando música, sobre entrevistas e mais entrevistas. A estrutura é simples, e ainda assim consegue ser caótico, divertido, e bem mais interessante que a maioria dos filmes que serão vistos pelo ano todo.

Sokea mies joka ei halunnut nähdä Titanicia / The Blind Man Who Did Not Want to See Titanic (2021 – FIN)

Mais um filme que se esforça em aproximar o público das limitações físicas de seu personagem, algo na linha Sound of Metal. Aqui temos um ator cego e com esclerose múltipla interpretando um personagem assim. A imagem com bordas esbranquiçadas são o primeiro movimento, a câmera quase que sempre focalizado o rosto que passa boa parte do seu filme ao telefone com uma mulher que também passa por uma doença complicada. Eles nunca se viram, e nitidamente estão apaixonados.

O diretor Teemu Nikki coloca seu personagem numa aventura com fins românticos, sair de sua casa e visitar sua paixão. Sem ajuda de conhecidos, com taxis, trens e auxilio de desconhecidos. O filme é um misto de emoções, porque enquanto se esforça em tentar colocar o público nos dramas físicos e sentimentais, também busca suspense e exagera sem dó. Mas, acima de tudo é um filme romântico e otimista, e esse cego “cinéfilo” que não queria ver o Titanic cativa por esse sentimento ingênio e corajoso capaz de mover montanhas de tanta determinação.

Tove

Publicado: novembro 4, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Tove (2020 – FIN)

Moomin e seu vale se tornaram um dos grandes símbolos da Finlândia, os personagens que saíram das tirinhas de jornal para livros infantis, peças de teatro, animes, filmes marcaram o imaginário infantil de países da Escandinávia, assim como outros lugares do mundo. Aqui no Brasil são pouco conhecidos, mas quem for à Finândia vai se encantar e possivelmente voltará com um souvenir.

Tove Jansson foi a criadora desses personagens. A cinebiografia dirigida por Zaida Bergroth tem um pé no tradicional e outro uns dois degraus além porque Tove não foi uma mulher comum dos anos 40. Amante de um homem casada, e da filha do prefeita, o filme é muito focado em seus amores e vida libertária. A relação com o pai escultor tradicionalista é coadjuvante tornado-se assim Tove uma mulher movida por suas paixões.

Com muita câmera na mão e planos fechados, o filme se equilibra em evitar o excesso de nus (mas não foge deles) e numa caprichada reconstituição de época de Helsinque, e no final consegue sim dar boa noção de quem foi Tove Jansson, colocando seus personagens num papel secundário, sem deixar de demonstrar o quanto as pessoas que orbitavam a escritora e pintora serviram de inspiração para suas criações que seguem mais vivas do que nunca.

Memória

Publicado: novembro 3, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Memoria (2021 – COL)

Durante um tempo eu vivi uma fase de quase amor com o cinema de Apichatpong Weerasethakul, essa relação já parece mais bem resolvida, ainda que não esteja entre os meus preferidos. Eu colocaria Memória num seleto grupo de filmes em que eu preferiria nem dar nota porque é um evento que vai tão além (por mais que não me apaixone). O cineasta tailandês filme com Tilda Swinton na Colômbia, os temas são os mesmos: espiritualidade, natureza, frações do tempo, morte, memórias. Aqui tudo começa com um estranho som que acorda a protagonista, que dispara os alarmes dos carros, que causa estranhas reações  em algumas pessoas pelas ruas. Jessica (Tilda) parte a investigar esse som.

Gosto como Apichatpong torna essa Colômbia tão mais próxima de sua Tailândia, os planos em floresta, ou alguma cena em hospital, é uma transposição latina de seu próprio universo. Personagens falam espanhol, mas o restante é puro do seu cinema. A trama corre em três atos, ao seu ritmo, aqui com planos ainda mais longos e sem cortes do que antes. Se Lav Diaz filma em preto e branco as florestas filipinas e sempre aborda aspectos sociais e políticos, Apichatpong gosta do verde, da luz, dos sons e dessa coisa mística. Ele brinca com o tempo, e sempre prefere o abstrato.

Volto ao tema das notas, acho que em seus filmes acabo escolhendo de acordo com o grau de hipnose que ele me despertou. De personagens que não existem à memória dos objetos, essa coisa fascinante e fluida. Nesse filme ele diz que pouco usa close-up’s, como se os corpos cada vez tivessem menos interesse a ele, por mais que haja aqui aspectos arqueológicos de escavação. Seria esses corpos também objetos com memórias? Essa sensação da mente não ter entendido tão bem, mas a alma sim. Acho que resumiria assim, Apichatpong não filma para os humanos, filma para nossas almas.

Onoda, 10.000 nuits dans la jungle / Onoda, 10,000 Nights in the Jungle (2021 – FRA/JAP)    

Essa história tem um lado fascinante, por outro lado é tão representativo da própria cultura japonesa que tenha havido tantos militares na região da Asia-Pacifico que nao se renderam apos o fim das guerras lá pelos anos 70. O Onoda do título faz referência a um caso real dos mais famosos e emblemáticos no Japão. Onoda ficou mais de 30 anos na selva de uma ilha nas Filipinas, não acreditando em todos os indícios de que a Segunda Guerra Mundial havia acabado.

