O Estrangeiro

Publicado: fevereiro 8, 2022 em Cinema
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The Stranger (1991 – IND)

Último filme de Satyajit Ray, já bem debilitado, e cujo roteiro parte de uma história que ele mesmo tinha escrito, anos antes. Relativamente irregular, sempre interessante, como nesse diálogo entre o marido desconfiado e o “suposto” tio-avô da esposa que retornou após 35 anos no ocidente e que pode significar melhor o filme do que qualquer outra coisa que eu pudesse escrever.

“E sobre canibalismo? Já comeu carne humana? Essa não é a prática mais bárbare, selvagem e não civilizada?”

“Não, nunca comi carne humana, mas eu ouvi que o gosto é interessante. Sim, canibalismo é bárbaro, mas sabe o que é mais bárbaro e não civilizado? – A quantidade de moradores de rua e viciados numa cidade como New York. A capacidade de uma civilização derrotar a outra com o simples toque de um botão. Isso é cem vezes mais bárbaro!”

Tromeo & Juliet

Publicado: fevereiro 8, 2022 em Cinema
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Tromeo & Juliet (1996 – EUA)

São tantas as versões para cinema do famoso romance trágico de Shakespeare, que faltava mesmo uma em que as famílias brigavam no meio da produção cinematográfica de filmes pornôs nova-iorquinos. O trash do diretor Lloyd Kaufman é repleto de orgias sexuais e gore, mas prefere inserir Romeu e Julieta como dois puros românticos entre tantas tentações da carne e escatologias. Fica lá pela ideia.

Marte Um

Publicado: fevereiro 7, 2022 em Cinema
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Marte Um (2022)

Diretamente do Festival de Sundance, o novo trabalho de Gabriel Martins me causou sentimentos contraditórios. Começa com as referências políticas ao extremismo que venceu as eleições em 2018, mas ao invés de um filme político, de um discurso panfletário, o filme prefere a narrativa simples, mas que gruda que nem chiclete, de uma família simples, com pai, mãe e dois filhos, e a luta de cada dia. O garoto é craque de bola, mas quer ser astronauta, a filha adolescente cava sua independência, o pai empregado de um condomínio vive pelo seu Galo e pelo sonho do filho jogador de futebol, e a mãe administra todos esses desejos, menos sua saúde.

Ao mesmo tempo que cada história, cada vida que se cruza naquela casa, mas tem seus caminhos próprios, transcorre, mais tenra e cativante consegue se tornar. Porém, a expectativa é um monstro que criamos em nós mesmos e após o trabalho anterior do cineasta que trazia frescor, a expectiva me frustrou com essa simplicidade premeditada de contar essas histórias, relacionar com o Brasil de agora, e ainda ver pequenas tragédias se formando, para explodirem ao mesmo tempo. Portanto, por mais cativante, não deixa de ficar uma pontia de decepção com a novelinha social com personagens tão fofos.

Storm

Publicado: fevereiro 7, 2022 em Cinema
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Storm (2009 – ALE)

Como drama de tribunal, o filme de Hans-Christian Schmid passa longe de ser empolgante, por mais que tenha esse lado, ainda pouco explorado, de tramas sobre o Tribunal de Haia e o julgamento de crimes de guerra. O caso remonta a crimes militares de Sérvios durante a guerra na Bósnia. No cerne, a luta por justiça, por criminosos hediondos pagarem pelos absurdos cometidos. A reviravolta no caso oferece um outro tipo de perspectiva, não a de mais detalhes sobre o horror da guerra, e sim a burocracia e real interesse por justiça que órgãos internacionais desse tipo privilegiam, ou não. O filme correto ganha algo mais, afinal os jogos políticos, que estão por todos os lados, também estão por aqui e o direito que se exerce por ai, também se exerce num tribunal de casos tão emblemáticos. Tudo é política.

Spencer

Publicado: fevereiro 6, 2022 em Cinema
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Spencer (2021 – RU)

A proposta de Pablo Larraín de intensificar o momento natalino de Diana de desconexão, de falta de liberdade, de claustrofobia, fragilidades tão nítidas por sua tristeza, profunda decepção e tédio, por tantas convenções sociais, mentiras, traições e falsidades, é sim muito bem sucedida. A sensação é real, dá para sentir tudo isso em cada cena. Pena que a fórmula se esgote em trinta minutos e resta ao filme rodar em círculos enquanto Diana troca de vestidos ou enlouquece em sua tristeza.

Munyurangabo

Publicado: fevereiro 6, 2022 em Cinema
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Munyurangabo (2007 – RUA)

Antes de filmar Minari, o cineasta Lee Isaac Chung constrói esse bonito conto sobre amizade em meio às cicatrizes do genocídio em Ruanda. Com elenco de atores-não profissionais, o filme traz a amizade de dois jovens de tribos rivais, a desaprovação familiar, e o desejo de justiça/vingança pelos familiarers perdidos no massare. O cineasta filho de imigrantes sul-coreanos é muito cuidadoso em se aproximar do ritmo do cinema africano, de focar na simplicidade (não só das casas), mas das relações pessoais e dos valroes morais. Todo filmado no dialeto Kinyarwanda é um filme em constrate por flertar com essa proximidade, ainda que tenha esse olhar de alguém que vem de cultura e costumes tão distinto, por isso mesmo intrigado a detalhes que lhe soariam com o exótico.

