Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot (2018 – EUA) 

Como é curiosa, e nada retilínea, a carreira de Gus Van Sant. Um cineasta de filmes inspiradores, outros quase experimentais, comedias e melodramas sentimentais. A cinebiografia do cartunista é John Callahan (Joaquin Phoenix) se enquadra nessa leva de seus filmes mais básicos e que inspiram pela história de vida edificante, e não por um tipo de cinema inspirador.

Do alcoolatra que sofre um acidente e fica tetraplégico, até sua redescoberta como viver, incluindo sua “vocação” para sua provocante carreira artística, o que temos é um filme que busca reconstiuir época e recriar a historia, mas sempre amarrado num estilo quadrado, por mais controverso que o personagem possa ser.


Festival: Sundance 2018

Mostra: Premières

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EP 159 – 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dele

Publicado: janeiro 4, 2019 em Podcast

Feliz 2019! Ano começa numa terça-feira, que é dia de… Cinema na Varanda

No pontapé inicial no ano trazemos dois filmes que estiverem em competição em Cannes e que chegaram aos cinemas brasileiros no final de 2018. São duas histórias de amor pouco convencionais.

Um deles é o sensível novo trabalho de Christophe Honoré, Conquistar, Amar e Viver Intensamente (9:08) que resgata muito do seu passado. O outro é o japonês Asako I e II (32:23), dirigido por Rysuke Hamaguchi, uma fábula romântica com atmosfera de mistério.

E no primeiro Boletim do Oscar (1:35) comentamos a shortlist com os 9 filmes que seguem na corrida pela indicação ao Oscar. Nas Recomendações o suspense dinamarquês Culpa (50:06) e o nosso desejo de um excelente 2019 aos nossos fiéis varandeiros. Bom Podcast!

 


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Top 25 – 2018

Publicado: janeiro 2, 2019 em Cinema, Top

Não há muito o que se reclamar de 2018, quando se trata de cinema. Foi mais um ano bem positivo aos cinéfilos, e também um ano de muitas polêmicas que vão além da exibição dos filmes. A discussão que mais imperou foram os streamings, os filmes que não passam pela tela grande, e essa nova maneira de dialogar e distribuir. O ápice foi a confusão entre Festival de Cannes e Netflix, que tirou os filmes da gigante dos streamings do festival, e entre os últimos capítulos a mesma Netflix vem figurando com grande favoritismo ao Oscar (com um filme preto e branco e falado em espanhol). Se fala tanto na Netflix, mas Hulu e Amazon são outros ótimos exemplos de produção de conteúdo, mas que jogam diferente com os grandes exibidores, por isso menos confronto.

É o planeta em processo de reconfiguração, fechando barreiras que estava escancaradas, e o cinema não só é afetado como reflete essas mudanças. Os streamings vieram para ficar, e vão ocupar cada vez mais espaço. Bird Box (recente filme da Netflix) foi visto por uma quantidade avassaladora de pessoas, um alcance que as salas de cinema não teria tão rapidamente.  Num mundo em que a ultra-direita ganha espaços em países importantes e que os nacionalismos estão inflamados, o cinema trata desses e outros temas, enquanto a indústria tenta se reencontrar com o público.

Fora dos filmes, 2018 foi ano que a guerra comercial EUA x China chegou em níveis não imaginados, enquanto a União Européia enfrenta o Brexit e esse passo atrás da integração e globalização. E, obviamente que temas de 2017 se consolidaram ao longo do ano, o espaço de protagonismo das minorias (negros, latinos) na criação e premiação, e a tardia, e necessária, conquista do espaço da mulher.

Nesse ranking pessoal, nova tentativa de refletir o ano cinematográfico a partir dos dez filmes que mais me agradaram, seja na forma como exploram seus temas ou nas novas maneira de utilizar a linguagem cinematográfica, sem perder a conexão com o mundo além do lado artístico. Afinal, arte sempre será uma maneira de refletir o mundo. Vale citar que a lista não é construída com nenhuma preocupação plural (ou de cumprir cotas), isso acontece, ou não, naturalmente. E chama a atenção a divisão geográfica com EUA (2), Europa (5), Ásia (2) e um filme latino, constituindo essa pequena e bela amostragem do que 2018 teve a nos oferecer. A ordem é meramente subjetiva, mais importante é o que vamos carregar com os filmes a partir de agora.

 

Novamente, o cinema não se esquivou das mazelas do mundo. Se 2018 não nos privou de novos capítulos tristes e imagens aterrorizantes de guerra, os filmes nos fizeram refletir ou revivê-las de maneira intensa.  Em Imagem e Palavra Jean-Luc Godard segue inventado, radicalizando, e também criticando, e novamente ele oferece um dos acontecimentos audiovisuais do ano. A guerra está aqui, entre o experimentalismo da desconstrução, pela ousadia de pedir um Remake ao mundo, seu foco também é o mundo árabe, aceitação e não demonização. E por falar de acontecimento audiovisual, o que falar do filme inacabado de Orson Welles? O Outro Lado do Vento, finalmente, foi finalizado, e que filme. Ousado na narrativa, provocativo na forma como enxerga a Hollywood dos anos 70, e criativo por todos os lados. Um encontro de Verdades e Mentiras com o cinema mais autoral de John Cassavetes

Talvez o menos conhecido da lista, Drvo: A Árvore, do português estreante André Gil Mata nos faz lembrar Bela Tarr, ao partir de uma fotografia de uma árvore em Saravejo, e com apenas um velho, um menino, um rio, seis galões vazios e a cidade escura, criar uma das maiores poesias visuais do ano entre os resquícios das guerras nos balcãs. Também há resquícios da guerra no novo melodrama de Christian Petzold. Em Transit, o cineasta alemão sugere uma Europa em que o Nazismo venceu, e os imigrantes são os perseguidos (mas hoje também não são?). Petzold é um daqueles que só temos a lamentar porque seus filmes não chegam aos cinemas brasileiros (creio que só Barbara teve distribuição), sua narrativa é sofisticada, suas histórias e personagens apaixonantes, e aqui ele vai muito além ao tratar de sobrevivência num romance em que o desfecho sempre soa improvável.

Seguindo pelo caminho do improvável, uma das grandes sensações de Cannes foi Em Chamas, adaptando Murakami. A dança ao por do sol, o sugerido triângulo amoroso intricado, a atmosfera instigante de mistério. O filme do sul-coreano de Lee Chang-dong pede menos por resposta, e mais por esse mergulho em cada um dos personagens desse tripé. Ainda em Cannes, a cena de punk-rock na Rússia dos anos 80 ofereceu um dos filmes mais saborosos do ano, a cinebiografia do maior ícone da época brinca com a ingenuidade dos rebeldes, assim como a pureza de sentimentos, e o brinde que se torna tudo que se refere a imaginação dos personagens. É um filme menos preocupado com fatos, e bem mais interessado em nos fazer mergulhar na época e sentir a temperatura daquele tempo.

Família, nunca pode faltar. Temos aqui três abordagens bem distintas. Tão pessoal o trabalho de Alfonso Cuarón ao resgatar a história da babá que cuidava dele, e dos irmãos, no México de tantos conflitos nos anos 70. O clima de nostalgia que vem de seu plano visual virtuoso contrasta com a grandiosidade nas pequenas coisas, nos pequenos e grandes dramas de Cleo, dando voz a quem sempre aceitou uma vida de coadjuvante. Já Amanda mistura a dor de uma tragédia e a necessidade de reconstrução entre os cacos, e a intolerância. Um filme tão dolorido, e, ainda assim, tão luminoso de Mikhaël Hers, afinal são duas crianças (uma delas uma criança adulta) que  enfrentam essa melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Por fim, o vencedor da Palma de Ouro, esse caso amoroso de Kore-eda com crianças, mas dessa vez o japonês complica a trama com ousadia, sem sair de seu ritmo cinematográfico. A hipocrisia das convenções sociais questionada ao colocar o marginal como melhor refúgio de uma garotinha de classe média. É um choque de afeto e de reflexão sobre o que está velado e como são criados os laços sentimentais.

E o filme do ano foi dele, Paul Thomas Anderson, com o romance doentio de uma estilista e sua musa. Um amor que é quase um fime de terror, entre atração e obsessão. Um conto sobre a mascunilidade e seu poder de liderar e ser liderado. PTA se coloca como um arquiteto do cinema por contruir personagens marcantes e cenas inesquecíveis que representam também a personificação de cada um desses personagens. É uma pequena aula de domínio cinematográfico, e também hipnótico experimento de um tipo de relacionamento opressivo, tóxico e instigante, um vício da qual não se consegue superar.

 

  1. Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson
  2. O Outro Lado do Vento, de Orson Welles
  3. Imagem e Palavra, de Jean-Luc Godard
  4. Amanda, de Mikaël Hers
  5. Um Assunto de Família, de Hirokazu Kore-eda
  6. Transit, de Christian Petzold
  7. Verão, de Kirill Serebrennikov
  8. Em Chamas, de Lee Chang-dong
  9. Roma, de Alfonso Cuarón
  10. A Árvore, de André Gil Matta
  11. Nasce uma Estrela, de Bradley Cooper
  12. Umas Perguntas, de Kristina Konrad
  13. Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski
  14. Ex-Libris: New York Public Library, de Frederick Wiseman
  15. Mariphasa, de Sandro Aguilar
  16. L. Cohen, de James Benning
  17. A Dragon Arrives!, de Mani Naghighi
  18. Infiltrado na Klan, de Spike Lee
  19. A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho
  20. Você Nunca Esteve Realmente Aqui, de Lynne Ramsay
  21. 3 Faces, de Jafar Panahi
  22. Museu, de Alonso Ruizpalacios
  23. A Favorita, de Yorgos Lanthimos
  24. Asako I e II, de Ryusuke Hamaguchi
  25. A Forma da Água, de Guillermo del Toro

 


Meus Rankings dos anos anteriores

Top 25 – 2017

Top 25 – 2016

Top 25 – 2015

Top 10 – 2014

Top 10 – 2018 – Cinema Nacional

Publicado: janeiro 1, 2019 em Cinema, Top

Não foi um ano em que um filme se destacou muito frente aos demais, mas foi um ano de forte presença nos festivais internacionais (principalmente Berlim e Rotterdã), também um ano em que estão surgindo novos autores, a necessária renovação se faz presente. Ainda assim o cinema brasileiro trouxe em 2018 a riqueza de sua diversidade em suas visões e reflexões sobre nosso país contemporâneo.

 Não foi fácil escolher o filme que fecharia a lista, havia um leque de opções, mas o road movie da operária sexagenária recém desempregada pesou mais forte pela presença forte de Magali Biff. Essa possibilidade de descoberta do desconhecido, de sair da zona de conforto, é o que muita gente precisaria para se sentir vivos. Falando em manter vivo, dois bons trabalhos resgataram a chama de dois personagens tão importantes ao cinema nacional. Guarnieri e Paulo José foram homenageados, e bem homenageados, em filmes sensíveis e afetivos. E por falar em memória, o que dizer das lembranças da diretora Flávia Castro, que resgata seu passado adolescente no retorno ao Brasil no início da redemocratização. Deslembro ainda não entrou em cartaz, mas merece ser visto assim que possível.

Carolina Jabor trouxe muita polêmica com as redes sociais e o linchamento virtual de um professor que, supostamente, teria cometido abuso infantil. Aos Teus Olhos fala muito com nosso sociedade moderna, que define tudo por boatos, e não se dá ao luxo de ouvir o que o outro tem a dizer. Já o ator Murilo Benício se destaca ao dirigir a adaptação de O Beijo no Asfalto, e o poder da imprensa em transformar boatos e fatos. A bela coprodução Brasil-Portugal, Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, traz a questão indígena de outro prisma, um jovem índio que não se sente bem em sua comunidade e nem é abraçado pela outra, vive num hiato da marginalização.

O pódio se abre com Temporada, o novo filme de André Novais Oliveira sobre esse país precário, sobre a opção pela vida fácil, pela irresponsabilidade pública, e também sobre ser negro e o espaço miserável que lhe cabe. O estreante Tiago Melo vem com Azougue Nazaré, preconceito, religião, é um filme-panela-de-pressão, que fez muito sucesso em Rotterdã. Mas, o grande favorito foi Café com Canela, a surpreendente parceria de Glenda Nicário e Ary Rosa é de uma simplicidade e singeleza que fica difícil não se encantar com seus personagens, e o filme também tem muita experimentação na linguagem, quebra do formalismo, um cinema que foge da zona de conforto.

  1. Café com Canela, de Glenda Nicário e Ary Rosa
  2. Azougue Nazaré, de Tiago Melo
  3. Temporada, de André Novais Oliveira
  4. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Mossora e João Salaviza
  5. Deslembro, de Flávia Castro
  6. O Beijo no Asfalto, de Murilo Benício
  7. Guarnieri, de Francisco Guarnieri
  8. Todos os Paulos do Mundo, de Rodrigo de Oliveira e Gustavo Ribeiro
  9. Aos teus Olhos, de Carolina Jabor
  10. Pela Janela, de Caroline Leone

 


Top 10 – 2017 – Cinema Nacional

Top 5 – 2016 – Cinema Nacional

Top 5 – 2015 – Cinema Nacional

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

EP 158 – Varanda Awards 2018

Publicado: dezembro 26, 2018 em Podcast

É chegada a hora da terceira edição do Varanda Awards. Nosso episódio Presente de Natal, que resume o ano cinematográfico que você acompanhou aqui, em debate.

Quais foram os melhores filmes de 2018? E aqueles que caíram da varanda? Daquela forma descontraída, de sempre, temos as categorias já tradicionais onde Cris Lumi, Chico Fireman, Michel Simões e Tiago Faria elegem, entre outros, as atuações inesquecíveis, os longas superestimados, os grandes filmes que não foram lançados no circuito brasileiro e aqueles em que se eu tivesse um travesseiro…

Este ano temos a estreia do Melhor Filme através do Voto Popular, onde todos os ouvintes puderam participar e também incluímos a escolha do Melhor Diretor nas categorias mais tradicionais. Como sempre, encerramos com o Top 10 de 2018, numa votação que conta com a ajuda de todos os convidados que estiveram na Varanda ao longo do ano. Prepare-se para resgatar o ano de 2018, bom podcast!


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Plaire Aimer et Courir Vite / Sorry Angel (2018 – FRA) 

Christophe Honoré, normalmente, se sai melhor quando trata do amor do que em outros temas. Seu grande filme continua sendo Canções de Amor, e a magia de ser pop e plural, de tratar esse amor de quem gosta de pessoas, e não de gêneros. Seu novo filme se equilibra em certa irregularidade, em conjunto de situações que criam cenas e diálogos que representam melhor o que o cineasta almeja sensibilizar, do que o simples acompanhar uma história.

Há algo de lúdico no maduro autor de teatro, sofrendo com a AIDS, e que encontra um jovem cheio de vitalidade em descobrir a vida, em viver um romance. Talvez o lúdico esteja na mistura de refinamento social,  e sua forma de empregar seu lado culto como um conquistador. Dessa forma honesta e aproveitadora que ele estabelece amizade com o vizinho, que mantém seus relacionamentos profissionais, que cuida do filho, e que causa atração do jovem interiorano apto a se abrir ao mundo.

Por isso tudo que o título original condiz muito com o protagonista, através de encontros ou telefonemas, conquistar, amar e viver intensamente parece um mantra, mas funciona melhor para resumir esse protagonista que parece inquebrável para alguns, mas tão frágil em outros momentos. Afinal, somos assim, mostrando fortalezas e fragilidades, vivendo nessa busca incessante pelo prazer, pela felicidade, ou por viver aquele momento como se fosse o último.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

O Beijo no Asfalto (2018) 

Interessante os caminhos escolhidos pelo ator Murilo Benício em sua estreia na direção. Adaptando uma peça de Nelson Rodrigues, tudo filmado em branco e preto, como se fosse uma leitura preparatória para o  ensaios da peça. Dali surge um debate sobre os próprios temas da peça, enquanto intercala a leitura com a própria representação das cenas. Na trama, um incidente é completamente alterado pela imprensa, e a vida do afetado muda de pernas para o ar. É um filme sobre a beleza da sinceridade de um momento cuja interpretação alheia eclode para fora do controle, onde preconceito e amor se confunde com aceitação e as próprias relações veladas entre cada um dos personagens.