Balanço da 28ª Mostra SP

Grandes encontros, histórias divertidas, maratonas intermináveis, corridas malucas, novos amigos, dias inesquecíveis.  Acredito que os relatos dos posts resumiram bem o que foi essa Mostra. Por isso, sem mais delongas, vou fechar o balanço com os meus grandes destaques do festival entre os 15 filmes vistos.

O Filme

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Casa Vazia, de Kim Ki-Duk

Uma das metáforas mais lindas para o amor e uma forma de aceitar as consequencias para vivê-lo em sua plenitude. Porque amar pode ser até mais importante do que existir.

 

Os Melhores:

Oldboy, de Park Chan-wook

A Ferida, de Nicolas Klotz

Ouro Carmin, de Jafar Panahi

Contra a Parede, de Fatih Akin

Sede, de Tawfik Abu Wael

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Estradas para Koktebel – 28ª Mostra SP

Encerrei aqui minha presença na Mostra SP, no balanço geral o destaque vai para os filmes sul-coreanos que arrasaram. Entre as peculiaridades, enquanto estava na fila, ao meu lado passou o ator Dan Stulbach (sósia do Tom Hanks), ele acabara de sair da sessão do novo do Ken Loach (aquele que fiquei sem ingresso). Que venha a próxima edição com a retrospectiva do Manoel de Oliveira e muito mais.

estradasparakoktebelEstradas para Koktebel (Koktebel, 2003 – RUS) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

É a eterna história da mãe que falta, e pai e filho precisam se aproximar, reencontrar o rumo, o garoto esperto (Vladimir Kucherenko)  e o pai (Igor Csernyevics) enfrentando problemas com álcool. Nesse Road movie russo, dirigido pelos estreantes Boris Khlebnikov e Alexei Popogrebskij, eles partem de Moscou e se aventuram entre caronas e caminhadas, e trocados garantidos realizando reparos em casas e telhados pelo caminho.

O conflito entre pai e filho é sintomático, a ansiedade do garoto é barrada na despreocupação do pai. Impaciente, sedento por saber sobre seu novo lar, fascinado pela arte de planar praticada por pássaros e aviões. Enquanto o pai se prende a qualquer teto com comida, como se estivesse procurando uma solução melhor pelo caminho, como se essa viagem não possuísse um destino.

Casa Vazia – 28ª Mostra SP

Esperava o manobrista buscar meu carro, quando, ao meu lado, aparece um rosto conhecido com uma leve barba branca por fazer. Olho mais atentamente e percebo tratar-se de Hector Babenco, que também esperava seu carro. Trajando jaqueta jeans e tenis branco (bem comum) com um buraco em cima do dedão de cada pé, fazia o ar “quero ser reconhecido sem ser incomodado.”

casavaziaCasa Vazia (Bin Jip, 2004 – COR)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Abusando da ousadia, tanto na estética, quanto na estrutura do roteiro, Kim Ki-Duk conta uma fábula romântica. Ele brinca com a realidade, cria uma metáfora poderosa, realiza uma obra linda. Um jovem (Hee Jae) vaga com sua moto, invade casas “vazias” (temporariamente ou não), e realiza  melhorias/consertos (lavar roupa, consertar uma balança, por exemplo) no tempo em que abusa da “hospitalidade”. Um hobby excêntrico ou um estranho estilo de vida.

Numa das casas não percebe uma mulher (Lee Seung-Yeon) fragilizada, ela o observa e acaba o acompanhando, à revelia do marido agressivo. Nasce um amor intenso, que sabemos não ser possível de ser vivido na vida real, mas que fica lindo na telona do cinema.

Mistura de sonho e realidade, ele não pronunciará uma palavra, mas suas manias se transformam em simbolismos que se transforma em sentimentos. É a força da imagem, dos gestos, um amor impossibilitado até se encontrar uma maneira de torná-lo possível.

Tormento – 28ª Mostra SP

Dessa vez fiquei sem ingresso, mesmo chegando bem antes, perdi o novo do Ken Loach (Apenas um Beijo). Como plano B lembrei de algumas citações no Fórum do AdoroCinema, de um tal Tarnation, fui conferir. Era inegável a desilusão do público que chegava ao CineSesc, todos queriam ingressos para Hero (esgotados desde 12:30), com isso pude notar as mais diversas manifestações de consolo entre elas uma garota que repetiu três vezes com gritinhos histéricos: raiva, raiva, raiva.

