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Top 25 – 2018

Publicado: janeiro 2, 2019 em Cinema, Top

Não há muito o que se reclamar de 2018, quando se trata de cinema. Foi mais um ano bem positivo aos cinéfilos, e também um ano de muitas polêmicas que vão além da exibição dos filmes. A discussão que mais imperou foram os streamings, os filmes que não passam pela tela grande, e essa nova maneira de dialogar e distribuir. O ápice foi a confusão entre Festival de Cannes e Netflix, que tirou os filmes da gigante dos streamings do festival, e entre os últimos capítulos a mesma Netflix vem figurando com grande favoritismo ao Oscar (com um filme preto e branco e falado em espanhol). Se fala tanto na Netflix, mas Hulu e Amazon são outros ótimos exemplos de produção de conteúdo, mas que jogam diferente com os grandes exibidores, por isso menos confronto.

É o planeta em processo de reconfiguração, fechando barreiras que estava escancaradas, e o cinema não só é afetado como reflete essas mudanças. Os streamings vieram para ficar, e vão ocupar cada vez mais espaço. Bird Box (recente filme da Netflix) foi visto por uma quantidade avassaladora de pessoas, um alcance que as salas de cinema não teria tão rapidamente.  Num mundo em que a ultra-direita ganha espaços em países importantes e que os nacionalismos estão inflamados, o cinema trata desses e outros temas, enquanto a indústria tenta se reencontrar com o público.

Fora dos filmes, 2018 foi ano que a guerra comercial EUA x China chegou em níveis não imaginados, enquanto a União Européia enfrenta o Brexit e esse passo atrás da integração e globalização. E, obviamente que temas de 2017 se consolidaram ao longo do ano, o espaço de protagonismo das minorias (negros, latinos) na criação e premiação, e a tardia, e necessária, conquista do espaço da mulher.

Nesse ranking pessoal, nova tentativa de refletir o ano cinematográfico a partir dos dez filmes que mais me agradaram, seja na forma como exploram seus temas ou nas novas maneira de utilizar a linguagem cinematográfica, sem perder a conexão com o mundo além do lado artístico. Afinal, arte sempre será uma maneira de refletir o mundo. Vale citar que a lista não é construída com nenhuma preocupação plural (ou de cumprir cotas), isso acontece, ou não, naturalmente. E chama a atenção a divisão geográfica com EUA (2), Europa (5), Ásia (2) e um filme latino, constituindo essa pequena e bela amostragem do que 2018 teve a nos oferecer. A ordem é meramente subjetiva, mais importante é o que vamos carregar com os filmes a partir de agora.

 

Novamente, o cinema não se esquivou das mazelas do mundo. Se 2018 não nos privou de novos capítulos tristes e imagens aterrorizantes de guerra, os filmes nos fizeram refletir ou revivê-las de maneira intensa.  Em Imagem e Palavra Jean-Luc Godard segue inventado, radicalizando, e também criticando, e novamente ele oferece um dos acontecimentos audiovisuais do ano. A guerra está aqui, entre o experimentalismo da desconstrução, pela ousadia de pedir um Remake ao mundo, seu foco também é o mundo árabe, aceitação e não demonização. E por falar de acontecimento audiovisual, o que falar do filme inacabado de Orson Welles? O Outro Lado do Vento, finalmente, foi finalizado, e que filme. Ousado na narrativa, provocativo na forma como enxerga a Hollywood dos anos 70, e criativo por todos os lados. Um encontro de Verdades e Mentiras com o cinema mais autoral de John Cassavetes

Talvez o menos conhecido da lista, Drvo: A Árvore, do português estreante André Gil Mata nos faz lembrar Bela Tarr, ao partir de uma fotografia de uma árvore em Saravejo, e com apenas um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, criar uma das maiores poesias visuais do ano entre os resquícios das guerras nos balcãs. Também há resquícios da guerra no novo melodrama de Christian Petzold. Em Transit, o cineasta alemão sugere uma Europa em que o Nazismo venceu, e os imigrantes são os perseguidos (mas hoje também não são?). Petzold é um daqueles que só temos a lamentar porque seus filmes não chegam aos cinemas brasileiros (creio que só Barbara teve distribuição), sua narrativa é sofisticada, suas histórias e personagens apaixonantes, e aqui ele vai muito além ao tratar de sobrevivência num romance em que o desfecho sempre soa improvável.

