Posts com Tag ‘38ª Mostra SP’

paixaomorbida

Yoru no Henrin / The Shape of Night (1964 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Uma pesquisa na internet para apurar a influência do filme na carreira de Wong Kar-Wai é merecida, porque a influência é inegável. Cores, planos fechados com olhares evasivos, a utilização de todo campo, sofisticação e elegância. O cineasta japonês Noboru Nakamura esbanja características que marcariam o cinema de Kar-Wai, porém Nakamura é mais seco, seu melodrama contido é direto, por mais que haja a doce presença do romantiso exacerbado.

Trata da história de uma jovem que se apaixona por um engravatado que tenta entrar na máfia. Por insistência dela, ela acaba por se tornar prostituta. Com o passar do tempo a dominação masculina se torna dependência da mulher. O tempo, e as circustâncias, fazem um inútil. Ambas intensidades de amor são formas cruéis de sentimento, a dela na fase inicial, paixão jovem, imatura. Mais adiante, relacionamento desgastado, e ele é quem se entrega, se torna capacho.

Humilhação, violência, a interdepdendência destrutitva do casal. Nakamura mergulha na perversidade do amor enquanto hipnotiza com seus planos belíssimos, com esse sabor aprimorado que ele é capaz de imprimir em cada cena, seja no bar, na rua da prostituição, ou na pequena casa onde o casal tem sua intimidade invadida pelo olhar clínico e devastador de Nakamura.

leviataLeviathan (2014 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

A questão do lar, de uma casa, é recorrente no cinema de Andrey Zvyaginstev. Todos seus filmes tem essa ligação forte dos personagens com suas casas, The Banishment então tem a casa como figura central na reconstrução familiar. A carcaça de uma baleia, ou de um leviatã na praia da pequena cidade russa, não será a única menção bíblica, Zvyagintsev imprime a sensação de definitivo, por trás de um pessimismo claro com as injustiças e o abuso do poder, que são o grande tema por trás de sua história.

Um mecânico briga na justiça para não perder sua casa, o prefeito quer o espaço para alguma obra da prefeitura. Nasce um conto moral moderno, a corrupção como vértice para o jogo escuso de interesses dos políticos da pequena cidade, e destruição familiar intensificada pela desestabilização causada pela briga nos tribunais.

O filho que não aceita a madrasta, o casamento que dá sinais de fracasso. O advogado que ameaça o prefeito. São pequenas ações que unidas, canalizam a história para o leito de um rio com toques de tragédia pessoal do pobre mecânico. Zvyagintsev traz a história universal, pontuada pela corrupção, para um ambiente genuinamente russo, de consumo desenfreado de álcool, frio, de relações promíscuas. A vitória em Cannes como melhor roteiro é bastante coerente. Zvyagintsev tece esse conto moral, a sátira politizada, com o refinamento de seus enquadramentos, e os diálogos afiados pela amargura que vivem seus personagens.

Os homens brincam de tiro ao alvo, a brincadeira fica mais animada quando as garrafas são substituídas pela foto de antigos governantes russos. Leviatã dói na alma porque está se passando aqui, na sua cidade, os corruptos só mudam de endereço, e Zvyagintsev satiriza com seu ar poético, como quem filma o tom bíblico nesse mundo contemporâneo deturpado pela hipocrisia.

brancosaipretoficaBranco Sai, Preto Fica (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O explosivo novo filme de Adirley Queirós foi o grande vencedor do último Festival de Brasília. O diretor retoma sua crítica social ao expor a vida na cidade satélite de Brasília. O contexto vem da distância financeira dos pobres de Ceilandia do Plano Piloto, mas também dessa onda de violência e terrorismo mundial. O protagonista quer explodir uma bomba em Brasília, elabora cuidadosamente os ingredientes explosivos (música da periferia, por exemplo).

É um filme delírio, como também um honesto panfleto dessa cultura urbana. Futurista, uma ficção científica do hip hop. A vingança do deficiente físico atingido por um tiro, num baile funk, encabeça toda a cultura que Brasília mantém afastada, por mais enraizada que esteja em seu entorno. O filme de Queirós é divertido, e espalhafatoso, carregado do linguajar das ruas, e insandecido pela ideia da explosão pela cultura reprimida.

aganguePlemya / The Tribe (2014 – UCR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Há filmes que impressionam por algo peculiar, é o caso do vencedor da Semana da Crítica em Cannes. Não há uma única fala, toda a comunicação é feita por linguagem dos sinais. O diretor Myroslav Slaboshpytskiy utiliza apenas planos-sequencias, dessa forma ele cria cenas longas, muita câmera na mão, a necessidade de aproveitar o deslocamento de corpos e o dinamismo que isso proporciona. Por outro lado, criar cenas em que seja possível compreender apenas pelas ações, pela comunicação entre os personagens.

Esse formato dura alguns minutos, impressiona pela possibilidade de se fazer entender. Mas, em pouco tempo podemos lembrar de outros filmes silenciosos, que mesmo sem a linguagem dos sinais, se fazem entender, apenas pela força das ações dos personagens. Slaboshpytskiy cria um retrato desolador de uma escola especial de surdos-mudos, a gangue de alunos que abusa da violência, que aproveita-se da prostituição, que vive da contravenção.

Na fase final o filme descamba para a violência, de forma desenfreada, chocante. São jovens, carentes, solitários, que usam do marginal o estilo de vida, e acabam engolidos pela efervesncencia de seus sentimentos, por erros cometidos, e Slaboshpytskiy elabora situações limite capazes de obter algunas cenas chocantes.

afuga

A Blast (2014 – GRE) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Syllas Tzoumerkas é outro expoente do cinema grego, outro que expõe a grave crise financeira grega, o caos social, o desespero. A estranheza, tão presente nessa safra recente, dá lugar ao frenético. A montagem é desconexa e acelerada, a cronologia do tempo embaralhada, o vai-e-vem causa confusão, enquanto a histeria de personagens ajuda a completar o caos arquitetado por Tzoumerkas.

Maria (Angeliki Papoulia) é a mãe de três filhos, desesperada, que trabalha no mercadinho da família, enquanto o marido vive como marinheiro. O roteiro é implacável com essa mulher, dividas astronômicas de impostos, mãe na cadeira de rodas, um marido que vive do amor livre, o cunhado que prega o partido Nazista (um dos mais importantes da Grécia).

Literalmente o caos, e Tzoumerkas não cansa de acrescentar novos elementos para enlouquecer a histéria de Maria. Uma da cenas mais chocantes é numa lan-house, a válvula de escape sem a necessidade que a intimidade necessita. De tanto caos, o diretor perde o controle de sua metralhadora e a tragédia-pouca-é-bobagem toma conta do desespero desse filme caótico.

ailhadosmilharaisSimindis Kundzuli / Corn Island (2014 – GEO) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Abkhazia é uma região parcialmente independente da Geórgia. Com governo independente e reconhecido por poucas nações, a Geórgia tenta retomar a autonomia da região, o conflito segue por anos. Naquela região há um rio que durante a primavera diminui seu volume de água criando pequenas ilhas em seu leito. Numa dessas ilhas que o senhor (Ilyas Salman) e sua filha/neta (Mariam Buturishvili), nunca saberemos, constroe uma pequena casa e plantam milho para o inverno.

Silencioso e quase documental, o filme que venceu o Globo de Cristal (prêmio máximo do Festival de Karlovy Vary) se encarrega de envocar o minucioso trabalho de construção do casebre de madeira, arar a terra, pescar. O convívio mudo entre os dois, o rio, e os pássaros. O milho cresce, e barquinhos com militares dos dois lados do conflito observam o pequno milharal. O diretor Giorge Ovashvili alterna enquadramentos, explora detalhes, cria tensão com a jovem que começa a florescer e os militares que babam no rastro feminino ali presente.

Como pano de fundo o conflito, as raras falas se dividem em pequenos dialetos, enquanto o milho cresce, o inverno se aproxima, e a jovem amadurece. Ovashvili estabelece cumplicidade entre público e a singela vida daqueles dois, o tempo de chuva se aproxima, o som dos disparos entre os militares por entre a mata. Político e delicado, virtuoso e modestom, e ainda capaz de esbanjar a beleza da região sem sair de um pequeno cubículo espaço de terra cercado de água.

ventosdeagostoVentos de Agosto (2014) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A vida nos rincões, o famigerado Brasil grande, aquele distante das cidades. O filme tem o casal Shirley (Dandara de Morais) e Jeison (Geová Manoel) como fio condutor para essa vida rudimentar. A vida ganha com a pesca, ou com o “catar coco”, o mínimo de influência tecnológica (o celular não pega bem, as casas não tem endereço e nem numeração). O diretor Gabriel Mascaro insere suas experiências em documentário nesse ritmo primitivo de viver. O banho de coca-cola, o corpo que descansa sob o caminhão de cocos, ou o barquinho que invade o oceano.

Outros elementos são incorporados, aos poucos, o técnico de som que capta o vento, as águas raivosas que invadem as praias, a moto ou a cultura rock que tenta se adapta ao ritmo do lugar. Shirley veio para cuidar de uma senhora, Jeison fica fascinado com ossadas que encontra no mar, ou na praia. E os ventos que cortam o mês de Agosto, e mudam com aspectos do clima, e o fascínio que mexe com os interesses de Jeison, a incorporação do inesperado causando reações. O filme traz essa brasilidade divertida e inocente, mas não consegue ir além do insinuar. Suas ambições são pequenas, quase tão primitivas quanto o pequeno vilarejo, esquecido do mundo. A câmera quer se integrar ao local, fazer parte da paisagem, a herança do documentário traz essa riqueza de sons e sensações, e afasta a ficção da etnologia.

aprofessoradojardimdeinfanciaHaganenet (2014 – ISR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os atores chegam a bater na câmera de tão fechados os planos, na primeira cena uma cotovelada, por exemplo. É uma proximidade além do cinema, quase aflitiva. Os olhos azuis da professora do jardim de infância, Nira (Sarit Larry) tornam-se imensos e ambiciosos, os do garoto Yoav (Avi Shnaidman) profundos e tocados pela carência – que mais tarde teremos ferramentas para julgá-la. O menino é interpretado como prodígio, versa poemas sobre amores não correspondidos, de maneira espontânea. A professora se encanta, transpõe sua própria ambição de poeta frustrada ao garoto, assim como a babá utiliza os versos do garoto para sua pretendida carreira de atriz.

O diretor Nadav Lapid costura sua história de obsessão com belas sequencias, ora um plano-sequencia virtuoso de crianças brincando num escorregador, ora da chuva que cai e a professora tentando impor inspiração ao garoto que só queria sua soneca. Lapid constrói os perigos das obsessões de forma quase lúdica, do amoroso ao perigoso. A relação aluno-professora vai além da sala de aula, as lentes de Lapid além do cinema tradicional. Há muito da sensibilidade feminina, assim como da virilidade masculina, nas interrelações, mas, acima de tudo está o jogo de obsessão capaz de transformar comportamentos, Nira parte a abdicar de sua própria vida, em prol da poesia que ela tanto admira, e de um talento que talvez só ela enxergue, mas que passa a sua prioridade compulsiva.

osoldomarmelo

El Sol Del Membrillo (1992 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Os pormenores da vida de um pintor, o trabalho artesanal de preparar o quadro, as tintas da aquarela, posicionar-se para iniciar seu trabalho de retratar a árvore frutífera do quintal de sua casa/estúdio. Documentário arquitetado pelo diretor Victor Erice e pelo pintor Antonio López García, lindos marmelos amarelos, e suas folhas de um verde vigoroso, a admiração do pintor pela árvore que ele mesmo plantou quando criança. Erice retrata o detalhamento e a simetria da técnica que López estabelece. A preciosidade dos detalhes, preocupações milimétricas. Enquanto isso a casa segue sob reformas, são duas artes que ocorrem paralelamente.

Os encontros com amigos, o som do rádio que narra os acontecimentos políticos no Golfo Pérsico, ou a queda do Muro de Berlim. Uma Madri ensolarada, a transição oitentista para a nova década está nas roupas, nos objetos. Erice mergulha profundamente no meticuloso, passa a admirar também os raios de sol sob os marmelos. O pintor tenta estabelecer a luz certa, no momento, exato, Erice não fica atrás e capta os detalhes desse olhar apurado, determinado. Por entre os galhos ele capta os enquadramentos mais bonitos, o pintor entregue à sua paisagem. Acima de tudo um filme contemplativo, de quem arrumou uma cadeira e passa tardes assistindo a execução de um ofício, de sua arte.

doquevemantesMula sa kung ano ang noon / From What is Before (2014 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tão simples quanto fantástico. Quase no final da maratona, de quase 6 horas, a narração em off determina: “a memória de um cataclisma”. Câmera estática, longos planos fixos e abertos, o preto e branco que quase dá sensação do esverdeado da vegetação. Estamos numa zona rural das Filipinas, início da década de 70. Primeiramente o cineasta Lav Diaz, com sua narrativa hipnótica, insere o público no ritmo do vilarejo.

O sujeito que fabrica vinho artesanal – Tony (Roeder Camanag), o homem que cuida das vacas do fazendeiro – Sito (Perry Dizon), o garoto que deseja reencontrar os pais que desapareceram – Hakob (Reynan Abcede), as duas irmãs, Itang (Hazel Orencio) que abdicou de sua vida para tratar de Joselina (Haniel Karenina), que sofre de problemas mentais e o povo da região acredita que tenham poderes de cura. O padre católico Guido (Joel Saracho), a mascate intrometida Heding (Mailes Kanapi), há outros, o importante é afirmar a precisão com que Diaz desenvolve cada um deles, com a parcimônia que a longe dura lhe permite, mas com a riqueza de detalhes que os constroem como pessoas, não meros personagens.

O ar de “mau maior” cobre cada um dos planos, eles não, mas o público está sempre esperando pelo pior. O filme percorre dois anos, pacientemente entendemos o papel de cada um naquela sociedade, seus problemas, seu ganha-pão. Até que chega a lei marcial, o ditador Ferdinando Marcos impõe o decreto nº 1081, ato “democrático” que coloca os militares nas ruas, a caça aos comunistas. Diaz inicia o processo de desconstrução do vilarejo, a violência onde havia algo acima da paz, o terror. Estranhos fatos ocorrem: vacas morrem, cabanas incendiadas, os moradores começam a partir daquele lugar. O filme é direto, contundente, sem que deixe de ser pacato.

O caos chega de mansinho, os personagens se adaptam, aceitam, ou simplesmente fogem. Seus dramas beiram o limite a ponto das verdades chegarem à tona (Tony, Hakob, Joselina, Heding), os militares ditam regras, o toque de recolher num local inóspito. Lav Diaz capta o horror por lentes pacientes de registrar as transformações causadas no micro, onde as leis nem sequer chegam, onde as grandes decisões dos governos não ajudam em nada, mas quando trata-se dos interesses políticos, estes são lembrados e sacrificados como se tivessem qualquer consideração política.