O Filme da Minha Vida

O Filme da Minha Vida (2017) 

Selton Mello está empenhado no lançamento de seu novo filme, talvez mirando a escolha do Brasil para concorrer ao Oscar. Entrevistas, festas e pré-estreias, pelo Brasil, é assim que se lança um filme no exterior. Que se faça assim mais vezes. É uma adaptação do livro Um Pai de Cinema, do chileno Antonio Skármeta e resgata bem o que conhecemos do livro mais famoso desse autor: O Carteiro e o Poeta.

Desde que Selton começou a também dirigir, surgiu um contador de histórias, com olhar sentimental e melancólico. Flertando muito com um cinema mais clássico (nesse novo trabalho, talvez, até envelhecido). Selton narra, cheio de lirismo estético e silêncios estudados, a transformação para vida adulta de um garoto, que pouco se encaixa no tipo normal que vive no interior das Serras Gaucha. Professor de francês, sofre com a inexplicada ausência do pai, enquanto descobre o amor, o sexo, e desenvolve sua paixão por cinema.

Não deixa de ser uma homenagem à sétima arte, que deixa mais o gosto de repetição do que já foi visto tantas vezes, do que o sabor de algo novo e inspirador que esse início de carreira de Selton poderia indicar. É um tamanho de filme que falta ao cinema brasileiro, e tomara que ocupe seu espaço, mas, tomara também que possa trazer algo novo, e que Selton continue com seu entusiasmo nesse desafio colossal que é fazer cinema no Brasil.

EP 85 – Nolan Vai à Guerra

Um dos cineastas mais lembrados (para o bem ou para o mal) nas conversas entre os varandeiros Chico Fireman, Cris LumiMichel Simões e Tiago Faria é o tema do episódio desta semana: Christopher Nolan (1:04:45). O papo segue a lógica do diretor: traz muitas linhas temporais, tem reviravoltas e tenta desvendar as tramas engenhosamente construídas pelo britânico.

Seu novo filme, Dunkirk (7:56), vem conquistando grande parte do público e da critica. Temos uma unanimidade em 2017? E mais: é para tanto? Já podemos antecipar os principais resultados do Oscar 2018? Como o diretor se sai em seu primeiro trabalho que retrata um grande momento histórico? Quais são as marcas principais de um estilo que provoca reações intensas?

E mais: Cantinho do Ouvinte e Recomendações. Bom podcast!

 

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Dunkirk

Dunkirk (2017 – RU) 

Christopher Nolan e sua grandiloquência atacam novamente. E parafraseando a canção de Gal, o cineasta britânico vem “no céu, no ar, na terra”. É o recordar de uma derrota, mas também de uma vitória histórica. Segunda Guerra Mundial, soldados britânicos e franceses são a cada dia mais encurralados, por tropas alemães. Churchill planeja a retirada das tropas na região de Dunquerque, na França. É Nolan revisitando um fato histórico, sem se afastar de seu estilo que causa tantas contestações e paixões, entre cinéfilos e críticos pelo mundo.

Seja na praia, onde soldados desesperados tentam embarcar nos navios. Seja no ar, onde três caças tentam proteger a retirada das tropas. E seja no mar, onde a batalha pela sobrevivência continua com ataques contínuos dos inimigos, Nolan se cerca do som perturbador de explosões (ou da trilha sonora que insiste em trazer suspense aonde se vê tragédia). O filme exibe o horror da guerra como nunca antes visto, tal a sensação de veracidade, de presença naquela praia, entre tantas imagens belas e chocantes. Tamanha beleza capaz de questionar se suas intenções são a de uma mensagem antibelica, ou fetiche pelo espetáculo.

Nunca veremos um soldado alemão em cena, afinal é a história da retirada de mais de 330 mil homens, e Nolan não nos poupa de momentos de nacionalismo, de sentimentalismo barato. A segunda metade está repleta de momentos em que a eloquência dos atos de heroísmo sobressaem, enquanto a primeira parte funciona como um espetáculo, quase mudo, de reconstituição de ataques contra soldados indefesos, que nada podem além de esperar o ataque mortal. Essa dualidade é prato cheio para criticas, mas é inegável que Nolan leva os filmes de guerra a um outro patamar, sua defesa é pelos indefesos, seja qual for a nacionalidade, seja  qual for o lado em que empunha suas armas na guerra. Não deixa de ser uma extravagancia, mas filma com beleza alguns dos momentos mais hediondos da humanidade, e quando é para fazer espetáculo, Nolan sabe como poucos aproximar o cinema autoral dos Blockbusters, e nisso Dunkirk é inesquecível.

Em Ritmo de Fuga

Baby Driver (2017 – EUA) 

Nos fones de ouvido, que não tira em nenhum momento, música pop para disfarçar o zunido intermitente (resultado de um acidente quando ainda era criança). Baby (Ansel Elgort) é o ás ao volante, com feições de anjinho, que espera para acelerar com seu arrojo e habilidade, após mais um assalto da quadrilha liderada por Doc (Kevin Spacey). Sua figura de bom moço, que cuida do pai adotivo debilitado, e se apaixona pela garçonete da lanchonete de beira de estrada, não parece se encaixar com a de tímido, e fechado, motorista de fuga de assaltos espetaculares.