Seguindo pelo caminho do improvável, uma das grandes sensações de Cannes foi Em Chamas, adaptando Murakami. A dança ao por do sol, o sugerido triângulo amoroso intricado, a atmosfera instigante de mistério. O filme do sul-coreano de Lee Chang-dong pede menos por resposta, e mais por esse mergulho em cada um dos personagens desse tripé. Ainda em Cannes, a cena de punk-rock na Rússia dos anos 80 ofereceu um dos filmes mais saborosos do ano, a cinebiografia do maior ícone da época brinca com a ingenuidade dos rebeldes, assim como a pureza de sentimentos, e o brinde que se torna tudo que se refere a imaginação dos personagens. É um filme menos preocupado com fatos, e bem mais interessado em nos fazer mergulhar na época e sentir a temperatura daquele tempo.

Família, nunca pode faltar. Temos aqui três abordagens bem distintas. Tão pessoal o trabalho de Alfonso Cuarón ao resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. O clima de nostalgia que vem de seu plano visual virtuoso contrasta com a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo, dando voz a quem sempre aceitou uma vida de coadjuvante. Já Amanda mistura a dor de uma tragédia e a necessidade de reconstrução entre os cacos, e a intolerância. Um filme tão dolorido, e, ainda assim, tão luminoso de Mikhaël Hers, afinal são duas crianças (uma delas uma criança adulta) que  enfrentam essa melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Por fim, o vencedor da Palma de Ouro, esse caso amoroso de Kore-eda com crianças, mas dessa vez o japonês complica a trama com ousadia, sem sair de seu ritmo cinematográfico. A hipocrisia das convenções sociais questionada ao colocar o marginal como melhor refúgio de uma garotinha de classe média. É um choque de afeto e de reflexão sobre o que está velado e como são criados os laços sentimentais.

E o filme do ano foi dele, Paul Thomas Anderson, com o romance doentio de uma estilista e sua musa. Um amor que é quase um fime de terror, entre atração e obsessão. Um conto sobre a mascunilidade e seu poder de liderar e ser liderado. PTA se coloca como um arquiteto do cinema por contruir personagens marcantes e cenas inesquecíveis que representam também a personificação de cada um desses personagens. É uma pequena aula de domínio cinematográfico, e também hipnótico experimento de um tipo de relacionamento opressivo, tóxico e instigante, um vício da qual não se consegue superar.

 

  1. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
  2. O Outro Lado do Vento, de Orson Welles
  3. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
  4. Amanda, de Mikaël Hers
  5. Um Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
  6. Transit, de Christian Petzold
  7. Verão, de Kirill Serebrennikov
  8. Em Chamas, de Lee Chang-dong
  9. Roma, de Alfonso Cuarón
  10. A Árvore, de André Gil Matta
  11. Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper
  12. Umas Perguntas, de Kristina Konrad
  13. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
  14. Ex-Libris: New York Public Library, de Frederick Wiseman
  15. Mariphasa, de Sandro Aguilar
  16. L. Cohen, de James Benning
  17. A Dragon Arrives!, de Mani Naghighi
  18. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
  19. A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho
  20. Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay
  21. 3 Faces, de Jafar Panahi
  22. Museu, de Alonso Ruizpalacios
  23. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
  24. Asako I e II, de Ryusuke Hamaguchi
  25. A Forma da Água, de Guillermo del Toro

 


Meus Rankings dos anos anteriores

Top 25 – 2017

Top 25 – 2016

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

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Top 10 – 2018 – Cinema Nacional

Publicado: janeiro 1, 2019 em Cinema, Top

Não foi um ano em que um filme se destacou muito frente aos demais, mas foi um ano de forte presença nos festivais internacionais (principalmente Berlim e Rotterdã), também um ano em que estão surgindo novos autores, a necessária renovação se faz presente. Ainda assim o cinema brasileiro trouxe em 2018 a riqueza de sua diversidade em suas visões e reflexões sobre nosso país contemporâneo.

