Posts com Tag ‘39ª Mostra SP’

intermezzo

Intermezzo (1936 – SUE) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O filme original que levou Ingrid Bergman a Hollywood, três anos depois ela estaria nos EUA repetindo seu papel num remake. Um belo drama romântico clássico sobre a força de uma paixão entre um violinista (Gösta Edman) e uma professora de piano (Ingrid Bergman). O roteiro parece ser dividido em três partes iguais, de trinta minutos cada, sem que haja essa divisão explícita.

Primeiro a fase de se conhecerem, ele o mais famoso violinista de seu país, e ela dando aulas à filha dele. A paixão surge dos talentos dela ao piano. A segunda fase é a mais romântica, quando ele larga a família (o apego dele aos filhos é grande) e vivem a paixão avidamente. Para, no terço final, o relacionamento deles ser colocado em xeque, como se fosse apenas um Intermezzo.

A relação entre personagens é tão bonita, o diretor Gustaf Molander oferece candura, ao mesmo tempo que prepara a trama para finais inesperados e perturbadores. O cineasta sueco parece nos hipnotizar com tamanha proximidade a eles, para a seguir dar um golpe fatal no roteiro, ao mesmo tempo lindo e impactante.

treslembrancasdaminhajuventudeTrois Souvenirs de Ma Jeunesse / My Golden Days (2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Arnaud Desplechin volta à boa forma com a história de Paul Dédalus (Mathieu Amalric na fase adulta, e Quentin Dolmaire jovem). O pretexto de seu passaporte pego quando deixava o Tajiquistão, serve apenas para desencadear o flashback de suas memórias mais vívidas, os romances e aventuras de uma adolescência de experiências.

Em vários momentos, lembra muito de alguns filmes de François Truffaut, há proximidade com a Nouvelle Vague, mas a complexidade familiar e romântica de Desplechin envereram o todos a outros caminhos. A história de amor trágico, e mal resolvido, é tão predominante que cerca a vida toda de Paul. Não que sua viagem à URSS e a morte prematura da mãe não tenha sido determinantes na formação de caráter de Paul. E o filme de Desplechin trata disso, dos momentos chave da vida desse adolescente, momentos estes decisivos ao antropólogo que responde os questionamentos na imigração.

É um filme ávido pelas descobertas, pela ingenuidade do primeiro amor (sempre tratado como único e maior que tudo), pelo sexo inconsequente e pelos laços familiares (irmãos, pai, e amigos).  Desplechin retorna com um filme de roteiro complexo, tal qual a vida, narrados com a beleza de um coração pulsante.

olmoeagaivotaOlmo & The Seagull (2015 – DIN/BRA/POR/SUE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Em seu segundo trabalho, Petra Costa continua em busca de imagens poética que façam de seu documentário um conjunto de subjetivos e refleximos momentos de beleza. Essa busca incessante, que dessa vez divide a responsabilidade na direção com a dinamarquesa Lea Glob, são o ponto mais fraco do filme. Porque, o misto de documentário e ficção, que bate à porta da vida, à dois, do casal de atores cuja gravidez inesperada frusta os sonhos dela, sobressai com o poder que a dupla de diretores precisava.

O material dialoga com a própria peça de Tchekov que eles ensaiavam, e quando chega o grande momento de palcos mais importantes, a gravidez de risco a afasta do palco. Decepção e tristeza num primeiro momento, mas outras inseguranças surgem à seguir, representando um interessante estudo das dificuldades emocionais de se enfrentar essa fase de isolamento social, de crise hormonal, de insegurança profissional e todos os fantasmas que a mente humana possa criar.

as1001noitesvol2As Mil e E Uma Noites: Volume 2, O Desolado (2015 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A segunda parte da trilogia de Miguel Gomes tem aquele aspecto desengonçado de recheio, simplesmente parece que não começa e que não termina. Mas, está longe de ser este o problema, comparado à primeira parte. O forte apelo de crítica política aqui é substituído pelo social, e na força das histórias que o resultado fica muito aquém do que fora visto (ainda que tenha sido este o escolhido para representar Portugual em todas as premiações do ano).

Xerazade continua entretendo as noites do rei com histórias ocorridas recentemente em solo português. Juntas formam pequenos retratos das particularidades, às vezes dos absurdos, em outras apenas detalhes, aparentemente, pitorescos. O assassino fugitivo que ganha torcida da população por enganar a policia resgata melhor a vida nas aldeias, o ritmo ditado pelos ansiãos, um conto anedótico.

O mais interessante do filme é o grande julgamento, em praça pública como um teatro grego, presidido por uma juíza. Pequenos delitos que corroboram com outros pequenos delitos, formando assim uma sociedade non sense, que prima por suas minúsculas bizarrices, e num todo cria um ecossistema incrédulo. É o mais próximo do melhor da sátira do volume inicial. O terceiro usa um cachorro, passando por diversos donos, para trazer outro retrato contemporâneo da sociedade. Os “causos” perdem em impacto, chegando a parecer crônicas pouco elaboradas de um jornalista com pressa de entregar seu texto antes do fechamento. O Desolado realmente enxerga um pequeno retrato triste, onde o desconsolo é a atmosfera, mas que provavelmente nem está tão ligada assim com o governo de decisões austera que o letreiro critica logo no começo. Que venha o desfecho.

visitaoumemoriaseconfissoes

Visita ou Memórias e Confissões (1982 – POR)

Rodado em 1982, e guardado desde então na Cinemateca Portuguesa, o filme-testamento de Manoel de Oliveira só pode ser exibido ao público após sua morte. Foi filmado em razão da venda da casa onde o cineasta português viveu por quareta anos, talvez os mais importantes de sua vida pois foi o período onde nasceram seus filhos e netos e onde sua carreira pelo cinema se solidificou.

Da necessidade financeira de se desfazer do imóvel, Manoel cria uma poesia visual, com textos de Agustina Bessa-Luis, nas vozes de Diogo Dória e Teresa Madruga, enquanto o próprio conta sua história. Seu casamento, o período em que passou preso, a falência da fábrica do pai, movimentos políticos portugueses e outros fatos tão pessoais, contados de forma tão particular.

Sua vida centenária (naquele momento já tinha mais de setenta anos) se entrecruzam com a história de seu país e de seus conterrâneos. A delicadeza com que fala à câmera e exibe vídeos caseiros dão saudade dos filmes que poderiam ter sido filmados pelo mestre, saudades da sua proximidade com a literatura, e sua capacidade de desenvolver contos morais com a polidez costumeira. São suas memórias e confissões, uma visita que ele nos permitiu depois que já não estivesse entre nós para dar explicações de tudo aquilo, e por isso, não é um filme que possa ser classificados em estrelinhas.

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The Witch (2015 – CAN) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ainda acho que o filme demora muito para pegar fogo, e até lá nem consegue conceber perfeitamente a atmosfera ideal. Mas, quanto pega fogo, lá pelos vinte minutos finais, realmente prova a que veio. Nessa demora que o diretor Robert Eggers constrói a personalidade daquela familia, vivendo dentro de sua religiosidade ortodoxa, na região de New England, lá pelo século XVII.

Bruxaria, magia negra e animais macabros (de longe o bode ressurge como a grande força do satã) são as principais armas que conduzem à reunião a família de Thomasin (Anya Taylor-Joy). Estreiando na direção, porém carregando experiência trabalhando em outros filmes de terror, Robert Eggers capricha na fotografia escura, no uso das sombras e da floresta coberta de névoa. Espalha gradativamente o suspense psicológico, enquanto encerra seu filme informando que o roteiro foi baseado em dados históricos e manuscristos da época. Deixando assim, a impressão forte do que se acabara de testemunhar.

Als wir träumtenAls Wir Träumten (2015 – ALE) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Andreas Dresen parte de um drama sobre um paciente terminal de câncer (Parada em Pleno Curso), para a vida de um grupo de jovens amigos arruaceiros da Alemanha Oriental, nos primeiros anos de unificação da Alemanha. A inquietude punk, a disputa entre gangues ou pelo amor de uma garota, a vida entre sexo, drogas e música eletrônica. O amadurecimento através da anarquia. O filme brinca entre o tempo, o período mais jovem, e a fase ainda criança do grupo. A dificuldade de relacionamento com cada pai, e do próprio lado Oriental em se integrar. O filme vive de uma irregularidade que Dresen não consegue controlar entre tantos personagens e transformações, ainda que seja um retrato interessante de uma realidade que acontece por todos os lados.

paulinaLa Patota (2015 – ARG/BRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Ainda que já com alguns trabalhos no currículo, o diretor Santiago Mitre era mais conhecido por roteiros de três filmes de Pablo Trapero. Provalvemente, após sua premiação na Semana da Crítica em Cannes, seu nome possa levantar voo-solo maiores. E é facilmente perceptível a semelhança deste filme com os trabalhos de roteirista de Mitre. Via uma protagonista (Dolores Fonzi) de decisões sempre questionáveis, e louca por discutir com o pai, juiz (Oscar Martínez), o roteiro parte em busca de uma luta entre Paulina e o próprio público.

Na primeira sequencia, pai e filha discutem, ela pretende largar tudo por um projeto social, em região pobre e rural. As tantas discussões a seguir provam que Paulina tem essa necessidade de se autoafirmar frente ao pai, tomando decisões até pouco racionais, mas que sejam próprias (desde que contrárias às dele). Essa disputa familiar é o ponto mais interessante do filme. Para chegar às discussões, Mitre vai da violência sexual à tortura policial. Antes disso, tenta criar clima e justificar a ação do grupo (a tal patota) que caua os atos violentos do filme. Esse sadismo em manter a relação pai-filha tão questionadora, capaz de manter a personagem distanciando da justiça, por uma justiça própria quem nem ela crê, reduzem o resultado a um mero brinquedo provocador.

oquartoproibidoThe Forbidden Room (2015 – CAN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

E as loucuras de Guy Maddin, dessa vez divide a assinatura do filme com Evan Johnson, ataca novamente. O canadense que revive os primórdios do cinema mudo e preto e branco, cheio de texturas e efeitos visuais que dão impressão de um filme centenário, está de volta com uma de suas maiores viagens.

E na questão ousadia, longe que este é o que vai além desse conceito. Com uma geleia mortal dentro de um submarino, e uma dezena de filmes-dentro-do-filme, que une diversos atores e outros nomes famosos do cinema mundial (como Jaques Nolot, Geraldine Chaplin, Charlotte Rampling, Maria de Medeiros ou Mathieu Amalric), o roteiro extrapola os limites do racional, sem dó e nem piedade do público.

A dupla de diretores está mais interessado em brincar com iluminação, texturas, colagens e sobreposições, e a diversidade de filtros que transformam ssistir numa experiência quase sensorial. Dessa vez os personagens tem falas, uma das sequencias é quase um musical. Há ainda um humor peculiar, meio escroto, meio deboche, é tudo over. O exagero fantasioso, a radicalidade nas propostas anárquica, Maddin foi muito além e o excesso nunca é benéfico.

oreidacomediaThe King of Comedy (1982 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Histeria, multidão se debatendo, o desespero por um autógrafo. Fãs desesperados aguardando a passagem do comediante Jerry Langford (Jerry Lewis) pela saído do teatro. Martin Scorsese prepara sua s átira ao mundo do showbizz e do culto aos famosos. É um novo Taxi Driver, outro personagem com seu quê violento, mas dessa vez muito mais racional e meticuloso. E outra parceria entre Scorsese e Robert De Niro, na fase mais prolífica da dupla.

Rupert Pupkin (Robert De Niro) decidiu que tem talento para ser o rei da comédia, e com sua persistência irritante parte em busca de seu sonho. Scorsese e De Niro mantém Pupkin ultrapassando o limite do irritante, ingênuo e tímido, mas nada que o impeça de passar como um rolo compressor por seus obstáculos. O roteiro é meticuloso em construir relações e situações que correspondam perfeitamente ao grand-finale, o monólogo onde finalmente descobrimos o tipo de humor de Pupkin. Até lá, ele tem suas frustrações amorosas, a invasão de privacidade de seu ídolo, a amizade com a maluca Masha (Sandra Bernhard), e o fortalecimento de sua obsessão capaz de leva-lo ao sequestro de Jerry.

Os vinte minutos finais são sensacionais, quando filnalmente Scorsese coloca em prática tudo que havia preparado. Do longo plano-sequencia de Pupkin nos bastidores da tv à efetivação da brilhante sátira aos interesses corruptos do mundo do entretenimento. Mas antes, Scorsese já brincava com a montagem, com passado e presente, não escondendo os fins, uma forma de dar ainda mais relevância a essa reta final.