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Diarios da Mostra SP – dia 9

Publicado: novembro 2, 2005 em Mostra SP
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Desisti de pegar um filme antes da sessão do Pavão, já estou um pouco cansado. Do meu lado estava sentado o mesmo cara da sessão de ontem de Paradise Now, que coincidencia… Aproveitei o intervalo até a outra sessão para descansar um pouco, já que Pavão tem duas horas e meia, o filme era Eleição. Deu um probleminha na legenda eletronica e a mulher que comandava a legenda fez um showzinho a parte com gritinhos e respirações ofegantes de nervoso e alivio quando conseguiu colocar tudo em ordem, rsrs. Nessa sessão mais um encontro com um amigo da blogosfera, Chico Fireman do blog Filmes do Chico. Até que enfim hein???
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paradisenowParadise Now (2005 – PAL/HOL/ALE/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O que se passa na cabeça de um homem-bomba? Qual a chave para se entender o fanatismo religioso, capaz de levar alguém a explodir seu próprio corpo, num atentando a um restaurante, ou outro local qualquer? Se alguém esperava por essas respostas, por explicações, não irá encontrá-las. Muito longe de ser definitivo, e didático, o filme é sobre a fictícia vida de Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), ou mais precisamente, sobre as últimas horas da dupla, antes de realizarem o grande feito. Os mistérios que cercam essas mentes (lavagem cerebral?) são incompreensíveis dentro das crenças mais “ocidentais”.

Khaled e Said trabalham numa precária oficina mecânica, até que são informados que foram escolhidos para executar um atentado. Não há hesitação. Esperavam há tempos por esse chamado. Acompanhamos a última noite dos dois, e os preparativos na manha do dia seguinte, em atividades como gravar um discurso empunhando uma metralhador,a e a colocação das bombas pelo corpo.

O filme ainda tenta discutir que há outros meios para se lutar pela liberdade, que mortes apenas trarão outras mortes e etc. Esse discurso é inserido por Suha (Lubna Azabal), uma garota apaixonada por Said que morou na França muitos anos. É a forma como o diretor Hany Abu-Assad insere sua mensagem como quem quer dizer: vocês ficam ai lutando, e só os que saem dessa panela de pressão percebem que lutam errado pela causa certa. O caminho certo talvez ninguém saiba, mas os créditos finais, em silêncio, fazem o público sair quieto e pensativo. O final causa impacto.

estrelasolitariaDon’t Come Knocking (2005 – EUA/ALE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A certa altura da trama, o protagonista senta-se num sofá, que havia sido arremessado pela janela, e está no meio da rua com outras quinquilharias. Fica ali naquela rua deserta e a câmera fazendo movimentos de 360º contínuos, ora horários, e ora anti-horários. O dedilhar de um violão ao fundo, aquela visão de construções, e de uma poeira seca que o vento traz. O protagonista passa o dia sentado ali, sem proferir uma única palavra, sem alterar suas feições. Está perdido, mas não desesperado, vendo apenas o sol no caminho de se pôr, é a própria estrela solitária. Cena antológica.

Um decadente ator de faroestes (Sam Shepard), no meio de mais um set de filmagens, simplesmente desiste do filme e desaparece sem deixar vestígios. Larga na mão diretor, atores e toda a equipe de produção, partindo numa jornada existencial. Seu primeiro destino é visitar a mãe após trinta anos. Através dela descobre ter um filho, numa pequena cidade onde filmou um de seus sucessos do passado.

A nova parceria da dupla Wim Wenders e Sam Shepard, traz a repetição de muitas coisa vistas no clássico Paris, Texas. Mas, Wenders filma como gente grande, e por mais que não tenha agrado tanto a crítica assim, me parece um filme maduro, de quem sabe onde está pisando. O cineasta alemão trata de uma geração que agora percebe que sua fase já passou, e tenta aprender a lidar com o ostracismo. A câmera disseca o vazio que Howard carrega, por ter tido tanto e não ter construído nada. E agora no fim da vida percebe a solidão que os caminhos que escolheu o levaram.

Busca então se agarrar em resquícios do que deixou, a garçonete por quem fora apaixonado, o filho que ele nunca soube existir. E essa estranha garota loira que o persegue carregando as cinzas da mãe. Quem curtiu cada momento da vida regado a festanças, álcool e drogas, agora percebe que pouco valeu a pena, perto do que deixou de lado. É um drama existencial sim, personagens que tentam expurgar seus fantasmas.

Sam Shepard conduz esse caubói, no rosto e na suas expressões a dose certa para caracterizar o personagem, mas Shepard que me desculpe, Jéssica Lange roubou-lhe o filme, com aparições carregadas de emoção, com destaque para a cena em frente a academia.

omundoShijie / The World (2004 – CHI/JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

“Nos dê um dia e conheça o mundo sem sair de Beijing”, esse poderia ser o slogan do parque temático que funciona como palco para Jia Zhang-ke externar o contraste que se transformou sua nação. A China mergulhou na sociedade de consumo, restaram traços do socialismo (principalmente no poder do Estado em controlar a informação e o transito de seu povo com o mundo lá fora). O boom está expresso nos números da economia, está estampado nas ruas, só não aprenderam ainda a distribuir renda. Viva o capitalismo!

Pela vida cotidiana de alguns funcionários do parque (que guarda miniaturas dos principais pontos turísticos do mundo, Torre Eiffel, Taj Mahal) Jia apresenta uma juventude que é uma geração sem perspectivas, uma sociedade que vai incorporando o Ocidental como quem tenta tirar proveito econômico. Seguranças ou dançarinos que divertem os turistas em frente ao Taj Mahal, à Torre de Pisa. Imigrantes russos cujos passaportes foram tomados. Funcionários da construção civil ou pequenas empresas que fazem cópias de objetos de grife. Em todos eles a desilusão. De estar longe de casa, de viver para o trabalho, e da total falta de perspectivas de ir além da vida massacrante de pequenos alojamentos.

Esse futuro desesperançoso é condensado por Jia em belos travellings ou em planos sequencias (com câmera na mão) por entre os camarins e alojamentos do parque. O descontentamento ressentido sob a cruel ótica do falso documentário, o estilo falsamente desinteressado de Jia (como quem apenas testemunha) é sua arma mais poderosa em transformar em crítica feroz rotinas de vida.