TarnationTormento (Tarnation, 2003 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Causando frisson o documentário do estreante Jonathan Caouette, formado exclusivamente de vídeos caseiros onde o próprio diretor (se é que podemos chamar de diretor, ou não passa de um garoto filmando e que alguém resolveu jogar num festival) traça um raio-x de sua vida e sua família. O título fala em tormento, o tormento é enfrentar a obsessão do jovem em filmar qualquer coisa do seu dia-a-dia, ou a história de sua família desde o casamento dos avós, a infância de sua mãe e o acidente que marcou seu futuro, até chegar nas trivialidades do sujeitinho mimado.

A exibição da flagelação e humilhação própria (e de sua mãe) é artimanha muito barata e apelativa, demonstrando altíssima petulância em acreditar que aquelas imagens possam ser tão relevantes ao mundo que mereçam ser expostas de tal forma. Seu despertar ao homossexualismo, a mãe passando trinta anos em clínicas psiquiátricas, o abuso dos depoimentos das crises familiares, é a dramatização de uma família desajustada. O quê de elementos underground, misturando com cenas da avó após sofrer um derrame, tosco é pouco, mau-gosto seria eufemismo. Pior ainda quando ele se descabela frente às câmeras, encenação? Não quero nem saber.

Ouro Carmim – 28ª Mostra SP

Ainda não conhecia a aconchegante Sala Uol, típico (e quase único) cinema de rua, com charme e simplicidade. Enquanto aguardam, os frequentadores colocam em dia a leitura. Nas colunas do hall há, sobrepostos, posters de filmes que há pouco saíram de cartaz. E na parede que dá acesso aos banheiros, uma reprodução do poster da 14ª Mostra. E, mais uma vez, a sessão contava com a ilustre presença de Bernardo Vorobow.

Hussein Emadeddin as HusseinOuro Carmim (Talaye Sorkh/Crimson Gold, 2003 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A narração começa num assalto desastrado, numa joalheria de bairro chique em Teerã. O cineasta Jafar Panahi começa pela explosão da panela de pressão, para então iniciar o longo flashback que trará os personagens até a situação trágica. O roteiro é de Abbas Kiarostami, ele observa a situação iraniana pelos olhos de um entregador de pizza, que sofre com o transito caótico, bate carteiras durante o dia, frequenta apartamos luxuosos para realizar suas entregas.

O disparate entre classes sociais e a mão opressora do Estado para com a classe média baixa, de apartamos minúsculos em lugares inóspitos, forma o caldo desse filme. Hussein (Hossain Emadeddin) se sente discriminado, humilhado, quer ser bem tratado, passa a usar terno e gravata, ainda assim não consegue negar suas origens. A humilhação fica ainda maior, fato gerador que culminará na panela de pressão que se tornará a joalheria, ouro carmim torna-se cor de tragédia.

Mas além do contraste social o filme trata da indiferença, que exerce função de locomotiva psicológica na história. Um garoto de quinze é militar, ele não tem idade para estar lá, mas seu irmão morreu e ele herdou a carteira de identidade. É nítido em seu rosto sua pouca idade, mas é indiferente ao Estado que precisa manter seu exército para controlar as rédeas desse povo discriminado e reprimido.

Questão de Imagem – 28ª Mostra SP

Fiquei na mesma sala para sessão dupla, ao meu lado um grupo de cinéfilos conversava sobre trabalho, até que um fato curioso chegou aos meus ouvidos. Dois deles trabalham numa agência, e estava finalizando um calendário com fotos de jogadores de rugby, com e sem roupa. Sinistro!!!!!!!

questaodeimagemQuestão de Imagem (Comme un Image, 2004 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Comédia agridoce da diretora Agnès Jaoui, personagens desfilando a famosa aspereza francesa no trato, indelicadezas e falta de educação como forma de humor. A história parte da garota gordinha, Lolita (Marilou Berry), marginalizada pela sociedade, querendo mais atenção do insensível pai-escritor, enquanto se vê como trampolim aos que desejam se aproximar dele.

