Ahed’s Knee

Publicado: outubro 18, 2021 em Cinema
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Ahed’s Knee / Haderek (2021 – ISR)

A cabeça de Nadav Lapid deve viver numa incessante ebulição com seus traumas e discordâncias o atormentando. Seu filme anterior já trazia muito dessas questões, o novo trabalho (vencedor do premio do Juri em Cannes 2021) vai ainda mais longe. Não é um filme fácil, e o tradicional passa longe. Sua mais profunda desarmonia é com sua própria pátria. E ao não se conformar, ao não se sentir integrado a ela, seus filmes estão a cada instante cutucando essas feridas, essas dúvidas cruéis, e ainda seus filmes questionam muito, e questionam forte.  

A narrativa é anárquica, como nunca antes, um diretor de cinema que está viajando para uma cidade pequena de Israel, para apresentar seu filme numa biblioteca/cinemateca, e sente que será censurado pelo Ministério da Cultura através da exigência de assinar um documento referente ao que pode ser falado no debate pós exibição. Enquanto essa parte da trama transcorrer entre flerte com a mulher que o recepciona na cidade, e se diz fãs de seus trabalhos, as reflexões explosivas no deserto, e os fragmentos em flashbacks de questões como o serviço militar obrigatório, o filme ainda traz 2 ou 3 incríveis momentos musicais que vão de Guns N’Roses a Vanessa Paradis. Isso, sem esquecer da atriz que faz teste para fazer parte de seu próximo filme (que dá título a este filme e é uma referencia direta a um caso real com uma ativista Palestina). Portanto, nós estamos diante de uma panela de pressão, o cineasta (seria um altergo?) reage  ao turbilhão de crises e dúvidas num caos organizado que resulta num filme aflitivo e questionador que não dá trégua enquanto Lapid deixa tudo ainda mais intenso com planos fechados e outras de suas marcas registradas.

No Táxi do Jack

Publicado: outubro 18, 2021 em Cinema, Mostra SP
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No Táxi do Jack ( 2021 – POR)

Susana Nobre é mais uma cineasta investindo na mescla de ficção e documentário. Ela une a discussão sobre a questão do emprego com o pitoresco de seu personagem, que está prestes a se aposentar. Ele precisa cumprir alguns tramites burocráticos e o filme vai acomapanhando-o enquanto ouve suas lembranças como taxista em Nova York. Era um filme que tinha tudo para brilhar entre a graça do personagem e essa crítica social, mas não consegue se aproveitar bem de nenhuma das duas. Joaquim Calçada narra suas lembranças dos EUA e alguns comparações, sempre de maneira ingênua e levemente engraçada, enquanto procura empregos que não quer conseguir, apenas os carimbos. E assim seguimos, com mum sorriso amarelo de canto de boca, em alguns momentos prazeiroso, em outros apenas cumprindo tabela.

Armugan

Publicado: outubro 17, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Armugán, El Último Acabador (2020 – ESP)

Num vilarejo ao redor de uma montanha nos pirineus aragononeses vive Armugan, vive como uma lenda, é chamado quando as pessoas estão próximas da morte, uma espécie de um facilitador do processo. Com nítidos problemas de locomoção, ele é carregado nas costas por um amigo para ser levado às pessoas que buscam sua mística capacidade. O debate filosófico sobre morte, plano espiritural e etc, não surge como mais interessante, é a estética quem se destaca.

Em entrevistas, o cineasta Jo Sol diz que abandou a comédia que estava trabalhando ao acompanhar os últimos de vida de seu pai. E realmente essa aproximidade com a morte está em grande parte da história, mas é um filme totalmente calcado no rigor de seus extensos e meticulosos planos, de seus longos silêncios, do branco e preto que constrata a paisagem. É um cinema que afasta plateias, mas conquista alguns cinéfilos seletos que apreciação essa busca pelo vísceral.

Roda do Destino

Publicado: outubro 17, 2021 em Cinema
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Wheel of Fortune and Fantasy / Guzen to Sozo (2021 – JAP)

Ryusuke Hamaguchi vai consolidando sua carreira no mundo dos festivais, depois do sucesso de Happy Hour, com filmes repletos de diálogos, protagonismo de personagens femininas e uma temática direcionada para relacionamentos que tem refletido em muitas comparações com o cinema de Rohmer e principalmente Sangsoo.

O filme é dividido em três histórias, sempre com boas doses de coincidências, segredos e mentiras, tensão sexual e, claro, relacionamentos amorosos, especialmente brincando com a substituição ou com a máxima do “e se”. Em todas há uma necessidade de um plot twist, uma surpresinha que pode funcionar bem na ideia, mas de longe é na terceira delas que tudo se encaixa melhor. Hamaguchi tem uma capacidade especial de envolver, rapidamente surge conexão com todos seus personagens, seus pequenos dramas e solidões. Seu charme está mesmo nessa teia que constrói rapidamente entre diálogos e ambientes meticulosamente calculados para soarem levemente frios.

