Posts com Tag ‘35ª Mostra SP’

Les Contes de la Nuit (2011 – FRA)

A estrutura é básica e funcional, um director de cinema e dois atores brincam de inventar e encenar histórias. Dessa forma o cineasta Michel Ocelot tem total liberdade para narrar pequenos contos, daquele estilo mais tradicional que marcaram nossa infância. São histórias de reis e princesas, guerreiros ou índios, de missões para conquistar o coração da princesa, luta com dragões ou aptidões que eram desprezadas por todos até se descobrir o talento nato.

Ocelot tem sua assinatura pessoal, suas animações são marcadas por “siluetas”, os personagens são sempre representados de preto, como se fossem suas sombras. As histórias pecam por esse excesso de infantil, histórias para crianças pequenas, sem grande brilho de tão gastas, cheias daquela moralidade bela e engajada em ensinar (os pequeninos).

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Las Acácias (2011 – ARG) 

Um road movie onde as paisagens de beira de estrada dão lugar para a cabine do caminhão, as horas passam e a câmera não sai dali, se divide entre o caminhoneiro Rubén (Germán de Silva) e a mulher que está de carona, Jacinta (Hebe Duarte) com sua filha recém-nascida Anahí (Nayra Calle Mamani). Silencio, o cúmulo do sem-jeito, desconhecidos dividindo o mesmo espaço. Pablo Giorgelli é mais desses diretores de um cinema argentino privilegiando o minimalista, a ausência de ação, a utilização dos tempos mortos e um ritmo quase documental de passagem do tempo.

Dentro desse formato, Giorgelli vai muito além de seus companheiros de estilo, seu filme tem carisma, a relação entre os personagens cresce, e torna-se cativante a cada quilometro rodado. Aspereza dá lugar à doçura, só que sem exageros, sem mudanças bruscas de personalidade. Tudo bem que a artimanha de um bebe fofo é um facilitador nato (golpe baixo), ainda assim há espaço para essas minúcias capazes de nos oferecer uma despedida tão singela e emocionante que só obtém o impacto com tudo que fora construído anteriormente.

Elena (2011 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O estilo cinematográfico de Andrei Zvyagintsev não é único, mas é claro, um cinema de dramas sóbrios, densos, personagens carregados pelos dramas da vida, tudo isso sem utilização do melodrama. Ao contrário, são sempre atuações intimistas, que trocam a explosão pelo silencio dos longos planos. E desta vez, Zvyagintsev corta seu filme em fatias, primeiro apresenta a casa, depois os personagens, insere o drama e cria o conflito, até finalizar com seu desfecho e a nova Ordem daqueles personagens.

A ex-enfemeira Elena (Yelena Lyadova) casou-se com um homem rico (Andrey Smirnov), os conflitos do casal estão sempre ligados ao auxílio financeiro dado aos filhos de cada um deles antes do casamento. Nasce uma discussão pós-socialismo soviético, carregado de igualdades que não necessariamente existem. Mas o tema maior é outro paternalismo, os limites da relação materna. Sem nunca acelerar, um segundo, em seu ritmo, Zvyagintsev nos leva às conseqüências da defesa da cria, sempre com seus tons cinzas/azuis, e a parcimônia de quem tem as rédeas da narrativa em suas mãos, entregando novamente um drama rigoroso e casto.

Halt auf freier Strecke / Stopped on Track (2011 – ALE) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A primeira cena é no consultório médico. O casal recebe a notícia do câncer inoperável dele, e decidem que ele ficará em casa nas últimas semanas de vida, aproveitando cada minuto com a família. O diretor Andreas Dresen flerta muito com o Dogma 95 de Lars Von Trier e cia. Seu filme é uma tortura quase documental já que tudo está relacionado ao dia-a-dia da doença, dores, morfina, radioterapia, dor, vomito  (doloroso assistir a tanto sofrimento). Sim, você pode estar se perguntando pra que assistir a um filme desses? Eu também não sei explicar, mas se você se propôs a assistir, vai sofrer com essa família. Ver a dor de perto, até os minutos finais, sem melodramas. O sofrimento puro, e isso também, é uma forma de fazer cinema, que saiu vencedor do Um Certain Regard de Cannes.

