Eu, Tonya

I, Tonya (2017 – EUA) 

A opção da narrativa, exclusivamente, no freak show do relacionamento entre esposa (Margot Robbie), mãe (Allison Janney) e marido (Sebastian Stan), diz muito sobre o filme e suas escolhas. Narrado como num documentário falso, com depoimentos que engatam em flashbacks, a cinebiografia das mais controversas patinadoras olimpíacas é tão obtusa quanto a vida de seus retratados.

O filme dirigido por Craig Gillespeie não consegue dar dimensão exata do tamanha de Tonya Harding para o esporte, por mais que os fatos estejam lá, jogados ao léu. Foco no casos de policia (alusão até a O. J. Simpson está explícita no filme), seja na mãe estranha ou no casamento violento. Desse desequilíbrio surgia uma esportista sempre arredia, pouco profissional, e que entra para a história pelas manchas graves de causou no fair play. Como cinema, apenas um show de personagens histéricos e conturbados, e com boas interpretações que fazem o filme parte integrante da corrida ao Oscar deste ano.

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A Woman Captured

A Woman Captured (2017 – HUN) 

O documentário informa um número impressionante de pessoas mantidas como escravas, nos dias de hoje, por toda a Europa. Só na Hungria, se estima mais de dez mil. O filme de Bernardett Tuza-Ritter é chocante por capturar, com tantos detalhes, a forma com que a doméstica era tratada pela família, donos da casa onde vivia, sem receber salário e com limitada permissão para sair de casa, por anos e anos.

Os tempos do feudalismo no mundo contemporâneo. É até crueldade confundir com convencional o trabalho de Tuza-Ritter, só por sua narrativa seguir um padrão bem estabelecido no cinema, por mais que isso seja um fato, o feito é a riqueza do material, expositivo e cheio de afeto, mas facilmente revoltante por ainda se viver num mundo cão de exploração humana até os dias atuais.


Festival: Sundance 2018

Mostra: World Cinema – Documentary

Sarah Plays a Werewolf

Sarah Joue un Loup Garou / Sarah Plays a Werewolf (2017 – SUI) 

O filme de estreia de Katharina Wyss tem na claustrofobia o combustível para narrar a história de uma jovem de dezessete anos. Com grande dificuldade de se relacionar socialmente, Sarah (Loane Balthasar) se entrega ao teatro da escola, e o que deveria ajudar na socialização, a torna ainda mais obsessiva e compulsiva. A tragédia das peças (Julieta de Shakespeare  principalmente) reflete em seus próprios comportamentos, tornando-a ainda mais introspectiva e dissimulada.

O roteiro também dialoga bastante com temas que o cinema tem discutido escancaradamente, abuso e a posição da mulher. A familia, a ópera, a ausência do irmão mais velho, tudo colabora nesse universo sufocante a qual Sarah mergulha e nem sabemos se tudo é verdade ou mera imaginação. Wyss sintetiza numa quase bipolaridade toda a problematização de uma idade em que se cobra responsabilidades, em que a fase adulta bate à porta, e lidar com a nova realidade corre o risco de se tornar perturbador.


Festival: Veneza 2017

Mostra: Semana da Crítica

Sem Amor

Loveless (2017 – RUS) 

A sessão única em que foi exibido na Mostra SP jamais será esquecida. Menos pelo que o filme possa representar, e mais pela confusão para conseguir ingressos, que gerou tanta discussão e briga que até a policia foi parar no Conjunto Nacional. Andrey Zviagintsev não deve ter noção da comoção que causou em alguns públicos.

Um dos filmes mais elogioados em Cannes, é outro de seus dramas familiares que tenta inserir questões políticas ou sociais da Rússia. Um casamento em frangalhos, apenas à espera da venda do apartamento para os corpos finalmente se separarem. Brigas diárias, agressões verbais, e o filho adolescente absorvendo como uma esponsja a animosidade entre os pais. Impressiona a cena em que o casal se ofende na cozinha e o garoto chora copiosamente.

Zviagintsev segue filmando lidamente, tudo muito escuro, algumas cenas sem iluminação ou focando árvores tristes, sem folhas. É o espaço, cada vez maior, que o casal cria entre eles, o motor que rege o primeiro ato dessa trama. Depois, o grande acontecimento que leva os dois ao desespero, entre buscas em hospitais e necrotérios. Cada um seu novo relacionamento, a nova vida cotidiana que se embrenha como as raízes de uma árvore, numa sociedade russa de valores questionáveis, dúbios. No fim, sua provocação nas questões entre Ucrânia e Rússia, Zviagintsev não consegue mais deixar de realizar filmes que tenham grandes temas, um dos fortes candidatos ao Oscar de Filme Estrangeiro, ainda que esteja bem longe de empolgar ou causar todo o impacto que o cineasta pretendia.


Festival: Cannes (2017)

Mostra: Competição Principal

Prêmio: prêmio do juri

EP 112 – Os Monstros Também Amam

E o tão esperado filme de Guillermo Del Toro chega aos cinemas: nosso principal tema da semana é A Forma da Água (33:37), o favorito ao Oscar, dono de 13 indicações, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, e de um apuro técnico admirável. Teria chegado a vez do mexicano ser consagrado em Hollywood? A Varanda fala do filme e carreira de Del Toro. Desta vez, abrimos espaço para um cantinho de spoilers (1:10:39) – portanto, cuidado!

O polêmico Todo o Dinheiro do Mundo (1:14:40), do consagrado Ridley Scott, também está em debate. A troca de Kevin Spacey por Christopher Plummer é sim um dos pontos em debate, além da tentativa do diretor de fazer um retrato ácido dos mais ricos.

E mais: Cantinho do Ouvinte, muitas Recomendações, a polêmica de Uma Thurman e o vídeo do acidente de Kill Bill, o Varandeiro do Zodíaco (1:39:46) entrando na Era de Aquário, Boletim do Oscar (23:42) e rapidinhas sobre o filme-supresa The Cloverfield Paradox (9:56), que dominou as redes sociais desde que foi lançado, no domingo (4), após o Super Bowl. Bom podcast!

 

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Goya 2018

Além de toda acorrida do Oscar, cada vez mais tenho acompanhado outros dois prêmios de academias de cinema, seja por motivos de facilidade com a língua, seja para entender como funcionam as individualidades regionais, fora dos holofotes globais que o cinema dos EUA tem. Dessa forma, sempre que possível, gosto de assistir a entrega dos prêmios Goya (Espanha) e Cesar (França).

Aqui no Brasil, é possível assistir, ao vivo, a noite de gala dos Goya através do canal de tv a cabo TVE (TV Espanha). Uma festa que repete o mesmo formato do Oscar, como todos, se alonga, tem tapete vermelho, e humoristas apresentando a cerimônia. Este ano ficou a cargo da dupla de humoristas de Albacete Joaquín Reyes e Ernesto Sevilla, após 3 anos seguidos de Dani Rovira (o Rafa das comédias românticas Ocho Apellidos Catales e Ocho Apellidos Vascos), que não agradaram. Tentando manter as piadas a favor do feminismo em alta (incluindo a escolha de dois homens para apresentar, ao invés de alguma mulher), acabaram apenas com tonterías e desagrado geral. Talvez, a frase qie resuma a participação seja: “Los Goya solo lo han ganado tres mujeres en 31 años, 4 si contamos a Álex de la Iglesia”.

Marisa Paredes – Goya de Homenagem pela Carreira

A imprensa espanhola sempre discute a capacidade dos prêmios de se equilibrar entre o mainstream e o cinema de autor, numa indústria que tem se solidificado com o cinema de gênero (principalmente os policiais), e realmente os últimos anos indicam essa “alternância”, com os vencedores policiais Tarde para a Ira e Pecados Antigos, Longas Sombras, contra o drama Truman mais popular. Segue abaixo a lista dos últimos vencedores de Melhor Filme:

Ano Filme Diretor Título Original
2017 Tarde para a Ira Raúl Arévalo Tarde para la Ira
2016 Truman Cesc Gay Truman
2015 Pecados Antigos, Longas Sombras Alberto Rodríguez La Isla Mínima
2014 Viver É Fácil com Os Olhos Fechados David Trueba Vivir Es Facil con los Ojos Cerrados
2013 Branca de Neve Pablo Berger Blancanieves
2012 Não Haverá Paz para os Malvados Enrique Urbizu No Habrá Paz para Los Malvados
2011 Pão Negro Augustí Villaronga Pan Negro
2010 Celda 211 Daniel Monzón Celda 211

Os 5 indicados desse ano a Melhor Filme aumentam o poder da diversidade, um drama tradicional, um drama de época, um filme jovem e pessoal, um de terror e uma comédia dramática. Filmes falados em diferentes idiomas: espanhol, inglês, catalão e basco, num país que vive em ebulição, com tantas discussões separatistas, o cinema fazendo o trabalho de representar a todos. Indicados comentados:

La Librería, de Isabel Coixet – maior nome feminino do cine espanhol, sucesso nas bilheterias, filmado na Grã-Bretanha

Handia, de Aitor Arregi y Jon Garaño (diretor de Loreak) – 13 indicações sobre aceitar o diferente, história de um gigante de mais de 2,40m.

Verão 1993, de Carla Simón – melhor primeiro filme em Berlim, sucesso no circuito dos festivais e o grande favorito aos prêmios principais.

El Autor, de Manuel Martín Cuenca – tragicomico com protagonistas que já ganharam Goyas

Verónica, de Paco Plaza – filme de terror do diretor de [REC]

Handia levou 10 das 13 indicações ao Goya, parecia ser o grande vencedor da noite, acabou faturando quase todos os prêmios técnicos. Verão 1993 teve seu reconhecimento com seus protagonistas e como melhor filme de estréia. Mas, na reta final, surge a figura de Isabel Coixet com sua coprodução inglesa para faturar roteiro adaptado, direção e filme (entregue por Penelope Cruz e Carlos Saura), e assim coroar a onda de feminismo no cinema. Duas mulheres diretoras premiadas e discursos de equiparação salario entre gêneros em todos os setores da indústria do cinema.

Fica a discussão se prevaleceu o melhor do cinema, ou se as escolhas foram no embalo da bilheteria ou da necessidade de premiar a mulher. O movimento #+mujeres ganha a indústria espanhola e deixa sua mensagem. Por outro lado, Woody Allen não parece tão em baixa por lá, um curta de animação que cria um diálogo Woody & Woody foi o premiado, portanto, nem tudo que se passa em Hollywood reflete em todos os cantos desse mundo.

No Brasil, os principais filmes espanhóis não tem tido muito espaço das salas de cinema, porém com boa distribuição nos serviços de Streaming. Fique de olho! Abaixo, os vencedores por categoria:

 

MEJOR PELÍCULA: “La librería”

MEJOR DIRECCIÓN: Isabel Coixet por “La librería”

MEJOR DIRECCIÓN NOVEL: Carla Simón por “Verano 1993”

MEJOR GUIÓN ORIGINAL: Aitor Arregi, Andoni de Carlos, Jon Garaño y Jose Mari Goneaga por “Handia”

MEJOR GUIÓN ADAPTADO: Isabel Coixet por “La librería”

MEJOR ACTOR PROTAGONISTA: Javier Gutiérrez por “El autor”

MEJOR ACTRIZ PROTAGONISTA: Nathalie Poza por “No sé decir adiós”

MEJOR ACTOR DE REPARTO: David Verdaguer por “Verano 1993”

MEJOR ACTRIZ DE REPARTO: Adelfa Calvo por “El autor”

ACTOR REVELACIÓN: Eneko Sagardoy por “Handia”

ACTRIZ REVELACIÓN: Bruna Cusí por “Verano 1993”

MEJOR PELÍCULA IBEROAMERICANA: “Una mujer fantástica” de Sebastián Lelio

MEJOR PELÍCULA EUROPEA: “The Square” de Rubén Óstlund

MEJOR PELÍCULA DOCUMENTAL: “Muchos hijos, un mono y un castillo”

MEJOR PELÍCULA DE ANIMACIÓN: “Tadeo Jones 2. El secreto del Rey Midas”

MEJOR MONTAJE: Laurent Dufreche, Raúl López por “Handia”

MEJOR DIRECCIÓN DE FOTOGRAFÍA: Javier Agirre Erauso por “Handia”

MEJOR MÚSICA ORIGINAL: Pascal Gaigne por “Handia”

MEJOR CANCIÓN ORIGINAL: “La llamada” de José Miguel Conejo Torres (Leiva) por “La llamada”

MEJOR DIRECCIÓN ARTÍSTICA: Mikel Serrano por “Handia”

MEJOR DISEÑO DE VESTUARIO: Saioa Lara por “Handia”

MAQUILLAJE Y/O PELUQUERÍA: Ainhoa Eskisabel, Olga Cruz, Gorka Aguirre por “Handia”

MEJOR SONIDO: Aitor Berenguer, Gabriel Gutiérrez, Nicolás de Poulpiquet por “Verónica”

MEJOR DIRECCIÓN DE PRODUCCIÓN: Ander Sistiaga por “Handia”

MEJORES EFECTOS ESPECIALES: Jon Serrano, David Heras por “Handia”

MEJOR CORTOMETRAJE DE FICCIÓN: “Madre” de Rodrigo Sorogoyen

MEJOR CORTOMETRAJE DOCUMENTAL: “Los desheredados” de Laura Ferrés

MEJOR CORTOMETRAJE DE ANIMACIÓN: “Woody & Woody” de Jaume Carrió

A Forma da Água

The Shape of Water (2017 – EUA) 

O novo conto de fadas de Guillermo del Toro é romântico, da voz aos marginalizados, é bastante ousado sexualmente, algumas horas divertido, em outras canastrão com seus vilões. A atmosfera de O Labirinto do Fauno é transferida para um laboratório militar dos EUA em plena Guerra Fria. Espiões soviéticos infiltrados e um estranho anfíbio capturado das águas do Amazonas são as obsessões militares da base.

Nasce a improvável história de amor entre o monstro e uma faxineira muda, del Toro toma todos os cuidados com o tom romântico: da graça e leveza de Sally Hawkins, quase em hipnose, à trilha sonora aconchegante e a beleza com que a fotografia escura e de tons pesados (muito verde musgo) oferece num contraste entre sentimentos e ambientes.

O romance está lá, assim como todo o vilanismo da cúpula militar (Michael Shannon) em caricatura, violência e cegueira. Personagens periféricos são pouco desenvolvidos para que o romance comova, ainda que sempre envolto nesse universo da beleza impossível e dos marginalizados buscando seu espaço para encontrar sua felicidade.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmio: Leão de Ouro – Melhor Filme