Top 25 – 2017

Numa breve reflexão sobre o que fica de 2017 para a história do cinema, saltam aos olhos polêmicas e uma luta por espaço dos considerados minorias dentro dessa indústria. Foi um ano em que o abuso sexual expões grandes nomes, que as mulheres ganharam mais espaço (#52filmsbywomen), que se clamou por outras etnias em Hollywood. Por outro lado, foi o ano em que as intolerâncias e o novo policamente correto ganharam voz, deixando de lado o plural em prol dessas lutas por espaço, causando assim exagero absurdo. Dessa forma, uma mulher não pode mais fazer um filme sobre negros, um branco não pode fazer um filme sobre mulheres, muitos querem o singular ao invés da pluralidade, e brigam por tudo, quando deveriam estar focados na causa justa.

Mas, foi um grande ano no cinema, e também um ano de quebrar barreiras. As séries de tv ganham um espaço tão grande, que algumas já são exibidas em festivais de cinema, tem um diretor único e uma linguagem cinematográfica mais forte que muito filme por ai. Esses casos, em que o conceito de programa de tv é quebrado, começam a ser considerados como filmes também. Foi o ano em que a popularização dos Streamings permitiu novas formas de lançamento e distribuição, democratizando um pouco a forma de comunicação do cinema com quem não está nos grandes centros.

Sem mais delongas, vamos fazer aquele balanço anual, dos melhores do ano, com destaque para o top 10. A regra é simples, filmes vistos em 2017, que tenham sido produzidos desde 2015.

  1. Twin Peaks – The Return, de David Lynch
  2. Visages, Villages, de Agnes Varda e JR
  3. Bom Comportamento, de Ben e Josh Safdie
  4. Top of the Lake – China Girl, de Jane Campion
  5. Moonlight – Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins
  6. Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan
  7. Três Anúncios para um Crime, de Martin McDonagh
  8. Personal Shopper, de Olivier Assayas
  9. Dunkirk, de Christopher Nolan
  10. Me Chame pelo Seu Nome, de Luca Guadagnano
  11. Apesar da Noite, de Philippe Grandrieux
  12. Uma Mulher Fantástica, de Sebastian Lelio
  13. Hermia & Helena, de Matías Piñeiro
  14. A Mulher que Se Foi, de Lav Diaz
  15. Doce País, de Warwick Thorton
  16. Exercícios de Memória, de Paz Encina
  17. A Trama, de Laurent Cantet
  18. Em Ritmo de Fuga, de
  19. Colo, de Teresa Villaverde
  20. Logan, de James Mangold
  21. Corra!, de Jordan Peele
  22. Verão 1993, de Carla Simón
  23. Projeto Flórida, de Sean Baker
  24. Amante e um dia, de Philippe Garrel
  25. Verão Danado, de Pedro Cabeleira

 

O público se rendeu a delicadeza do despertar para a homossexualidade nesse romance quase idílico. Me Chame pelo Seu Nome é o tipo de romance dos sonhos, que quase todos gostariam de viver algo parecido na vida. O italiano Luca Guadagnano encanta pela narrativa solar, e pela sinceridade e espontaneidade visceral de seus personagens. A confusão na entrega do Oscar foi grande, mas é sempre bom relembrar que Moonlight foi o escolhido. O primeiro filme com temática gay a ser premiado, o estreante Benny Jenkins vai buscar em Kar-Wai inspiração para retratar a vida de um negro pobre, passando por três fases chave de sua vida.

Numa ano em que um cinema mais jovial desperta, dois filmes com estruturas velhas conhecidas também se destacam. Em Durkirk, o filme de guerra ganha três linhas do tempo e a completa sensação de imersão nos horrores do front. Christopher Nolan conquistou alguns de seus detratores, e cativou ainda mais seus fãs. Já Manchester à Beira-Mar é o novo melodrama doloroso de Kenneth Lonergan, a incurável dor da perda quem nem nos deixa chorar, de tão dolorido.

