Arquivo da categoria ‘Mostra SP’

Julia e a Raposa (Julia y El Zorro, 2018 – ARG) 

Tarde para Morrer Jovem (Tarde Demais para Morir Joven / Too Late to Die Young, 2018 – CHL) 

A principal semelhança entre os filmes é a trajetória das cineastas jovens, ambas já realizaram curtas e seu longa de estreia e aqui flertam, de alguma forma com o bucólico, mesmo que de forma distintas. Inés María Barrionuevo nos leva a região de Córdoba, na chegada de atriz e sua filha a uma casa quase abandonada, que pertencia ao marido recém-falecido. Na cas dos quarenta anos, a mãe vive uma crise generalizada, carreira, solidão, e até a demonstração de imaturadidade em criar uma criança. Prefere ainda a irresponsabilidade de um esprírito livre. As primeiras cenas na casa lembram O Pântano (Lucrécia Martel), mas o filme segue outros caminhos, um amigo da mãe vem passar alguns dias na casa, e discretamente permite a desestabilização completa dessa relação torta que parecia não coexistir bem.

Já Dominga Sotomayor traz uma comunidade que preferiu largar Santiago e viver no campo, quase uma comunidade hippie (mas nem tanto). O foco ali são três adolescentes, idades diferentes, num coming-of-age a cineasta flerta com o fim da ditadura militar chilena, mas está mesmo interessada nas desventuras amorosas, na puberdade, e questões da idade. Mas, o destaque principal não está na trama, e sim na maneira com que a diretora filme pessoas x natureza, ainda que um local que nem seja de uma beleza ímpar, Sotomayor demonstra destreza em escapar do óbvio e buscar nessa relação com o bucólico, e até na questão de viver em comunidade, mas ter sua individualidade, um desafio curioso para um cineasta. Pena que a trama vá escapando de suas mãos, e a conclusão de que de forma em que a busca pelo poético não dialogue com o estado de espírito de seus personagens.

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EP 148 – Bad Romance

Publicado: outubro 22, 2018 em Mostra SP, Podcast

Uma estrela em ascensão e um astro em declínio. Estreia de Bradley Cooper na direção e de Lady Gaga como atriz, a nova versão de Nasce uma Estrela (7:43) já é um dos favoritos ao Oscar e está em debate na Varanda.

E ainda temos Chico Fireman como enviado do podcast a Nova York (56:32)para cobrir o NYFF56 (New York Film Festival). O varandeiro traz as primeiras impressões dos principais filmes da temporada, como os novos de Hong Sang-soo, Barry Jenkins, Julian Schnabel e até Orson Welles.

Cantinho do Ouvinte e Recomendações (1:12:40), com destaque ao lançamento da Netflix, 22 de Julho, de Paul Greengrass. Bom podcast!


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Diamantino (POR/BRA) 

O maior craque de futebol da atualidade é português, no filme de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt, seu nome é Diamantino (referência explícita a Cristiano Ronaldo). Após uma carreira de curtas, a dupla lança o primeiro longa com base na critica a ingenuidade. E haja inocência na figura central de Diamantino, num grau de tolice e alienação inimagináveis. Obviamente que tudo é exagerado para provocar, como as irmãs que desfazem e usam o craque, ou a ignorância a ponto de desconhecer o conceito de refugiado.

Não deixa de ser uma grande salada, afinal o filme vai desde a narrativa melodramática (o craque que perde sua habilidade no instante em que o pai morre), a fantasia explícita (os cachorrinhos que vagam na cabeça do jogador tão inocente), e a tentativa, transloucada, de fazer criticas políticas (Brexit, sonegação de impostos, complô político para mudar os rumos do país, clonagem).

Fica até difícil digerir tanta exposição de ideias e conceitos, perdendo talvez o que pudesse ser mais curioso, essa visão da alienação de milionários tão independentes das consequências geopolíticas, socioeconômicas, seu talento lhe renderia a fortuna, não importa que grupo estivera no poder.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Semana da Crítica

Prêmio: Melhor Filme

Boening / Burning (2018 – COR) 

Lá pela metade do filme, num local quase divisa com a Coréia do Norte, a garota (Jong-Seo Jun) dança, sozinha, ao por do sol. Os dois garotos que formam esse intricado, e nunca claro, triângulo amoroso, apenas observam. Não é bem um momento de libertação, mas de afirmação de cada um dos personagens, porque até ali o filme de Lee Chang-Dong trabalhava em nos apresentar e desenvolvê-los. Por isso a cena não seja apenas linda esteticamente, mas importante para o que vem a seguir.

