Martírio

martirioMartírio (2016) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O documentarista e estudioso Vincent Carelli apresenta um dos mais completos estudos políticos da questão indígena no país. Como cinema, não vai muito além de um desses programas televisivos investigativos, com vasto material gravado em aldeias indígenas contrastando com imagens de tv de discursos de políticos (em imensa maioria ruralistas). Não espere indignação da classe política pela desumanidade desses discursos de parlamentares, porque eles acreditam piamente nos interesses econômicos e na necessidade de salvaguardar o lado capitalista e “desenvolvimentista”.

Relembrar a questão indígena é sempre resgatar comportamentos ultrajantes que passam despercebidos pela sociedade e seu dia-a-dia atribulado. Carelli faz um raio-x histórico, desde antes do governo Getúlio Vargas, prova que os presidentes quase sempre pecaram em priorizar o interesse econômico (seja de esquerda ou direita), e o confronto que já se tornou uma guerra civil se coloca como insolúvel e cada vez mais injusto (vide a PEC 215). O diretor nunca escode sua tendência a favor dos indígenas, mas que pessoa em sã consciência não teria tal comportamento?

“O sangue dos índio irriga os 8 mil km desse país”, esse é apenas um dos momentos fortes, de declarações que nos oferecem um choque de realidade quanto a matança indiscriminada. Um governador de estado afirma que vai liberar o uso de armas de fogo pelos fazendeiros, e o ministro da justiça assiste pacato a um absurdo desse tipo, afinal quem é o governador para “autorizar”? Quando analisamos um pouco a maneira que a sociedade brasileira sempre tratou os índios, nos damos conta que nossos problemas de corrupção e interesses escusos são apenas um retrato límpido da sociedade que construímos. Martírio é o estímulo para esse choque de realidade do que estamos fazendo (ou não fazendo) com aquilo que gostamos de bravejar e se chama justiça.

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Curumim

curumimCurumim (2016) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Com uma câmera clandestina no presídio, Marco Archer apresenta um pouco da angústia e de sua rotina no presidio de segurança máxima, na Indonésia, durante seu período de espera no corredor da morte. O documentarista Marcos Prado foi amigo de Curumim (seu apelido) muito antes da prisão, e tenta fazer um retrato da situação e do amigo.

Um “menino do Rio”, é assim que um dos amigos tenta explicar a profissão e quem era o Curumim. Sem culpa, o documentário mostra que ele vinha de família carioca abastada, e nunca se preocupou com nada além de viver da diversão, festas, drogas e esportes radicais. Sua figura do malandro carioca internacional desgastado pela morte se aproximando combina com as imagens pobres captadas por companheiros de cela, porém essa figura que os discursos tentam vender como divertida, mas aparece no documentário nenhuma vez. A culpa vem no discurso, mas a clemência é quase colocada como obrigação, num tom de quem passa longe de pesar pela culpa. E é nesse retrato quase paternalista de Marcos Prado, que o documentário naufraga em humanizar e sensibilizar. A figura de Curumim vista  no documentário talvez seja honesta, porém depõe mais contra ele do que a favor.

El Amparo

elamparoEl Amparo (2016 – VEN) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O diretor Rober Calzadilla segue seus personagens pela nunca, no meio da mata, à beira do rio. Adentra pequenos casebres e tenta resgatar um pouco da vida simples de venezuelanos, numa região de divisa com a Colômbia, com ação das Farc’s e guerrilheiros. Calzadilla mantém o rigor narrativo de um cinema independente e pulsante, surge como boa surpresa e vencedor do troféu Bandeira Paulista de melhor filme da Mostra SP.