Olivier Assayas entre o sobrenatural e a modernidade dos smartphones. Nenhum filme conseguiu chegar perto da tensão através de mensagens de texto, e ainda explorar uma personagem perdida entre sua vida profissional e a dolorosa perda do irmão.

A era Trump mal começou, mas já temos um grande filme para representa-la. Três Anuncios para um Crime tem a intolerância rondando uma série de personagens e suas feridas na América profunda. Preconceitos, arrogância, e a luta pelo que se acredita, está tudo lá no filme dirigido por Martin McDonagh.

Os irmãos Safdie chegaram de mansinho, mas dessa vez injetaram ânimo até na competição de Cannes. Bom Comportamento tem Robert Pattinson numa interpretação alucinante, de um personagem com ganas de encontrar os atalhos que o levem até uma vida mais confortável ou de salvar o irmão da enrascada que ele mesmo colocou.

Entre os dez favoritos do ano, apenas dois dirigidos por mulheres, mas esses estão lá no topo. A série de tv Top of Lake: Chinal Girl tem Elizabeth Moss nos principais temas femininos da atualidade: sexualidade, igualdade profissional, reconhecimento, liberdade. A diretora Jane Campion volta a esse universo com a língua afiada e a capacidade de fazer tensão saindo da zona de conforto do cinema. Já o encantador Visages, Villages é o encontro de Agnes Varda e o fotógrafo JR por uma França longe dos holofotes, enquanto apresenta um pequeno choque de gerações entre a dupla.

E o acontecimento audiovisual do ano foi realmente Twin Peaks: The Return. Em quase 18 horas, David Lynch criou novas linguagem, estabeleceu infinitas possibilidades e dialogou com sua filmografia como poucas vezes se viu na história do cinema. Twin Peaks enlouqueceu fãs e nos deixou a maior obra-prima de 2017, o aterrorizante episódio 8, em que o mal é sentido, é onipresente, numa narrativa quase sem falas, mas repleta de sensações.


Aos mais curiosos, o link abaixo aumenta um pouco essa lista considerando os 100 favoritos filmes do ano. Principalmente aos que buscam mais novidades, os menos conhecidos.

Top 100 – 2017


Top 25 – 2016

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

Anúncios

Top 10 – 2017 – Cinema Nacional

Vamos dar uma mudada nesse post anual, que já virou tradição em abrir o ano novo. Tanto se reclama da distribuição no cinema nacional, o espaço limitado que achata a janela de lançamentos e muitos dos melhores filmes acabam preteridos ao atraso, muitas vezes passando seu momento, e em outros casos até deixando de ser lançados. Dessa forma, a partir de hoje o top 5 se torna top 10 e segue o mesmo critério do post de amanha, dos melhores do ano (vistos em 2017 e produzidos desde 2015). Os filmes não precisando ter estreia no circuito, incluindo assim o mundo dos festivais no top e ajudando na divulgação para acelerar o processo de lançamento dos mesmos.

Acredito também que o mercado nacional deveria abandonar o ano-calendário (Jan-Dez) e escolher seus melhores do ano tendo o Festival do Rio como o início de um ciclo, afinal ali ocorrem as primeiras exibições mesmo e quase sempre os “principais filmes”, que vão tentar vaga ao Oscar (por exemplo), acabam chegando aos cinemas em Agosto e Setembro, quase no final desse citado ciclo.

 

Falando dos filmes, não foi um ano de sucesso retumbante no exterior, diferente de 2016. Por mais que tenha havido uma enxurrada de títulos no Festival de Berlim, e destaques em mostras paralelas, apenas um foi amplamente reconhecido mundialmente. Trata-se de As Boas Maneiras, da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra, que levaram o prêmio do júri em Locarno. Numa fantasia de horror, os dois diretores (que seguem criando sólida e autoral filmografia) inserem o fantástico na metrópole, e fogem de todos os padrões ao retratar duas formas de amor, de maneira intensa e carinhosa, e ainda resgatando uma narrativa que flerta com o popular.

