Flores de Xangai

Hai Shang Hua / Flowers of Shanghai (1998 – TAW)

E com pesar encerro essa maratona pelo cinema de Hou Hsiao-Hsien. Tido, por uma boa maioria, como o melhor de seus filmes, guardava expectativas altíssimas que não foram atendidas. Diferente do seu trabalho anterior onde o roteiro era figura desimportante, neste aqui ele tem papel mais visível, afinal estamos centrados em histórias ocorrendo em bordéis das regiões inglesas de Xangai. Clientes rotineiros, relações que chegam a se tornar casamentos, até disputas entre as “flores” (prostitutas de luxo) com altas doses de ciúmes e reclamações.

Se a história se pega a um mimimi de brigas e disputas entre as flores, e decisões impostas pelas gerentes do lugar, Hsiao-Hsien traz toda sua experimentação cinematográfica, dessa vez enxugando ao máximo a quantidade de planos. Eles são sempre longos, bem abertos investigando os ambientes/cenários. Temos uma visão panorâmica de cada quarto, e a costumeira observação sem influencia no que está sendo encenado. Mas, olhando toda a carreira construída pelo cineasta, até aqui, o filme parece um retrocesso, ele volta no tempo (já que vinha tendo uma relação quase cronológica com seus trabalhos) para retratar a época mais antiga de seus filmes (o século XIX) e um estilo narrativo que ele já empregara nos filmes mais recentes.

Adeus ao Sul

Nan Guo Zai Jan, nan Guo, Goodbye South, Goodbye (1996 – TAW)

Da transição do trabalho anterior ao experimentalismo, um abre-alas para uma nova fase, deixando de lado as memórias histórico-familiares para temas mais contemporâneos. Novamente estamos num vagão de trem, mas dessa vez a música é outra, quase bruta, dialoga com os personagens, dois irmãos que tentam se dar bem, dando golpes, trabalhando para a máfia.

Praticamente não há roteiro, e o pouco que há não tem a menor importância. Hou Hsiao-Hsien se coloca como o centro das atenções, os protagonistas andam de moto, a câmera os focaliza, quando na verdade está se referindo a liberdade. Essa liberdade do momento, a desenvoltura, o deslocamento. Novamente Hsiao-Hsien está lidando com deslocamentos, os irmãos sairam do sul para tentar a vida em Taipei, por lá ficaram resquícios que eles acreditam que possam controlar.

De conversas pacatas para brigas explosivas, Hsiao-Hsien testa os limites da câmera distante da ação, filmando num ambiente lá adiante. Ou, num balé maravilhoso, um travelling que se divide entre quatro ações distintas, a sincronia e timing são perfeitos, os cortes cada vez mais raros, os atores cada vez atuando sem dar importância alguma a uma câmera que os filme. Filtros verdes ou vermelhos, a luminosidade presente, as cores tornam-se cheias de vida, o raio de sol surge como num dia de verão pela janela daquela casa à beira da linha do trem.

Enfim, Hsiao-Hsien marca, definitivamente, início em nova fase em sua carreira (que já tinha traços definidos no filme anterior), oferecendo uma espécie de deleite intrigante aos que já conhecem seus trabalhos anteriores e anseiam ao que poderia vir adiante. A imagem observadora como testemunha ocular de pequenos ou grandes momentos, a capacidade de permitir que o filme siga em off enquanto segue focalizando um ambiente ou os cachorros sendo alimentados. Adeus ao Sul veio para testar sua estética, apurar seu quê autoral para que o estava por vir.

Bons Homens, Boas Mulheres

Hao Nan Hao Nu / Good Men, Good Women (1995 – TAW)

Uma página de seu diário roubado chega via fax, relendo ela (Annie Shizuka Inoh) recorda sua vida, especificamente um relacionamento amoroso conturbado com um membro da máfia. Uma fase em que vivia da prostituição, sob o efeito de drogas, uma vida marginal. Agora é atriz, trabalha num filme sobre chineses que durante a invasão japonesa decidem voltar ao continente e lutar contra os invasores, acabam sendo tratados como espiões e encarcerados.

