Balanço – 38ª Mostra SP

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Menor quantidade de problemas com atrasos, cancelamento de filmes e etc (ainda houveram, é bem verdade). Um belo leque de clássicos recheando uma programação que destacou boa parte dos principais filmes que estiveram presentes nos grandes festivais de 2014. A Mostra SP volta a recuperar seu prestígio, filas, sessões lotadas. Foi a melhor edição após a opção pelo ineditismo. Ainda falta muitas coisas, o pecado mais grave continua sendo a Central da Mostra, ter que se deslocar fisicamente, quanto os que tem pacote deveriam escolher seus filmes via internet, sem dores de cabeça.

Foi a Mostra da eleição Dilma x Aécio, da propaganda da Folha vaiada em inúmeras sessões, foi a Mostra da retrospectiva de Pedro Almodóvar (que não veio ao evento), da falta de água em São Paulo. Dos filmes russos de ácida crítica à política, de confirmação da boa edição de Cannes 2014. Uma edição de menos holofotes e mais exibições. A volta das sessões da meia-noite que tem seu charme.

O mais importante são eles, os filmes, e quantidade de grandes, ou bons filmes, foi bem mais interessante. Como todo ano, abaixo destaque para os que mais me agradaram nessa edição da Mostra SP:

O Filme

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  • Do que Vem Antes, de Lav Diaz

Segundo ano consecutivo que o filipino emplaca meu filme preferido na Mostra SP.

 

Os Melhores:

  • Dois Dias, Uma Noite, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
  • Winter Sleep, de Nuri Bilge Ceylan
  • Acima das Nuvens, de Olivier Assayas
  • Leviatã, de Andrey Zvyaginstev
  • Relatos Selvagens, de Damian Szifron
  • A Professora do Jardim de Infância, de Nadav Lapid

A Pequena Morte

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The Little Death (2014 – AUS) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Na gíria, o termo the little death significa orgasmo.A comédia dirigida por Josh Lawson tenta acompanhar a vida sexual de alguns casais com características que se diferem da maioria. Fetiches, taras, ou níveis de dificuldade sexual, estão interligadas pela vida sexual delicada. Desde o casal que tenta estimular a libido interpretando papéis, a mulher que só se excita com seu parceiro chorando, a mulher que tem fantasia de ser estuprada, e outros tipos de casais, com outras particularidades.

É simples, direto, objetivo, realmente divertido, porém muitas vezes beira o amador. E quando precisa ser cinema é que demonstra suas fragilidades retumbantes. O roteiro que se atrapalha em tentar conectar os personagens. A montagem esquizofrênica perde personagens, mais tarde retomados, sem que haja qualquer arco que justifique a ausência. O humor tolo, e divertido, tenta, a qualquer preço, fazer rir com as abordagens sexuais, mas um filme que fala de sexo, só que carrega pudores é quase uma versão soft para diversão de adolescentes.

O Pequeno Quinquin

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P’tit Quinquin (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

A estranheza começa com Bruno Dumont, e seu cinema vigoroso e difícil, de aspectos religiosos fortes e antagônicos a seus personagens esquisitos, pudesse assumir uma minissérie para a tb. Se torna ainda mais impensável por ser uma trama policial, vários corpos humanos encontrados dentro de vacas. E, para piorar, uma comédia. Bruno Dumont numa comédia?

Por mais incrível que pareça, tudo isso converge num típico trabalho de Dumont. Seu cinema está presente, em todos os planos, seja na estranheza de personagens que agem como deficientes, ou com cacoetes repetitivos (que até ultrapassa limites e exagera na dose), seja no habitar bucólico (aqui o nordeste francês, a beira do Canal da Mancha), ou nas questões da religiosidade e marginalidade, que, novamente, se encontram em seus filmes.

Quinquin é um garoto que, com sua turma, apronta mil, e estão sendo acompanhando as investigações da dupla de policiais mais estranha que se tem noticia. Mancos, com diálogos que pouco fazem sentido, e métodos investigativos nada contundentes, eles vivem o clima do local, enquanto mais corpos são encontrados de forma bizarra.

Dumont vai emprestrando sua visão peculiar da França, do mundo pop, ao racismo e esse relaciomento com imigrantes das colônias africanas, além do aspecto marginal de seus personagens, essa coisa dos pequenos golpes, ou do ar matreiro. Porém, sua comédia abusa dos exageros, da quantidade de personagens que beiram, ou são literalmente, deficientes mentais, dos trejeitos que se tornam divertidos pela recepção, mas acotovelam-se pela necessidade de rir do ridículo, do estranho, do irracional.

As Maravilhas

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Le Meraviglie (2014 – ITA)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em seu segundo longa de ficção, Alice Rohrwacher permanece com a ótica da sensibilidade feminina. De alguma forma me lembra Sofia Coppola, por incorporar elementos/sentimentos de sua vida/experiência em seus filmes. Aqui ela empresta sua infância, seja a região onde morou, seja o modo de vida da família, ou até mesmo a nacionalidade imigrante do pai.

O patriarca (Sam Louwyck), sujeito durão, mora numa casa cheia de mulheres, suas filhas, a esposa (Alba Rohrwacher), e até sua irmã. Ele, alemão, fala com suas mulheres em italiano, ou francês. Juntos tocam o apiário, de forma artesanal. Tempos difíceis, sob o foco central na filha adolescente, Gelsomina (Maria Alexandra Lungu) – referência a Fellini não para por ai – a diretora italiana cria essa fábula áspera, adocicada não só pelo mel que lambuza as meninas, principalmente pela forma como Gelsomina absorve e observa o mundo. A forma como trata seus sonhos, como a família ajeita, entre as dificuldades (o pai que tenta ser dócil ao sej jeito, as noites de verão em que dividem a mesma cama no quintal).

