Pulp: Um Filme sobre Vida, Morte e Supermercados…

pulpPULP: A Film About Life, Death and Supermarkets… (2014 – RU) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Eu estava lá naquele show do Via Funchal, meio vazio, mas os que ali estavam com uma energia que só podia ser comparada ao vocalista, muito falante, mas meio tímido, um nerd que se solta no palco. Quem não conhece muito da banda não saberá quantos discos eles gravaram, ou detalhes de alguma turnê. Nada de cronologia, quantidade de discos vendidos ou qualquer resumo característico do tipo. Porém, saberão que Jarvis sonhou que trocava um pneu na noite anterior. A direção é de Florian Habicht, mas o conceito do documentário foi elaborado, em conjunto, com Jarvis Cocker. E, por isso que, o filme sobre o Pulp parte do último show da banda no Reino Unido (cidade de Sheffield, onde nasceram os integrantes e onde a banda foi criada) parar criar uma leve maneira de demonstrar quem são eles.

Jarvis Cocker dá depoimentos com frases que quase não se completam, os demais são pessoas comuns que tocavam na banda de Jarvis. Ninguém tenta elevar a banda a melhor de todos os tempos, ou qualquer tipo de comparações do tipo. Eles simplesmente falam deles, coisas que estejam conectadas à cidade, ou a música, alguma história do passado, mas, principalmente sobre si próprios. De outro lado estão os fãs, alguns quase histéricos, outros divertidos. Esperam o show, se divertem frente à câmera. A cidade parece ter parado para esse último espetáculo, talvez nem seja verdade. O mais importante é ouvir aqueles velhinhos, com frases tão ingênuas, falarem de rock, de Pulp, da peixaria onde Jarvis “trabalhou, ou cantarem Help the Aged (uma das grandes sacadas do filme).

Tributo à Legião Urbana (e eu)

As melhores influências musicais que eu poderia ter tido quando criança ficaram sempre guardadas no armário. Meu pai tinha uma coleção razoável de vinis, muita coisa dos Beatles, mas infelizmente nunca tive acesso, ficavam escondidos num armário. Pelo menos na vitrola eu podia mexer, por isso sempre pedia de amigo secreto um vinil novo. Mas as influências eram limitadas ao que minha mãe ouvia e um pouco do que se comentava na escola, e esse universo não ia além das músicas que tocavam nas novelas (e por isso eu tinha vinis de Tieta e Rainha da Sucata, por exemplo) e nas rádios pops (lá em casa o rádio, basicamente, não saia da Transamérica).

Por isso tudo, eu cresci sem acompanhar exatamente a histórias das bandas de rock, sem ouvir discos completos, eu vivia de hits, meu universo musical não passava deles. Nevermind do Nirvana? Gostava muito, mas nem sabia o nome do disco, conhecia as músicas que bombavam nas rádios.  Aprendi a ouvir música assim e conservei esse hábito até meus 20 e qualquer coisa anos, houve apenas uma exceção, uma banda cuja carreira me despertou de uma forma que influenciou completamente minha vida.

Se não me engano era na trilha de Rainha da Sucata que contia a canção Meninos e Meninas (eu achava tão estranho ele cantar “eu gosto de meninos e meninas”, mas eu pensava que esse gostar fosse gostar das pessoas e não essa conotação gay que na época era algo que só servia para brincar com os amigos). Percebi que o que eu queria mesmo era o vinil daquela banda, e finalmente consegui ganhar As Quatro Estações, aquela capa cinza, diferente da alegria das capas de novelas. De fato eu já conhecia muita coisa da Legião Urbana, suas musicas tocavam bastante nas rádios, não sabia mas já estava familiarizado com o disco Que País é Este?.

Infelizmente não consegui ouvir mais que duas vezes ao vinil, a vitrola quebrou. De tanto insistir minha mãe pediu à vizinha que gravasse meu vinil numa fita k-7, pronto finalmente teria acesso às minhas músicas. Ganhei um Moving Sound, que era um sucesso jovem e que nos permitia, não só ouvir  as músicas, como também gravar do rádio. Minha vida mudou.

Na fita da Legião consegui gravar Faroeste Cabloco e comecei a ouvir cumpulsivamente. O dia todo tocava As Quatro Estações com o plus de Faroeste no meu rádio, e eu cantava, e cantava, cantava. Foi nessa época que inventei uma das brincadeiras que mais gostava. Pegava um cabo de vassoura e fingia ser o microfone (ele dava exatamente na altura do meu queixo), no quarto fingia ser um astro de rock. O repertório eram as musicas que havia gravado do rádio num inglês inventado por eu mesmo, muitas das canções eram do Guns N’Roses, mas o repertório mesmo era Legião Urbana, ou melhor, era aquele meu k-7. Coitada da minha mãe, coitados dos meus vizinho, anos depois fui saber que o pessoal que passava na rua ou brincava no térreo do prédio me ouvia cantar (eu morava no quarto andar). Ali eu fechava os olhos e cantava Mauricio e Sete Cidades com o mesmo fervor que Há Tempos ou Pais e Filhos, mas a preferida sempre foi a saga de João de Santo Cristo que decorei tão rápido que até hoje não acredito.

Nas escola, minha melhor amiga era tão fã, ou ainda mais fã, da Legião que eu. E não eramos os únicos, era raríssimo alguém da nossa classe que não adorava. Quando havia aula vaga, ou mesmo na saida da escola, ficávamos cantando as músicas, sem violão nem nada, à capela, era bonito de ver um grupo de 6, 8, 10 adolescentes cantando Eduardo e Monica, assim do nada (e se pergutando quem será Godard ou Rimbaud?). Nos cadernos de perguntas que rolavam entre os alunos, chovia canções da Legião como as preferidas. Foi nesse clima que acompanhei o lançamento do disco V, não cheguei a adquirir, mas ainda assim, cantava na escola Teatro dos Vampiros ou o Mundo Anda Tão Complicado.

É clichê, mas era verdade, nós nos víamos naquelas músicas, o Renato Russo conseguia traduzir tantos sentimentos, conflitos, sensações que aqueles jovens e adolescentes viviam nos anos 80-90, ele era o nosso porta-voz. Mesmo jovem eu já tinha sacado que Pais e Filhos era sobre suicidio, mas eu conseguia adaptá-la tão bem à minha realidade, a minha relação tão “complexa” com meu pai, parecia que bastava só de saber que eu não estava sozinho no mundo, que mais gente “sofria” com essas relações familiares tão complexas. Na sexta série tivemos que entregar paródias, pegar alguma canção e mudar a letra. Acabei fazendo uma versão escolar usando Pais e Filhos e uma versão crítica da sociedade de Há Tempos. Não tive coragem de cantar lá na frente, mas a professora adorou, tirei nota alta, e as vezes eu cantava sozinho essas versões. Minha vida, em casa, era: jogar futebol no prédio, jogar futebol de botão (narrando os jogos) no meu quarto e ouvir Legião Urbana.

E claro que havia a garota da escola que eu gostava, sua canção favorita era Monte Castelo, o professor de eudcação física, também cantava sozinho essa música enquanto fazia os alunos se aquecer antes de alguma aula prática. Não tinha outra saida, eu sempre pensava nela quando ouvia Monte Castelo, mas era um tipo de pensamento diferente, era um pensar sem nenhum peso, um apenas pensar, lembrar da pessoa.

Depois veio o Descobrimento do Brasil, que também ganhei o k-7, e ouvia demais, principalmente Giz. Lembro tantas vezes de estar na varanda, olhando para tudo e nada e ouvindo aquele disco que já marcava mudanças no ritmo musical da Legião. Nessa época tive minha primeira namorada, foi algo curto, mas quando acabou continuei gostando dela e por algum motivo aquelas canções tinham uma melancolia agridoce que me fazia bem. Um pouco mais de um ano depois voltamos, e dessa vez foi um namoro mesmo, durou mais de 1 ano, até que acabou. Nessa época eu já trabalhava, foi quando lançaram A Tempestade ou o Livro dos Dias. Com meu salário, todo mes eu ia na loja de discos e comprava um dos CDs da Legião, quando saiu o disco novo eu já tinha alguns, era outra época, ouvia musica no computador, agora já conhecia todas as músicas de todos os discos. Quando nossa relação terminou eu fiquei triste, um tipo de tristeza que ainda não havia vivido (e que acabou se repetindo mais algumas vezes no futuro), foi época de ouvir A Tempestade trancado no quarto. Mil Pedaços, Quando Voce Voltar, Esperando por Mim, ainda me arrepio de ouvir “o mal do século é a solidão, cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando um pouco de afeição”.

Dai veio a morte do Renato, sei exatamente como soube da noticia, como fiquei perplexo depois e que era véspera de feriado e passei os 3 dias trancado no quarto ouvindo todos os discos. Depois corri nas bancas e comprei todos os jornais, revistas, especiais, tudo que saiu sobre ele. Li e reli, conhecia tantos detalhes da história da banda. Se eu disser que a Legião mudou minha vida estaria mentindo, eu cresci com a Legião, minha vida foi moldada pelas pessoas à minha volta (amigos, familiares, professores) e pela Legião, é simples assim, essa banda fez e faz parte da minha vida.

Por isso que a maior decepção da minha vida (que nunca será possível ser resolvida) é de nunca ter ido a um show deles. Então surgiu esse Tributo à Legião Urbana com Wagner Moura no lugar do Renato nos vocais, gostei da ideia, depois me pareceu caça-niquel, fiquei em dúvida. Aqui e ali ninguem quis ir, até que uma amiga me convidou e pronto, eu vou. Não fiquei criando expectativa, era mais um show que eu ia, algo como essas bandas da noite paulistana que tocam hits para animar a balada, estava nesse espírito. Quando cheguei na porta do Espaço das Américas percebi que estava enganado, a fila para entrar parecia portão de colegio particular, pessoas uniformizadas (com camisetas da Legião), pequenos grupos cantando canções (à capela, como fazia com meus amigos), ninguém ali estava preocupado com o que os outros iam pensar, era a preparação para o show.