 Não foi fácil escolher o filme que fecharia a lista, havia um leque de opções, mas o road movie da operária sexagenária recém desempregada pesou mais forte pela presença forte de Magali Biff. Essa possibilidade de descoberta do desconhecido, de sair da zona de conforto, é o que muita gente precisaria para se sentir vivos. Falando em manter vivo, dois bons trabalhos resgataram a chama de dois personagens tão importantes ao cinema nacional. Guarnieri e Paulo José foram homenageados, e bem homenageados, em filmes sensíveis e afetivos. E por falar em memória, o que dizer das lembranças da diretora Flávia Castro, que resgata seu passado adolescente no retorno ao Brasil no início da redemocratização. Deslembro ainda não entrou em cartaz, mas merece ser visto assim que possível.

Carolina Jabor trouxe muita polêmica com as redes sociais e o linchamento virtual de um professor que, supostamente, teria cometido abuso infantil. Aos Teus Olhos fala muito com nosso sociedade moderna, que define tudo por boatos, e não se dá ao luxo de ouvir o que o outro tem a dizer. Já o ator Murilo Benício se destaca ao dirigir a adaptação de O Beijo no Asfalto, e o poder da imprensa em transformar boatos e fatos. A bela coprodução Brasil-Portugal, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, traz a questão indígena de outro prisma, um jovem índio que não se sente bem em sua comunidade e nem é abraçado pela outra, vive num hiato da marginalização.

O pódio se abre com Temporada, o novo filme de André Novais Oliveira sobre esse país precário, sobre a opção pela vida fácil, pela irresponsabilidade pública, e também sobre ser negro e o espaço miserável que lhe cabe. O estreante Tiago Melo vem com Azougue Nazaré, preconceito, religião, é um filme-panela-de-pressão, que fez muito sucesso em Rotterdã. Mas, o grande favorito foi Café com Canela, a surpreendente parceria de Glenda Nicário e Ary Rosa é de uma simplicidade e singeleza que fica difícil não se encantar com seus personagens, e o filme também tem muita experimentação na linguagem, quebra do formalismo, um cinema que foge da zona de conforto.

  1. Café com Canela, de Glenda Nicário e Ary Rosa
  2. Azougue Nazaré, de Tiago Melo
  3. Temporada, de André Novais Oliveira
  4. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Mossora e João Salaviza
  5. Deslembro, de Flávia Castro
  6. O Beijo no Asfalto, de Murilo Benício
  7. Guarnieri, de Francisco Guarnieri
  8. Todos os Paulos do Mundo, de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro
  9. Aos teus Olhos, de Carolina Jabor
  10. Pela Janela, de Caroline Leone

 


Top 10 – 2017 – Cinema Nacional

Top 5 – 2016 – Cinema Nacional

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

Top 25 – 2017

Publicado: janeiro 2, 2018 em Cinema, Top

Numa breve reflexão sobre o que fica de 2017 para a história do cinema, saltam aos olhos polêmicas e uma luta por espaço dos considerados minorias dentro dessa indústria. Foi um ano em que o abuso sexual expões grandes nomes, que as mulheres ganharam mais espaço (#52filmsbywomen), que se clamou por outras etnias em Hollywood. Por outro lado, foi o ano em que as intolerâncias e o novo policamente correto ganharam voz, deixando de lado o plural em prol dessas lutas por espaço, causando assim exagero absurdo. Dessa forma, uma mulher não pode mais fazer um filme sobre negros, um branco não pode fazer um filme sobre mulheres, muitos querem o singular ao invés da pluralidade, e brigam por tudo, quando deveriam estar focados na causa justa.

