Balanço – 37ª Mostra SP

37_mostra_cinema_sp_divulgaçãoA primeira sensação é de alívio ao término de mais uma edição da Mostra SP. Continuam os problemas técnicos, entre cancelamentos de sessões com antecedência até o ridículo de haver problemas na hora da sessão e acabarem trocando filmes e atrapalhando e a vida de todo mundo (isso precisa acabar, já). Mas, alívio porque a programação segue diversificada, mas dessa vez com qualidade, conseguindo trazer uma boa safra dos destaques do ano entre os festivais de cinema.

Fora as acertadíssimas retrospectivas, que deram show. Foi impossível passar longe de filmes de Stanley Kubrick, Lav Diaz e Eduardo Coutinho. Cinéfilos se dividindo entre as retrospectivas e os filmes novos. As filas maiores voltaram, sessões esgotadas, as mesmas incomoda quando voce fica sem o ingresso para o seu filme, mas é bom ver os cinemas cheios e o burburinho pela procura pelos ingressos.

É uma pena que grande parte do público só se mobilize pelo status do “vi na Mostra”, por esse fenômeno bizarro que uma sessão de um clássico como O Sol por Testemunha tem ingressos esgotados, num sábado à tarde. Tente colocar esse filme em algum cinema ou cineclube ao longo do ano, terá meia dúzia de ingressos vendidos, e olha lá. O importante são os cinéfilos verdadeiros, os que o ano inteiro acompanham os festivais e partem em busca dos filmes.

Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

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  • Norte, o Fim da História, de Lav Diaz

Os Melhores:

  • Um Toque de Pecado, de Jia Zhang-ke
  • Cães Errantes, de Tsai Ming-Liang
  • Peixe e Gato, de Sharam Mokri
  • Instinto Materno, de Calin Peter Netzer

 

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Miss Violence

missviolenceMiss Violence (2013 – GRE) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Depois de ter assistido a uma boa leva de filmes grego dessa “nova onda”, que anda marcando forte presença nos principais festivais, fico me perguntando quem inventou esse cinema grego? Com mais calma percebo que a pergunta está errada, o problema não está no inventor, mas em quem consome e absorve esse cinema? Todos os filmes que, de alguma forma, tem chamado a atenção se repetem, à exaustão, numa estética mórbida, num ritmo narrativo esquemático, e num perturbador tema abordado sempre da mesma maneira (famílias muito problemáticas, com patriarcas linha-dura, e o sexo de forma violenta-perturbadora).

O trabalho de Alexandros Avranas segue a mesma linha de seus conterrâneos, tudo começa com o suicídio de uma adolescente, e o tema é tratado como se fosse a morte de uma tartaruga, sem remorsos, sem dor. Aos poucos o cineasta abre as verdades sobre aquela casa, pretende deixar o público revoltado. A troco do quê, me pergunto? Sim, sabemos que essa absurda realidade existe, mas será que a Grécia é infestada de famílias desse tipo? E realmente precisamos morrer assistindo a um único formato de cinema, e eles acham que só usar longos planos-sequencia são garantia de umbom cinema? Haja paciência para esse cinema grego dos festivais.

Norte, O Fim da História

norteofimdahistoriaNorte, Hangganan ng Kasaysayan (2013 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Da força da naturalidade que o cineasta filipino Lav Diaz floresce com um poder soberano de mesclar personagens, classes sociais, violência, história, política, e outras dezenas de temas. Tornando assim, 250 minutos de um filme, num tempo necessário e enxuto, além de uma experiência única e capaz de inserir o público nuam visão plural de seu país natal.

A burguesia e sus discussões políticas numa mesa de bar, os universitários de direito falando do período de ditadura de Ferdinando Marcos, e outros nomes da história filipina. De outro lado, a pobreza, uma família se desfazendo de tudo que há em casa para alimentar os filhos. Entre essas duas realidades uma agiota que lida com ambas classes sociais, seja o interesse de manter as aparências, seja pela necessidade extrema de uma situação limite.

norteofimdahistoria2Diaz faz de sua história um pouco de Crime e Castigo, o Dostoievsky filipino vai da bondade humana à violência extrema de um sociopata, da vida na cadeia ao peso da culpa. O preso injustiçado nunca se revolta, o verdadeiro culpado não consegue confessar, por mais que a culpa pese toneladas sob seus ombros. O papel da religião e como cada um lida, ou se apóia, nesse lado espiritual. O discurso em prol dos dos pais da revolução filipina (Bonifácio e Aguinaldo), fúria contra a ditadura opressiva, a pressão do mundo por seguir a cartilha social, formam um vulcão que explode em violência (ainda mais poderosa por estar sempre fora de cena).

Enquanto isso a pobreza assola, Lav Diaz pega pesado com as tragédias, não poupa nenhum de seus personagens, como se a tragédia estivesse no DNA filipino. É uma visão complexa do ser humano, e do meio, mas, sobretudo, uma maneira pessimista, nos cinco minutos finais até exagerada. Mas o que são cinco minutos, depois de 245 de ótimo cinema?

Plano para a Paz

planoparaapazPlot for Peace (2013 – AFS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Uma grande aula de história sobre os meandros políticos nas negociações que marcaram o fim do Apartheid. O documentário dos diretores Carlos Agulló e Mandy Jacobson tem como pilar o comerciante francês Jean-Yves Olliver, que usou de suas influências para negociar com líderes dos principais países africanos, que estavam em guerra (África do Sul, Angola, e outros), a troca de presos, tendo Mandela como foco final.

Didático, porém interessante, o grande mérito é reunir depoimentos dos chefes de estado que participaram dessa conjuntura política, sendo possível assim entender o grau de negociações políticas, o envolvimento de Cuba e outros países de fora da África, e as dificuldades. Olliver é desenhado quase como um herói civil, quando tinha muitos interesses mercantis na paz da região.

Centro Histórico

centrohistoricoCentro Histórico (2012 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Outro filme-coletivo em homenagem a cidade de Guimarães e as comemorações como a Capital da Cultura Européia em 2012. Nostalgia é a palavra de ordem em O Tasqueiro, onde Aki Kaurismäki fala sobre uma tasca (espécie de restaurante local) que anda às moscas, longe da modernidade. Já Pedro Costa retorna com seu personagem-fetiche (Ventura), trazendo um horror claustrofóbico e política em Sweet Exorcist. Ventura em momento de loucura, num diálogo com uma estátua, dentro deum elevador do manicômio, falando sobre os horrores da ditadura de 1974.

O tom de Victor Erice é documental, depoimentos sobre uma fábrica que durou mais de um século, e acabou fechada em 2002. Inúmeros personagens rememorando seus tempos de trabalho, o dia-a-dia, o refeitório, as amizades. Enquanto Manoel de Oliveira faz uma ácida e leve crítica ao turismo descabido. As pessoas que viajam o mundo, tiram fotos desesperadamente, e perdem os significados, os momentos, a real importância do que está sendo fotografado. Guimarães foi a cidade do primeiro rei de Portugal, e diante de sua estátua que Oliveira tece sua doce acidez.

Que Estranho Chamar-se Federico

queestranhochamarsefedericoChe Strano Chiamarsi Federico (2013 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ettore Scola se coloca como o vovô dos cinéfilos, daqueles que dá um leite quente e conta uma história. Pura nostalgia, Scola cruza sua vida e a de Federico Fellini, narrado num tom de fábula leve, revisitando a revista onde ambos começaram (em épocas diferentes) e a relação de amizade surgida anos depois.

Trata-se de uma cinebiografia de algumas épocas, espécie de fragmentos de lembrança do garoto Ettore, que admirava os desenhos e humor de Fellini, seguindo seus passos e o encontrando já em seus primeiros filmes de direção. Por mais carinhosa e simpático, o filme só vive desse clima nostálgico, desse papo de avô que rememora, com entusiasmo, tempos que não voltam mais. Mas, não deixa de soar como uma tentativa de Scola de ressurgir seu nome, já que não apresenta material o bastante interessante para transformar essa nostalgia em deleite aos olhos de todos.

Grigris

grigrisGrigris (2013 – CHA/FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Nem posso imaginar a quantidade de esforços de Souleymane Démé para virar um dançarino espetacular, ele sofre de alguma deformidade nos membros posteriores, mas sua ginga e desenvoltura são realmente emocionantes. Está claro que o cineasta Mahamat-Saleh Haroun deve ter se encantando com o Démé e criou uma história para Grigris.

Dentro da crueza da vida africana (aqui retratada na capital de Chade), o roteiro circunda pelos clichês de sempre. Grigris precisa de dinheiro, se envolve com o contrabando de gasolina, em algum momento isso vai dar errado. O melhor do filme é sua relação com Mimi (Anaïs Monory), que traz luz à história, desde sua primeira aparição tirando fotos, depois quando nos surpreende com seus cabelos, e mais além, quando a África tribal entra na história. Essa realidade seca que Haroun tão bem retrata em seus trabalhos anteriores, aqui sofre pelo excesso de dramas que penalizam seus protagonistas o tempo todo.