Falando em cinema popular, Bingo – O Rei das Manhãs foi o melhor destaque. Estreia na direção de Daniel Rezende, a história de um dos personagens que interpretaram o Bozo, no auge dos anos oitenta, é um raio-x da década dos excessos, além de um interessante trabalho sobre a vaidade e a obrigatoriedade de viver a fama e ser low-profile.

O cinema de fluxos de Marilia Rocha em A Cidade Onde Envelheço, ou de memórias e poesias no radical Lamparina da Aurora, de Frederico Machado, ou o já conhecido experimentalismo de Julio Bressane, em Beduino, são filmes que dizem muito sobre esse cinema nacional feito para um público pequeno, mas ávido pela quebra de conceitos e por propostas mais ousadas.

E o favorito do ano é mesmo Arábia (ainda inédito), da dupla Affonso Uchoa e João Dumans, que traz Minas Gerais às telonas, através dos diários de um operário acidentado, olhamos com uma lupa a trajetória de um em tantos brasileiros que pula de galho em galho, buscando seu lugar ao sol. Mira na classe média, mas só luta mesmo por sua sobrevivência, tal qual nosso cinema.

  1. Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans
  2. As Boas Maneiras, de Juliana Rojas e Marco Dutra
  3. Bingo – O Rei das Manhãs, de Daniel Rezende
  4. A Cidade Onde Envelheço, de Marilia Rocha
  5. Beduino, de Julio Bressane
  6. Lamparina da Aurora, de Frederico Machado
  7. As Duas Irenes, de Fabio Meira
  8. Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira
  9. No Intenso Agora, de Walter Salles
  10. Comeback, de Erico Rassi

E para não falaremo que o circuito foi abandonado, Martirio seria o filme favorito do circuito nacional, lembrando que Arabia e As Boas maneiras devem ter estreia em 2018.


Top 10 – 2017 no Letterboxd

Top 5 – 2016 – Cinema Nacional

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

 

Top 25 – 2016

Antes de mais nada, é importante destacar, que a análise e a escolha dos melhores filmes do ano de 2016 ficou comprometida pela ausência de alguns dos principais destaques da temporada. Estes filmes já pintam como favoritos a participar da lista do ano que vem. Não foi possível descobrir filmes como Nocturama, Personal Shopper, Manchester à Beira-Mar, Moonlight, La la Land e Hermia & Helena.

Lembrando que valem filmes lançados em até dois anos atrás, portanto a partir de 2014, e vistos por esse blog no decorrer de 2016.

elle

  1. Elle, de Paul Verhoeven
  2. Sieranevada, de Cristi Puiu
  3. Canção para um Doloroso Mistério, de Lav Diaz
  4. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  5. Toni Erdmann, de Maren Ade
  6. Certas Mulheres, de Kelly Reichardt
  7. O. J.: Made in America, de Ezra Edelman
  8. Martírio, de Vincent Carelli
  9. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes, de Richard Linklater
  10. Os Pensamentos que Outrora Tivemos, de Thom Andersen
  11. Correspondências, de Rita Gomes de Azevedo
  12. Porto, de Gabe Klinger
  13. Belos Sonhos, de Marco Bellocchio
  14. A Qualquer Custo, de David Mackenzie
  15. Loving, de Jeff Nichols
  16. O Que Está Por Vir, de Mia Hansen-Love
  17. Três, de Johnnie To
  18. Rua Cloverfield, 10, de Dan Trachtenberg
  19. Homo Sapiens, de Nikolaus Geyrhalter
  20. John From, de João Nicolau
  21. Graduation, de Cristian Mungiu
  22. A Grande Aposta, de
  23. Paterson, de Jim Jarmusch
  24. A 13ª Emenda, de Ava Duvernay
  25. O Filho de Joseph, de Eugène Green

Dito isso, a primeira análise possível é destacar a quantidade de grandes filmes que tem mulheres como protagonistas. São personagens fortes e marcantes, e que fogem de um clichê fragilizado. Ao contrário, são personagens extremamente determinadas, e de graus de complexidade, e camadas, que não só traduzem diferentes posições das mulheres na sociedade atual, como finalmente oferecem tratamento igualitário.