Baseado num conto de Haruki Murakami, o misterioso (e pouco decifrável) filme tem Jongsu (Ah-In Yoo) como figura central, o filho de um pequeno fazendeiro preso por agressão. Meio caladão, um interiorano que apenas leva sua vida, um exemplo de falta de perspectiva jovem que parte da sul-coreanos enfrentam agora num país com tantos avanços tecnológicos que começa a demonstrar sinais de desemprego. Ao fazer uma entrega em Seul, ele reencontra a amiga de infância Haemi, já é curioso notar que pessoas que cresceram no mesmo lugar, mas com comportamentos tão distintos. Ela é um espírito livre, vivida, facilmente flerta com ele e pede para que cuide do gato dela enquanto a garota partirá numa viagem à África.

O título pode sugerir um filme flamejante, e as chamas até se tornam vitais na segunda metade da história, mas o ritmo narrativo é bem pacato. Por outro lado, a chama do mistério toma mesmo o público em tentar desvendar o que se passa assim que Haemi retorna de viagem, a tiracolo com o rico e seguro de si Ben (Steven Yeun), uma espécie de oposto de Jongsu. A relação entre os três é nebulosa, o cineasta faz questão de diálogos e situações pouco esclarecedoras, e muito instigantes. O foco total em Jongsu também ajuda a embaralhar ainda mais as possibilidades, em entender os sentimentos represados de Jongsu e do que pode estar ocorrendo em segredo.

É o clima de mistério que torna o filme especial, essa angustia de mais perguntas e raras respostas, os diálogos erráticos, as incertezas que se misturam com desejos pessoais, com libido provocada e personagens tão antagônicos e pouco elucidativos. Por isso que retomo a cena que abriu esse texto, a sensação de liberdade da dança de Haemi, o moralismo do garoto interiano que rivaliza com suas descobertas, e o quase desprezo do rico sobre o que não o afete, tudo resumido numa dança livre, no ar flutuante de um mistério que alguém precisa resolver (e esse alguém não é quem está assistindo).


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Mon Tissu Préféré / My Favorite Fabric (2018 – FRA) 

O mais curioso no filme dirigido por Gaya Jiji é como trata a sexualidade feminina através de uma garota do subúrbio de Damasco, Síria. Nahla, e também suas irmãs, buscam marido, mas a jovem tem seus instinto sexuais aguçados, ela sonha com um homem, seus desejos parecem estar um tom acima do normal. A ponto de sentir fascínio e buscar aproximação com a vizinha que transformou seu apartamento num discreto prostíbulo.

A narrativa até insinua cenas de nudez e sexo, mas estão bem longe de ser o foco, Jiji está mesmo desenvolvendo a complexidade de Nahla e sua versão romanceada do desconhecido aguçado por sua libido. Soa mais interessante pela liberdade com que explora o corpo e não trata apenas apenas e desejo como um mero conto de fadas.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Un Certain Regard

Mormaço (2018) 

A conexão com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho é automática, prejudicial ao filme de Marina Meliande. Afinal, temos um prédio cujos moradores estão vendendo e saindo de seus apartamentos, a construtora que negocia quer realizar a demolição. Porém, há ainda poucos moradores reticentes, que não pretendem sair dali, entre eles a jovem advogada Ana (Marina Provenzzano). A trama se passa no Rio de Janeiro, pouco antes dos Jogos Olímpicos, a cidade em obras

A advogada defende um grupo de moradores de um local bem esquecido da cidade, onde o governo precisa retirá-los urgentemente para completar as obras das Olimpíadas. No meio desse clima tenso, de todos os lados, o filme insere um interessante elemento fantástico. Critica social e terror psicológico formam uma consistente atmosfera, por outro lado a semelhanças com o filme de KMF diminuem a sensação de frescor. Além de algumas interpretações nada inspiradas entre os não-atores coadjuvantes, resultando assim num filme irregular, ainda que necessário em seus pontos criticos e curioso por esse flerte com o inesperado.


Festival: Rotterdã 2018

Mostra: Hivos Tiger Competition

José

Publicado: outubro 19, 2018 em Cinema, Mostra SP
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José (2018 – GUA) 

Mais curioso pela pequena mostra de filmes da Guatemala que surgem no mundo dos festivais, o drama gay de Li Cheng trata a história de José (Enrique Salanic) que vive de maneira precária com sua mãe. Sua rotina consiste em vender comida aos motoristas e transar com estranhos através de encontros via um app. É dessa forma que ele conhece um pedreiro imigrante do Caribe, cujo romance leva José a questionar valores (a mãe religiosa, a necessidade de permanecer em casa) e repensar sua vida.