Guerra Fria

Zimna Wojna / Cold War (2018 – POL)

Não é difícil se encantar com o novo filme de Pawel Pawlikowski. O romance em preto e branco, em ritmo de nouvelle vague e cinema noir, o charme com que a câmera capta a noite em que o casal caminha por ruas de Paris ou da Polônia, nos anos 50 da Guerra Fria. E a melancolia de um amor que os atrae e, ao mesmo tempo afasta, em tantas fases da vida. É disso tudo que o filme trata, e uma história tão cara ao próprio cineasta, afinal é a história vida de seus pais.

Ele é Wiktor, o diretor musical de um grupo de música folclórica polonesa, entre as cantoras escolhe Zula, e se apaixona pela jovem. Lá se vão quinze anos das aventuras românticas que o filme faz questão de apresentar em tom de amor platônico entre exílios, casamentos que permitem cruzar a froneira oriental da Europa, separações e perseguição política. Além da tentativa de cada um desenvolver sua carreira, Pawlikowski oferece travelings charmosos, olhares tórridos, e muitas cenas de canções (folclóricas, jazz, cantadas em francês, polonês, até russo) capazes de quase hipnotizar parte do público com sofisticação e nuances dos altos e baixos desse amor celebrado com a belíssima cena final. Há tantos filmes que não sabem terminar, aqui  Pawlikowski não poderia encerrar tão bem.

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3 Faces

Se Rokh / Three Faces (2018 – IRA)

Jafar Panahi não para, mesmo proibido pelo governo iraniano de filmar, e em prisão domiciliar, ele segue criando seus filmes e refletindo seu país e seu povo. E, dessa vez, um dos melhores filmes dessa sua safra mais recente, pós-proibição. Um vídeo de celular com o suposto suicídio de uma jovem que queria estudar para ser  atriz, mas foi probida pela familia. O próprio Jafar e a atriz Behnaz Jafari viajam até a aldeia para saber os fatos pela jovem, afinal o vídeo não é conclusiva se a tentativa de suicídio foi efetiva.

Desse mote, o cineasta iraniano propõe uma imersão a locais parecidos com o que filmava Abbas Kiarostami, a proximidade com o povo mais ingênuo e singelo, os tabus religiosos e convenções sociais, as crenças populares de como auxiliar no futuro sucesso dos filhos. De maneira pacata o filme reflete três gerações de atrizes, compar as liberdades entre o velho e o novo, enquanto se permite investigar mais sobre essa cultura popular, pela vida ao lado do desertoe por suas crenças no que é realmente fundamental. Um filme feminista sem discurso-panfletário e nem timidez, Panahi vai se especializando em se colocar em seus filmes e criar histórias que refletem os que menos voz ativa.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Amanda

Amanda (2018 – FRA) 

Mikhaël Hers volta a falar de perda, com sua melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Em seu filme anterior, o surpreendente Aquele Sentimento do Verão, a morte da de uma garota aproximava a irmã dela do namorado, mas não um envolvimento romântico, e sim um companheirismo pelo luto, um sentimentoq eu não estamos muito acostuamados a ver retratado.

A figura central é de um jovem, de 24 anos, que vive de empregos temporários e é muito ligado a sua irmã e sobrinha. Uma tragédia assola a familia, Hers insere aqui questões da violência e da intolerância com um ataque terrorista em Paris, e a dinâmica de todos os personagens muda drasticamente. Equilibrando a narrativa entre o drama e a leveza, é encantador descobrir cada um se adaptando a nova realidade, os relacionamentos que se fragmentam, as responsabilidades que aumentam, a adaptação que é delicada e pede urgência.

É pela leveza da nova rotina e das tarefas diárias que Hers insere a dor, a tristeza, uma saudade que traz lágrimas aos personagens, ao público, a qualquer um que se envolva minimamente com dramas tão possíveis e doloridos. E Hers faz tudo isso sem jogar sujo, a dor vem de repente, num momento qualquer, e passa, por um tempo, mas passa. Casos amorosos, a ajuda da familia e o se redescobrir, é tudo uma tarefa que não há cartilha, mas que enfrentar é a única solução. O filme é lindo por essa capacidade de ser tocante e puro, de olhar o futuro com otimismo, mas sem se esquecer das pedras que surgem pelo caminho.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

A Árvore dos Frutos Selvagens

Ahlat Agaci / The Wild Pear Ter (2018 – TUR) 

De volta ao local onde nasceu, o jovem Sinan briga com o pai (que atola a familia em dividas ao perder tudo em apostas), com a mãe, com a irmã, com o escritor mais conhecido da cidade, com a garota que ele gostava na infância, com os amigos. Pretende ser escritor, mas vê na carreira de professor suas possibilidades mais reais. Durante três horas, o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan desenvolve uma rede de personagens ao entorno do jovem idealista, e teimoso, capaz de uma construção forte do personagem, tanto intelectual quanto sentimental.

