Posts com Tag ‘32ª Mostra SP’

tresmacacos

Three Monkeys (2008 – TUR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um político às vésperas da eleição oferece boa quantia em dinheiro para que seu motorista assuma a culpa de um acidente de trânsito. Desta situação nada impensável o cineasta Nuri Belgi Ceylan resgata a fábula dos três macacos que não falam, não ouvem e não vêem nada. O pai na cadeia, a mãe seduzida pelo político que recompensará os esforços do dedicado funcionário e o filho desleixado nos estudos que planeja trabalhar com transporte escolar aproveitando-se do dinheiro que o pai receberá.

Deste quadro de uma família dilacerada entre os segredos “velados”, Ceylan carrega na mão em seu estilo autoral, abusa do simbolismo climático para intensificar emoções dos personagens (as cores, a fotografia plastificada, tudo passa do ponto dessa vez); ainda assim ele domina enquadramentos, sabe extrair da imagem e principalmente o que enquadrar milimetricamente nela. Ceylan continua seu exercício de estilo, ele precisa é de um amigo que toque em seu ombro e diga: “menos, Ceylan, menos”. O que deveria tornar-se poderoso, não passa de um esboço de genial, renegado a um gosto de poderia ser melhor, e este gosto é amargo e pode contaminar seus próximos filmes. Infelizmente é comum que famílias evitem assuntos espinhosos, que tentem esconder ou calar-se para o bem comum, o conflito é desgastante, que só podem gerar situações limites, e aqui tudo está elevado a sua máxima potência.

 

Diários da Mostra # 9

Publicado: outubro 29, 2008 em Cinema, Mostra SP
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Meu Winnipeg (My Winnipeg) – Guy Maddin tem aquele estilo próprio e marcante, utiliza-se do mudo ou de um narrador e pouquíssimas falas, narrativa acelerada, estilo pop acoplado a uma fotografia pb granulada, e um determinado status quo de se impor dessa forma tão original flertando com o fantástico. Dentro desse conjunto bastante pessoal, ele traz uma singela homenagem a Winnipeg brincado de criticar política e cidadãos, costumes, sem deixar de enaltecer suas recordações, que num ritmo frenético resultam numa interessante e biográfica visão de uma cidade gélida, encravada num Canadá apaixonado por hóquei no gelo.


Waltz with Bashir – o citado Bashir foi um líder no Líbano, assassinado nos anos 80 poucos dias após ser eleito presidente. Uma espécie de documentário feito em animação, o diretor Ari Folman resgata um pouco de sua história de jovem soldado e em diversas entrevistas com colegas ex-combatentes, recria horrores e temores daquela guerra. Parte-se da falta de lembranças de um amigo que o próprio Folman encontra num bar e este amigo não se lembra de suas batalhas e um sonho com vinte e seis cães o perturba. As entrevistas são animadas no computador num misto de 2D e 3D, os movimentos parecem mecânicos muitas das vezes, mas não deixam de trazer um ar de diferente, além tornar um visual muito mais despojado do que teriam imagens de arquivo da época. Como conteúdo Waltz with Bashir é um filme de resgate dessas memórias dolorosas, mesmo que o diretor tente não se aproximar tanto assim dos personagens, buscando assim um documentário-ficção, algo que redima os soldados de todas as barbáries cometidas, e ficamos com as explosões, com a força da imagem dourada e negra que perturba a mente do personagem central sem que se torne eufemismo. E Ariel Sharon não escapa ileso dos comentários.

horasdeveraoL’Heure d’eté (2008 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Hélène (Edith Scob) dedicou grande parte de sua vida à preservação da memória de seu tio-avô. Com carinho e dedicação exemplar as obras do pintor foram conservadas pela sobrinha e decoram a requintada “casa de campo” da família. Ponto de encontro familiar onde os três filhos e netos encontram-se com assiduidade cada vez mais rara. Olivier Assayas filma com delicadeza e amplitude a discussão sobre o espólio, sobre o valor de cada objeto, a preocupação de Hélène com o fim que será dado a cada objeto, cada móvel. Preocupa-se também com convicções e diferenças entre os filhos, Frédéric (Charles Berling) o mais velho, não deseja que a família se desfaça dos bens, enquanto seus irmãos Adrienne (Juliette Binoche) e Jérémie (Jérémie Renier) não têm interesse algum nessa preocupação de resgate das memórias.

A trama gira de maneira sorrateira e pouco inspirada, sobre esses pontos de vista diferentes. Lembranças e revelações enquanto a família se reúne, provavelmente pela última vez, (a matriarca vive no alto de seus setenta e cinco anos). O trabalho do diretor de fotografia Eric Gautier mostra-se crucial, se Assayas narra seu filme de forma bonita e discreta, é o trabalho de Gautier, intensificando o clima bucólico e nostálgico em cada um dos ambientes, objetos, personagens e sentimentos, o verdadeiro alicerce da história. Partilhas sempre guardam momentos dolorosos, opiniões distintas, frustrações e necessidades (ainda mais com os proprietários em vida). As crianças brincam no jardim, os pais tratam de amenidades, e o filme trata do tempo e das coisas tão valiosas afetivamente a uns e meros objetos sem significado aos demais.

rebobineporfavorBe Kind Rewind (2008 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O novo filme de Michel Gondry não deixa de ser uma divertida, e histérica, homenagem ao cinema. De início alguns diálogos absurdos, arestas para todos os lados, e os sinais de comédia escrachada que perdurarão até o fim (e serão o que há de melhor). Não importam os meios, o relevante é que dois amigos buscam uma solução urgente para o vhs do filme Os Caça-Fantasmas, que, inexplicavelmente (quer dizer, a explicação está no filme, por mais inverossímil posa ser) perdeu seu conteúdo.

Decidem então, eles mesmos gravarem o filme, às pressas, do-jeito-que-sair-saiu, e terminam por transformar uma locadora à beira da falência, num sucesso estrondoso com as tais fitas suecadas (resumindo, versões gravadas de maneira tosca pelos dois amigos). Imaginem Jack Black e Mos Def num momento Ed Wood, regravando Robocop, Conduzindo Miss Daisy, ou A Hora do Rush. Tipo de filme que pouco importam os desdobramentos, queremos mesmo é nos divertir, e o final, parodiando Cinema Paradiso, encerra essa grande comédia de forma bela e emocionante.

oprincipedabroadwayPrince of Broadway (2008 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Vamos falar de contrabando, de pirataria, de contravenção. Imigrantes trazem da China imitações de grandes grifes (tênis, bolsas). Nas ruas, os negros (também imigrantes) buscam clientes e fazem o trabalho de venda propriamente dita, sem se esquecer da polícia e das blitz. No meio disso, o diretor Sean Baker adiciona um elemento inesperado, uma ex-namorada larga o filho de colo com Lucky (Prince Adu) e desaparece. Os diálogos são pobres, chulos mesmo. O amadorismo tão latente, que muitas vezes nos sentirmos diante de um documentário, mas a presença de uma criança no ritmo de vida de Lucky parecer ser um objeto tão esquizofrênico que promove momentos divertidos, praticamente inimaginável. Entretanto há sempre responsabilidades, há humanidade, e mesmo com a vida de ponta-cabeça, buscamos formas de nos adaptar às adversidades. Por mais buracos no roteiro e pobreza nas abordagens, tem-se um filme honesto, fraco em todos os aspectos, é verdade, só que sua simplicidade quase o transforma num documentário dramático, fraco e cativante.

aquelequeridomesdeagosotoAquele Querido Mês de Agosto (2008 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

O que seria este filme de Miguel Gomes? A genialidade em forma de roteiro? Um documentário que virou ficção? Ou a forma encontrada para suprir as dificuldades financeiras? No mínino um resultado indefinível e inrotulável. A total certeza de que nunca se viu algo parecido. Divertido, dentro de uma bagunça organizada, onde pouco se sabe, e tudo se encaixa perfeitamente.

Uma miscelânea envolvendo uma equipe de filmagem cujo diretor não consegue (ou não concorda, ou não quer) seguir adiante, e o produtor obviamente o pressiona, o questiona. E as filmagens transformando-se num documentário sobre um homem que pula da ponte em todos os carnavais. Seguindo apresentações de música brega-romântica portuguesa, e histórias peculiares contadas de forma ingênua e divertida. Tudo isso enquanto o diretor vive uma crise de criação em busca de um personagem que ofereça o desejado rumo à história.

depoisdaescolaAfterschool (2018 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

As influências de Elefante e Caché são absurdamente nítidas. A maneira de filmar é praticamente uma sobreposição do que fizeram Gus Van Sant e Michael Haneke. Entretanto, o brasileiro radicado nos EUA, Antonio Campos, recorre a uma caracterização, menos abstrata e mais realista, do cotidiano dessa juventude atual, cada dia mais perdida, sem limites, independente e subversiva.

Alguns sintomas de maneirismo, e uma lentidão forçada em cada imagem poderiam ser evitados, ainda assim, o cineasta aproveita-se, minuciosamente, de cada espaço do plano, causando incomodo permanente, tensão presumida. A era da internet, dos vídeos de celular, da informação ao alcance de todos, sem barreiras. Uma juventude em busca do prazer, do descobrir-se sexualmente, à mercê das drogas.

Uma escola de alto padrão em que a diretoria fecha os olhos para o que se passa, não quer comprometer-se (sempre consideramos que nada irá nos acontecer, não acreditamos no risco das tragédias). Campos traz um moderno (muitas vezes angustiante) estudo dessa juventude que vê na fatalidade sua rotina e na ânsia do desejo a perda do controle sobre os limites do certo e errado.

Gomorra

Publicado: outubro 21, 2008 em Cinema, Mostra SP
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gomorrahGomorrah (2008 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Matteo Garrone é bastante petulante ao sonhar, que retratando diversas histórias, em narrativa fragmentada, poderia fazer um raio-x da Camorra e das minúcias do seu funcionamento no submundo. De efeito prático, consegue apenas causar medo, demonstrar a fraqueza e delinqüência dos jovens, a dependência da população, o sangue que jorra diariamente. Seu filme é um panfleto, um olhar microscópico sob algumas influências da máfia siciliana. Sua preocupação não é a de nos identificarmos, por isso não sabemos exatamente quem são aquelas pessoas, o que pensam, como vivem, e por isso falta dramaturgia e desenvolvimento dos personagens.

O filme basicamente reflete a relação de cada um deles com a Cosa Nostra que é sinônimo de dinheiro, morte, poder. E num discurso carregado de fatos reais (nos créditos) temos a certeza de que aquelas são algumas das pequenas e terríveis verdades que assombram dia a dia da Itália (e todos os países do mundo). A Camorra anda enraizada na sociedade italiana há anos que mais parece um cancer incurável. Gomorra é um filme explosivo, de peças soltas pelo ar, e irregular por um próprio desejo de Garrone em se tornar definitivo.

ildivoIl Divo (2008 – ITA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Há biografias, histórias, ou situações marcantes que não podem passar despercebidas. E este era um daqueles filmes considerados “necessários”. Mais cedo ou mais tarde, alguém teria que contar a trajetória de Giulio Andreotti, personagem cuja carreira política, entre a relação com Aldo Moro, e os sete mandatos como primeiro-ministro, ocuparam mais de quarenta anos ativamente na vida pública da Itália.

A construção de personagem orquestrada por Toni Servillo é qualquer coisa de excepcional, fora-de-série. Andreotti sempre mostrou-se um sujeito singular, uma figura estranhíssima cujos trejeitos físicos destacam-se largamente. De estilo antagonicamente pacato e implacável, sua forma de fazer política (acordos, negociatas, “amizades”) o mantinham blindado de tantos escândalos de corrupção (olhando a política brasileira percebe-se que ele fez escola), envolvimento com a máfia e assim por diante.

Por outro lado, manter-se no poder tanto tempo e não sofrer acusações parece impraticável, não é? Pena que Paolo Sorrentino só se interesse pelos anos 90, pelo período de decadência de Il Divo, e numa chuva de fatos, nomes e escândalos (tão distantes de nossa realidade). O público seja afogado por esse mundaréu de informações pautadas num estilo classudo e aristocrático de cinema, disfarçado por algum maneirismo tecnológico. Trata-se de um filme burocrático, rebuscado de moderninho. Um filme que se atem a narrar fatos mantendo-se distante de uma dramaturgia. Um filme poderoso, de conteúdo histórico inegável. E nessa enxurrada de escândalos e fatos pequenos detalhes interessantes sobressaim-se, como a excelente seqüência da votação indireta para escolha do presidente, a briga entre os membros do congresso é algo espetacularmente italiano.