Peguemos os exemplos de Elle e Aquarius, onde Isabelle Huppert e Sonia Braga lutam por seus anseios pessoais, sejam eles profissionais ou amorosos, se permitem manter a sexualidade ativa e decidida, e compram briga com a juventude sem qualquer medo que qualquer discussão fuga da argumentação. São mulheres vibrantes, independentes, modernas e ainda assim influenciadas pelo passado. Nessa mesma linha há aquele que foi considerado pela critica o filme do ano, em Toni Erdmann temos o embate entre pai e filha, ela uma executiva workaholic, distante da família e fria nas decisões profissionais. A diretora alemã, Maren Ade, mistura as fragilidades e fortalezas dentro desse vulcão em erupção que é sua protagonista, aterrorizada pelo pai debochado e intrometido que quer sua atenção.

Se falamos em mulheres, o novo filme de Kelly Reichardt é o destaque ainda maior, afinal, são três histórias e quatro mulheres protagonizando tipos femininos dessa sociedade moderna americana. E novamente as fragilidades e fortalezas são destrinchadas com exímia sensibilidade.

Contraponto a tudo isso vem o novo filme de Richard Linklater, uma espécie de continuação espiritual do filme antecessor. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes acompanha um grupo de calouros da universidade que fazem parte do time de baseball, vivem de festas e de conhecer as garotas. Alguém pode sugerir uma visão machista, mas a sensibilidade de tratar a idade, pela visão masculina, e a aproximação com o sexo oposto, devem afastar esse pensamento inicial. Seu filme é outra ótima representação de uma juventude imatura, despreocupação com qualquer coisa além da diversão.

Dois documentários que dissecam seus temas são grande destaque do ano. Primeiramente O. J: Made in America que não só refaz toda a trajetória do crime que marcou os EUA, com seu grande astro de futebol americano, como contextualiza a questão negra à época e sabiamente relaciona os desfechos do julgamento. No Brasil, Martírio (que será lançado em circuito em 2017) é extremamente atual e estuda a questão do índio. É um retrato completo e constrangedor de um país que privilegia sempre o mercado frente o ser humano. Falando em política, novamente temos Lav Diaz resgatando a história de seu país (Filipinas). Numa viagem de oito horas de um cinema vigoroso, viajamos pela história de ditadores, burguesia fútil e a caça aos lideres da revolução que pregam democracia e liberdade.

Dessa forma temos política, preconceito, violência e injustiça representados no cinema, talvez tenha faltado aqui a questão que aflige a Europa que é a imigração e o terrorismo. E, para encerrar essa pequena amostra, outro documentário de Thom Andersen. Os Pensamentos que Outro Tivemos é um delicioso estudo a partir de livros de Deleuze, a partir de ciclos de destruição e restauração e exemplos caldos no cinema de Godard, Cassavetes, Griffith e Pedro Costa. Representa  um cinema que enxerga para dentro da sétima arte, que analisa, questiona e compara a si próprio, uma autocritica e uma autorreferencia instigante.

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

Top 5 – 2016 – Cinema Nacional

O cinema brasileiro deu o que falar em 2016. Começando pelo grande sucesso internacional de 2 filmes, que, não por acaso, encabeçam a lista de favoritos deste blog. Ambos entraram em listas de melhores do ano, como New York Times e Cahiers du Cinema. Kleber Mendonça Filho causou frisson em Cannes, e Boi Neon se destacou em Veneza, no ano anterior. Mas, não foram só os elogios, houve também a questão política, a manifestação, e mais tarde a polêmica na escolha do filme que o Brasil optou para ser o concorrente no Oscar.

Enquanto isso, os filmes brasileiros continuam buscando seu espaço, vivendo das comédias globais ou dos lançamentos minúsculos que rapidamente saem de cartaz. Fora eles, só meia dúzia de filmes alcançam realmente um público maior, e neles alguns nomes se solidificam, como Marco Dutra e Anna Muylaert.