Mas, foi um grande ano no cinema, e também um ano de quebrar barreiras. As séries de tv ganham um espaço tão grande, que algumas já são exibidas em festivais de cinema, tem um diretor único e uma linguagem cinematográfica mais forte que muito filme por ai. Esses casos, em que o conceito de programa de tv é quebrado, começam a ser considerados como filmes também. Foi o ano em que a popularização dos Streamings permitiu novas formas de lançamento e distribuição, democratizando um pouco a forma de comunicação do cinema com quem não está nos grandes centros.

Sem mais delongas, vamos fazer aquele balanço anual, dos melhores do ano, com destaque para o top 10. A regra é simples, filmes vistos em 2017, que tenham sido produzidos desde 2015.

  1. Twin Peaks – The Return, de David Lynch
  2. Visages, Villages, de Agnes Varda e JR
  3. Bom Comportamento, de Ben e Josh Safdie
  4. Top of the Lake – China Girl, de Jane Campion
  5. Moonlight – Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins
  6. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan
  7. Personal Shopper, de Olivier Assayas
  8. Três Anúncios para um Crime, de Martin McDonagh
  9. Dunkirk, de Christopher Nolan
  10. Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnano
  11. Projeto Flórida, de Sean Baker
  12. Apesar da Noite, de Philippe Grandrieux
  13. Uma Mulher Fantástica, de Sebastian Lelio
  14. Hermia & Helena, de Matías Piñeiro
  15. A Mulher que Se Foi, de Lav Diaz
  16. Doce País, de Warwick Thorton
  17. Exercícios de Memória, de Paz Encina
  18. A Trama, de Laurent Cantet
  19. Em Ritmo de Fuga, de
  20. Colo, de Teresa Villaverde
  21. Logan, de James Mangold
  22. Corra!, de Jordan Peele
  23. Verão 1993, de Carla Simón
  24. Amante e um dia, de Philippe Garrel
  25. Verão Danado, de Pedro Cabeleira

 

O público se rendeu a delicadeza do despertar para a homossexualidade nesse romance quase idílico. Me Chame pelo Seu Nome é o tipo de romance dos sonhos, que quase todos gostariam de viver algo parecido na vida. O italiano Luca Guadagnano encanta pela narrativa solar, e pela sinceridade e espontaneidade visceral de seus personagens. A confusão na entrega do Oscar foi grande, mas é sempre bom relembrar que Moonlight foi o escolhido. O primeiro filme com temática gay a ser premiado, o estreante Benny Jenkins vai buscar em Kar-Wai inspiração para retratar a vida de um negro pobre, passando por três fases chave de sua vida.

Numa ano em que um cinema mais jovial desperta, dois filmes com estruturas velhas conhecidas também se destacam. Em Durkirk, o filme de guerra ganha três linhas do tempo e a completa sensação de imersão nos horrores do front. Christopher Nolan conquistou alguns de seus detratores, e cativou ainda mais seus fãs. Já Manchester à Beira-Mar é o novo melodrama doloroso de Kenneth Lonergan, a incurável dor da perda quem nem nos deixa chorar, de tão dolorido.

Olivier Assayas entre o sobrenatural e a modernidade dos smartphones. Nenhum filme conseguiu chegar perto da tensão através de mensagens de texto, e ainda explorar uma personagem perdida entre sua vida profissional e a dolorosa perda do irmão.

A era Trump mal começou, mas já temos um grande filme para representa-la. Três Anuncios para um Crime tem a intolerância rondando uma série de personagens e suas feridas na América profunda. Preconceitos, arrogância, e a luta pelo que se acredita, está tudo lá no filme dirigido por Martin McDonagh.

