Posts com Tag ‘40ª Mostra SP’

onascimentodeumanacaoBirth of a Nation (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O caso desse filme merece estudo para que se possa compreender os meandros da indústria cinematográfica. Em janeiro, me plena campanha do Oscar, e a polêmica do Oscar So White, o filme dirigido por Nate Parker era exibido em Sundance, ovacionado por criticas positivas, escolhido melhor filme da competição principal e virtual vencedor do Oscar, no ano seguinte. Desde então, o escândalo da acusação de estupro que teria sido cometido pelo diretor, há alguns anos, praticamente afundou qualquer expectativa do filme.

Polêmicas além da sala escura à parte, o filme já é polêmico por natureza. Primeiro porque traz um tema que o cinema pouco abordou, por mais que 12 Anos de Escravidão seja tão recente. Mas, a escravidão dos negros não passa nem perto do massacre de Judeus, por exemplo, ou dos filmes sobre ditaduras militares.

Nate Parker também protagoniza a história do escravo negro católico que é usado por seu dono para pregar a palavra do senhor a outros escravos, e assim ajudar a “acalmá-los”. A trama é baseada na história verídica da primeira revolução de escravos nos EUA, e que durou apenas alguns dias. Parker segue todas as cartilhas do drama de Hollywood para entregar um filme de impacto, são inúmeras as cenas de abusos e barbáries contra negros, estupros e violências, justiçando a reação em cadeia. Cenas mais que necessárias, mas o tom melodramático exagerado não, e o filme abusa sem dó de câmera lenta e trilha sonora intensa.

O resultado é impactante e emocionante, e ao mesmo tempo frustrante. Parker coloca sua história num pasteurizador e entrega o mesmo formato que, todo e qualquer drama postulante ao Oscar, já fez ou ainda fará. A referência ao clássico de Griffith fica no título, assim como as possibilidades de apresentar um filme que fugisse do mais do mesmo, não fosse o tema tão pouco explorado.

osegredodacamaraescuraLa Secret de la Chambre Noire / Daguerrotype (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Entre o romântico e o fantástico, com toques de suspense hithcockiano, o diretor japonês Kiyoshi Kurosawa vai à França filmar a intrigante história do fotógrafo (Olivier Gourmet), de moda, que larga o sucesso para trabalhar numa antiga técnica de fotografia. Antigamente, acreditava-se que os daguerreótipos poderiam tornar eterna a alma da pessoa presença na foto.

O personagem central é o assistente do fotografo (Tahar Rahim) que não compreenda as razões as quais o viúvo vive recluso no casarão, num misto de obsessão e incompreensão contínua. A trama guarda casais apaixonados, especulação imobiliária que agita os ânimos mais ambiciosos. Kurosawa peca um pouco no ritmo narrativo, dá foco demais na lenga-lenga do interesse pela compra da casa, quando o melhor do mistério está na relação entre casais e nos aspectos sobrenaturais, e em toda delicadeza com que o cineasta conduz as relações amorosas ou sociais. Um trabalho bonito, porém imperfeito.

desconhecidaComplete Unkown (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Rachel Weisz tem esse ar enigmático que poucos tem aproveitado no cinema. Wong Kar-Wai usou seu lado triunfante numa cena de My Blueberry Nights em que a atriz entra pelo bar e todos assistem petrificados. O diretor Joshua Marston tinha a faca, o queijo, e até a goiabada nas mãos para desenvolver ainda melhor esse lado mistério que Weisz expressa naturalmente.

Sua personagem é uma mulher misteriosa, uma bióloga que de repente aparece na festa de aniversário de Tom (Michael Shannon), de mera desconhecida, a culpada por reascender a chama de um esquecido passado, num jogo de mentiras e múltiplas personalidades.

Não fosse a evidente limitação criativa de Marston, o leque de possibilidades que o filme/personagem oferecem poderia desembocar num apetitoso reinicio do jogo (que a cena da dupla com Kathy Bates e Danny Glover deixa apenas um gostinho no ar). Ao contrário, o filme afinal caminha para uma resolução mais fácil, preguiçosa e conservadora.

patersonPaterson (2016 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Numa primeira olhada, Paterson (Adam Driver) é um sujeito tão comum, mas tão comum, que carrega em si até o nome da própria cidade, onde nasceu e sempre viveu, não tendo assim nem seu nome como algo apenas seu. Motorista de ônibus, leva a vida em uma rotina mecânica. E por mais estranho que possa parecer, nesse ritmo tão pensado e programado, ele incorporou algo tão inspirador, dentro desse rotina diária marcada, e que se tornou sua forma de expressão mais pessoal: a poesia. Há o momento exato para o café da manhã, o mesmo trajeto de casa ao trabalho, o mesmo lanche de todos os dias. E, há também o momento para escrever suas poesias, assim como a visita noturna e silenciosa ao bar, enquanto leva o cachorro para passear.