Cinema de gênero (um thriller e musical), documentários intimistas, além dos sucessos de Gabriel Mascaro e KMF, os 5 filmes dessa lista de destaques do ano carregam a urgência de um cinema que precisa ser visto, descoberto pelo público e com mais espaço de midia, salas e alcance.

 

Aquarius

 

  1. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho
  2. Boi Neon, de Gabriel Mascaro
  3. O Silêncio do Céu, de Marco Dutra
  4. A Paixão de JL, de Carlos Nader
  5. Sinfonia da Necrópole, de Juliana Rojas

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

Top 25 – 2015

Os meus 25 filmes favoritos do ano de 2015. O critério é o mesmo do ano passado, filmes vistos ao longo do ano, e que foram produzidos até 2 anos atrás (portanto, limite é 2013). Eles formatam, na visão deste blog, o melhor do panorama do cinema, com toda a subjetividade que uma lista dessas possa ter. E, novamente, o top 10 comentado tenta captar um pouco da percepção sobre estes filmes e sobre o cinema contemporâneo.

assassina

  1. A Assassina, de Hou Hsiao-Hsien
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Hard to be a God, de Aleksey German
  4. Carol, de Todd Haynes
  5. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  6. Diálogo de Sombras, de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet
  7. Phoenix, de Christian Petzold
  8. As Mil e Uma Noites: Volume 1 – O Inquieto, de Miguel Gomes
  9. Sniper Americano, de Clint Eastwood
  10. Spotlight, de Tom McCarthy
  11. O Tesouro, de Corneliu Porumboiu
  12. O Ano Mais Violento, de J. C. Chandor
  13. Três Lembranças da Minha Juventude, Arnaud Desplechin
  14. O Peso do Silêncio, De Joshua Oppenheimer
  15. Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson
  16. Son of Saul, de Laszlo Nemes
  17. A Terra e a Sombra, de César Augusto Acevedo García
  18. Os Campos Voltarão, de Ermanno Olmi
  19. A Vida Invisível, de Vitor Gonçalves
  20. Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich
  21. É o Amor, de Paul Vecchialli
  22. 45 Anos, de Andrew Haigh
  23. Mountains May Depart, de Jia Zhang-ke
  24. João Bérnard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei, de Manuel Mozos
  25. Aferim!, de Radu Jude

 

A lista deste ano parece ter no amor, e na inquietude, suas vozes mais presentes. São filmes, que em sua maioria, tentam falar mais intimamente com seu público, causando reflexão ou estabelecendo conexão com o que esses corações possam reverberar. O amor é determinante no grande filme do ano, o aguardado e deslumbrante retorno de Hou Hsiao-Hsien. Tanto ele, quanto o lindo romance feminino de Todd Haynes, ofuscaram o fraco vencedor da Palma de Ouro, com narrativas sofisticadas e visualmente hipnóticas. O amor como uma âncora que afasta os protagonistas dos caminhos trilhados, a eles, pela sociedade. Num tom muito semelhante também esta o drama-romântico, do alemão Christian Petzold. Com o provável melhor desfecho do ano, seu filme vai de Fassbender a Hitchcock, quando trata genuinamente do amor e seus impactos.

Se Paul Vecchiali flerta com o cinema experimental, e adapta Dostoiévski, com seus dois personagens em encontros notívagos sobre vazios existências dos corações, o média-metragem de Jean Marie-Straub e Danièle Huillet versa sobre amor, religião, e até o tédio. Vecchiali tem o mar ao fundo, a dupla francesa o local bucólico. E em tons bem diferentes, ainda que com a semelhança do tom teatral, ambos filmes vagueiam entre o racional e o irracional.

O de Clint Eastwood está entre o amor e a inquietude. O apego à família e à pátria, e a inquietude causada pela guerra são temas latentes nesse drama de soldado. Como um todo, a trilogia de Miguel Gomes decepciona, ainda que tenha sido tão elogiada em Cannes, porém, exibidos em separado nos cinemas, o primeiro volume demonstra a força da inquietude por meio de críticas corrosivos ao cenário político português, em tom de humor debochado.

Aleksei German e George Miller criam (ou retomam) visões futuristas do caos regido pela irracionalidade. Miller e seu espantoso retorno a saga Mad Max beira a unanimidade, com surpreendentes chances reais no próximo Oscar nessa ventura alucinante pelo deserto pós-apocalíptico. Já o veterano russo recria a Europa feudal, lamacenta e exasperante, tendo na inquietude visual a grande desconstrução de seu protagonista semi-Deus.

O patinho feio da lista é o filme independente sensação da corrida ao Oscar. Mais do que um filme-denúncia, sobre acusações de pedofilia de padres católicas, Tom McCarthy realiza um empolgante estudo dos caminhos da imprensa investigativa.

 

E encerrando, os meus 10 filmes favoritos dentro do circuito comercial de 2015, sempre atrasado arrastando filmes que já estiveram no top do ano passado.

  1. Norte, o Fim da História, de Lav Diaz
  2. Mad Max: Estrada da Fúria, de George Miller
  3. Noites Brancas no Píer, de Paul Vecchialli
  4. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takathata
  5. Phoenix, de Christian Petzold
  6. As Mil e E Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes
  7. Dois Dias, Uma Noite, de Jean e Luc Dardenne
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

O cinema nacional continua sobrevivendo de comédias muito populares, ou filmes para um público super restrito. Esses filmes menores ganham pequenos lançamentos, com pouquíssimas sessões, de forma que assisti-los se torna um esforço logístico. A exibição no Canal Brasil ou no Now tem sido mais interessante do que o circuito comercial deles. Entre esses dois tipos de filmes restam poucos lançamentos que estejam entre essas duas características, e normalmente eles são boa parte do que de melhor nos é apresentado. Segue abaixo meus 5 filmes nacionais lançados em 2015 nos cinemas brasileiros.

 

quehoraselavolta

  1. Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
  2. Ausência, de Chico Teixeira
  3. Jia Zhang-ke, Um Homem de Fenyang, de Walter Salles
  4. Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós
  5. California, de Marina Person

 

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

Top 10 – 2014

Nos últimos dias estava quebrando a cabeça, vasculhando nos filmes que entraram no circuito comercial, aqueles dez que seriam os meus preferidos do ano – doença de cinéfilo. E, simplesmente, não consigo fechar uma lista com dez merecedores-de-um-top-10. Talvez 5 ou 6, vá lá, mas o restante são apenas bons filmes, em que há outros 4 ou 5 que estão ali, no mesmo nível. Desse critério tão subjetivo (e maluco) que é classificar filmes. Conversando com meu amigo Superoito, realmente não parece haver sentido nessa lista, afinal, o circuito brasileiro vive atrasado. Se a oferta em quantidade tem crescido, ainda assim a quantidade de salas “alternativas” são tão restritas, que os filme permanecem nas prateleiras das distribuições, esperando melhor momento de estrear, muitas vezes perdendo seu “momento”.

Os cinéfilos que realmente acompanham a cena internacional de cinema, o que está sendo filmado, as novas tendências, novos limites que os cineastas quebram. Estes cinéfilos buscam os filmes por outras plataformas, de outras maneiras que não exclusivamente o circuito. Nesse ponto, os festivais tem ajudado muito, não só o Indie, Festival do Rio, e Mostra SP, como outros festivais menores, tem trazido grande parte da produção atualizada, cobrindo parte expressiva dessa produção. O resto chega através de outros formatos, viagens, Netflix, internet e etc. Estamos quase em 2015, hora de mudança.

Portanto, trabalhar numa lista de melhores, tendo o circuito comercial como critério, me parece abster-se do cinema que o próprio cinéfilo acompanha, discute, vive. Não, não vou esconder meus 10 preferidos, vou apenas deixá-los no final, apenas como referência, afinal eles serão meus votos para o Alfred da Liga dos Blogues Cinematográficos.

