Digam o que Quiserem

Say Anything… (1989 – EUA) 

Seria provocativo dizer que Cameron Crowe ainda não realizou um filme tão bom quanto sua estreia? Talvez Quase Famosos possa rivalizar e causar discussão, mas sua comédia romântica, ingênua, funciona tão bem dentro dos clichês do gênero, e praticamente marcou a assinatura que encontramos na maior parte dos filmes do diretor.

A trama adolescente em que Lloyd (John Cusack) tenta conquistar o coração da estudante determinada Diane Ione Skye), guarda pequenos momentos inesquecíveis da representação da paixão, e também da explosividade da felicidade juvenil, e da pressão paterna pelas responsabilidades contra as paixonites adolescentes.

Crowe dosa bem a mão quando trata da relação pai e filha, e das transformações a qual passa essa relação enquanto se descobre outro lado do pai e a filha aprende as desenvolturas do amor. Enquanto isso, o inquieto Lloyd vive passionalmente todas as fases de seu relacionamento, seja através da música, das influencias da amizades, mas principalmente no aprendizado da convivência. E dentro dessa complexa equação, Crowe constrói um desses romances saborosos, imperfeitos, mas que carregam muito além do que as simples idas e vindas do amor.

Happy People

Happy People: A Year in the Taiga (2010 – ALE) 

A extensa carreira de Werner Herzog como documentarista oferece alguns mergulhos em universos desconhecidas, afastadas de nossa realidade, quase sempre ligados na relação do homem com a natureza. Auxiliado pelo codiretor Dmitry Vasyukov, o cineasta embarca uma jornada acompanhando um ano da vida dos pouquíssimos moradores de uma das regiões mais inóspitas da Sibéria.

Para chegar lá, só de barco ou helicóptero. Com depoimentos que captam a sensibilidade e a virilidade dos homens que ali habitam, Herzog se debruça em atividades chaves vitais para a vida na região: a caça e pesca, a construção de barcos e casas de madeira, o relacionamento com cães de caça e a quase completa autossuficiência. Pessoas felizes, longe da tecnologia, completamente isolados da vida em sociedade e com frio de 50 graus negativos. A narrativa e a trilha sonora pesam no tom dramático, em contrapartida o poder das imagens é fascinante em descobrir a rotina e o estilo de vida possível num local lembrado apenas nos comícios dos políticos à beira da eleição.

EP 76 – A Grama do Vizinho É Mais Verde?

Não são poucos os espectadores e críticos que consideram o cinema argentino mais interessante que o brasileiro. Por que isso acontece? A rivalidade do futebol ganha um espelho na tela do cinema? É justo afirmar que os filmes que nossos vizinhos produzem desde os anos 90 têm mais qualidade e impacto que os nossos?

No episódio da semana, um pouco da história do cinema argentino (45:35), com top 5 dos nossos favoritos, pegando carona no sucesso no circuito alternativo de O Cidadão Ilustre (29:51), a comédia dramática que tentou vaga no Oscar de Filme Estrangeiro.

War Machine (1:21:54), dirigido por David Michôd e protagonizado e produzido por Brad Pitt, é o grande lançamento em streaming da semana, e também ganha debate. Além de Cantinho do Ouvinte, Recomendações, e nossa rodada de repercussões sobre o resultado do Festival de Cannes 2017 (16:14). Bom podcast!

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Repercussão: Cannes 2017

Obviamente, sem ter visto nenhum filme de Cannes 2017 (ainda), portanto, baseando-se só na repercussão de criticas e redes sociais, já podemos ter uma expectativa-formada do que a maior vitrine do cinema de autor reservou para essa 70ª edição.

A confusão já começou com o poster e as criticas do “photoshop” empregado na foto (acima) da musa Claudia Caradinale. Juri presidido por Pedro Almodóvar foi complementado pela diretora alemã Maren Ade e a francesa Agnès Jaoui, a atriz Jessica Chastain e Fan Binbing (uma das estrelas chinesas do momento) . Entre os homens, Will Smith, o diretor coreano Park Chan-Wook e o italiano Paolo Sorrentino, e o compositor francês Gabriel Yared. Importante destaca-los porque, afinal, são eles quem escolhem os premiados, portanto, podem facilmente ficar longe da opinião da maioria da critica.

O festival começou com a confusão de Almodovar sobre não premiar filmes da Netflix para não se correr o risco de uma Palma de Ouro não passar nos cinemas. Nas telas, os 2 filmes da Netflix nunca agradaram a critica a ponto de figurar entre os favoritos mesmo. Entre a imprensa, exceto aqueles que já tem suas predileções fortes (como fãs de Sangsoo, Ozon, Kawase e Haynes), os grandes favoritos do festival eram 120 BPM (Robin Campillo), Loveless (Andrei Zvyagintsev), Good Time (irmãos Safdie) e You Were Never Really Here (Lynne Ramsay).

Se bem que mesmo esses títulos chegaram à reta final com recepção morna, nenhum com a unanimidade de um Toni Erdmann do ano passado (que acabou de mãos abanando). Nem mesmo Haneke, detentor de duas Palmas de Ouro, conseguiu animar ao público.

O júri tinha oportunidade de finalmente premiar uma mulher (apenas Jane Campion ganhou o prêmio máximo em Cannes, com O Piano), ou buscar propostas mais novas como Safdie. O cinema francês com Campillo (foto acima), e seu filme sobre AIDS pareciam a cara de Almodovar (realmente elogiou muito o filme na coletiva), mesmo que tenha uma estrutura mais convencional. Por outro lado, Cannes adora premiar o arthouse, e nisso Zvyagintsev era boa aposta.

A premiação praticamente atendeu as expectativas (seguem os vencedores no final desse post), com domínio total dos favoritos, exceto à Palma de Ouro vencida pela Suécia, com Ruben Oustlund (foto abaixo) que não deixa de ser um dos casos de cria de Cannes, que vai subindo até a consagração na Mostra Principal. Numa primeira análise, antes do filme, pode-se enxergar a tentativa de renovação, um cineasta jovem cujo filme anterior fez sucesso no festival com Força Maior (antes dirigiu Sem Querer), por outro lado, ele também faz parte dessa leva de diretores da grife arthouse, que tentam impressionar pela arte burguesa, ou pela estranheza (podemos colocar no mesmo saco Lanthimos e Von Trier, por exemplo). Sem dúvida, não era favorito, mas nunca esteve na lista de piores filmes.

Os cinéfilos hipters podem comemorar a vitória de Sofia Coppola do prestigioso premio de direção, mesmo que o filme faça parte desse time dos que agradaram, pero no mucho. Ao que tudo indica, os melhores filmes podem estar na Quinzena dos Realizadores, vide os elogios a Claire Denis, Varda (rainha das imagens graciosas desse festival, como a da fotoa abaixo) e Garrel. Agora, é aguardar pela oportunidade em conferir todos esses filmes, se bem que alguns dos que naufragaram podemos deixar passar em branco porque a empolgação dessa edição é bem menor do que a do ano passado (que se provou uma ótima edição com premiação desastrada).


Premiados:

Palma de Ouro: The Square, de Ruben Ostlund 

Grand Prix: 120 Battements per Minute, de Robin Campillo 
Prêmio do Júri: Loveless, de Andrei Zvyagintsev 
Direção: Sofia Coppola, The Beguild
Ator: Joaquin Phoenix, You Were Never Really Here
Atriz: Diane Kruger, In The Fade
Roteiro: The Killing of a Sacred Deer, de Yorgos Lanthimos, e You Were Never Really Here, de Lynne Ramsay

Caméra d’Or: Jeune Femme, de Léonor Serraille

Profissão: Repórter

Professione: Reporter (1975 – ITA/FRA) 

A recém-encerrada Mostra com filmes de Michelangelo Antonioni (exibida nos CCBB’s e Cinesesc) foi uma grande oportunidade de (re) descobrir um dos maiores cineastas italianos. E para não passar em branco pelo blog, escrevo aqui um pouco sobre Profissão: repórter, que quase, foi quase, superou Depois Daquele Beijo (Blow-up) como favorito em sua filmografia.

Em muitos dos seus principais filmes, Michelangelo Antonioni propunha a experiência cinematográfica por completo, através de uma imersão mais profunda do que propriamente no roteiro. Tempos mortos, imagens reflexivas, como se fossem um respiro entre o virar de uma página e outra, numa espécie de literatura cinematográfica. Aqui um jornalista (Jack Nicholson) na África, troca de identidade com a de um outro viajante. Gosta da brincadeira, mergulha totalmente nessa nova identidade.

Não importa o que veio antes na vida do jornalista, e nem mesmo o que virá depois. Somos apenas testemunhas desse caminho que Locke percorre agora, uma espécie de traficante de armas, vagando pelo deserto ou voltando a sua casa na Europa. E, desse caminho, Antonioni esbanja a arte da linguagem do cinema como forma de narrativa entre som e imagem. Planos abertos, cortes, enquadramentos inesperados, som e imagem em tempos diferentes até se fundiram no mesmo momento, e o genial e engenhoso plano-sequencia final, todos elementos que costuram esse fiapo de trama, que alguns podem achar chata, outros contundente, mas que, no fundo, se coloca apenas como artifício para Antonioni modernizar essa entidade que chamamos cinema.

EP 75 – O Coração Selvagem de David Lynch

Cortinas vermelhas, corredores estreitos, personagens inclassificáveis, atmosfera de suspense e estranhezas mil: esta semana, a Varanda entra no clima surreal de David Lynch. Com a volta de Twin Peaks (16:52), Chico Fireman, Cris Lumi, Michel Simões e Tiago Faria revisitam as temporadas anteriores e batem um papo sobre os dois primeiros episódios dessa terceira, e muita aguardada, fase da série de Lynch e Mark Frost.

No Cantinho do Ouvinte, a polêmica Netflix x Festival de Cannes (7:11) em debate. O festival está certo em não mais permitir filmes que não terão exibição nos cinemas?

O filme-sensação do ano é Corra! (43:50). Comédia, terror, critica social e a criatividade do estreante Jordan Peele e seu sucesso estrondoso de bilheteria. Surpresa do ano ou novidade superestimada pela crítica?

Na reta final do programa, nossas recomendações (1:03:56) bem variadas e o Varandeiro do Zodíaco (1:10:58) Aílton Monteiro volta com uma curiosa análise sobre o signo de Gêmeos. Bom podcast!

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Corra!

Get Out (2017 – EUA) 

Filme-sensação do ano, até o momento, é dirigido pelo estreante Jordan Peele (também atua com papel importante na história) e se coloca como novo acerto da produtora Blumhouse, afinal, a relação custo x bilheteria é impressionante. Seu sucesso de critica e público está ligado a uma ideia simples e inteligente, e a pegada pop de sua narrativa que sempre intercala terror e humor.

O ideal é chegar ao filme com a menor quantidade possível de informações, da sinopse basta saber que um rapaz negro viaja com a namorada branca para conhecer a família da moça. Casa afastada da cidade, sinal de celular que não pega bem, empregados misteriosos, hipnose, os clichês se amontoam e Peele sabe se aproveitar deles para oxigenar ideias velhas, e assim oferecer o novo.

Para quem gosta apenas de um bom filme de gênero, já pode contar com isso, mas além do clima de horror (longe de ser o ponto alto do filme, por mais que a expressividade dos olhares assustado de Daniel Kaluuya seja marcante), há a forte bandeira do racismo como, talvez, o grande vilão. E esse viés critico é sagaz e tratado de maneira natural, dentro de uma abordagem bem atual e marcante quando temos o aguardado plot twist da trama.