Sua individualidade fica mesmo reservada ao caderno secreto de poesias, que não mostra a ninguém, como alguém que tranca seus sentimentos e não pode, quer, sabe, compartilhar com alguém. Bem diferente dele é sua esposa (Golshifteh Farahani). Dona de casa inquieta e devaneadora, que tem sonho para tudo, a todo instante. Além de uma, aparentemente falsa, necessidade de libertação, que expressa em suas tentativas de fazer arte (pintura, música, culinária, atira para todos os lados, mesmo que sem talento para nenhuma).

Ao longo de uma semana acompanhando seus personagens, Jim Jarmusch tece um conto de pura sensibilidade. Buscando essa poesia que pode estar dentro de cada um. Com uma boa sacada para escapar da armadilha de seu roteiro esquemático, e através de personagens que nunca saem do tom, e que preferem  encontrar no papel, no refúgio das palavras secretas, suas emoções, anseios e interpretações das pequenas coisas. Tudo isso em poesias meio tortas, porém singelas, que dizem respeito apenas ao autor.

A melancolia é um dos sentimentos (ou estados de espírito) dos mais bonitos e cinematográficos. Mas, há bem mais do que a simples melancolia, nessa visão bastante intimista de Jarmusch, e seus personagens interioranos. O diretor coloca, na poesia, a representação da válvula de escape. Usa Paterson como figura central, mas encontra nos coadjuvantes outras formas de expressão dessa possibilidade de fugir da realidade. Seja no perseguidor apaixonado, que é sempre humilhado no bar por sua amada, ou na garota que também escreve poesias, e até mesmo no dono do bar. É a somatória de personagens e melancolias que aumenta a riqueza do quadro que Jarmusch pinta, seu retrato nostálgico da individualidade humano-contemporânea.

cancaoparaumdolorosmisterioHele As Hiwagang Hapis / A Lullaby to the Sorrowful Mystery (2016 – FIL) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Prepare-se para mais uma jornada pelos olhares de Lav Diaz à história triste de seu país. Seus filmes são uma arma contra a memória curta de muitos povos, um trabalho de relembrar o passado comparando-o com as mudanças (ou não mudanças) do presente. Dentro de suas típicas obsessões: o branco e preto, os longuíssimos planos abertos com câmera fixa, o extenso desenvolvimento de seus personagens, e, claro, a longa duração de seus filmes, o que o cineasta filipino realiza é, inicialmente, outro poderoso e fundamental documento histórico. Estamos diante dos anos finais do século XIX, a guerra de parte da população contra o domínio colonial espanhol.

A maior parte das oito horas de duração acompanhamos a saga de Gregoria de Jesus (Hazel Orencio) em busca de seu marido, André de Bonifácio y Castro, quer ele esteja vivo ou morto. Logo ele, considerado o maior líder da revolução filipina à época, fundador do movimento Katipunan, teria sido capturado pelos governantes. Vagando pela floresta, o pequeno grupo sobrevive, aos trancos e barrancos, enquanto encontram pistas do paradeiro. E assim, ajudam como fio-condutor da narrativa de Diaz para fatos relevantes que constituem o período histórico em questão.

Esse núcleo é intercalado com outros encontros e diálogos importantes, cujo conjunto resulta nesse retrato da sociedade filipina, sob tão diferentes aspectos. Seja no massacre de revolucionários presos, seja pelas reuniões dos sarcásticos líderes governistas pró-Espanha, sarcásticos, seja pela presença de lideres religiosos ou, até mesmo, pelos pequenos eventos que funcionam como contos morais abordando justiça e humanidade.

É, sobretudo, uma viagem aos rincões e ao coração do povo filipino. Uma jornada de persistência, de assombro, de amor e de arrependimento. O roteiro também se aproveita para adaptar, livremente, alguns livros de José Rizal, e assim enriquecer com aspectos literários essa imersão épica, e fundamental, a um período que se mostra nem tão distante assim da realidade contemporânea.

Lav Diaz continua a afugentar grande parcela da cinefilia, é uma pena, deviam perder esse medo e mergulhar em seu cinema de personagens em movimento, de reflexões políticas, e da riqueza de detalhes que só o tempo das cenas pode oferecer. O cineasta também nunca se deixa afastar do cinema, aqui presta sua homenagem a própria arte cinematográfica na representação, imperdível, do que teria sido a primeira sessão de cinema, nas Filipinas, para burgueses tolinhos. Veja de uma vez só, veja em capítulos, mas mergulhe profundamente no notável cinema desse filipino.

correspondenciasCorrespondências (2016 – POR) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Por intermédio da leitura de cartas, trocadas entre os anos 59 e 78, entre os poetas portugueses Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, a diretora Rita Azevedo Gomes cria um belo retrato do quão afetada foi a vida dos portugueses frente ao regime fascista da época. Amizade íntima, poesia, o exílio no Brasil (e as comparações entre os dois países) e a saudade de casa, além da sensação de falta de liberdade são temas que se misturam às trivialidades como pequenas viagens, doenças de familiares ou problemas profissionais.