A lista mais importante é a que vem logo a seguir (comentada), são filmes que foram vistos em 2014, com produção de até 2 anos (que finalmente foram vistos, ou ficaram acessíveis). Eles formatam melhor o panorama do ano do cinema, os principais festivais, o que a imprensa especializada ou os grupos de cinéfilos discutiram, veneraram, xingaram, amaram. Há ausências, como toda lista, afinal, ela é subjetiva. Alguns filmes não foram vistos (a Godard a mais sentida, mais a versão em 3D precisa ser vista em tela grande), outros não agradaram tanto, mas ela indica caminhos, preferências, e, acima de tudo, é coerente com esse cinema atual.

O Top 10

doquevemantes

  1. Do que Vem Antes, de Lav Diaz
  2. A Imagem que Falta, de Rithy Panh
  3. A Princesa da França, de Matias Piñeiro
  4. Redemption, de Miguel Gomes
  5. Era Uma Vez em Nova York, de James Gray
  6. E Agora? Lembra-me, de Joaquim Pinto
  7. O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata
  8. A Pele de Vênus, de Roman Polanski
  9. Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  10. Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan / Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Olhando para essa pequena amostragem percebo que é uma lista heterogênea, grande parte dela da seleção dos dois últimos festivais de Cannes. Quase todos diretores consagrados, que apontam para dois caminhos: filmes grandiosos em temas e pretensões; ou pequeninos na pretensão, porém grandes na arte de filmar. São dois lados de uma mesma moeda, cineastas que enxergam suas próprias carreiras e tentam escapar dos caminhos fáceis do piloto automático.

Alguns destes filmes tem o aspecto moral como excelência, o perturbado conto de Ceylan ganhou a Palma de Ouro. O dos Irmãos Dardenne traz um melodrama nunca antes visto na carreira dos belgas. São filmes antagônicos na forma, ligados por essa questão da vida em sociedade, dos princípios. James Gray continua com poucos e fiéis fãs. Ele até flerta com o melodrama, mas seu estilo sofisticado deixa tudo tão chamuscado e charmoso que esse melodrama fica chique entre tão belos planos.

Há o lado teatral forte, é o segundo trabalho seguido de Polanski que remete ao teatro filmado, dois de seus melhores filmes em anos. O argentino Matias Piñeiro surge como uma descoberta, tardia deste blog, com uma construção irrepreensível, uma espécie de poesia teatral filmada. Assayas mergulha em seus filmes anteriores, e em Bergman, trilha novo caminho via metalinguagem.

De Portugal duas pérolas, o documentário autobiográfico de Joaquim Pinto e as biografias escondidas por Miguel Gomes num curta sobre doces fluxos de memórias. O cinema português segue produzindo pouco, mas muito bem. O japonês Isao Takahata promete ter entregue seu último trabalho, e o resultado é um primor ao refletir as tradições culturais orientais com leveza e sofisticação.

No topo da lista Pahn e Diaz, os dois revivendo cicatrizes dolorosas de seus países. Seja pelos bonecos do Cambodja, ou pelas florestas filipinas, os horrores das ditaduras sem que a violência precise ser exposta. Seus filmes são registros hipnóticos de um cinema rigoroso, que usa da simplicidade para aproximar-se de seus próprios personagens, e do virtuosismo de seus diretores para cativar os que enxergam novos rumos para o cinema. A conjunção exata entre fazer arte e contar histórias.

No Letterboxd deixo a lista mais completa com meus 25 filmes favoritos do ano.

O Top 10 do Circuito Comercial

  1. A Imagem de Falta, de Rithy Pahn
  2. Era uma Vez em Nova York, de James Gray
  3. Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  4. Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara
  5. Mais um Ano, de Mike Leigh
  6. Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais
  7. Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater
  8. Vic + Flo Viram um Urso, de Denis Côté
  9. O Abutre, de Dan Gilroy
  10. O Ciúme, de Phillipe Garrel