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A Grama Verde de Casa

Publicado: agosto 7, 2012 em Uncategorized
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Zai na Hepan Qig Cao Qing / Green, Green Grass of Home (1982 – TAW)

Quando você analisa a carreira de um cineasta e enxerga cronologicamente o crescimento de uma obra, as nuances que marcam épocas de tendências dentro de uma trajetória se configuram muito mais atraentes do que a simples reflexão sobre um filme em separado. Hou Hsiao-Hsien começou com filmes simplíssimos, pequenas demonstrações da vida no campo. Até finalmente iniciar sua fase realmente autoral e, dessa forma, seus ritos de passagem entre sua visão de mundo e seu amadurecimento cinematográfico.

Neste seu terceiro filme teríamos um perfeito exemplar de Sessão da Tarde durante férias escolares. O mundo daquela pequena vila interiorana é tão pacato e ingênuo que crianças e adultos se dividem entre o pueril. A chegada de um professor primário substituto (o cantor Keny Bee) movimenta o lugar, uma jovem professora se apaixona por ele enquanto a história mergulha um pouco mais na vida de três amigos de classe (conhecidos como Os Três Mosqueteiros).

A forma de linguagem está muito longe do que Hsiao-Hsien transformaria em suas marcas registradas, tudo muito simples, longe da elaboração visual de longos planos, por exemplo. O filme está mais para um conto moral com a utilização de muitas canções que resumem as situações e toda uma questão visionária de defesa do meio-ambiente com a criação de um grupo engajado em proteger o rio da pesca predatória de pescadores que se utilizam de veneno ou aparelhos elétricos para pescar. Não deixa de marcar um rito de passagem entre aquele presente e o futuro (que visto 30 anos depois pode ser o hoje).

Se você é um dos, aproximadamente, 5 leitores que devem visitar esse blog regularmente, as vezes me pergunto o que voces vem fazer aqui (não que não sejam bem-vindos, porque mais que são, mas ainda assim me pergunto) nessa espécie de caderno de anotações de cinema. Pois bem, se voce faz parte desse minúsculo grupo, e se não sabe que minha cinefilia começou oficialmente em Fevereiro de 2002 quando escrevi meu primeiro texto que foi parar na internet num blog/site qualquer (e o filme era Uma Mente Brilhante), saiba que nos últimos dias completei 2000 filmes vistos desde então. Na verdade é só um numero, não representa nada, não quer dizer nada além de que sou um cara metódico e organizado que assiste uns 200 filmes/ano e anota cada um deles numa planilha.

Então, no fundo, essa balela toda não tem importância nenhuma, eu queria mesmo era chamar atenção para o mergulho que fiz na filmografia do cineasta chines, radicado em Taiwan, Hou Hsiao-Hsien. Infelizmente não pude conferir aos dois primeiros trabalhos (Menina Bonita e Vento Gracioso), mas já sei que não são filmes que acrescestem muito à sua obra. Essa espécie de maratona veio logo após ter assistido a alguns de seus filmes mais recentes (que já foram publicados aqui). Ao seguir cronologicamente sua carreira é fascinante descobrir o ritmo de mudanças e amadurecimento de seu trabalho, transições, reafirmações, enfim, a constituição da obra de um autor. Por isso, começo hoje uma sequencia de publicações de minhas impressões sobre todos esses filmes (abaixo links para os textos dos publicados anteriormente, que acabei assistindo antes dessa maratona).

Meus 5 leitores, quem sabe não desperte em voces, a vontade de assistir a 1-2 filmes desse cineasta, pelo menos, posso afirmar que pode ser uma experiência revigorante. Desde seus trabalhos iniciais num estilo Sessão da Tarde (como Grama Verde de Casa ou Um Verão na Casa do Vovô), onde a cada filme a idade das crianças-protagonistas avançam enquanto somos apresentandos ao ritmo de vida pacato de Taiwan ao longo de décadas passadas (o mais autoral e importante deles é Os Garotos de Fengkei, marcando a primeira mudança em sua carreira).