Honra, pátria, compromisso, é tudo tão emblemático. O cineasta francês Arthur Harari filma em longos planos que dão essa sensação de respeito ao personagem que representam. É um filme simples, floresta, alguns homens esperando o momento de atacarem que nunca chega. Sobrevivência, o passar dos anos e esse nacionalismo da vitória bélica e do cumprimento das ordens que causa um efeito de transe fascinante e inexplicável nos homens.

Mantagheye payani  / District Terminal (2021 – IRA)

Um poeta frustrado vive com a mãe, num futuro não muito distante, numa Teerã praticamente abandonada. Um vírus letal tem causado o êxodo da cidade. O lixo contaminado os rios, o caos instaurado. Nosso protagonista é viciado em drogas, e vive de frustrações (inclusive censura do governo dos seus textos) e imagens na mente que nem sabemos se são reais ou alucinações. Política, vício, questões sociais, o filme da dupla Bardia Yadegari e Ehsan Mirhosseini bate tudo no liquidificador e nos apresenta uma narrativa atraente, complexa, intensa. A distopia, a complexidade da mente inquieta e atormentada, a mão do governo autoritário. Outra boa surpresa iraniana.

Das Mädchen und die Spinne / The Girl and the Spider (2021 – ALE)

Diálogos, trocas de olhares, incômodos, flertes, provocações. A direção dos irmãos Ramon Zürcher e Silvan Zürcher é meticulosa, quase como arquitetos do cinema usam o vai-e-vem de um grupo de pessoas auxiliando numa mudança de apartamento pra construção de planos elaborados, frestas de porta, ouvidos atentos, tudo planejado para ocupar cada cena. Há um nítido problema entre as duas amigas que estão se separando, só que entre um móvel e outro esse microcosmos de personagens cria a curiosa teia de aproximações e separações, um quente e frio de cinismo, atração e angústia. A jovialidade dos personagens contrasta com essa construção geométrica resultando num interessante conjunto de descobertas, de renovação, de sentimentos aprisionados e sensações fluidas ou passageiras.

O Cão que Não se Cala

Publicado: outubro 27, 2021 em Cinema, Mostra SP
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El Perro que No Calla (2021 – ARG)

A nova comedia dramática de Ana Katz sai do inusitado para mirar no irracional. Os vizinhos batem á porta de um designer gráfico por conta dos latidos e choros constantes do cachorro. Não, eles não foram lá reclamar do barulho, e sim se solidarizar, eles sofrem pela dor do cão, eles choram. O dono decide levar o cachorro ao trabalho, e acaba demitido porque prefere o cão ao emprego.

A irracionalidade da sociedade vem sempre fantasiada de melancolia e leve tom cômico, o protagonista é bem caladão e numa série de episódios o filme se divide em pequenos momentos de sua vida: trocando de empregos, convivendo com a família, e até formando sua própria, até a chegada do estranho fenômeno em que as pessoas usam capacetes para não morrer sem oxigênio (foi filmado antes da pandemia). O preto e branco deixa todo com ar de Sci-Fi, mas estamos diante de um mordaz retrato da sociedade moderna.

Reflexão

Publicado: outubro 26, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Vidblysk / Reflection (2021 – UCR)

Novamente em foco a Guerra Rússia-Ucrânia, se em Atlantis Valentyn Vasyanovych havia olhado para o futuro, no que sobrou e nos efeitos psicológicos, aqui ele retrata o primeiro ano. E o faz seguindo um cirurgião ucraniano, o antes, o durante e o depois de sua saída do front.

Vasyanovych mantém seu rigor em poucos planos fixos e simétricos, quase sempre amplos. Filma uma cena de adolescentes jogando paintball e soldados torturados ou um jantar solitário em casa com esse mesmo rigor. O que me soa mais impressionante é essa normalidade de vida normal, guerra e seus horrores, retornar a vida normal e lidar com seus efeitos solitariamente, ao tentar se reerguer. É a falência e hipocrisia de estado e sociedade, como se o que acontecesse na guerra ficasse por lá.

Algumas cenas são de fortes a grotescas, e seu filme também é para reinvidicar a lembrança dos comportamentos desumanos, mas essa crueldade me parece ainda mais forte no retorno à sociedade, na volta aos problemas caseiros após o horror.

Compartimento No. 6

Publicado: outubro 25, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Hytti nro 6 / Compartment No. 6 (2021 – FIN)

Vem da Finlândia um dos filmes mais inesperados do ano, Juho Kuosmanen já havia causado frisson com seu filme em preto e branco sobre o pugilista Olli Maki, agora ele coloca uma compatriota na russia, uma arqueóloga que mantém relacionamento com uma mulher mais velha. O filme começa no apartamento que dividem, em tom de despedida, a finlandesa está se preparando para uma viagem de trem, até o Artico, para conhecer algumas formações paleolíticas.

De cara se nota que a relação esá desgatada, que a viagem é praticamente um rompimento velado. No vagão-cama ela conhece um mineiro grosseiro, que  bebe álcool compulsivamente (sim, é proposital essa criação do homem russo clichê ao estrangeiro). O filme é sobre essa relação improvável, obtusa, a forma como Kuosmanen constrói da repulsa à intimidade, sem os clichês narrativos de uma comédia romântica. A construção é mais orgânica, afinal são dias e horas naquele vagão, outros passageiros compartilham com eles o espaço, os momentos de longas paradas em que caminham pelos lugares gélidos, o vagão-restaurante, tudo permite que a estranheza inicial vá se descontruindo num belo exercício do desabrochar de algo novo ante a solidão que os perseguia.