Estamos falando da falta de perspectiva jovem (a carreira de policial para a última possibilidade para tantos), o choque de gerações com pais, aspectos econômicos e sociais em confronto com costumes. Boa parte dos encontros e diálogos tem mais de vinte minutos, as conversas demoram a entrar em seu tema principal, dessa forma Ceylan investiga pessoas e lugares, cultura e formas de pensar. E, se parece um filme menos poético e metafórico do que Sono de Inverno, demonstra sua capacidade em refletir sobre comportamentos humanos, em olhar ao passado de cada um com pespectiva do futuro, sobre relações familiares, os altos e baixos de cada um, e provar, que todos sempre tem seu valor.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Vida Duplas

Double Vies / Non-Fiction (2018 – FRA) 

As mutações do mercado literária frente o crescente avanço do digital. Olivier Assayas traz o debate ao cinema através das figuras centrais que protagonizam seu novo filme. O editor (Guillaume Canet) que tem dúvida quanto a modernidade editorial de abandonar livros e viver de e-books e áudiolivros, de perder a figura do critico em detrimento de algoritmos e robôs que indicam o que os leitores devem apreciar. A trama não cansa (o público talvez um pouco) em trazer a discussão à tona em casa, no escritório, em paletras, ou na cama com a amante. Em alguns momentos o discurso soa gasto, meio ultrapassado, em outros mais vívido e interessante frente a realidade que bate à porta dessa indústria cultural.

De outro lado há o autor (Vincent Macaigne), que só consegue escrever autoficção (ou seus relacionamentso amorosos com alguma licença poética). É ele quem traz o tem que vai se tornando central na segunda parte do filme, essa questão do desgaste dos casamentos, da infidelidade, do amor por mais que haja traição. Enfim, as vidas duplas do título. Nesse ponto a trama cai em mais estereótipos de como o mundo vê os franceses, além de tecer uma frágil convicção de que a monogamia está fradada ao completo fracasso e que os adultos são maduros o bastante para tais tipos de relacionamentos.

Assayas tenta intricar um pouco isso tudo, traz doses de humor mordaz (mas pouco usual), e desequilibra ainda mais com outros temas e complexidades: como Juliette Binoche como a atriz de teatro fazendo sucesso em uma série qualquer de tv. A vida e os caminhos econômicos da literatura são ainda mais complexos do que tudo isso.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Imagem e Palavra

Le Livre D’Image (2018 – FRA) 

Gosto muito quando Jean-Luc Godard está inventado, radicalizando, e também critico, e menos quando se coloca apenas como um velho rabugento balbuciando uma ideia. Nessa safra mais recente safra de seus trabalhos há  ambos os casos, incluindo esse novo que já nasce como um dos acontecimentos audiovisuais do ano. Começa com imagens de grandes clássicos como Johnny Guitar, Um Corpo que Cai e Interlúdio, intercalando com imagens de violência ao redor do mundo. A guerra está aqui.

O experimentalismo também está presente, a desconstrução da imagem, das cores, contraponto a narração em off do próprio cineasta (que nem sempre ganha legendas, propositadamente). Uma palavra se repete inúmeras vezes: Remake. Estaria Godard pedindo para uma refilmagem da proria vida no planeta, vamos contar essa história novamente para tentar fazer melhor?

A parte final tem grande foco sob o mundo árabe. De novo a violência escancarada sob nossos olhos, mas uma urgente preocupação em demonstrar respeito e aceitação a muçulamos e árabes em geral. A ideia de não demonizar todo um povo, de tornar inimigos, de relembrar o quanto sofrem (pobreza, seca, violência), a dor do povo que os governantes só enxergam quano interessa. E assim, Godard provoca todo o Ocidente, entre montagem desconexa, frases que parecem incompreensíveis e um conjunto de colagens de fotos, arquivo e suas criações, que formam esse filme-retrato da violência mundial, do absurdo das interrelações e que comprava que a guerra está aqui.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Infiltrado na Klan

BlacKkKlasman (2018 – EUA) 

Uma sátira, um filho da blaixploitation, um thriller contra o racismo que narra os anos 70, mas mira nos dias de hoje. O novo filme de Spike Lee é tudo isso. Da história verídica do primeiro policial negro, de Colorado Springs, que de um anúncio do jornal criou uma operação para se infiltrar na Klu Klux Klan, o cineasta americano mira, novamente, sua provocativa metralhadora na intolerância racial e nos movimentos Neo-Nazistas, que, incrivelmente, ganham mais adeptos pelo mundo de hoje.

A narrativa tem essa pegada de swing da década de setenta, e se equilibra entre o humor (algumas vezes questionável, em outras preciso) e a afirmação política contra a segregação através de encontros dos Panteras Negras. O policial Ron Stallworth (John David Washington) se divide entre ambos núcleos. De um lidera as investigações, faz contatos com membros da Klan, e quando consegue se infiltrar, precisa mandar um colega branco (Adam Driver) para participar das reuniões. De outro lado, flerta com uma das líderes estudantis e ativista dos Panteras .

Menos inventivo no ritmo narrativo, o filme é mesmo um deleite pop por seu ritmo descontraído e seu humor direto. E, obviamente, se torna mais poderoso e fundamental por sua contundência política, seu discurso urgente frente um planeta que vê a ultra-direita ganhar mais espaço e recolocar na moda questões e comportamentod que pareciam segui o caminho conciliador. Em entrevistas, Spike Lee diz ter sido muito influenciado pelos acontecimentos chocantes em Charlestonville (utiliza as fortes imagens para encerrar o filme), vamos precisar muito da cultura em geral para tentar conscientizar do caminho perigoso que muitos países estão tomando.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição