Drive My Car

Publicado: janeiro 3, 2022 em Cinema
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Doraibu Mai Ka / Drive My Car (2021 – JAP)

Um dos filmes sensação do último festival de Cannes, o japonês Ryusuke Hamaguchi coloca de vez seu nome entre os cineastas mais quentes da atualidade. Aqui adaptando um conto de Murakami. Oo filme abre com o perfil de uma mulher nua iluminado pelo luar da janela aberta, ela conversa com seus companheiro, conta uma história que está criando. A construção visual é elaborada, mais adiante encontraremos outra cena muito bonita esteticamente, com braços colocando cigarros acesos para fora do carro. A maior parte do filme já dialoga muito com o estilo de Hamaguchi, os tipos de planos, os diálogos e mais diálogos, afinal são 180 minutos.

Figura importante da trama é a peça Tio Vânia, de Chekov, que o protagonista trabalha na encenação e trata de envelhecimento e alguém frustrado pelo que construiu na vida. Nada muito diferente do nosso protagonista que enfrenta os dramas recentes de seu casamento. A dor da perda que se repete, o vazio existencial, mas também a decepção, estão todos lá, e todo jogo de relações pessoais que o filme de Hamaguchi coloca diante desse personagem vai de encontro ao próprio Tio Vânia que se está ensaiando.

Dessa vez Hamaguchi coloca no centro uma figura masculina, mas são as personagens femininas que causam ferida e talvez o caminho para cura (a personagem da motorista), ou aceitação, nessa via-crucis que ele vive. É curioso que quanto mais introspectivo em seus sentimentos, mais claro fica o quando de incomodo esse homem carrega, ainda que apenas nós saibamos os motivos por grande parte desse filme. É o mais elaborado trabalho de Hamaguchi porque as emoções estão tão reprimidas, e é em Chekov que encontramos os caminhos para mergulhar melhor em tudo.

Jacquot de Nantes

Publicado: dezembro 30, 2021 em Cinema
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Jacquot de Nantes (1991 – FRA)

Não sei porque esse filme tem me “perturbado” por dias, talvez a possibilidade de mostrar a guerra tão perto e tão distante daquele menino, cuja família se priva, até precisam se mudar por conta da invasão alemã, e ainda assim ele está lá, mais interessado em ir ao cinema, em suas obsessões. Talvez pela declaração de amor ao cinema pela obsessão de estudar, descobrir, brincar de filmar, enfrentar o pai, tudo por seu sonho, realmente sua obsessão. Mas, talvez, acima de tudo, há a própria declaração de amor de Varda a Demy, afinal essa cinebiografia de sua infância é um estudo profundo de quem se tornaria seu marido, e essa cumplicidade pode ser notada e cada plano carinhoso, em cada cena interligada a própria carreira de Demy. Talvez seja isso, não é todo dia que se vê uma declaração de amor tão linda, que nem precisa do “eu te amo”, esse filme representa muito mais, e nos deixa com aquela vontade imensa de largar tudo e correr para ver (rever) tudo quanto é filme do Demy.

O Século do Nascimento

Publicado: dezembro 29, 2021 em Cinema
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Century of Birthing (2011 – FIL)

De um lado o cinema, a arte. De outro o fanatismo religioso, a fé irracional, crenças que a lógica não explica. Após horas e horas de diferentes tramas, o desfecho se dará com os dois personagens centrais encontrando um caminho (ainda que seja o insanidade), mas pelo menos se livrando dos peos emocionais que suas trajetórias.

A mulher virgem que segue os dogmas de seu líder religioso e vê sua vida ruir quando é estuprada e renegada pelo líder. O diretor de cinema discute arte enquanto não consegue terminar seu filme, conversa com amigos, atores, passa um tempo na mesa de edição. Dessas histórias surgem outros personagens como o fotografo (e a câmera quase se torna um personagem desse filme já que está de diversas formas), ou as buscas da freira no filme dentro filme. Em resumo, Lav Diaz está discutindo arte e religião, refletindo tanto para questões de su vida, como para o que observa da soecidade filipina. Narrativamente é outro trabalho típico seu, e por isso mesmo revigorante, longo na duração (o que lhe permite aprofundar temas, filosofar sobre arte ou dar o peso dramático aos personagens), e belo em tantos planos de natureza ou quando aproveita da pobreza e da imensidão para intensificar essa sensação de incompletude, de insanidade, de afastamento lógico.

Vitalina Varela

Publicado: dezembro 27, 2021 em Cinema
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Vitalina Varela (2019 – POR)

O novo filme de Pedro Costa é de cortar o coração de tanta tristeza. Imigrantes de Cabo Verde vivendo como fantasmas em Portugal, seria uma boa forma de resumir o grupo de personagens. No centro deles está Vitalina, que acaba de chegar para encontrar seu marido doente, mas chega tarde demais, ele faleceu. “A casa dele não é tua casa, volta para tua terra” avisa-lhe alguém. Os dias a seguir são de Vitalina, numa tristeza que nem lhe oferece lágrimas, vivendo seu luto e testemunhando as condições dos que eram vizinhos de seu marido. É um filme tão duro que não estabelece uma linha com melodrama, várias cenas são quase quadros de luto, onde o preto e a escuridão prevalecem e a desesperança estampada nos rostos dos ainda viventes.

Em Guerra

Publicado: dezembro 23, 2021 em Cinema
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De La Guerre / On War (2008 – FRA)

Lendo qualquer das sinopses até se consegue imaginar como começam os filmes de Bertrand Bonello, mas é pouco provável saber onde vão acabar. Aqui temos  um cineasta (nome do personagem é o mesmo que o do diretor) em crise existencial que, acidentalmente, dorme num caixão para fazer um experimento para um novo filme enquanto visitava uma funerária para locações.

A experiência o faz acordar repensando na vida, ele que parecia tão desconectado do mundo. Somos levados a uma comunidade, a vida entre a natureza, a busca por prazeres, e uma guerra que precisamos travar em nós mesmos. Outro trabalho sensorial de Bonello, cuja a série de imagens tem mais poder do que as simples ações desse personagem obcecado, por vezes primitivo, acima de tudo complexo. “Você nunca vai cantar como Bob Dylan”

Melancolia

Publicado: dezembro 22, 2021 em Cinema
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Melancholia (2008 – FIL)

Sem horas e horas de desilusão, solidão, de desesperança, a dor de tantas pessoas por entes querios que “sumiram” por conta do ditadura militar filipina. Os longos planos de Lav Diaz estão lá, a fotografia preto e branco, o resgate dos guerrilheiros na selva contra o regime de Ferdinando Marcos. O filme parte de três personagens que estão numa espécie de terapia chamda Melancolia, eles assumem personagens diferentes de suas vidas para tentar superar os traumas passados. Diaz vai fundo nessa transformação, prostitutas, freiras, mas a dor incorrigível está lá, sempre lá. As primeiras duas partes tem um quê de radicalismo, tanto na exploração do sexo,  mas também na narrativa. Parte disso é substiuido pela entrada na mata, corpos mortos, armas empunhada, indígenas. Se essa terapia transforma a vida dessas pessoas num palco para esquecer a dor, as marcas da violência continuam lá, feridas expostas que nunca cicatrizam.

Na Lista do Assassino

Publicado: dezembro 19, 2021 em Cinema
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The Dead Pool (1988 – EUA)

Mesmo já caindo no mais do mesmo, o último filme do icônico Dirty Harry, sob direção de Buddy Van Horn, traz seus momentos além do estilo do policial durão de Clint Eastwood. Lembro bem de criança brincar de imaginar estar atirando com um 38 de cano longo, aquela coisa do tiro único, seco e certeiro, só para dar uma noção do que representava o personagem à época.

A cena impagável é mesmo a perseguição entre carro e o carrinho de controle remoto, isso sem falar no susto de encontrar Jim Carrey, em início de carreira, dublando Welcome to the Jungle com suas caras e bocas, bem antes da fama que viria com Ace Ventura.

Exílio

Publicado: dezembro 18, 2021 em Cinema
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Exile (2020 – ALE)

Visar Morina, ao mesmo tempo, tenta tratar da questão do imigrante sofrendo preconceito (no caso um homem de Kosovo que fez família na Alemanha), e também um drama psicológico desse homem perdendo seu controle com as pressões de trabalho. A eterna insegurança de estar sendo discriminado, e a vida em casa com seus filhos e esposa. Usa muitos de ambientes soturnos, sempre a intensificar essa sensação de não pertencimento, de incomodo, mas o filme nunca chega a mergulhar profundamente nessa paranóia emocional

Pari

Publicado: dezembro 17, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Pari (2020 – GRE)

Enquanto o filme de Siamak Etemadi estabelece o desconhecido e posiciona o que o casal de iranianos busca ao chegar à Grécia, e os conceitos de maternidade x honra, há um filme interessante. O contraste da cultura grega aos pais persas em busca do desaparecido, o choque de uma investigação própria e etc. Porém, quanto mais a protagonista tem sua “peruca torta” intensificada a cada desdobramento de sua busca, o Tragédia Pouca é Bobagem se mistura a esse espírito de renegar tudo que sou, e mergulhar na saga da mãe à procura de um filho (não só dele fisicamente, mas também de desvendar quem ele realmente é).

O Lodo

Publicado: dezembro 16, 2021 em Cinema

O Lodo (2020)

A idéia da crônica onde os sintomas psicológicos refletem no físico é intrigante, mas exceto o tema central dessa depressão que explode quando o paciente não a trata, até por seu jeito conservador, acaba prejudicada por todo o entorno do filme. Suas bases são de uma visão de mundo antiga, talvez até por conta de ser adaptação de um livro, mas nada repaganidada com os novos tempos. Assim, o conservadorismo, o machismo, são menos temas e mais o modus-operandis de todos os personagem, um mundo normalizado pelo mundo anos 80, acrescido de smartphones