Arquivo da categoria ‘Mostra SP’

Miss Marx

Publicado: maio 3, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Miss Marx (2020 – ITA)

Você nao precisa gostar dos filmes para se interessar por eles. Por enquanto tem sido assim minha relação com a diretora italiana. Se inspirar na biografia da filha de Karl Max para trazer paralelos de discurso com o mundo atual (posição da mulher, capitalismo), brincar com rock (ok, algo como fez Sofia, mas diferente), quebrar a quarta parede, todas maneiras de dar dinamismo, de colocar sua assinatura além dos discursos do filme de época.

Nem todas as ideias funcionam perfeitamente, no todo é um filme interessante, talvez mais convencional do que ela imaginava ter finalizado. O mais legal é o cinema ter espaço para novas visões, novas leituras, dando espaço e liberdade. Afinal, se excluirmos o sobrenome Marx, temos uma mulher determinado, corajosa, mas também apaixonada, mais para frente que seu tempo e ainda assim tendo que aceitar alguns sapos.

Walden

Publicado: maio 1, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Walden (2020 – FRA)

“É triste ver pessoas que no passado colocavam sua esperança no futuro, e agora, no futuro, eles colocam sua esperança no passado”

Uma história de amor que camufla a esperança com desesperança. A narrativa se divide em dois tempos, no hoje uma mulher retorna a Vilnius, após 30 anos vivendo em Paris, gostaria de voltar ao lago onde viveu bons momentos com seu primeiro amor. De outro lado a construção do romance entre a filha de um médico com um bad-boy cujo pai está desempregado, por isso vive da venda de moeda estrangeira no mercado negro. 1989, na Lituânia, que ainda fazia parte da União Soviética. Os jovens ouvem que as coisas estão mudando, mas continuam descrentes, muitos sonham em emigrar ao Ocidente.

O caso de amor, com toques de Rohmer, afinal são tantas e tantas cenas de conversas entre jovens na saída da escola, ou à beira do lago, mas há sempre a adição dos aspectos político-econômicos. O contraste entre classes, o incomodo que alguns expressam mais, outros menos, mas quase sempre de forma amena, como quem aceita seu destino. É desse contraste entre amor e esperança opaca que o filme encontra sua força, personagens que nem felizes e cheios de planos inspiram tanta alegria, de pessoas que não enxergam grandes mudanças entre passado e futuro, uma esperança opaca.

Apenas Mortais

Publicado: abril 29, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Being Mortal (2020 – CHI)

Num melodrama simples, parte da história de uma filha cuja pai sofe de Alzheimer, e as terríveis consequencia que você pode imaginar, uma cena no banheiro, em especial, é simples e fortíssima, por mais que explore as mazelas e as vergonhas sem pudores. Mas é também um filme sobre ainda ser solteira (o) na China, sobre ser família (unida, mas longe da propaganda de margarina), sobre o sistema de saúde chinês. Enfim, é mais sobre a vida cotidiana, menos metáfora e poesia e menos realidade (pelo menos em grande parte do filme).

Nova Ordem

Publicado: março 7, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Nueva Orden / New Order (2020 – MEX)

O novo filme do sempre polêmico Michel Franco segue a escrita. Violência, humilhações, não faltam explorações de cenas chocantes nessa criação de um México distópico onde eclode uma série de protestos violentos, doentes são expulsos de hospitais pelos protestantes, o resultado é o exército assumir o controle e ir muito além do toque de recolher.

Propor reflexões ou criar um cenário e explorar a partir dele o que seriam suas consequências? Franco prefere essa opção visual, prefere a brutalidade, opção exploratória de pobres e ricos oprimidos pela Nova Ordem. O diálogo é direto com o avanço global da extrema direita, tornando exageradas questões como corrupção do sistema, imposição da intolerância acima das liberdades. Por outro lado, há doses de uma anarquia, completamente oposta ao conceito da militarização, de cada um querer seu ganho, é a individualização dos interesses e da sobrevivência. Além da violência enxergo ecos de um encontro de Conto de Aia e Ensaio sobre a Cegueira, mas óbvio que Franco só se aproveita desses conceitos para criar um caos onde a desigualdade social é mantida, mas o medo se torna o sentimento geral.

Querência

Publicado: dezembro 19, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Querência (2019)

Interior de Minas Gerais, fazenda e rodeio, o diretor Helvécio Marins Jr utiliza seus amigos vaqueiros como atores para sua história. Ao invés de qualquer glamour, cenas da beleza bruta do campo, do gado, da natureza. Nos diálogos a simplicidade, o sotaque carregado, o estilo documental que lembra seu trabalho anterior (Girimunho). Na trama há sonhos, decepções, um crime, muitas rimas, Helvécio nem parece tão interessado assim pela trama, ela talvez esteja lá só para cumprir um espaço, e por isso seja irregular. A sensação mais genuína é de o diretor está realmente filmando o que lhe interessa, e daquilo criando uma história que possa entreter.

O que Arde

Publicado: dezembro 15, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Lo Que Arde / Fire Will Come (2019 – ESP)

Oliver Laxe vai se firmando como um cineasta de sensações. O faroeste em Marrocos de Mimosas não me cativou, mas ficou muito a sensação do sol, da areia, do calor. Aqui ele filma na Galícia (onde cresceu) e transfere esse cinema sensitivo para a floresta, para uma cidade pequena e o ritmo pacato de vida da região. Um piromaníaco volta à cidade para cuidar da mãe octagenária depois de alguns presos por incêndio criminoso.

