Arquivo da categoria ‘Mostra SP’

Surdina

Publicado: outubro 29, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Surdina (2019 – POR)

Muito tenra a comédia dramática dirigida por Rodrigo Areias através dos rincões portugueses. A história de um homem “viúvo” e solitário, cuja mulher reaparece. Ferramenta para inserir tantos elementos da cultura popular portuguesa, do lado beato do povo às fofocas e intromissões de um pequeno vilarejo, dos costumes casamenteiros à aspereza no trato. E, no meio de tudo isso, através desse olhar singelo do diretor, de planos fixos e profundidade calculada para nos envolver, sem sufocar os personagens, uma população alheia à mudança e um homem antiquado até ter seu brios provocados.

WASP Network (2019 – EUA/BRA)

Olivier Assayas não conseguiu, dessa vez, realizar um thriller de espionagem daqueles. Adaptando o livro escrito por Fernando Morais, e entre tanta preocupação em contar mais e mais fatos da trama de espiões cubanos, em Miami, infiltrados para desmantelar grupos anticastristas, o que o filme deixou foi a sensação de faltar aquele punch. O todo é genérico, tal qual o elenco de estrelas latinas, de diversos países, tentando imitar o sotaque cubano.

O cineasta francês é sempre elegante na forma de filmar, e aqui realiza, talvez, seu filme mais radiante, influenciado pelo sol dos mares que separam EUA e Cuba. Porém, O resultado é um conjunto de fatos embaralhados em ordem não-cronologica, sem que você entenda muito bem o porquê de embaralhar tanto arcos e fatos que corriam paralelamente, mas são revelados tão a posterior. A trama era intrigante por si, afinal tantos agentes infiltrados, a Rede Vespa, e os arcos quase se fecham como capítulos, quase como um seriado. Destaque mesmo para Penelope Cruz e os dramas de uma esposa de militar envolvido em atividades de guerrilha.

Pertencer

Publicado: outubro 11, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Aidiyet / Belonging (2019 – TUR)

Aos 10 anos de idade, a avó do cineasta Burak Çevik foi assassinada, a mando de sua tia e o namorado, tudo porque ela se opunha ao relacionamento amoroso vivido pela filha. Para recriar a tragédia familiar, o diretor divide seu filme em duas partes, na primeira metade apenas fotos e imagens de locais como o apartamento, a doroviária, o estacionamento, a cama onde o crime ocorreu. A narração em off reconta os planos, o tom comtemplativo se sobrepõe a crueldade e frieza com que se absorve o testemunho de assassinato.

A segunda parte é uma história de amor, conta como o casal que planejou o assassinato se conheceu, o primeiro encontro, carícias, longas conversas, um tom romântico à la Richard Linklater, mas e o peso no público que já conhece o que aquele romance produziu? Como se envolver positivamente? É o dilema criado por Çevik, entre o experimental e o thriller, o turco nos oferece um filme surpreendente e aterrorizador, mesmo que só com imagens bonitas ou contemplativas, viva a magia do cinema

Sueño Florianopolis (2018 – ARG/BRA) 

A diretora argetina Ana Katz construiu aquí um exemplar de cinema sulamericano made in exportação. Está todo embalado para agradar plateias que procuram o exótico do cidadão comum da região. Em tom de comédia dramática, trata argentinos e brasileiros como povos do jeitinho, que buscam glamour e sempre acabam bem longe do planejado.

Exceção à comédia de costumes (pechinchar no hotel, casa alugada que não era o esperado e etc), há o mais interessante no filme que é a integração entre o casal protagonista e o de brasileiros (Andrea Beltrão e Marco Ricca). De um lado um casamento em stand by, de outro um antigo relacionamento de quem ainda convive no dia a dia. As relações e flertes, as mutações entre relacionamentos e a necessidade de dar liberdade aos filhos soa bem mais curiosa, ainda que se apegue nesse tom de humor de personagens caricatos. No final, é uma visão pessimista da familia tradicional, nos idos anos 90.

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.

The Favourite (2018 – RU) 

Yorgos Lanthimos já tratou de jogos de poder antes, mas de forma muito mais repugnante. Mas, aqui ele está falando com um público bem maior, filmado em inglês, astros do cinema, por isso mesmo uma versão bem mais palatável de seu estilo de cinema irônico, provocador e altamente manipulador, mas ainda assim um estudo sobre jogos de poder nas relações humanas, e que não poderia ser mais atual pela domínio feminino em cena e no protagonismo da direção do reinado.

Seu roteiro se baseia na história, Inglaterra do século XVIII, e três mulheres dominando e manipulando a corte britânica, são elas: a rainha Anne (Olivia Colman), sua conselheira fiel e amante (Rachel Weisz) e a prima da conselheira (Emma Stone). A rainha emocionalmente fragilizada e as duas mulheres em ambições próprias por mais espaço no poder. A eterna ironia de Lanthimos encontra aqui o veneno de constatar táticas nada ortodoxas nos movimentos de cada uma delas para alcançar o que querem, desde seguir em guerra com a França, até apenas galgar melhores posições na corte.

O mais impresssionamente mesmo é como o cineasta grego filma tudo isso, o preto presente em quase todas as cenas, a iluminação de velas em algumas cenas, a grande ocular que captam a grandeza de grandes halls do castelo. Tudo orquestrado com cenas de sexualidade seca, de frieza nos relacionamentos e de diálogos onde essa tal ironia parece serr a única tônica (ok que aqui alguns até passam do tom por tamanha perfeição de ironismo). Esse visual vigoroso, as atuações impecáveis (principalmente a desconstrução da nobreza de Colman) e a beleza de cenários e figurinos devem ser um prato cheio ao Oscar, mas o filme é mais que isso, é também esse panfleto feminista, ainda que critico de que com o poder, as mulheres também manipulam interesses e sentimentos, usam o sexo a seu favor e a violência como forma de alcançar um bem maior.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Zimna Wojna / Cold War (2018 – POL)

Não é difícil se encantar com o novo filme de Pawel Pawlikowski. O romance em preto e branco, em ritmo de nouvelle vague e cinema noir, o charme com que a câmera capta a noite em que o casal caminha por ruas de Paris ou da Polônia, nos anos 50 da Guerra Fria. E a melancolia de um amor que os atrae e, ao mesmo tempo afasta, em tantas fases da vida. É disso tudo que o filme trata, e uma história tão cara ao próprio cineasta, afinal é a história vida de seus pais.

Ele é Wiktor, o diretor musical de um grupo de música folclórica polonesa, entre as cantoras escolhe Zula, e se apaixona pela jovem. Lá se vão quinze anos das aventuras românticas que o filme faz questão de apresentar em tom de amor platônico entre exílios, casamentos que permitem cruzar a froneira oriental da Europa, separações e perseguição política. Além da tentativa de cada um desenvolver sua carreira, Pawlikowski oferece travelings charmosos, olhares tórridos, e muitas cenas de canções (folclóricas, jazz, cantadas em francês, polonês, até russo) capazes de quase hipnotizar parte do público com sofisticação e nuances dos altos e baixos desse amor celebrado com a belíssima cena final. Há tantos filmes que não sabem terminar, aqui  Pawlikowski não poderia encerrar tão bem.