A Quietude

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.

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A Favorita

The Favourite (2018 – RU) 

Yorgos Lanthimos já tratou de jogos de poder antes, mas de forma muito mais repugnante. Mas, aqui ele está falando com um público bem maior, filmado em inglês, astros do cinema, por isso mesmo uma versão bem mais palatável de seu estilo de cinema irônico, provocador e altamente manipulador, mas ainda assim um estudo sobre jogos de poder nas relações humanas, e que não poderia ser mais atual pela domínio feminino em cena e no protagonismo da direção do reinado.

Seu roteiro se baseia na história, Inglaterra do século XVIII, e três mulheres dominando e manipulando a corte britânica, são elas: a rainha Anne (Olivia Colman), sua conselheira fiel e amante (Rachel Weisz) e a prima da conselheira (Emma Stone). A rainha emocionalmente fragilizada e as duas mulheres em ambições próprias por mais espaço no poder. A eterna ironia de Lanthimos encontra aqui o veneno de constatar táticas nada ortodoxas nos movimentos de cada uma delas para alcançar o que querem, desde seguir em guerra com a França, até apenas galgar melhores posições na corte.

O mais impresssionamente mesmo é como o cineasta grego filma tudo isso, o preto presente em quase todas as cenas, a iluminação de velas em algumas cenas, a grande ocular que captam a grandeza de grandes halls do castelo. Tudo orquestrado com cenas de sexualidade seca, de frieza nos relacionamentos e de diálogos onde essa tal ironia parece serr a única tônica (ok que aqui alguns até passam do tom por tamanha perfeição de ironismo). Esse visual vigoroso, as atuações impecáveis (principalmente a desconstrução da nobreza de Colman) e a beleza de cenários e figurinos devem ser um prato cheio ao Oscar, mas o filme é mais que isso, é também esse panfleto feminista, ainda que critico de que com o poder, as mulheres também manipulam interesses e sentimentos, usam o sexo a seu favor e a violência como forma de alcançar um bem maior.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Guerra Fria

Zimna Wojna / Cold War (2018 – POL)

Não é difícil se encantar com o novo filme de Pawel Pawlikowski. O romance em preto e branco, em ritmo de nouvelle vague e cinema noir, o charme com que a câmera capta a noite em que o casal caminha por ruas de Paris ou da Polônia, nos anos 50 da Guerra Fria. E a melancolia de um amor que os atrae e, ao mesmo tempo afasta, em tantas fases da vida. É disso tudo que o filme trata, e uma história tão cara ao próprio cineasta, afinal é a história vida de seus pais.

Ele é Wiktor, o diretor musical de um grupo de música folclórica polonesa, entre as cantoras escolhe Zula, e se apaixona pela jovem. Lá se vão quinze anos das aventuras românticas que o filme faz questão de apresentar em tom de amor platônico entre exílios, casamentos que permitem cruzar a froneira oriental da Europa, separações e perseguição política. Além da tentativa de cada um desenvolver sua carreira, Pawlikowski oferece travelings charmosos, olhares tórridos, e muitas cenas de canções (folclóricas, jazz, cantadas em francês, polonês, até russo) capazes de quase hipnotizar parte do público com sofisticação e nuances dos altos e baixos desse amor celebrado com a belíssima cena final. Há tantos filmes que não sabem terminar, aqui  Pawlikowski não poderia encerrar tão bem.

3 Faces

Se Rokh / Three Faces (2018 – IRA)

Jafar Panahi não para, mesmo proibido pelo governo iraniano de filmar, e em prisão domiciliar, ele segue criando seus filmes e refletindo seu país e seu povo. E, dessa vez, um dos melhores filmes dessa sua safra mais recente, pós-proibição. Um vídeo de celular com o suposto suicídio de uma jovem que queria estudar para ser  atriz, mas foi probida pela familia. O próprio Jafar e a atriz Behnaz Jafari viajam até a aldeia para saber os fatos pela jovem, afinal o vídeo não é conclusiva se a tentativa de suicídio foi efetiva.

Desse mote, o cineasta iraniano propõe uma imersão a locais parecidos com o que filmava Abbas Kiarostami, a proximidade com o povo mais ingênuo e singelo, os tabus religiosos e convenções sociais, as crenças populares de como auxiliar no futuro sucesso dos filhos. De maneira pacata o filme reflete três gerações de atrizes, compar as liberdades entre o velho e o novo, enquanto se permite investigar mais sobre essa cultura popular, pela vida ao lado do desertoe por suas crenças no que é realmente fundamental. Um filme feminista sem discurso-panfletário e nem timidez, Panahi vai se especializando em se colocar em seus filmes e criar histórias que refletem os que menos voz ativa.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Amanda

Amanda (2018 – FRA) 

Mikhaël Hers volta a falar de perda, com sua melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Em seu filme anterior, o surpreendente Aquele Sentimento do Verão, a morte da de uma garota aproximava a irmã dela do namorado, mas não um envolvimento romântico, e sim um companheirismo pelo luto, um sentimentoq eu não estamos muito acostuamados a ver retratado.

A figura central é de um jovem, de 24 anos, que vive de empregos temporários e é muito ligado a sua irmã e sobrinha. Uma tragédia assola a familia, Hers insere aqui questões da violência e da intolerância com um ataque terrorista em Paris, e a dinâmica de todos os personagens muda drasticamente. Equilibrando a narrativa entre o drama e a leveza, é encantador descobrir cada um se adaptando a nova realidade, os relacionamentos que se fragmentam, as responsabilidades que aumentam, a adaptação que é delicada e pede urgência.

É pela leveza da nova rotina e das tarefas diárias que Hers insere a dor, a tristeza, uma saudade que traz lágrimas aos personagens, ao público, a qualquer um que se envolva minimamente com dramas tão possíveis e doloridos. E Hers faz tudo isso sem jogar sujo, a dor vem de repente, num momento qualquer, e passa, por um tempo, mas passa. Casos amorosos, a ajuda da familia e o se redescobrir, é tudo uma tarefa que não há cartilha, mas que enfrentar é a única solução. O filme é lindo por essa capacidade de ser tocante e puro, de olhar o futuro com otimismo, mas sem se esquecer das pedras que surgem pelo caminho.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

A Árvore dos Frutos Selvagens

Ahlat Agaci / The Wild Pear Ter (2018 – TUR) 

De volta ao local onde nasceu, o jovem Sinan briga com o pai (que atola a familia em dividas ao perder tudo em apostas), com a mãe, com a irmã, com o escritor mais conhecido da cidade, com a garota que ele gostava na infância, com os amigos. Pretende ser escritor, mas vê na carreira de professor suas possibilidades mais reais. Durante três horas, o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan desenvolve uma rede de personagens ao entorno do jovem idealista, e teimoso, capaz de uma construção forte do personagem, tanto intelectual quanto sentimental.

Estamos falando da falta de perspectiva jovem (a carreira de policial para a última possibilidade para tantos), o choque de gerações com pais, aspectos econômicos e sociais em confronto com costumes. Boa parte dos encontros e diálogos tem mais de vinte minutos, as conversas demoram a entrar em seu tema principal, dessa forma Ceylan investiga pessoas e lugares, cultura e formas de pensar. E, se parece um filme menos poético e metafórico do que Sono de Inverno, demonstra sua capacidade em refletir sobre comportamentos humanos, em olhar ao passado de cada um com pespectiva do futuro, sobre relações familiares, os altos e baixos de cada um, e provar, que todos sempre tem seu valor.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Vida Duplas

Double Vies / Non-Fiction (2018 – FRA) 

As mutações do mercado literária frente o crescente avanço do digital. Olivier Assayas traz o debate ao cinema através das figuras centrais que protagonizam seu novo filme. O editor (Guillaume Canet) que tem dúvida quanto a modernidade editorial de abandonar livros e viver de e-books e áudiolivros, de perder a figura do critico em detrimento de algoritmos e robôs que indicam o que os leitores devem apreciar. A trama não cansa (o público talvez um pouco) em trazer a discussão à tona em casa, no escritório, em paletras, ou na cama com a amante. Em alguns momentos o discurso soa gasto, meio ultrapassado, em outros mais vívido e interessante frente a realidade que bate à porta dessa indústria cultural.

De outro lado há o autor (Vincent Macaigne), que só consegue escrever autoficção (ou seus relacionamentso amorosos com alguma licença poética). É ele quem traz o tem que vai se tornando central na segunda parte do filme, essa questão do desgaste dos casamentos, da infidelidade, do amor por mais que haja traição. Enfim, as vidas duplas do título. Nesse ponto a trama cai em mais estereótipos de como o mundo vê os franceses, além de tecer uma frágil convicção de que a monogamia está fradada ao completo fracasso e que os adultos são maduros o bastante para tais tipos de relacionamentos.

Assayas tenta intricar um pouco isso tudo, traz doses de humor mordaz (mas pouco usual), e desequilibra ainda mais com outros temas e complexidades: como Juliette Binoche como a atriz de teatro fazendo sucesso em uma série qualquer de tv. A vida e os caminhos econômicos da literatura são ainda mais complexos do que tudo isso.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição