Balanço da 39ª Mostra SP

39mostraOntem foi o último dia de repescagem, dessa forma, se encerram as últimas exibições de mais uma Mostra SP de Cinema em São Paulo. De longe foi o ano com o menor quantidade de problemas técnicos (exibições canceladas, atrasos homéricos, graves dificuldades com legendagem). Foram coisas que praticamente não ocorreram, já que faltar luz na Cinesala não é de responsabilidade da Mostra SP. Por outro lado, fica evidente a necessidade de se modernizar muitos pontos. Exibir um filme, dividido em três volumes, e cujos horários desses filmes batem, em salas diferentes dificultando assim quem pretende assisti-lo por completo, é, no mínimo, um erro de planejamento grave.

Outro ponto que precisa de urgência atualização são as credenciais e os vouchers, porque eles obrigam ao credenciado passar na Central da Mostra todos os dias, não podendo planejar sessões em salas distantes da Central, correndo risco de ingressos esgotaram para outras sessões. Para não correr risco, vale mais a pena comprar pela internet. Se é assim,, qual o benefício da credencial? Apenas o custo, mas a preferência pelos filmes será de quem compra via internet? Também não me parece justo.

Sobre a seleção, já havia comentado no post com o guia. Mas, vale ressaltar que os dois maiores acontecimentos dessa edição foram a exibição, em película de Um Dia Quente de Verão, principalmente a concorrida sesão na Cinemateca. E, também, o filme-testamento de Manoel de Oliveira. O filme de Edward Yang pela raridade, afinal, não é encontrado facilmente, não teve lançamento em dvd e blu-ray, portanto era uma oportunidade rara. E o do Bom Velhinho pela despedida, e também pelo grau de exposição autobiográfica de seu conteúdo. É Manoel dando seu último adeus de maneira belíssima.

O forte da seleção estava mesmo na quantidade de latinos premiados nos grandes festivais, e a retrospectiva de clássicos entre os filmes recuperados pela equipe de Martin Scorsese. A trilogia de Miguel Gomes causou polêmica e dividiu muito o público, é até difícil ter unanimidade na preferência de qual dos 3 volumes é o melhor, que dirá chegar a agradar a todos (como pareciam os elogios de Cannes). Completando assim mais um edição, que se não trouxe uma imensa quantidade de filmes brilhantes.

O Filme

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O filme-testamento do cineasta ficou guardado na Cinemateca Portuguesa por três décadas, só poderia ser exibido após sua morte. E foi emocionante descobrir as memórias, e adentrar a vida particular de Manoel de Oliveira, contando sua trajetória através da ligação com a casa que ele estava se desfazendo.

Os Melhores

 

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Um Dia Perfeito

umdiaperfeitoA Perfect Day (2015 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Agentes humanitários tem a missão de tirar um corpo, de um poço, para manter o abastecimento de água na região. A tarefa, aparentemente simples, ganha complexidades inimagináveis numa zona de conflitos nos Balcãs. Fernando León de Aranoa trata a guerra com humor, brinca com os absurdos, enquanto os dramas locais ecoam por todos os lados. O cineasta espanhol prefere flertar com o pop, claramente interessado num alcance maior de público. Estrelas de Hollywood, e esse humor “maroto” permitem a narrativa mais palatável.

Risco de minas por todos os lados, a vida miserável dos que não se envolveram nas guerras entre muçulmanos e sérvios. Partindo do horror, o filme provoca as burocracias militares internacionais, expõe injustiças e desrespeitos aos acordos internacionais. Mas, Aranoa prefere dar mais foco a seus personagens, e casos amorosos deles, do que manter as atenções sobre o conflito e seus estragos. Por isso, briguinhas de ex-namorados se misturam com o anseio dos agentes em ajudar aquelas pessoas.

Os Campos Voltarão

oscamposvoltaraoTorneranno I Prati (2014 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O novo filme do veterano italiano Ermanno Olmi remete às lembranças que ele mantém dos relatos do pai. Numa noite gelada, no front italiano, da Primeira Guerra Mundial, um grupo de soldados reflete o desespero, o despreparado, e os inesperados ataques inimigos. O poderoso grito anti-belicistaa é ecoado por cada fotograma do trabalho de Olmi, sem explorar sequencias de batalha, mesmo que não deixe de lado expressivas cenas de explosão, o cineasta trafega por esse grupo de personagens trazendo o horror nos olhares. São cenas belíssimas, seja na plástica visual, seja no peso dramático carregado por aqueles soldados. O ataque inimigo, a vontade de volta para a casa. Neve, muita neve, fome, muita fome, medo, muito medo. A guerra, ou o absurdo da humanidade.

Boxe

boxeBox (2015 – ROM) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Muita presunção do romeno Florin Serban (que ganhou destaque internacional com Se Eu Quiser Assobiar, Eu Assobio), em buscar identificação, ao unir, dois estranhos que se esbarram na rua. Cristina (Hilda Péter) já é uma mulher madura, casada, e atriz de teatro. O jovem Rafael (Rafael Florea) trabalha num lava-rápido, enquanto treina para se tornar pugilista.

Serban narra o cotidiano dos personagens em separado, até que Rafael passa a seguir Cristina, espécie de paixão à primeira vista. O cineasta romeno posiciona a câmera na nuca de seus personagens, enquanto caminham, traz assim um misto entre o que eles enxergam, e a dramatização (não clara) de seus personagens. Seu tiro sai mesmo pela culatra após os desconhecidos serem apresentados. Serban não é exatamente um poeta das imagens, trabalha com formas cruas como elemento principal em seu cinema, trazendo assim a carga dramática. E essa relação lúdica que o filme esboça, mais funciona em diluir o impacto (da crise conjugal, das dificulcades de um jovem entrar num mundo prostituido), do que qualquer outra proposta.

Ixcanul

ixcanulIxcanul (2015 – GUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A mais inesperada surpresa do último Festival de Berlim. Há no filme uma versão do cinema índio-mande-in-exportação, que joga contra o trabalho do diretor Jayro Bustamante. Porém, seria injusto resumi-lo dessa forma. O cinema denúncia travestido de arthouse funciona perfeitamente, começando pelos inúmeros planos fechados, aquela imagem enorme, que torna pessoas e objetos tão grandes. Bustamante se aproveita do artifício e explora a convivência de seus personagens com a vegetação, aos pés do vulcão Ixcanul. Os temas são os mais variados, e costumeiros do cinema latino, de abuso de pobres, ou mulheres, a obsessão da imigração como única salvação.

Utlizando não-atores da comunidade indígena retratada, Bustamante expõe costumes locais, a sabedoria popular, enquanto apresenta a deterioração da comunidade na relação (cada vez mais presente) com costumes “urbanos”. A trama usa todos esses conceitos, e as riqueza de cores e tradições, para buscar na tragédia sua incontestável crítica social. Se não apela ao melodrama, usa dos clichês para dar seu toque especial no que o cinema já cansou de retratar.

Garota Negra

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La Noire de… / Black Girl (1966 – SEN/FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

A desconstrução da ilusão imigrante num tiro seco, direto e certeiro de Ousmane Sembene. De maneira tão simples, o cineasta senegalês expõe as feridas, a frustração e as consequências brutais do sonho que não se torna realidade. Diouna (Mbissine Thérèse Diop) chega a Paris para ser babá, trabalha na casa com belos vestidos, brincos e colares. Muitas semanas de trabalhando e ainda não conseguiu colocar o pé para fora daquela casa, não conheceu uma quadra sequer da cidade.

O tratamento, dos donos da casa, também não é dos mais polidos, com a recém-chegada. Mas, a decepção frente a expectativa é o que há de mais cruel. Sembene vai fundo, constrói assim um magnífico trabalho, onde prima pela simplicidade, e dessa forma alcança resultados desoladores. As expectativas dos empregadores não chega a ser atendida, mas a diminuição dessa jovem ao status de simples serviçal (quando sua ilusão, de todos que ficaram em sua cidade natal, era da vida confortável instantânea) formam o retrato de um choque brutal.

As Mil e E Uma Noites: Volume 3, O Encantado

as1001noitesvol3As Mil e E Uma Noites: Volume 3, O Encantado (2015 – POR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Por fim o encerramento do longo filme que se tornou uma trilogia. A promessa de crítica ao governo português (ainda no poder), se distancia um pouco quando Zerazade (Crista Alfaiate) assume, finalmente, o protagonismo de uma das histórias. Miguel Gomes brinca, à sua maneira, de maneira mais próxima com temática relacionadas ao livro. E, vez ou outra, traz um quê de cultura portuguesa (sobra até para o Brasil, em canções, no samba e etc) ao que se passa. E o faz de maneira tão tímida que as duas histórias a seguir parece deslocados dessa inicial.

A seguir vem um longo documentário sobre criadores de tentilhões. O terceiro capítulo traz imagens de protestos policiais enquanto a narração em off, de uma imigrante chinesa, refaz o tom questionador. São tão distintas formas de cinema, que o todo de O Encantado se coloca como o mais irregular de toda a trilogia. Se há alguma riqueza em suscitar os criadores de pássaros, resgatando o português comum, talvez um retrato do povo que ainda habita aldeias. Bate de frente com a sensualidade inebriante de Xerazade, no humor direto, e quase chulo, na caricatura simplista. O resultado final da trilogia é que não chega a entregar o que promete, ainda que haja muitos pontos positivos (principalmente no primeiro volume) nesses pequenos retratos do povo português contemporâneo.