A segunda metade do filme é acalorada com um incêndio propriamente dito, a luta por controlá-lo, flamejante e pungente, se divide com o pré-julgamento de que seria, novamente, o piromaníaco que tenha o causado. E a reação popular é forte, com dedo em riste. Oliver Laxe não parece querer poetizar nada, mas reflete bem a busca por vilões, a intolerância e a pressa da humanidade por decidir pontos que nem vão solucionar a questão em si.  

Di Jiu Tian Chang / So Long, My Son (2019 – CHI)

Que saga dolorosa construiu aqui o diretor Wang Xiaoshuai. A incurável dor do luto, que atravessa décadas. O cineasta chinês acompanha dois casais de amigos durante anos, principalmente o casal cujo filho morre tragicamente. O filme é situado na década de 80, a partir das mudanças política, culturais e econômicas chinesas. 

A dor é comovente, o melodrama dolorido, por isso os atores foram premiados no festival de Berlim (e realmente merecem), mas Xiaoshuai vai além ao traduzir um pouco do instinto de família que move o povo chinês. É uma relação que o brasileiro tem se afastado, mas o povo chinês ainda cultiva a família como as pessoas mais presentes em suas vidas. As transformações do país são represntadas na dos dois casais, alegrias e tristezas, sucessos e insucessos, além de todo o peso da tragédia que cada um carrega, a seu modo. Prepare os lenços porque são três horas valiosas de um cinema simples e certeiro.

Pacarrete

Publicado: dezembro 5, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Pacarrete (2019)

Sensação no Festival de Gramado, o longa-metragem dirigido por Allan Deberton oferece a Marcélia Cartaxo palco para ela brilhar numa personagem controversa, divertida, e profundamente triste. Ela nos faz rir com sua empolgação dos tempos de bailarina em Fortaleza, sua mania de misturar o francês e o português, e de beber de um tipo de cultura artística que não dialoga muito com o gosto popular. Na pequena cidade de Russas, tudo soa como excêntrico, e suas manias e egocentrismo apenas a tornam uma moradora peculiar, imcompreendida, quase uma megera.

Em entrevistas, o cineasta afirma que conheceu a verdadeira Pacarrete na infância, e não é de surpreender que alguém assim viva alimentada de seus sonhos, suas paixões obsessivas e dessa fuga da realidade. De outro lado, toda essa empolgação e via cômica guarda uma pessoa tão solitária, e amargurada por suas decepções. Nesses momentos, Cartaxo volta a surpreender com com essa sensação de pesar, com o desencanto de quem não perde a pose, mas por dentro vive em frangalhos.

Malmkrog

Publicado: outubro 23, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Malmkrog / Manor House (2020 – ROM)

A partir de um livro do russo Vladimir Solovyov, Cristi Puiu nos leva ao mundo da aristocracia, em pleno século XIX, no Leste Europeu. Serão mais de 3 horas de um filme cerebral, calcado em diálogos e mais diálogos enquanto Puiu é milimétrico em um cinema austero de longas sequencias sem cortes, ou planos-contraplanos na mesa de jantar. Em outro momento, planos bem aberto, com câmera fixa, posicionada em uma antessala, ao lado de onde os personagens conversam. Não é um filme muito acessível em sua teatralidade e densas conversas carregadas de arrogância. O grupo que reúne condessa, general, político e outros membros da aristocracia conversam em francês (era assim que a burguesia russa achava chique) e debatem sobre fé e anticristo, sobre amor e morte, destacam aspectos morais e principalmente a guerra. Sim, um deles defende guerras justas, uma jovem considera não aceitável matar alguém. Nações civilizadas x os selvagens, cada frase impõe clareza aos pensamentos de privilégios e desprezo aos que não fazem parte desse mundo.

Malmkrog faz referência em como os alemães chamam aquela aldeia na Transilvania onde a mansão fica localizada. A neve, o frio, contraponto para essa frieza com que Puiu revive personagens dessa estirpe, seu trabalho é rigoroso e cuidadoso, porém bastante cansativo, e sua maneira de demonstrar a decadência é nos fazer mergulhar naquele ambiente. O filme todo é o exercício observacional de nos fazer olhar com desprezo para essa burguesia cujo declínio era iminente.

Mosquito

Publicado: outubro 22, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Mosquito (POR – 2020)

A cena inicial já deixa bem claras as intenções do filme, os soldados portugueses chegam num barco, a Moçambique, e para não se molharem são levados de “cavalinho” por negros. Vivemos a 1ª GM, os soldados chegam para combater os alemães, viverem o horror da guerra, mas não podem molhar os pés.

Através da história do jovem português se alistou esperando lutar na França e foi parar na África, e acaba se perdendo de seu pelotão, seguimos essa via-crucis onde o combate de guerra, que, vejam só, é até um drama menor comparado ao colonialismo. Por essa trajetória de sobrevivência de Zacarias nos deparamos com a dicotomia de enfrentamento portugueses x alemães, portugueses x moçambiquenhos, e toda a crueldade que o poder lhe permite exercer, enquanto João Nuno Pinto oferece cenas lindas, diurnas ou noturnas, bebedeiras, sexo, confrontos. Há também espectros de cinema sensorial, porém o mais rico é a dualidade do personagem que vai de monstro a herói em poucos segundos, inúmeras vezes, e como fica rica essa visão crítica do colonizador que acha sempre ter sido “bom” para aquele povo.