(Retour à Reims (Fragments) (2021 – FRA)

A sensação inicial é de estar numa aula, só que numa boa aula de história. O diretor Jean-Gabriel Périot adaptada o livro homônio de Didier Eribon, a estrutura é uma colagem de filmes mais antigos, reportagens de tv e outros recursos enquanto a atriz Adèle Haenel lê cartas de operários desde os anos 50. O resultado é um belo resumo da história política da França nas últimas décadas. Dos comunistas à extrema-direita de Le Pen, das vitórias às frustrações operárias, a eleição de Mitterrand ou Macron.

O risco de parecer monotono é dissipado pelo tom da narração em off de Haenel que parece confessional,  crítico, por vezes ingênuo, e como a montagem é capaz de dar dinamismo a tant história e tanto resgate de pessoas que fizeram parte dessas idas e vindas políticas apenas como coadjuvantes, assim como eu ou você, que votamos, que falamos com pessoas próximas, mas não estamos lá nas lideranças de um sindicato ou de um partido político.

Oranges Sanguiness / Bloody Oranges (2021 – FRA)

Exibido na sessão Midnight Screenings de Cannes 2021, e realmente parece o melhor lugar para um filme como esse. Como num filme mosaico, no melhor estilo Robert Altman, só que com toques de humor negro à la Dupieux, o cineasta francês Jean-Christophe Meurisse nos conduz, a essa série de personagens interligados numa série de acontecimentos em direção à miséria humana. Um casal de velhinhos que espera pagar suas dívidas ganhando um concurso de dança, um ministro acusado de “soluções criativas” com seus impostos, uma adolescente despertando para sua vida sexual são alguns dos exemplos. O que o filme faz é levar essas histórias ao limite desde sequestros, abuso sexual, violência extrema, suicídio, muitos toques de crueldade enquanto discute questões extremamente francesas de comportamento ou política. Blood Orange é uma mutação da laranja, amarelinha por fora e vermelho-sangue por dentro, provavelmente Meurisse queria dizer que depois da embalagem está tudo podre na sociedade contemporânea.

Vengeance Is Mine, All Others Pay Cash (2021 – Indonésia)

Mistura inesperada essa miscelânea do cineasta Edwin, filme vencedor do Leopardo de Ouro em Locarno. Ainda que deixe de lado muito do seu cinema poético, o diretor indonésio mantém o exótico e o tom arthouse que aqui se mistura a uma homenagem aos filmes de artes marciais e ao cinema de ação dos anos 80 (referências ao Rambo não faltam). Quase um exploitation com caso de amor entre um lutador (com impotência crônica) e uma lutadora durona. Sexo quase primitivo, flerte com fantasmas e muita porradaria enquanto rolam os vai-e-vens do amor sempre naquele tom melodramático dos asiáticos.

Stillwater

Publicado: outubro 15, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Stillwater (2021 – EUA)

O diretor Tom McCarthy não nega que o caso Amanda Know lhe serviu de inspiração, talvez até mais que inspiração, já que a estudante americana foi presa na Itália, e acusada de matar a companheira de apartamento (e namorada).

Aqui a trama é levada à França, e está toda calcada no personagem do pai (Matt Damon). Um trabalhador de plataformas de petróleo, típico eleitor Republicano, e cheio de rancor por comportamentos do  passado que o afastaram de sua família. Ele vai visitar a filha, presa e condenada, e decide investigar uma pista que a própria filha traz. É mais filme de contar uma história, nada além disso. Fico imaginando esse roteiro na mão do Clint, porque McCarthy não consegue imprimir nenhuma marca, nada substantivo, é tudo padronizado num estilo narrativo bem comum.

Além de um Matt Damon bem convicente e a graça e frescor das personagens francesas de mãe e filha que cruzam o caminho desse pai, temos mesmo um thriller frouxo e um drama medíocre que faz apenas cócegas em temas sociais e culturais que tenta se aproximar.

3 Homens e um Bebê

Publicado: outubro 15, 2021 em Cinema
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3 Hommes et um Couffin / Three Men and a Cradle (1985 – FRA)

A versão americana deve ser um dos filmes que mais vi na infância. A versão original foi um sucesso, indicada a Oscar de Filme Estrangeiro, muito mais pelo apelo comercial do que suas realizações artísticas da fita dirigida por Coline Serreau. Claro que é calcado no humor de situações do bebê revolucionando a vida desses homens, o curioso é ver esse estereótipo de homem dos anos 80, cuja sociedade esperava que algumas atividades fossem apenas responsabilidade de mulheres, aqui piorado pelos solteirões bon-vivants entre fraldas e até uma trama policial.

Dood in de Bijlmer (2021 – HOL)

Quando criança, aquela coisa do velório para parentes e amigos se despedirem quem se foi e cemitório na manhã do dia seguinte parecia a única tradição possível para encerrar o ciclo. Demorou até perceber que tantos povos tem tradições diferentes, pequenas festas, celebrações com música, as tradições fúnebres se diferem entre povos. O documentário de Paul Sin Nam Rigter acompanha Anita, que pretende inagurá um local para esses “velórios” que permitisse liberdade aos diferentes povos que vivem em Bijlmer homenagerem seus mortos. E esse é o aspecto mais curioso do documentário, porém tudo que fogem dessas tradições só encontra uma narrativa padrão de uma câmera que tenta ser invisível enquanto personagens desinteressantes conversam com Anita e sua própria relação com a proximidade da morte (no caso, de seu pai)