Os “interesseiros” forma um conjunto interessante de personagens, prato cheio para que Jaoui proporcione a seu marido e co-roteirista (Jean-Pierre Bacri) uma interpretação hilária, repleta de avareza e arrogância.

Não fosse o roteiro esperto e o talento de Jaoui para explorar personagens e situações, seria outra comédia qualquer. Há no filme um charme, um quê de refinado que traz elegância, mesmo que repita a mesma fórmula de um tema desgastado. Lolita carrega algo que encanta, parte por sua pureza, parte pela capacidade em unir as pessoas nessa sua busca pelo ausente afeto paterno.

A Ferida – 28ª Mostra SP

De calça jeans e camiseta básica preta, o diretor Nicolas Klotz apareceu antes da sessão, desculpando-se por ter compromisso e não poder discutir com a plateia, ao fim da sessão. Faz o ar engajado e totalmente aberto à conversar, além de muito feliz com o trabalho realizado. Uma senhora, que talvez quisesse treinar seu francês, perguntou ao diretor se o filme era baseado em fatos reais ou era ficção. Ele foi bem honesto, não é uma história real, são histórias que acontecem todos os dias. Para encerrar ele disse algo totalmente pessoal e importante, algo sobre discutir cinema é mais importante do que fazer cinema, se nós não discutirmos cinema, ele perde a razão de existir.

aferidaLa Blessure (2004 – FRA/BEL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A imigração parece um problema insolúvel, agravado de maneira exponencial nesses dias de globalização. Cada dia, mais e mais pessoas fogem de suas terras-natais em busca de uma vida melhor em países “desenvolvidos”. Na África, a situação é ainda mais caótica, com governos ditatoriais e intermináveis confrontos entre militares e rebeldes, fugir aparece como única solução. A miséria é apenas um dos problemas. O diretor Nicolas Klotz mira suas lentes num contundente filme-protesto sobre a imigração que se tornou a praga do continente europeu, carregado pela herança da culpa.

Um grupo de congolenses desembarca num aeroporto francês, solicitando asilo político. As cenas são chocantes, trancafiados num cubículo, sem janelas, os imigrantes são tratados como animais. Horas de tratamento desumano, passam por inúmeros procedimentos e revistas, até serem deportados a seu país. Desesperados, se agarram em qualquer coisa, enquanto policiais os colocam à força em ônibus. Sequencias lamentáveis de um horror aterrorizador.

Novamente outra luta para embarcá-los no avião, a aflição e luta para não voltarem é tamanha que o ônibus, trazendo os passageiros comerciais, chega, e alguns congolenses, mais arredios, terminam por não embarcar. É a luta pela sobrevivência. Cansados, feridos, ultrajados, por ironia do destino, conseguem entrar na França. Venceram essa batalha?

Tem início uma nova fase de luta, talvez ainda pior, o sonho transforma-se em pesadelo. Não há lugar para dormir, nem emprego, também nada para comer. Invadem prédios abandonados, ajudam-se mutuamente, com o nada que conseguem. Culpam-se por familiares que deixaram, mesmo sabendo que talvez estejam em situação ainda pior. A ferida do título refere-se a (Noella Mobassa), não só a evidente, em sua perna, fruto da violência policial, e da porta do ônibus que a prendeu. A ferida mais profunda fica no âmago, pelo descaso, a humilhação, o flagelo da alma. É a ferida que não quer curar sua tristeza, que não a deixa sair da cama.

Klotz depura suas cenas, sem a menor pressa em cortá-las. Seu ritmo dá o tom exaustivo e desesperançoso, é um trabalho estilístico, elaborado. Pautado em fortes argumentos, com atores amadores que viveram situações semelhantes. Em alguns momentos os personagens comentam, em tom interrogativo, sobre sua situação. Nem me faria necessário, o poder do silêncio é autoexplicativo. No fim, a câmera num caminhão, apontando para o chão de terra, é testemunha dos relatos de um sobrevivente que cruzou diversos países africanos, fugindo e escondendo-se em qualquer buraco para chegar ali. Não se trata de uma história verídica, mas de histórias a repetirem-se diariamente.