A trama irá cuidar de explicar esses detalhes, enquanto o romance e as sequencias de ação alucinantes, sempre acompanhadas de música pop antiga, deixam alucinados grande parte do público. Ação, comédia e romance, não é de hoje que o britânico Edgar Wright vem se destacando por um estilo próprio de cinema, mas sempre acabava preso a um público restrito, praticamente um nicho dentro da cinefilia geek. Seu humor,a edição acelerada, e um quê de super-herói nerd, que encontrou em Scott Pilgrim Contra o Mundo, praticamente, a tradução do êxtase, entre super-poderes, muito videogame e romance – e aquele filme realmente é uma delícia.

O que temos dessa vez é um Edgar Wright para um público mais amplo, filmando nos EUA. E não decepciona, e talvez até entregue o seu melhor filme. O impressionante é como ele não traiu suas origens, e conseguiu implementar outras características que deixaram seu filme: mais pop, mais frenético, porque não mais família? E também mais caricato, é verdade, mas, acima de tudo, mais visível (já é o seu maior sucesso de bilheteria). Consegue ser o Velozes e Furiosos que alguns (eu) gostariam de ver, mas nunca encontraram essa leveza pop, essa descontração moderna. Wright nos entrega planos-sequencias de triar o fôlego, enquanto a trilha sonora vital, e vibrante, mistura essa energia com um swing que dificilmente não te deixe o sabor de querer revê-lo em breve.

EP 84 – Corra, Baby, Corra

O destaque da semana é o badalado Baby Driver (30:52), no Brasil chamado Em Ritmo de Fuga. Um filme que mistura gêneros, com doses de comédia, action movie e referências a musicais. A arrancada do diretor britânico Edgar Wright aos Estados Unidos indica mudanças de estilo? E, afinal, quem é este cineasta cult (9:30) e quais as suas principais referências? Chico Fireman, Cris LumiMichel Simões e Tiago Faria dão opiniões bem divididas sobre um dos longas mais comentados da temporada.

Na segunda parte do programa, um papo sobre spoilers (54:52). Alguns lidam bem com as informações sobre tramas de filmes e séries. Outros morrem de ódio de quem espalha segredos das narrativas. Você já deixou de assistir um filme, ou série, por conta de algum spoiler?

E mais: Cantinho do Ouvinte, Varandeiro do Zodíaco sobre leoninos (1:25:00) e Recomendações (1:30:00), com uma pitada das novidades da Comic-Con. Bom podcast!

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História de Taipei

Qing Mei Zhu Ma / Taipei Story (1985 – TAW) 

As transformações econômicas da Taiwan dos anos 80 traduzidas num único filme. Quase podemos definir assim a proeza do cineasta Edward Yang, em seu terceiro longa-metragem. O país cresce, se moderniza, ganha destaque econômico, as transformações trazem adaptações (muitas vezes não tão fáceis). Yang se notabiliza pela narrativa cinematográfica hipnótica, através de silêncios, de personagens olhando para a cidade que não pra de crescer, ou apoiado pela musica pop que se mistura com adultos ativos e suas dificuldades dessa adaptação.

No centro temos o ex-promissor jogador de baseball (ninguém menos que Hou Hsiao-hsien atuando) e que agora trabalha numa fábrica de tecidos, e sua esposa (Tsai Chin), executiva de uma construtora à beira da falência. A chegada de capital e da cultura ocidental e suas mutações são sentidas por esse casal, Yang desenvolve histórias e conflitos de personagens que orbitam o casal, enquanto a velocidade das transformações engole o saudosismo e os que não estão preparados à adaptação.

De Canção em Canção

Song to Song (2017 – EUA) 

Atualmente, é possível observar que A Árvore da Vida era o prenuncio da nova fase da carreira de Terrence Malick. Fase esta que testa a paciência de seus fãs, e pouco se esforça em angariar novos. Os três filmes a seguir (Amor Pleno, Cavaleiro de Copas e este novo) quase formam uma obra única, fechada nesse cinema sensorial, de narração em off com frases edificantes, enquanto a câmera baila por enquadramentos que buscam a intimidade máxima e elegante de corpos que se encontram ou que refletem o vazio.

Amor Pleno tinha o triângulo amoroso e a dor, já o Cavaleiro de Copas é ainda mais próximo que esse novo filme, ali um escritor (Christian Bale) vivia de festas luxuosas, sexo farto e grandes vazios. Malick mergulha seus personagens em Austin, o berço da cultura indie americana. Todos os personagens ligados a festival de rock, formando dois triângulos amorosos. Mesmo com a tendência de explorar a classe artística, não se nota em Malick a preocupação sua critica sobre o vazio existencial, a vida de luxos e luxúrias. Não, Malick parece mesmo sensibilizado pelo amor, pelas relações pessoais vindas do amor e do sexo. Além da separação, a dor, a reconciliação, o desprezo e a dependência. E seus filmes flutuam, sempre com as narrações em off que traduzem sentimentos, enquanto tentam ensinar (elucidar) ao público. Em todo esse contexto, surgem algumas cenas lindas, mas não deixa de ser um cinema cansado e circular.