Minha Irmã

Publicado: fevereiro 5, 2022 em Cinema
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My Little Sister (2020 – ALE)

O filme dirigido pela dupla Stéphanie Chuat e Véronique Reymond é, acima de tudo, sobre ser irmão. Ser irmão não só no parentesco, mas no sentido mais amplo da palavra, na cumplicidade, na união, e na necessidade de entrega quando o outro está, como no caso desse, sob grave risco de perder a vida, sofrendo de uma doença terminal.

Gosto das interpretações individuais de Nina Hoss e Lars Eidinger, porém cinema requer muito mais do que as interpretações, e o restante é bastante padronizado num tipo de cinema preguiçoso do drama de acompanhar de alguém que está por partir. Gosto mesmo é daqueles móveis da casa, a parede cinza, mas isso são outros quinhentos que nada tem a ver com cinema 🙂

Benedetta

Publicado: fevereiro 4, 2022 em Cinema
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Benedetta (2021 – FRA/ITA)

Paul Verhoeven apresentou seu nunsploitation na competição de Cannes, o roteiro parte dos estudos de 1986 de Judith Brown sobre a sexualidade da freita Benedetta, e realmente não faltam motivos de escândalo para os mais religiosos, ainda que seja menos erótico do que poderia imaginar. Por trás de todo o caracter comumente subversivo dos filmes do cineasta holandês, aqui parece mais forte a vontade de traçar a questão religiosa como tema central.

Entre a fé e a cartilha de comportamentos, o amor e desejo lésbico e a proximidade da pestes está um filme escandaloso e comportado. Verhoeven surge mais à vontade quando passa os limites seja a primeira incinuação sexual ao cair da estátua ou a  cena das cobras, porém comedido e apenas seguindo o roteiro quando a trama se desenrola pelos meandros políticos da Igreja, pelos julgamentos e inquisições e etc. Está lá o provocativo, o obsceno, mas falta o pulsante que tanto se encontra Elle e outros dos seus grandes filmes.

A Família

Publicado: fevereiro 4, 2022 em Cinema
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The Family / Jia (2015 – CHI)

Para quem chamar de longo eu responderia imersivo. O filme de estreia de Shumin Liu é um resgate preciso da vida familiar chinesa nos dias atuais, a rotina, os conflitos, e também as pequenas vitórias, a necessidade de filhos, carreira, a vida morando em cidades diferentes da sua cidade natal. Enfim, o ciclo completo de uma família de classe média. No centro da trama o casal de avós que durante as mais de quatro horas de duração vai de casa em casa de cada um dos filhos passar uma temporada, ajudar no dia-a-dia, conviver um pouco.

As cenas são quase documentário de tão autenticas e naturais, o tempo cozinhando ou comendo, ou jogando cartas, as pequenas brigas, a relação com as crianças, é incrível como Liu consegue fazer do simples o mais bonito, o mais singelo, o que deveria sere rotina maçante, para quem assiste surge como curioso, como imersivo, possibilidade de descobrir o íntimo através do simples dia após dia, e o quanto culturas que podem parecer tão distantes, guardam também tantas semelhanças, afinal somos todos iguais, somos todos humanos, entre rotinas e segredos, vaidades e afeto.

Madres Paralelas

Publicado: fevereiro 3, 2022 em Cinema
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Madres Paralelas (2021 – ESP)


Com Dor e Glória e Madres Paralelas o cineasta espanhol parece viver uma das melhores fases de sua carreira. Depois de falar de si, Pedro Almodovar volta às personagens femininas, ao melodrama, às coincidências, ao universo que mais marcou sua filmografia. E também deixa um dos recados mais políticos de sua carreira. O filme abre e fecha com feridas não curadas da ditadura de Franco, um recado forte e direto, ainda mais pensando que seu cinema tem um poder amplo de se comunicar, de se expor. E pelo miolo, o Almodovar puro que conhecemos. Sua narrativa emocional, cheia de tragédias, desencontros, alegrias e decepções. E, acima de tudo, amor, de mães e filhas, em suas mais diversas escalas e mutações. O roteiro cria um caso tão complexo e cheio de nós, que nosso prazer é em assistir esse grupo de personagens desenrolarem esses nós entre segredos, ambuiguidades e revelações. Tudo e todos tem seus argumentos, suas escolhas, e como tudo isso afeta aos demais. Almodóvar é mestre em nossos manipular por entre tramas assim, e aqui ele, realmente, vive um dos seus pontos altos (ainda mais ao som de Summertime) entre personagens de escolhas de doce egoísmo.