Algumas cenas tem a leitura encenada, outras buscam o lirismo por imagens mais poéticas (mar, floresta), imagens de outros filmes, ou até mesmo apresentam a equipe de filmagem, formando assim um fluxo de memórias ou interpretações. Sobretudo um filme sensorial,, que busca por experiências individuais refletir o trauma devastador de regimes ditatoriais.

depoisdatempestadeAfter the Storm (2016 – JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A cozinha da casa das avós, quase sempre, é o principal ponto de encontro familiar. Local onde as confidências e questionamentos, mais contundentes (ou meras futricas), são elencados, enquanto se cozinha, ou se come uma fruta. O ambiente trivial se mostra convidativo, uma intimidade automática. A cada novo filme, Hirokazu Kore-eda tenta desenvolver novos aspectos de dramas familiares bem genuínos e presentes na cultura japonesa. Seu último filme, apresentado na Un Certain Regard, tem como figura central o atrapalhado Ryota (Abe Hiroshi). Atrapalhado por ser um escritor decadente, um pai pouco presente após o divórcio, e de tão viciado em jogos de azar, trabalha como detetive particular e não consegue pagar a pensão. Talvez, o mais sólido que ele carrega é o amor por sua ex-esposa.

Inicialmente, Kore-eda parecia interessado em desenvolver e investigar esse personagem peculiar. A relação “aproveitadora” com a mãe, a relação ultradependente com o parceiro do trabalho, um adulto ainda imaturo. Com sua narrativa acalentadora e simplista, sempre focada em sua capacidade de abraçar seu público, mesmo que desengonçada em alguns momentos, o cineasta japonês prepara o terreno para o tufão que obriga esses personagens a permanecerem juntos, num mesmo local. São quinze, talvez vinte minutos de possibilidades de proximidade pai-filho, ex-marido e esposa, nora e sogra, relações estas que desconhecemos o passado, porém trazem o peso da atmosfera e do momento de cada um: carência, arrependimento, desesperança e amor. O que fica depois da tempestade, o filme responderá a seu modo.

vendredi-13Vendredi 13 “Friday the “13th” (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em branco e preto, imagens de jovens colocando flores na rua, ascendo velas, e com semblantes desiludidos prestando homenagem aos que morreram nos atentados de Paris, no Bataclan. Nicolas Klotz volta poderoso com seu média-metragem que deveria apenas ser um filme com o radialista Michka Assayas (irmão do cineasta) durante seu programa semanal de rock na rádio Inter.

A ocasião se tornou especial, intercalando as imagens das ruas e do discurso emocionado de Michka, em planos bem fechados e intimistas, principalmente no pedido de Bono Vox para que ele tocasse Peace on Earth (U2) naquele momento. O filme é bem categórico em fugir do óbvio num tema deste tipo, e ainda assim retratar o luto e desconsolo, de toda uma sociedade, frente tal brutalidade.

Porto

Publicado: outubro 28, 2016 em Cinema, Mostra SP
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portoPorto (2016 – FRA/POL/POR) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um dos bons exemplos das possibilidades que o cinema oferece, ao se fugir dos padrões normais de estrutura e narração. Ainda em seu segundo longa-metragem, o primeiro de ficção, o brasileiro radicado nos EUA, Gabe Klinger, oferece um pequeno prazer cinematográfico. Garrel, Cassavetes, Nouvelle Vague, não faltam referências que possam ser destacadas. Mas, há algo além que deve ser muito creditado a Klinger também, mesmo que seja nos personagens nem tão encantadores, e até problemáticos, de alguma forma. Seja na forma como expõe o amor fugaz com truculência e aspereza. Seja apenas por encontrar no balbuciar, muitas vezes, uma forma de expressão (diálogo).

A cidade de Porto filmada em esplendor. Noturna, romântica e iluminada, e ainda posicionada como um terceiro personagem, que se oferece de palco, para um (des)encontro infortúnio de um casal quase improvável. Os personagens praticamente presos, como reféns da narrativa, que embaralha a cronologia e os mantém ali, incapazes de seguir adante no tempo, orbitando no espaço que permite ao público flutuar pela atmosfera, e pouco importar com o que veio antes  ou depois. Basta ver Jake (Anton Yelchin) e Mati (Lucie Lucas), e esse conjunto de cenas embaralhadas, que dão cabo de contar um romance tão irracional.

masnoticiasiparaosrmarsDes Nouvelles de La Planète Mars / News from Planet Mars (2016 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Philippe Mars (François Damiens) é um homem gentil. Tenta ser bom pai, funcionário que segue à risca a dinâmica do trabalho, compreensível com a ex-esposa e com a irmã. De alguma forma, todos abusam dele. A vida não é fácil nessa comédia dirigida por Dominik Moll. Administrar as excentricidades de todos à sua volta parece seu grande desafio.

Não há limites para se ciar situações divertidas, talvez devesse haver para a irracionalidade. O roteiro abusa a capacidade de absorver e tentar administrar tantas loucuras, mas será que nossa vida também não é assim, e aqui só se está exagerando para tornar tudo mais evidente? Moll cria uma panela de pressão, para terminar tudo numa aventura quase juvenil, mas até lá leva qualquer um à loucura com tantos veganos atuantes, filhos adolescentes, e explosões nervosas de colegas de trabalho.