Os irmãos Safdie chegaram de mansinho, mas dessa vez injetaram ânimo até na competição de Cannes. Bom Comportamento tem Robert Pattinson numa interpretação alucinante, de um personagem com ganas de encontrar os atalhos que o levem até uma vida mais confortável ou de salvar o irmão da enrascada que ele mesmo colocou.

Entre os dez favoritos do ano, apenas dois dirigidos por mulheres, mas esses estão lá no topo. A série de tv Top of Lake: Chinal Girl tem Elizabeth Moss nos principais temas femininos da atualidade: sexualidade, igualdade profissional, reconhecimento, liberdade. A diretora Jane Campion volta a esse universo com a língua afiada e a capacidade de fazer tensão saindo da zona de conforto do cinema. Já o encantador Visages, Villages é o encontro de Agnes Varda e o fotógrafo JR por uma França longe dos holofotes, enquanto apresenta um pequeno choque de gerações entre a dupla.

E o acontecimento audiovisual do ano foi realmente Twin Peaks: The Return. Em quase 18 horas, David Lynch criou novas linguagem, estabeleceu infinitas possibilidades e dialogou com sua filmografia como poucas vezes se viu na história do cinema. Twin Peaks enlouqueceu fãs e nos deixou a maior obra-prima de 2017, o aterrorizante episódio 8, em que o mal é sentido, é onipresente, numa narrativa quase sem falas, mas repleta de sensações.


Aos mais curiosos, o link abaixo aumenta um pouco essa lista considerando os 100 favoritos filmes do ano. Principalmente aos que buscam mais novidades, os menos conhecidos.

Top 100 – 2017


Top 25 – 2016

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

Top 10 – 2017 – Cinema Nacional

Publicado: janeiro 1, 2018 em Cinema, Top

Vamos dar uma mudada nesse post anual, que já virou tradição em abrir o ano novo. Tanto se reclama da distribuição no cinema nacional, o espaço limitado que achata a janela de lançamentos e muitos dos melhores filmes acabam preteridos ao atraso, muitas vezes passando seu momento, e em outros casos até deixando de ser lançados. Dessa forma, a partir de hoje o top 5 se torna top 10 e segue o mesmo critério do post de amanha, dos melhores do ano (vistos em 2017 e produzidos desde 2015). Os filmes não precisando ter estreia no circuito, incluindo assim o mundo dos festivais no top e ajudando na divulgação para acelerar o processo de lançamento dos mesmos.

Acredito também que o mercado nacional deveria abandonar o ano-calendário (Jan-Dez) e escolher seus melhores do ano tendo o Festival do Rio como o início de um ciclo, afinal ali ocorrem as primeiras exibições mesmo e quase sempre os “principais filmes”, que vão tentar vaga ao Oscar (por exemplo), acabam chegando aos cinemas em Agosto e Setembro, quase no final desse citado ciclo.

 

Falando dos filmes, não foi um ano de sucesso retumbante no exterior, diferente de 2016. Por mais que tenha havido uma enxurrada de títulos no Festival de Berlim, e destaques em mostras paralelas, apenas um foi amplamente reconhecido mundialmente. Trata-se de As Boas Maneiras, da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, que levaram o prêmio do júri em Locarno. Numa fantasia de horror, os dois diretores (que seguem criando sólida e autoral filmografia) inserem o fantástico na metrópole, e fogem de todos os padrões ao retratar duas formas de amor, de maneira intensa e carinhosa, e ainda resgatando uma narrativa que flerta com o popular.

Falando em cinema popular, Bingo – O Rei das Manhãs foi o melhor destaque. Estreia na direção de Daniel Rezende, a história de um dos personagens que interpretaram o Bozo, no auge dos anos oitenta, é um raio-x da década dos excessos, além de um interessante trabalho sobre a vaidade e a obrigatoriedade de viver a fama e ser low-profile.