Mais adiante, filmes que misturam esse cotidiano com a história do país (Um Tempo para Viver, Um Tempo para Morrer), a relação com a China Continental e a dominação japonesa na Segunda Guerra Mundial, culminando com a trilogia que leva essa abordagem política ao ápice (Poeira no Vento, Cidade das Tristezas, e O Mestre das Marionetes). Alguns falam em esgotamento de sua fórmula em Bons Homens e Boas Mulheres, a meu ver é um filme de transição, ele conecta seu velho cinema ao que estava prestes a iniciar, são dois filmes dentro de um, o mundo contemporâneo com lirismo e a história política revisitada.

Com Adeus ao Sul ele buscava o experimentalismo, seu estilo como cineasta estava depurado, mas ele queria buscar os limites como um tenista que tenta jogar cada vez mais próximo das linhas da quadra. Ele dispensa o roteiro para apurar sua técnica. Em seu trabalho mais festejado ele dá um passo atrás, Flores de Xangai viaja ao mundo dos prostíbulos de luxo do fim do século XIX.

Em Millenium Mambo começava sua parceria com a atriz Shu Qi, já, definitivamente, no mundo comtemporâneo, Hsiao-Hsien mergulha na relação conturbada de um jovem casal, o cineasta filma mais que a juventude, ele encontra a paixão distante da razão. Café Lumiére é sua homenagem a Ozu, levando sua trama ao Japão ele narra a história de uma garota independente.

Em Three Times ele utiliza um mesmo casal e três épocas distintas para narrar o amor (a terceira história é linda , mas a primeira é uma das maiores obras-primas do cinema). Seu último trabalho lançado nos cinemas foi A Viagem do Balão Vermelho, Juliette Binoche vive a mãe de um garoto, o filme praticamente não sai da sala onde tudo acontece naquela casa, outra bela homenagem, dessa vez ao clássico frances O Balão Vermelho.

Three Times *****

Millenium Mambo ****

A Viagem do Balão Vermelho ****

Café Lumière ****

Terms of Endearment (1983 – EUA)

A salada melodramática promovida por James L. Brooks e protagonizada por Shirley MacLaine e Debra Winger é de enlouquecer qualquer um. Essa relação mãe e filha existe (podem acreditar, eu já vi) , uma coisa que as consome, mas que não as permite se afastar. Invasiva, indiscreta, dependente, praticamente uma falta de respeito.

O roteiro ainda tumultua essa relação desgastante com um bando de personagens como o marido infiel (Jeff Daniels) e o vizinho ex-astronauta e beberrão (Jack Nicholson). Veja, os homens são sempre seres desprezíveis, porém elas altamente dependentes deles. Enfim, toda uma história dramática ao extremo envolta por um carinho açucarado e um conjunto de cenas apelativamente dramáticas.

É fórmula certa para um público médio que está louco para se emocionar, para de alguma modo se encontrar num personagem e notar que a vida infeliz não é exclusividade sua. Tanta ternura junta que não se assuste, o dvd deveria trazer como efeitos colaterais o alto risco de causar náuseas.

Um Dia

Publicado: julho 26, 2012 em Uncategorized
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One Day (2011 – EUA)

Tanto se fala que “o livro é melhor, o livro é melhor”. Mas, afinal, quando não se fala nisso? Lone Scherfig sai do requinte de uma ingênua garota apaixonada por um galanteador e um mundo de descobertas fascinante (Educação), para a ingenuidade de um amor guardado para o momento certo. Realmente é uma visão lindamente romântica de uma história, imagine se na vida real pudéssemos encontrar alguém com quem teríamos grandes chances de dar certo, mas aquele não é o timing certo porque um (ou os dois) precisam viver outras coisas para que não se destrua uma relação tão promissora.

Toda a história é baseada numa data, 15 de Julho. Cronologicamente acompanhamos o status da relação entre Emma (Anne Hathaway) e Dexter (Jim Sturgess), desde a noite de formatura em 1988 (quando os dois quase transam) até meados dos anos 2000. Amizade, amor reprimido, idas e vindas. Eles um burguês bon-vivant e conquistador, ela uma reprimida e sonhadora, com desejos de se tornar escritora.

A relação desengonçada, tanto pelas características psicológicas dos personagens (eles tem aquela coisa de diferenças que se completam, a vivacidade frente a responsabilidade, o não pensar no amanha frente o mundo de sonhos), quanto pela quebra de narrativa retomando a cada ano e deixando tantas arestas, não permite que Scherfig vá além de um romance açucarado com grandes sinais de clichê. Sobra intenção e falta realmente aquela capacidade de inspirar.

L’apollonide: Souvenirs de la Maison Close (2011 – FRA)

Bertrand Bonello sim conseguiu captar a melancolia e distanciar do glamour das casas de prostituição de luxo. Estamos em 1899-1900, num tom lento e penetrante o cineasta radiografa as bizarrices de clientes, o vazio daquelas moças que vivem sem esperança, porém precisam alegrar seus clientes a cada noite, transmitir-lhes entusiasmo.

A câmera se posiciona de forma cirúrgica, poucos movimentos, ainda assim penetra por entre corpos (nus, sem nunca demonstrar erotismo, a coisa fria de um filme de arte) e ambientes. Deflagra a solidão, a tristeza, o total desconsolo que tão lindas mulheres carregam ao se verem presas, dependentes quase como escravas, vendendo seus corpos sem perspectiva nenhuma de sair daquela casa.

A imagem quase o torna um convidado, a beber vinho naquele pinico dourado, mergulhar seu corpo na banheira de champagne, ou visualizar o sexo por espelhos, como numa casa de swing. O que faz Bonello com maestria é desvendar máscaras, é desmistificar o glamour daqueles sorrisos tão radiantes na sala de estar onde os homens de estirpe, burgueses adúlteros, que mal imaginam a frieza mecânica com que as mulheres contam com quantos estiveram aquela noite, ou se lavam com desprezo dos fluídos trocados.

Kvinnodröm (1955 – SUE)

Novamente Ingmar Bergman se debruçando em temas a respeito do íntimo feminino, dessa vez acompanhando simultaneamente duas mulheres. A fotógrafa de moda Susanne (Eva Dahlbeck) que sofre com o término de sua relação com um homem casado e a modelo Doris (Harriet Andersson) com seu genio dificil termina por birra seu namoro e acaba flertando com um um rico e solitário senhor.

Enquanto o dia de trabalho não rende o esperado, cada uma das mulheres passa a tarde em Gotemburgo, uma clamando para reencontrar seu ex-amante, a outra recebendo mimos e carinhos desse galanteador. De um lado tudo que o dinheiro pode comprar, de outro a estabilidade do matrimonio falando mais alto que os sentimentos.

Pode-se destacar as aflições de cada uma delas em suas histórias, particularmente fico com a cumplicidade das duas quando o dia atinge o ápice da frustração. É um momento de conforto, duas gerações, e a dor sentimental por motivos tão díspares. Os sonhos delas estão claros, expostos, Bergman tece essa destruição do sonho cristalino por uma realidade crua, e tão honesta.

To Rome, with Love (2012 – EUA/ITA/ESP)

Woody Allen peca pelo excesso de vontade. Já falei sobre isso, ele filma demais, tem ideias demais e dá tempo de menos para elaborar melhor cada uma delas, ou desistir das que fossem desnecesárias. Fora que essa fase “turística” pode cair no mundo dos videos institucionais em prol do turismo para os ricos de gosto médio.

Ele chega a Roma e parece ter lido o manual, escrito por um estrangeiro, dos costumes para se achar engraçado dos italianos. Em pequenas histórias que se passam em Roma, Allen brinca com a celebridade instantanea, com a dificuldade de se localizar pela cidade, com situações inusitadas (que só numa comédia desse tipo caberiam) como o casal que se desencontra e só entra em confusão. São ideias demais de possíveis piadas, para efetivaçao de menos em risos, e em requinte que ele encontrou tão bem em seu filme anterior (em Paris).

O próprio Woody Allen volta a interpretar, pega a piada pronta dos cantores de banheiro e leva a sério, e a repete tantas vezes que dá a sensação de que apenas ele poderiam estar se divertindo com aquilo. A beleza de Roma aparece, mas tão de lado, já que Allen está tão preocupado com suas piadas “nada geniais”.

Les Petits Mouchoirs (2010 – FRA)

O grande mérito do filme dirigido por Guillaume Canet é tecer essa rede de amizades, e relações entre os personagens ou o mundo fora desse grupo de amigos, e deixar o público envolvido com cada um dos tramas pessoais. Algo como sentir-se um observador dentro daquela viagem de férias onde o grupo de amigos aproveita a praia, passeia de barco, mas briga entre si e o desgaste torna-se óbvio (por mais que haja intimidade, e alegria de se estar juntos.

Canet consegue essa façanha de nos envolver, de traçar um grau de intimidade que em pouco mais de duas horas já nos sentimos tão próximos que temos vontade de dar pitacos, de sugerir e se intrometer na vida de cada um. Enquanto isso um dos amigos desse grupo está no hospital, sofreu um acidente na primeira cena (num longo plano-sequencia frenético), eles carregam o peso da preocupação, mas se contentam em deixar que a situação do amigo (Jean Dujardin) melhore em breve.

Mas as pessoas não são assim mesmo, não contam pequenas mentiras até aos mais próximos porque é mais fácil lidar dessa forma com tudo? O filme descamba ao sentimentalismo, ao romance exacerbado, ao drama barato, ainda assim pode emocionar grande parte do público, afinal, estamos presos a essa teia, a esse bando de franceses chiques que não perdem a classe na praia, mas perdem a compostura na frente de qualquer um.

On the Road (2012 – EUA/FRA/BRA)

Quando Jack Kerouac saiu pelos EUA naquele esquema uma calça jeans e duas camisetas, não pensava em se transformar em símbolo da contracultural, da geração beatnik, nem nada. Queria viver sem limites, aproveitar da vida o que ela tivesse a oferecer no presente. Experimentar, experimentar, e experimentar, e isso quer dizer diversão, prazer, sexo, alcool e drogas. Seu único objetivo era se tornar escritor.

E seu livro virou o que virou, as aventuras vividas entre Sal Paradise (alter-ego de Kerouac) e Dean Moriarty, cruzando os EUA (e México) se tornaram símbolo de liberdade, a vida libertária por excelencia, a falta de responsabilidade como forma de burlar o sistema. Sob a adaptação de Walter Salles (o Sr. Road Movie do cinema atual) o material do livro ganha em dramaticidade e melancolia (que estava lá, aqui eclipsada), falta filme de estrada.

Os corpos vem e vão, o carro anda quilometros entre NY, Denver, São Francisco. As estripulias sexuais e químicas dominam os personagens. Ainda assim, falta a continuidade do livro, essa dimensão de que eles estão se afogando, de que o frenético é diário, sem pausa. Não há descanço. Falta poeira nessa estrada, falta brilho a Sal Paradise (Sam Riley apgado) enquanto sobra essa energia no personagem de Moriarty (Garrett Hedlund, que transpõe bem a essencia de Moriarty no livro).

 As palavras estão nas bocas dos personagens, mesmo assim, falta a impressão de que eles estão contando os centavos no bolso para pagar uma bebida, e não tem o que comer amanha. Falta essa essencia, Salles foca nos personagens e transforma as cidades em apenas letreiros informando onde estão. Porém, consegue resgatar muito bem a relação entre Sal, Dean e Marylou (Kristen Stewart sexy como o personagem pedia), esse triangulo (não exatamente amoroso, a relação entre eles poderia ser considerada destrambelhada) torto dá uma outra vida ao filme de Salles. Talvez o espírito do livro fosse inadaptável mesmo.

The Ascent

Publicado: julho 13, 2012 em Uncategorized
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The Ascent (Voskhozhdeniye, 1976 – RUS)

Os planos fechados, a expressão dos olhos dos atores, vem daí a força do filme da cineasta Larisa Shepitko, a influencia de Eisenstein é automática. Segunda Guerra Mundial, russos e alemães travando a Guerra em campos congelados. Dois soldados russos destacados pelo pelotão para partirem em busca de comida, encontrando os poucos sobreviventes da região em casas pelo campo. Medo, crianças, opressão.

A história é óbvia, os dois acabam capturados pelos alemães (e dissidentes apoiando os Nazistas), junto com eles alguns dos moradores as quais as casas eles tiveram contato. Temas como lealdade e princípios são expostos. Porém, volto, na força dessas cenas em que a dor, o medo, o desespero frente a iminência da morte, formam quadros equiparáveis as sensações despertadas por O Grito de Edvard Munch. São estes terrores que se prolongam ao término do filme, quando sabemos quem são os homens e quem são apenas maricas de calça.