Balanço – 36ª Mostra SP

36mostraSP2012_bannerJá abri um post apenas sobre o festival, seus problemas que parecem nunca se solucionar, as decepções que diminuem a vontade da maratona, e o ineditismo que diminui sensivelmente a quantidade de filmes que prometem ser os principais do ano. A verdade é que meu pacote de 40 sobrou este ano, para o ano que vem um pacote de 20 talvez esteja de bom tamanho.

Por isso, o post se concentra especificamente nos filmes, mas antes a constatação da diminuição do público que frequento essa edição. As filas intermináveis não foram tão intermináveis, poucos filmes se esgotaram. E com o ineditismo, restou ao festival grandes filmes que estão comprados e por isso poderiam ser deixados de lado para que os que nunca chegarão aqui fossem privilegiados, mas a lista desses filmes era pouco animadora.

Encerro a Mostra com 37 filmes vistos entre os que estavam selecionados, um se destaca dos demais, há 3 outros que mereceriam estar na lista dos “melhores”.

Depois disso uma lista enorme de filmes ok, e uma imensa maioria de filmes muito ruins. A qualidade foi desanimadora, os filmes que chamaram atenção nos festivais de 2012 decepcionaram, é uma pena, o ano não parece ter sido tão bom quanto parecia. Pensei seriamente em afrouxar o rigor e trazer uma lista um pouco maior, mas não, temos que privilegiar os bons filmes e deixar os divertidos e razoáveis em seu verdadeiro espaço.

Cada vez mais, a impossível obrigatoriedade de acompanhar o Indie, Festival do Rio e a Mostra SP para se ter uma apanha geral se faz necessário.

O Filme

  • Tabu, de Miguel Gomes

Os Melhores

  • A Copa Esquecida, de Lorenzo Garzella e Filippo Macelloni
  • O Som Ao Redor, de Kleber Mendonça Filho
  • A Caça, de Thomas Vinterberg

Amor É Tudo que Voce Precisa

Den Skaldede Frisør / Love is All You Need (2012 – DIN)

Um Mamma Mia com tom levemente sério, câncer, uma chance de recomeçar a vida. Susanne Bier, depois de tantos dramas densos, apresenta uma comédia com Pierce Brosnan e estrelas do cinema dinamarquês (Paprika Steen e Trine Dyrholm), em tom adocicado, personagens que ouvem em dinamarquês e respondem em inglês, uma salada torta para agradar público pouco exigente. Sua pegada mais pop não está fazendo bem a seu cinema, seu tom de comédia não foge do básico, e, novamente, mesmo rindo, continou com medo dos casamentos dinamarqueses, nunca saem tranquilos.

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O Gebo e a Sombra

O Gebo e a Sombra (2012 – POR/FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A construção rigorosa de teatro filmado, o ambiente soturno, as interpretações contidas e o tempo de cada cena arrastados de forma serena. Manoel de Oliveira entrega mais um filme ao público, daqueles que ficam mais saborosas após a sessão. O ritmo lento, os planos fixos e o cenário único não colaboram ao deleite de cada cena, mas o mestre centenário sabe costurar sua história sobre honestidade e cobiça, e principalmente sobre honra e proteger entes queridos. A familia conclama o reaparecimento do filho ausente, provável ladrão, quando aparece (Ricardo Trêpa) é que, os discursos e preocupações dos que estavam naquela mesa de jantar, começam a se encaixar. Um pequeno conto narrado com rigor autoral, colocando a ética moral contra si próprio.

Alpes

Alps (2011 – GRE) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A proposta do novo cinema grego parece clara, e Yogors Lanthimos já se tornou um dos líderes dessa nova turma de cineastas que anda ocupando o cenário internacional. Um cinema degradante, personagens esquizofrênicos e situações limite que usam a violência doméstica e o sexo (sem paixão) como propulsores das relações interpessoais. Há um estilo, uma autoralidade, mas são tramas tão irreais (aparentemente) e degradantes ao ponto de não parecerem verossímeis. Aqui, um grupo tenta viver às custas de substituir pessoas mortas. Se oferecem para se vestir e agir como um filho, uma esposa, que acabaram de morrer, uma vez por semana, mediante pagamento. Um bando de fanáticos vivendo de suas crenças malucas.

Outrage Beyond

Outrage Beyond (2012 – JAP)

Dando continuação a seu filme anterior, Takeshi Kitano apresenta uma imenso mais do mesmo. Filme sobre Yakuza com tiros e sangue espirrando, enquanto muita bateção de papo sobre traições e tramóias para derrubar inimigos ou antigos aliados. É a banalização do gênero, carregada por sua assinatura, sem acrescentar nada, abusando de sua própria figura que traz aquele misto de falso ingênuo e sangue-frio. Kitano trabalha no piloto automático, muito distante do que já fez.

Quando Vi Você

Lamma Shoftak / When I Saw You (2012 – PAL/JOR/GRE)

O cinema iraniano já nos contou todas as histórias sobre garotos sofrendo nas mazelas do Oriente Médio. Triste, deprimente, realmente desolador, mas como cinema já se trata de um tema tão debatido que suas variações passam longe do empolgante. A diretora Annemarie Jacir resgata a hitória, a ocupação israelense na Jordânia em 1967, um garoto teimoso que deseja voltar para casa e encontra abrigo com um grupo guerrilheiro, abandonando o campo de refugiados. Falta-lhe inspiração.

A Copa Esquecida

Il Mundial Dimenticato (2012 – ITA/ARG)

De tempos em tempos nos deparamos com uma ideia nova, uma forma diferente de narrar uma história, qualquer coisa que saia do mais do mesmo. Esse falso documentário sobre uma suposta Copa do Mundo de futebol, que teria acontecido em 1942, na Patagônia, é o tipo de alívio que podemos encontrar de vez em quando (bem de vez em quando).

Participações de João Havelage, Roberto Baggio e Gary Lineker (o craque britânico mergulha de cabeça na história) enriquecem, mas o grande trunfo é a seriedade com que é tratado o tema, com toda a pesquisa, imagens de arquivo e depoimentos de ex-jogadores que teriam participado desse grande (esquecido) evento. Brasil, Alemanha e Itália enfrentando seleção da Patagônia ou dos Mapuches, um cinegrafista que morreu abraçado em sua câmera, triângulos amorosos, e um juiz filho de Butch Cassidy. Sem dúvida, o filme de Lorenzo Garzella e Filippo Macelloni é uma jóia hilariante.