O filme dentro do filme é fotografado em preto e branco, o flashback oriundo da releitura das páginas de seu diário em cores, Hou Hsiao-Hsien mistura seu trabalho mais contundente politicamente à fragilidade amorosa de quem pagou com os limites que viveu. Sem dúvida um filme de transição em sua carreira, sua câmera se apresenta cada vez mais distante de seus personagens, ou com soluções criativas fabulosas (como na cena em que assistimos o casal, ela pelo espelho e ele olhando a ela, enquanto falam da gravidez).

A relação de encarceramento de atriz e personagem é a grande conexão entre essas “duas” mulheres, o anônimo que está de posse do diário telefona, jamais pronuncia uma palavra, ela quase enlouquece, os sentimentos do passado estão à flor da pele, foram destrancados pela releitura daquelas páginas. Hsiao-Hsien visita o ambiente onde ela vive, o aquário como decoração da mesa de jantar, a tv ligada, o aparelho de fax, enquanto isso se desenvolve o triste drama dos nacionalistas confundidos, pagando por seu amor à pátria. Em seu momento de transição na carreira, Hou Hsiao-Hsien brilha sem extravagância, encanta de forma cristalina.

O Mestre das Marionetes

Xi Meng Ren Sheng / The Puppetmaster (1993 – TAW)

Chega a vez da ocupação japonesa em voga no cinema de Hou Hsiao-Hsien, enquanto Taiwan vive 50 anos sob controle japonês seguiremos com a vida de um mestre de marionetes. Quando o cinema de Hsiao-Hsien não parecia poder aproximar-se mais do realismo, do aspecto quase documental com que a câmera registra personagens e ambientes, eis que temos a história verídica dividindo-se com aparições do próprio personagem título como narrador de sua biografia.

As transformações causadas com o domínio japonês estão intimamente ligadas aos destinos, desde a obrigatoriedade de cortarem as tranças, até a pescaria proibida de um tipo de peixe num rio da cidade. Mas, além do cunho político, estamos vivendo os dias de mais uma família, o garoto com talento para o teatro de marionetes, o avô durão, a necessidade do garoto em trabalhar e ainda dar suporte financeiro à família. Os amores, as idas e vindas, os ataques aéreos e os desastres. Hsiao-Hsien narra novamente com sua câmera voyeur e fixa pelos ambientes, num tom muito escuro, nem tudo segue a se passar pela imagem, há sons, diálogos, movimentos, alguns que percebemos nitidamente o que se passa, outros que só se insinua.

As casas humildes, a relação com cada familiar (pai, madrasta), crianças tiradas da família para seu próprio bem (a cena da criança abraçando o avô e recebendo uma moeda é de um poder dramático que ainda não fora encontrado no cinema de Hsiao-Hsien, assim como o que restou da casa após um ataque militar). Antes do retorno grandioso quando do fim da Segunda Guerra Mundial, nosso mestre das marionetes ainda se torna obrigado a encenar para o governo japonês, típica propaganda de governo, não há vergonha, é apenas mais uma das formas de ganhar a vida.

Cidade das Tristezas

Bēiqíng Chéngshì / A City of Sadness (1989 – Taiwan/HK)

Os conturbados anos da década de quarenta em Taiwan, período de transformações e acirradas disputas políticas. Entre 1945 e 1949 viveu-se o fim da dominação japonesa e a sociedade taiwanesa se rebela contra o controle autoritário da China. Ao acompanhar uma família de quatro irmãos (um deles surdo), Hou Hsiao-Hsien aponta os inconvenientes, as perseguições à população, retrata inclusive o massacre de vinte mil pelas tropas chinesas.