Sayat Nova / The Color of Pomegranates (1968 – URSS) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

É clara a ruptura proposta por Sergei Paradjavov, numa linguagem de cinema nada narrativa, porém completamente focada na imagem e nas suas possibilidades de contar uma história, de criar um universo e enquadrar diversas formas de arte num resultado único. A câmera quase sempre, num mesmo plano-fixo (ora mais aberto, ora mais fechado), transforma o cenário num espaço limitado, como o palco de um teatro por onde os personagens passam (a câmera nunca os acompanha), e por ali passam danças folclóricas, quadros, tapetes e outros adereços relativos aos aspectos culturais mitigados por Paradjanov. Aqui, ele presta homenagem ao poeta armênio Sayat Nova. O filme permeia o Catolicismo, o mundo das artes, animais cruzam a tela como que desfilando, um universo onírico e abstrato cortado por falas em off.

Nesse conjunto de imagens com ligação ilógica, Paradjanov versa, sabe-se lá sobre o que. Novamente armas são empunhadas, rostos sem expressão, ou com o exagero do melodrama de uma tragédia grega sem causa. São espasmos de uma arte cinematográfica focada em unir as demais (teatro, pintura, música, dança e etc), sem que isso, obrigatoriamente, tenha que resultar num fio condutor capaz de narrar uma verdadeira história de começo, meio e fim. Eu detestei.

Jitters / Órói (2010 – ISL) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O início é meio envergonhado, como próprio Gabriel (Oskar Fjalarsson) que chega em Londres para um curso de verão. A sensação é a de que a própria imagem não sabia onde colocar as mãos, meio acanhada. Gabriel é um adolescente, com jeito de bom menino. Pais separados e mãe linha-dura, daqueles dedicados e obedientes. Viagens desse tipo, nessa idade, são sempre transformadoras, de novas experiências. O garoto volta à Islândia, após esse spin-off o cineasta Baldvin Zophoníasson apresenta finalmente suas cartas (ou melhor, seus personagens). Entramos no convívio de um grupo de jovens de 16 anos, cada um deles com seus problemas domésticos, crises existenciais, e descobertas sentimentais-sexuais.

Filmes abordando o universo adolescente são filmados à exaustão, ano-a-ano. Há os que incorporam mais, ou menos, elementos efetivos desse universo, que conseguem compreender, de melhor forma (e dialogam ou de forma poética, ou em narrativa direta), e dividir com o público os conflitos dessa época “revoltosa”. A necessidade de autoafirmação e de seu descobrimento, o início de uma carreira profissional, o desejo de uma vida independente, a sexualidade. Zophoníasson aborda cada um dos temas tabu com delicadeza, ou de forma poderosa. Não prima, nem pelo melodrama, e nem pelo draminha indie, num verdadeiro filme sobre adolescentes, com problemas de adolescentes dentro do mundo moderno de Facebook e sms.

Volcano / Eldfjall (2011 – ISL) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Com a erupção do vulcão Eldfjall, parte da população se viu obrigada a mudar-se para a capital Reykjavik, alguns nunca mais voltaram e ali construíram suas vidas. Essa informação apenas pontua, sem relevância ao desenrolar da trama, com ou sem vulcão, esse drama familiar transcorreria normalmente. Aliás, o filme escrito e dirigido por Rúnar Rúnarsson vive do convencional, de uma história contada milhões e milhões de vezes. A de uma pessoa tocada a mudar de comportamento após um acidente, uma doença, uma mudança brusca na vida.

A passagem do sujeito mais mau-humorado do planeta (Theódór Júlíusson), a um doce de pessoa, quando a tragédia assola sua família. É história para fazer o público chorar, o tom piegas é praticamente impossível de evitar. A diferença sempre está no peso da direção, e no quanto sensacionalista se coloca um filme. E no caso, Rúnarsson vem com uma condução áustera, precisa, guardando momentos de realmente arrasar com o público (como na cena do choro no banheiro). Um filme de pequenos momentos singelos, de silêncios e atenção, de profundo amor e dedicação, de nos fazer sentir o pesar de cada um dos membros daquela família adiando um fim anunciado.