Gelsomina vive a puberdade, instintivamente busca sua liberdade, a aspiração pelo amor e outros sentimentos caro à idade. Alice Rohrwacher navega pelos turbulentos mares da crise econômica, do brega que domina a tv italiana (Monica Bellucci em aparição de quase uma Iemanjá do Mediterrâneo), e de como essa menina feminina tem que lidar com o mundo agrícola, com seus devaneios, o mundo. A diretora busca a essência da família, sabe-se lá se da sua exatamente, ou não, mas estamos no âmbito familiar, imersos aos olhares femininos que sonham, que fantasiam, e enfrentam a dureza dessa vida.

Winter Sleep

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Kış Uykusu / Winter Sleep (2014 – TUR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Uma das construções de personagem mais fascinantes na carreira de Nuri Bilge Ceylan. O tom solene e a complexidade das relações oferece traços da literatura russa, mas a presença, e importância, do clima, e os cenários da Anatólia remetem a um legítimo filme do diretor turco.

A neve que cai pelas montanhas afugenta os hóspedes do pequeno hotel cravado na montanha. Seu dono é o ex-ator Aydin (Haluk Bilginer), que também escreve uma coluna para o jornal local, e planeja um livro sobre o teatro turco. A cidade é pequena, e ele um dos homens ricos da região. Ceylan pretende desbravar seu protagonista, desmascarando o homem por trás de tanta sabedoria e polimento, criando um conto sobre o poder e sua influência.

O poder é um dos temas recorrentes em sua filmografia, talvez não tá bem elaborado quanto aqui. Aydin mostra suas garras pouco-a-pouco, através dos longos diálogos que Ceylan filma com tratamento cirúrgico. O uso das sombras, os ambientes claustrofóbicos, a perfeita tradução do lobo em pele de cordeiro. Aydin apresenta indiferença, desprezo, seu poder mantém as pessoas à sua volta, por mais desagradável que se mantenham suas relações: desde sua jovem esposa, Nihal (Melisa Sözen), e irmã recém-divorciada, Necla (Demet Akbag), até a família de inquilinos que ele tenta despejar na justiça.

Aydin fala em religião, em finanças, versa sobre a vida, sempre de forma compulsiva e centralizadora. Seus discursos dominadores minam poições contrárias, desanimam os que estão a sua volta e não demonstram força tal para verbalizar. Ceylan cria um monstro, enquanto retoma cada uma das sub-tramas, de maneira paciente e precisa, todas as relações sociais tratadas de forma poderosa, angustiante. Ganhou a Palma de Ouro, pode não ter sido o melhor filme em competição, mas é inegável sua destreza em se posicionar coerente num prêmio como esse, seu resultado final é denso e devastador.

A História da Eternidade

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A História da Eternidade (2014) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O ótimo curta, homônimo, de Camilo Cavalcante, filmado num falso único plano-sequencia, trazia as mazelas da vida no sertão nordestino, de forma cruel, abrupta, experimental. Seu longa quase não parece derivado da mesma raiz. O encardido dá lugar a uma fotografia de fantasia, quase plastificada, dialogando falsamente com um tom de fábula. O título é pretensioso, definir a vida de um pequeno vilarejo como a história da eternidade. Além disso, há o tom solene, a figura poética em alguns personagens, utiliza o cenário, mas é completamente oposto ao seu curta.

São pequenas histórias margeando três mulheres, de idades distintas. A avó (Zezita Matos) que recebe, inexplicavelmente, o neto refugiado de São Paulo. A solitária (Marcelia Cartaxo) que perdeu o filho e é cortejada pelo sanfoneiro cego. E a garota (Débora Ingrid), sonhadora, que deseja ver o mar, cujo pai é linha dura, “pexera na mão”, e vê no tio (Irandhir Santos), ator e quase um extraterrestre no lugar, a tábua de salvação.

O tom é de tragédia anunciada, mas a tentativa é de tornar fotogramas em versos, de forma insistente, além de tentar transformar o pequeno vilarejo numa panela de pressão. Ele não trata da eternidade, procura uma forma definitiva radiografar um nordeste surrado, desesperançoso, que poda a beleza com bebedeira, crueldade, ou sentimentos reprimidos que extrapolam conceitos, religião ou convenções sociais. Fico com a vibrante visão do curta, à fantasia cruel da poesia forçada.

Cássia Eller

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Cássia Eller (2014) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Lá se vão treze anos desde que Cássia Eller se foi. O trabalho do diretor Paulo Henrique Fontenelle se presta a uma homenagem a cantora, entrevistando figuras emblemáticas na vida de Cássia (namoradas, amigos de trabalho, a mãe), com um amplo leque de imagens de arquivo (pessoal ou de programas de tv). Homenagem esta que caberia muito bem num especial qualquer de tv, seu filme é pobre cinematograficamente, totalmente apoiado no peso de seu documentado.

A Cássia tímida, retraída, e também explosiva, apaixonante. As entrevistas apenas exaltam a pessoa maravilhosa de Cássia, transformando numa figura tão magnífica que duvido a própria aprovasse. Seu lado direto, meio moleque, a irreverência, o sorriso no rosto, se misturam com a história narrada de forma cronológica e momentos importantes da carreira, como a gravação do Acústico e o show no Rock in Rio.

Seu lado espontâneo, a coragem de tomar à frente de decisões importantes, a Cássia dócil que fascinava os amigos surge mais forte do documentário. Nando Reis parece bastante abatido ao falar da amiga, a grande companheira Eugênia (que cuida do filho de Cássia até hoje) mostra um ar mais austero. No resumo, é um filme para reviver o legado de Cássia, de forma quase nada elaborada, ainda assim com seus momentos bem emocionantes.