Posts com Tag ‘33ª Mostra SP’

dentecaninoDente Canino (Kynodontas / Dogtooth, 2009 – GRE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A proposta é radical, a estrutura incômoda, o diretor Yorgos Lanthimos cria um estudo sobre o ser humano sem grandes interferências externas para, a seguir, apontar as transformações após grande dose de “interferência”. Pai e mãe optam por uma educação radical, numa casa afastada da cidade criam os três filhos, completamente distantes do contato de outras pessoas.

Nesse universo familiar tão próprio eles criam regras que deixam os filhos ingênuos e infantilizados (mesmo já tendo adentrado a juventude). Ensinam significados diferentes às palavras que o casal considere ofensivas, zumbis tornam-se flores amarelas. E também mantém a rigidez da educação sexual até seus limites (até o momento em que o pai paga para uma colega de trabalho para satisfazer as necessidades físicas de seu filho).

Dentro dessa casa sem perspectivas, trancafiada de segredos e humanos reprimidos, há sim certa harmonia, um prazer em saborearem o tempo em família, e uma curiosidade vã que parece incontrolável ao ser humano. Como proposta é interessante, como realização nem tanto, até pela necessidade de mecanização de movimentos, pela falta de diálogos minimamente interessantes e a atmosfera trágica que parece contaminar cada plano. Sinceramente, não conseguia assistir ao filme sem parar de pensar no caso daquele austríaco que trancafiou sua família toda no porão por anos e mantinha relações sexuais com filhas gerando novos filhos completamente alheios ao mundo.

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Madeo / Mother (2009 – COR) 

A conveniência do roteiro causa um mal retumbante ao filme de Bong Joon-ho. A opção por um personagem bobalhão (mais que ingênuo) era o grande perigo para este thriller sobre uma mãe desesperada, e persistente, na luta por livrar seu filho da cadeia. A maneira de filmar de Joon-ho é potencialmente deliciosa, seus planos um deleite de fluidez narrativa, precisão ao pontificar cada ponto importante para a trama, um trabalho precioso de quadro. Só que tudo o que é conveniente ao desfecho causa um dano inestimável ao todo, são inúmeras situações tolas que nem esse controle do o que filmar/como filmar/quanto filmar consegue sobreviver aos arranjos convenientes ao final corajoso e incomum (nunca improvável).

A mãe praticamente se torna uma heroína dos filmes de suspense americanos. Mother é aquele filme delicioso de assistir, por mais que os caminhos do roteiro sejam desestimulantes, desencorajadores e irritantes. Fica um gosto de frustração tão grande que só revendo seu curta em Tokyo para lembrar quanto Joon-ho pode ser incrível.

vencerVincere (2009 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Todo o tempo Marco Bellocchio almeja o grandioso, reflexo da personalidade do próprio personagem (coadjuvante no filme, principal na trama e na história). Estamos viajando na história da Itália, a cerca do caso secreto do filho renegado por Benito Mussolini. Enquanto deixava de ser um fervoroso socialista para assumir sua liderança política, que o levaria a ser o novo Duce, Mussolini (Filippo Timi) viveu um intenso romance com Ida Falser (Giovanna Mezzogiorno). O casal concebeu um filho, e ela entregou completamente sua vida (inclusive financeiramente para financiar seus ideais) nas mãos do amado.

O tempo passa, a primeira guerra chega, e quando Mussolini retorna do front está casado. A partir daquela inesperada noticia, Ida inicia uma luta pelo reconhecimento de seu status (e principalmente de seu filho). Uma batalha ingrata, a força política do Duce abafa a voz solitária dessa mulher. Chega-se ao ponto de trancafiá-la num hospício para calar aquela voz perturbadora de uma mulher de fibra. Uma história tenebrosa da covardia de um líder e seus subterfúgios para proteger sua imagem. Tudo filmado de maneira quase fúnebre, ambientes frios, escuros, gélidos, o desespero marcado pelo olhar de Giovanna Mezzogiorno. Trata-se de um drama clássico, exaltado pelo som que soa grandioso ao fundo, como se estivéssemos num discurso Fascista inflamado, ou num daqueles cinejornais.

afamiliawolbergLa Famille Wolberg (2009 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A disfuncionalidade familiar capitaneada pelo patriarca (François Damiens), figura interessantíssima e complexa, amoroso e indireto, simultaneamente presente e incômodo, tanto em sua posição familiar quanto no exercício do seu cargo de prefeito da pequenina cidade do interior francês. A familia é formada pela esposa apagada, pela presença esmagadora do marido, a filha adolescente petulante e focada na chance de sair de casa, o caçula com espírito introspectivo e observador (além do cunhado praticamente um hippie europeu provindo de um charmoso road movie).

Oblíquo e bastante inquietante, eis a estreia da diretora Axelle Ropert. O filme é dono de discursos, ora prosaicos, ora iluminados, de um frescor e sapiência acima da média. Momentos como a representação da vida em pulos, por uma linha divisória imaginária, onde o tio, desapegado de laços, tenta transmitir, metaforicamente, ao sobrinho, um resumo das duas opções de caminho a trilhar. Ou a carta, de uma paixão inflamada, do pai, endereçada à filha, que completa dezoito anos (lida com uma emoção formal, desajeitada e crível) contrasta com outras cenas em que a autoafirmação do protagonista peca pelo excesso (se bem que ele é sinônimo de excessos), e a necessidade de fugir da linha para buscar uma marca autoral. Uma família remendada por super-bonder, alicerçada numa figura explosiva, altruísta, uma leoa cega ao tratar da proteção de sua cria (aqui no sentindo mais amplo, não só familiar, como no âmbito profissional, pessoal e sentimental).

abracospartidosLos Abrazos Rotos (2009 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Mais um inegável filme de Pedro Almodóvar, sua assinatura estampada por cada uma das suas presentes obsessões (estéticas, estilo de trama, formato narrativo), sem demonstrar o brilho de outrora. Ainda assim, seja com brilho intenso, ou nem tanto, os filmes de Almodovar são sempre um deleite cinéfilo. A desenvoltura e capacidade de criar tramas tão complexas e bem resolvidas, sempre com pitadas de rocambolesco, sem que nada disso pareça pejorativo, isso é Almodóvar.

Desde a sequência inicial, quando o cego (Lluís Homar) pede, a uma loira maravilhosa que encontrou na rua, lhe acompanhar em casa, para ler o jornal (e terminam rapidamente numa transa no sofá), até nos momentos mais melodramático-românticos (exagerados por excelência) com a diva Penélope Cruz (ao qual Almodovar demonstra um dom inigualável em lhe deixar mais linda a cada plano, seja rindo ou chorando, usando peruca ou atuando no filme dentro do filme). Flashbacks e um filme dentro do filme. Relacionamentos calcados por ciúmes, abuso de poder, traição e culpa. Grandes revelações para o final, o jeito que Almodóvar gosta de lidar com seu público, o que temos é uma incrível capacidade do cineasta em absorver seu própria cinema e nos deliciar com o mais do mesmo de forma prazerosa.

 

 

danieleanaDaniel & Ana (2009 – MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um casal de irmãos ricos é sequestrado. Não há pedido de resgaste, nem mesmo um longo cativeiro. O interesse dos seqüestradores é especialmente bizarro. Eles obrigam os irmãos a praticar sexo frente às câmeras. A premissa é exatamente essa, dura, direta, chocante (a cena da filmagem é acachapante, de sensualidade inexistente, de asco gritante).

O cineasta Michel Franco, vencedor do Camera D’or, trata de uma história real (segundo os créditos tratada exatamente como ocorreu, apenas os nomes foram trocados), e por incrível que pareça, o filme serve como uma denuncia de casos que se repetem mundo a fora (que tipo de pervertido se interessaria por um filme desse naipe?). Sem um discurso panfletário, sempre câmera fixa, e normalmente planos abertos, dando exata e aterrorizante dimensão de espaço (seja dentro da casa da família, seja no carro, ou nas ruas da cidade). Chega a sensação, em alguns momentos, das paredes se moverem, tamanha sensação de estranheza e pavor que os irmãos sentem.

Na trama, Ana (Marimar Veja) e Daniel (Dario Yazbek Bernal), eram muito unidos até então. Ela preparando-se para seu casamento, e ele um garoto sociável, descobrindo o sexo com sua namorada. Após o incidente, não conseguem demonstrar nada além de silêncio, introspecção e perturbação. Todo esse desconsolo pode ser notado a cada olhar vago, a cada movimento desanimado e sem perspectiva dos atores. A vida segue, para eles parece que não. Pessoas marcadas como gado, sentimentos corrompidos, e o choque por tamanha brutalidade e falta de escrúpulos por um crime tão desalmado.

todososoutrosAlle Anderen / Everyone Else (2009 – ALE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O jovem casal Chris (Lars Eidinger) e Gitti (Birgit Minichmayr) viaja para a deliciosa casa dos pais dele, para curtir férias na região de Sardenha. A cineasta Maren Ade, pacientemente, formula as bases desse relacionamento. A garota, explosivamente amorosa, enquanto ele, retraído e incapaz de um “eu te amo”. A convivência intensa demonstra duas pessoas duras, fora de sintonia, altos e baixos que transformam brigas em sexo ou risos, numa velocidade alucinante, como um casal de porco-espinhos que não consegue se abraçar sem espetar o outro.

A vontade por tensão a cada plano é tão inflamada, nesse desejo de Ade, em fazer um filme minimalista, que o amor quase histérico de Gitt, e a insensibilidade sem limites de Chris, não conseguem exatamente o efeito almejado, quando o filme chega à máxima da discussão da relação. A sensação é de que aquelas férias não têm fim, que aquele filme não tem fim, e que a loucura deles pode nos contaminar a qualquer momento.