Ok, já sei que muitos criticaram, não gostaram, eu não sou cego, surdo e mudo. O Wagner desafina, não tem voz para cantar, houve vários problemas técnicos, Dado e Bonfá errando, e eles sempre erraram mesmo, como espetáculo não foi um grande show, mas havia duas maneiras de voce olhar para esse evento. Uma era com essa visão diferenciada, olhar um show, a outra era a que eu acabei mergulhado dos pés à cabeça. Uma noite de um saudosismo ilimitado, com um fã famoso e animado nos vocais e um banda cantando canções para um público orfao de seu porta-voz à 12 anos. E, quem viveu dessa forma aquela noite, praticamente pirou de tanta emoção.

A coisa começou com Tempo Perdido e um Wagner Moura pulando que nem canguru, transmitindo uma energia e uma emoção de estar ali que a TV não conseguiu captar. Na platéia 7 mil alucinados que transfomaram aqueles versos num culto religioso que qualquer show do Los Hermanos virou amador perto daquela intensidade. Fábrica, Daniel na Cova dos Leões. Wagner Moura olha para o público, visivelmente emocionado e diz “Essa é a noite mais emocionante da minha vida”, pronto, terremoto na Barra Funda.

Eu sei exatamente o que se passou dentro da grande maioria das pessoas que estavam ali, mas vou falar por mim. Foram mais de 2 horas de shows, algumas musicas que nunca foram tocadas ao vivo como Antes das Seis ou A Via Láctea, e um filme foi passando na minha cabeça. Mas não um filme que trouxesse tristeza, dor, nada que pudesse lembrar sentimentos negativos, ao contrário. Foi um saudosismo sadio, cantar (ou berrar) cada uma daquelas musicas me fez lembrar de momentos marcantes da minha adolescencia, corri dos 12-23 anos assim num estalo. Pensar na minha mãe e no meu pai, no meu irmão, nos amigos daquela época que atualmente eu só tive contato quando adicionei no Facebook, relembrar passagens dessa época de escola. E lembrar também das namoradas que foram importantes, mesmo aquelas que não tem nenhuma conexão com essa época, enfim, foi uma noite de relembrar as coisas boas da vida, e olhar ao seu lado e ver tanta gente chorando, cada um com suas lembranças, com suas próprias emoções e interpretações do que aquelas frases representam. Foi uma noite sublime.

Só queria que tocassem Sereníssima e ela veio, eu teria vergonha de assistir um video mostrando a minha reação. Fora isso canções que não ouvia há 10 anos ou que jamais pensei ouvir ao vivo, na vida, como Se Fiquei Esperando o Meu Passar.

E tocou Perfeição, e a banda saiu do palco. De repente o público começou a cantar Será (só de escrever já me arrepio), quem foi no Radiohead sabe o que foi o fim de Paranoid Android, só que ali foi mais forte, porque quando chegou o refrão os 7 mil presentes estavam cantando e com uma força impressionante até a banda voltar.

E depois do Bis ninguém foi embora, as luzes ascenderam, ninguém se mexia, eles voltaram e com luzes acessas tocaram Será, isso depois de Pais e Filhos varrer de lágrimas aquela noite. Quando acabou Será e ficou claro que tinha acabado, começou a rolar Por Enquanto (cd tocando para o povo ir embora), metade do platéia parada, cantando, poucos queriam que aquela noite acabasse. Todo mundo pediu Faroeste Cabloco, só rolou no dia seguinte, mas tudo bem. Comecei a sair de lá, exausto (logo eu que pareço incansável), sensação de ter sido atropelado por um caminhão, sensação de alma lavada, de ter recordado uns 15 anos da vida, e uma infinidade de emoções que eu nem conseguiria expressar aqui, ficaram comigo, assim como as musicas ficarão. Legião Urbana marcou o tempo eu que eu acreditava que podia mudar o mundo, que tinha tantos ideais, sonhos, e tinha certeza no amor.

Música preferida de cada disco:

Legião Urbana (1985) – Perdidos no Espaço

Dois (1986) – Daniel na Cova dos Leões | Quase Sem Querer

Que País é Este? (1987) – Mais do Mesmo (Faroeste Caboclo é hors concours)

As Quatro Estações (1989) – Sete Cidades

V (1991) – Sereníssima

Música para Acampamentos (1992) – Soldados

O Descobrimento do Brasil (1993) – Os Barcos

A Tempestade ou O Livro dos Dias (1996) – Mil Pedaços

Uma Outra Estação (1997) póstumo – Uma Outra Estação

Ácustico MTV (1999) – Baader-Meinhof Blues

Como É que se Diz Eu Te Amo – Metal Contra as Nuvens