Não é um filme panfletário com vilões e massacres, é tudo sutil, o ritmo por si só imprime uma imagem mais cautelosa, as discussões políticas em restaurantes são permeadas por papos corriqueiros, filmado basicamente em planos longos oferecendo um completo saborear dos diálogos e dos ambientes. Não que o cineasta seja indiferente, seu filme é altamente político, e cuidadoso com seus personagens, não é por menos que a atenção especial é dada ao irmão surdo. Ele será o fio condutor, quem os demais cuidam enquanto ele vive o amor florescer e apenas observa as transformações ocorrendo à sua volta.

Poeira no Vento

Lian Lian Feng Chen / Dust in the Wind (1987 – TAW)

Hou Hsiao-Hsien segue sua saga pela vida cotidiana do taiwanês, intensificando cada vez mais seu estilo passivo de observar personagens e as pequeninices, fugindo da interferência, permitindo que seus personagens busquem seus próprios destinos. Dessa vez a imagem começa focalizando um trem, que será ele o meio de transporte ligando a vida urbana da vida rural, as idas e vindas dos dois jovens personagens que se afastam de suas famílias em busca dos estudos e de empregos que lhes permita enviar dinheiro para casa.

O filme não explica, e há relações que não se pode explicar, elas simplesmente existem. O garoto oferece assistência, ajuda a moça a conseguir emprego, apresenta aos amigos, a intimidade se constrói com o dia-a-dia. Só um tolo não perceberia o que está nascendo ali, e Hsiao-Hsien não tem pressa, dá tempo para que as coisas aconteçam naturalmente. Enquanto isso trata da relação empregatícia, os abusos e o respeito para com os patrões, a vida complicada e cheia de privações dos jovens que encontram a maturidade pelas curvas que a estrada da vida lhes obriga a cruzar.

O choro, a dor, a decepção, está tudo ali. Os velhos bebendo, os jovens jogando bilhar, a vida pacata no vilarejo ao ponto de ninguém se mexer quando falta eletricidade. E o cinema, sim o cinema está presente, nas sessões no meio da rua ou nas salas de cinema de Taipei, Hsiao-Hsien versa sobre o amor e a forma como as relações amorosas são construídas, e há também o serviço militar que tira os jovens por dois, três anos daquele caminho que seguiam, e as cartas são a única forma de expressão, de aproximação com familiares, amigos e amores. E essas cartas que machucam.

A Filha do Nilo

Ni Luo He Nu Er / Daughter of the Nile (1987 – TAW)

Adentramos novo degrau cronológico do universo dos personagens filmados/observados por Hou Hsiao-Hsien. Nosso ponto de observação é uma jovem, uma heroína da vida cotidiana que divide seu dia entre ler o mangá japonês que tanto gosta (a Filha do Nilo), estudar à noite e cuidar da família: o avô viciado em loteria, o irmão gangster, a irmã mais jovem que precisa de ajuda com a lição de casa.

Talvez, nesse filme, fique mais evidente essa tendência de Hsiao-Hsien em se posicionar com maior distanciamento, quando focaliza a casa a câmera sempre está localizada na sala, e a ação ocorrendo na cozinha ou nas duas portas onde estão o quintal ou um banheiro. O cineasta mantém essa distancia do foco, observa atentamente, enquanto eles simplesmente conversam, brincam, brigam. Hsiao-Hsien, cada vez mais, torna nossa heroína de carne e osso numa figura tão comum, mas tão comum, que as suas características pessoais vão sendo engolidas pelas tarefas diárias ou a personalidade dos demais membros da casa.

Consideram um filme menor do realizador, não é exatamente isso, seu estilo está ali, como sempre, sendo destilado diante de nossos olhos. O filme é mais uma peça do quebra-cabeça que forma sua filmografia, mesmo que menos inspirado. Seu roteiro se mostra menos envolvente, as cenas com a “máfia” abusam do simplório, mafiosos mais que amadores. Porém, toda a simplicidade com que Hsiao-Hsien sempre retratou ambientes e personagens, estão ali, novamente bem trabalhadas, encaixando completamente com o restante de sua obra e montando assim um retrato preciso da vida em Taiwan ao longo de algumas décadas.