O cinema de fluxos de Marilia Rocha em A Cidade Onde Envelheço, ou de memórias e poesias no radical Lamparina da Aurora, de Frederico Machado, ou o já conhecido experimentalismo de Julio Bressane, em Beduino, são filmes que dizem muito sobre esse cinema nacional feito para um público pequeno, mas ávido pela quebra de conceitos e por propostas mais ousadas.

E o favorito do ano é mesmo Arábia (ainda inédito), da dupla Affonso Uchoa e João Dumans, que traz Minas Gerais às telonas, através dos diários de um operário acidentado, olhamos com uma lupa a trajetória de um em tantos brasileiros que pula de galho em galho, buscando seu lugar ao sol. Mira na classe média, mas só luta mesmo por sua sobrevivência, tal qual nosso cinema.

  1. Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans
  2. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
  3. Bingo – O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
  4. A Cidade Onde Envelheço, de Marilia Rocha
  5. Beduino, de Julio Bressane
  6. Lamparina da Aurora, de Frederico Machado
  7. As Duas Irenes, de Fabio Meira
  8. Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira
  9. No Intenso Agora, de Walter Salles
  10. Comeback, de Erico Rassi

E para não falaremo que o circuito foi abandonado, Martirio seria o filme favorito do circuito nacional, lembrando que Arabia e As Boas maneiras devem ter estreia em 2018.


Top 10 – 2017 no Letterboxd

Top 5 – 2016 – Cinema Nacional

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

 

Antes de mais nada, é importante destacar, que a análise e a escolha dos melhores filmes do ano de 2016 ficou comprometida pela ausência de alguns dos principais destaques da temporada. Estes filmes já pintam como favoritos a participar da lista do ano que vem. Não foi possível descobrir filmes como Nocturama, Personal Shopper, Manchester à Beira-Mar, Moonlight, La la Land e Hermia & Helena.

Lembrando que valem filmes lançados em até dois anos atrás, portanto a partir de 2014, e vistos por esse blog no decorrer de 2016.

elle

  1. Elle, de Paul Verhoeven
  2. Sieranevada, de Cristi Puiu
  3. Canção para um Doloroso Mistério, de Lav Diaz
  4. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  5. Toni Erdmann, de Maren Ade
  6. Certas Mulheres, de Kelly Reichardt
  7. O. J.: Made in America, de Ezra Edelman
  8. Martírio, de Vincent Carelli
  9. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater
  10. Os Pensamentos que Outrora Tivemos, de Thom Andersen
  11. Correspondências, de Rita Gomes de Azevedo
  12. Porto, de Gabe Klinger
  13. Belos Sonhos, de Marco Bellocchio
  14. A Qualquer Custo, de David Mackenzie
  15. Loving, de Jeff Nichols
  16. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love
  17. Três, de Johnnie To
  18. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
  19. Homo Sapiens, de Nikolaus Geyrhalter
  20. John From, de João Nicolau
  21. Graduation, de Cristian Mungiu
  22. A Grande Aposta, de
  23. Paterson, de Jim Jarmusch
  24. A 13ª Emenda, de Ava Duvernay
  25. O Filho de Joseph, de Eugène Green

Dito isso, a primeira análise possível é destacar a quantidade de grandes filmes que tem mulheres como protagonistas. São personagens fortes e marcantes, e que fogem de um clichê fragilizado. Ao contrário, são personagens extremamente determinadas, e de graus de complexidade, e camadas, que não só traduzem diferentes posições das mulheres na sociedade atual, como finalmente oferecem tratamento igualitário.