A trama reconta a história de chacina e acusações falsas dos militares venezuelanos, nada que surpreenda nós latinos-americanos. Governos de esquerda ou direita, usam dos mesmos artifícios para se proteger ou justificar. Dois homens sobrevivem ao massacre, o grupo de meros pescados é acusado de um plano terrorista. A pequena comunidade local se revolta contra os desmandos e a versão do governo, a imprensa chega ao local enquanto a corrupção tenta abafar o caso. Calzadilla foge do tom melodramático e engajado politicamente, sem deixar de trabalhar com ambos, é a forma como ele dosa esses elementos que enriquece sua direção vigorosa e esse tom testemunhal que seu filme impõe.

O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu

ocinemamanoeldeoliveiraeeuO Cinema, Manoel de Oliveira e Eu (2016 – POR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Acima de tudo é uma declaração de amor do diretor João Botelho a seu amigo Manoel de Oliveira. Foi como assistente do Bem Velhinho que Botelho começou no cinema, e ele resgata toda a trajetória do recém-falecido cineasta português relembrando cenas, histórias, filmes e mais filmes (especial Amor de Perdição). De tão carinhoso, é um filme com identidade imediata do público, que oferece uma saudade gigante. Porém, mais adiante, Botelho realiza um curta, com roteiro de Manoel de Oliveira, e a saudade vai dando espaço para um quê de preguiça, porque o trabalho do discípulo não se mostra assim tão vigoroso.

Ma’ Rosa

ma-rosaMa’ Rosa (2016 – FIN) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O cinema de Brillante Ma Mendoza descambou para a tragédia melodramática de um jeito que não parece ter mais volta. Seu cinema vigoroso, violento, e até ultrajante, tem dado espaço a histórias que se encaixam perfeitamente no Tragédia Pouca é Bobagem. Em Cannes, o filme saiu com o prêmio de melhor atriz Jaclyn Jose, que faz a mãe dessa família que tem uma loja de doces de fachada para seu comércio de drogas numa favela em Manilla.

Maior parte da trama acontece na delegacia, pai e mãe presos em flagrante e os filhos tentando levantar o dinheiro para fiança ou “acordo” com os policiais. Desse ponto em diante, Mendoza não pouca um segundo do filme de pequenas tragédias que apenas se acumulam e perdem todo o impacto que o cineasta tentava tecer a seu drama familiar.

Cartas da Guerra

cartasdaguerraCartas da Guerra (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O cinema português adora se apropriar de cartas para contar algumas de suas histórias. Juventude em Marcha e Correspondências são alguns exemplos, juntamente com este filme dirigido por Ivo M. Ferreira que resgata as cartas escritas por um médico-militar durante os anos que passou em Angola. Todo narrado em branco e preto, o filme se esforça para ser poético e ainda refletir sobre a vida de militar, longe de casa, vivendo numa guerra que não exatamente deles.

Não deixa de ser bonito, as vezes realmente poético, outras lúdicos, mas em algumas repetitivo e enfadonho. Algumas trechos das cartas são de apenas palavras doces e amorosas, que nada revelam, em outras há angústias, saudades e dissabores. O resultado final é positivo, agradável, mesmo em seu ritmo compassado e referências claras a Tabu, de Miguel Gomes.

Uma Bandeira Sem País

umabandeirasempaisFlag Without a Country (2016 – IRQ) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nascido na fronteira Irã-Iraque, o cineasta Bahman Ghobadi continua destacando em seu cinema histórias ligadas às suas raízes. Seu mais recente documentário segue a cantora pop curda Helly Luv, radicada na Finlândia, e um instrutor de voo (Nariman) que dá aulas para criança após ter sofrido um acidente e não pode mais voar.

O cinema de Ghobadi já repercutiu mais, aqui ele traz novas considerações sobre a sociedade curda, a guerra e os ataques violentos, enquanto se aproxima de grupos de crianças. Ao invés de trazer mais da realidade infantil, Ghobadi prefere retratar seus personagens centrais, e essa vontade de agir em comunidade que ambos tem. Interessante como material, decepção quanto a cinema e quanto ao que Ghobadi já apresentou antes.