Peguemos os exemplos de Elle e Aquarius, onde Isabelle Huppert e Sonia Braga lutam por seus anseios pessoais, sejam eles profissionais ou amorosos, se permitem manter a sexualidade ativa e decidida, e compram briga com a juventude sem qualquer medo que qualquer discussão fuga da argumentação. São mulheres vibrantes, independentes, modernas e ainda assim influenciadas pelo passado. Nessa mesma linha há aquele que foi considerado pela critica o filme do ano, em Toni Erdmann temos o embate entre pai e filha, ela uma executiva workaholic, distante da família e fria nas decisões profissionais. A diretora alemã, Maren Ade, mistura as fragilidades e fortalezas dentro desse vulcão em erupção que é sua protagonista, aterrorizada pelo pai debochado e intrometido que quer sua atenção.

Se falamos em mulheres, o novo filme de Kelly Reichardt é o destaque ainda maior, afinal, são três histórias e quatro mulheres protagonizando tipos femininos dessa sociedade moderna americana. E novamente as fragilidades e fortalezas são destrinchadas com exímia sensibilidade.

Contraponto a tudo isso vem o novo filme de Richard Linklater, uma espécie de continuação espiritual do filme antecessor. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes acompanha um grupo de calouros da universidade que fazem parte do time de baseball, vivem de festas e de conhecer as garotas. Alguém pode sugerir uma visão machista, mas a sensibilidade de tratar a idade, pela visão masculina, e a aproximação com o sexo oposto, devem afastar esse pensamento inicial. Seu filme é outra ótima representação de uma juventude imatura, despreocupação com qualquer coisa além da diversão.

Dois documentários que dissecam seus temas são grande destaque do ano. Primeiramente O. J: Made in America que não só refaz toda a trajetória do crime que marcou os EUA, com seu grande astro de futebol americano, como contextualiza a questão negra à época e sabiamente relaciona os desfechos do julgamento. No Brasil, Martírio (que será lançado em circuito em 2017) é extremamente atual e estuda a questão do índio. É um retrato completo e constrangedor de um país que privilegia sempre o mercado frente o ser humano. Falando em política, novamente temos Lav Diaz resgatando a história de seu país (Filipinas). Numa viagem de oito horas de um cinema vigoroso, viajamos pela história de ditadores, burguesia fútil e a caça aos lideres da revolução que pregam democracia e liberdade.

Dessa forma temos política, preconceito, violência e injustiça representados no cinema, talvez tenha faltado aqui a questão que aflige a Europa que é a imigração e o terrorismo. E, para encerrar essa pequena amostra, outro documentário de Thom Andersen. Os Pensamentos que Outro Tivemos é um delicioso estudo a partir de livros de Deleuze, a partir de ciclos de destruição e restauração e exemplos caldos no cinema de Godard, Cassavetes, Griffith e Pedro Costa. Representa  um cinema que enxerga para dentro da sétima arte, que analisa, questiona e compara a si próprio, uma autocritica e uma autorreferencia instigante.

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

O cinema brasileiro deu o que falar em 2016. Começando pelo grande sucesso internacional de 2 filmes, que, não por acaso, encabeçam a lista de favoritos deste blog. Ambos entraram em listas de melhores do ano, como New York Times e Cahiers du Cinema. Kleber Mendonça Filho causou frisson em Cannes, e Boi Neon se destacou em Veneza, no ano anterior. Mas, não foram só os elogios, houve também a questão política, a manifestação, e mais tarde a polêmica na escolha do filme que o Brasil optou para ser o concorrente no Oscar.

Enquanto isso, os filmes brasileiros continuam buscando seu espaço, vivendo das comédias globais ou dos lançamentos minúsculos que rapidamente saem de cartaz. Fora eles, só meia dúzia de filmes alcançam realmente um público maior, e neles alguns nomes se solidificam, como Marco Dutra e Anna Muylaert.

Cinema de gênero (um thriller e musical), documentários intimistas, além dos sucessos de Gabriel Mascaro e KMF, os 5 filmes dessa lista de destaques do ano carregam a urgência de um cinema que precisa ser visto, descoberto pelo público e com mais espaço de midia, salas e alcance.

 

Aquarius

 

  1. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  2. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
  3. O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
  4. A Paixão de JL, de Carlos Nader
  5. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan