A Trama

L’atelier / The Workshop (2017 – FRA) 

Quem conhece a carreira de Laurent Cantet, sabe da importância da edução em sua filmografia. O cineasta francês ganhou a Palma de Ouro com Entre os Muros da Escola, mas o tema não para por ai. Novamente temos uma espécie de sala de aula, uma oficina de escrita em que um grupo de jovens aprende a escrever um thriller com uma autora consagrada.

No primeiro ato, tudo se apresenta com o esperado. Os alunos discutem ideias, surgem conflitos e a escritora (professora) dá as direções. Das discussões surgem questões atuais, afinal, o grupo é bem heterogêneo entre filhos de imigrantes africanos e árabes, e outros franceses. O ataque ao Bataclan, o passado de luta pelo não fechamento do mais importante pólo industrial da cidade, racismo, são temas que se cruzam ao processo criativo.

No segundo ato, o filme se rebela quase como um thriller psicológico, quando descobrimos mais de Antoine, o mais rebeldio e provocador dos alunos. Como se a vida colocasse em prática as técnicas propostas durante a oficina. É quando A Trama deixa de lado esses temas atuais maiores, para dar foco as aflições da juventude em sua individualidade. Com planos e contra-planos insinuantes e claustrofóbicos, Cantet extrai dos não-atores a pungência de uma juventude que dialoga com os tempos turbulentos da incompreensão e violência gratuita.


Festival: Cannes

Mostra: Un Certain Regard

Prêmios: 


Laurent Cantet na Toca: Em direção ao Sul (2005), Entre os Muros da Escola (2008)

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Ana, Meu Amor

Ana, Mon Amour (2017 – ROM) 

Após ganhar o Urso de Ouro com Instinto Materno, o cineasta Calin Peter Netzer está de volta. Dessa vez com os altos e baixos de um casamento. Embaralhando a linha do tempo, o romeno tenta dar outro peso à história, boa parte narrada através de visitas a terapeutas, e pelos flashbacks reconstrói os momentos de paixão, a crise depressiva dela, até a guinada no perfil de cada um deles após o casamento.

Bonito nos momentos mais íntimos, o filme não vai muito além dessa proposta de confundir para criar algo novo. O casal de intelectuais, que se conhece na universidade, funciona melhor quando ele está sob o controle da situação, totalmente entregue a tentar reerguer sua amada dos ataques de pânico. Curioso como o amadurecimento o deixa solitário, incapaz de compreender em que ponto o bonde passou, e ele perdeu as rédeas do que controlava.


Festival: Berlim

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Contribuição Artística

Uma Espécie de Familia

Una Especie de Familia (2017 – ARG) 

Adotar um bebê recém-nascido não é prática tão incomum na América do Sul, por mais ilegal que a prática seja. O argentino Diego Lerman eleva um desses casos as últimas consequências, com personagens desesperados, outros aproveitadores, e outras situações que apenas aumentam a possibilidade de desequilíbrio numa situação-limite.

É realmente interessante a discussão, os dilemas morais e a dor da separação da mãe biológica são questões discutíveis, mas Lerman prefere o exagero, opta por colocar sua protagonista cada vez mais desesperada e isolada (marido viajante, chantageada, acidente de carro), um pouco de mais para uma familia que está prestes a adotar um bebe, e portanto dar uma guinada total em sua rotina. Por outro lado, é um cinema de fácil conexão co o público, com temas populares e factíveis.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Roteiro

Custódia

Jusqu’a La guarde / Custody (2017 – FRA) 

Na primeira cena, a câmera dá uma sensação quase claustrofóbica de um tribunal discutindo a custódia dos filmes de um casal recém separado. O plano contra-plano entre juíza, advogados e os pais, entre acusações, alegações e até a leitura do depoimento do filho, de que não quer ver o pai, dão ainda mais peso a essa claustrofobia e a decisão da justiça.

A violência doméstica é muito mais comum do que queremos acreditar, e o filme do estreante Xavier Legrand nos faz lembrar disso por noventa minutos. O roteiro molda o vilanismo do pai (Denis Ménochet) ao seu bel-prazer, de forma talvez exagerada, mas é crível a explosão de alguém que não sabe controlar suas emoções numa situação que foge do seu controle (o divórcio contra sua vontade). A justiça impõe obrigações que quase todos não querem enfrentar, e o filme se encaminha para os vinte minutos finais mais tensos e desesperadores de um drama familiar. Quase um filme de terror.


Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Diretor

O Incidente no Nile Hilton

The Nile Hilton Incident (2017 – SUE) 

Flertando com o noir e o drama político, o diretor egípcio Tarik Saleh cria um thriller policial dias antes da revolução de 2011 em Cairo. A ligação entre a morte de uma cantora e a elite que dá sustentação ao presidente Mubarak, sob investigação da delegacia de policia de Kars el-Nil. Não foge do clichê das conexões de corrupção em todas as esferas do poder, mas tem esse elemento das manifestações populares que funciona como um contraponto interessante. Trabalho de imigrantes ilegais, a policia que sobrevive de seus esquemas, e nas ruas o fervor contra o presidente autoritário, e Saleh tentando dar esse clima de neo-noir a Noredin (Fares Fares).


Festival: Sundance

Mostra: World Cinema Dramatic

Prêmios: Melhor Filme

Pororoca

Pororoca (2017 – ROM) 

É outro típico exemplar do cinema romeno, desde as tendências estéticas de longos e temas densos e humanos, a até a forma com que se estabelece os diálogos com agentes da polícia. No filme de Constantin Popescu, a crise familiar se estabelece com o desaparecimento inexplicado, em um parque, de um dos filhos do casal, enquanto as crianças passeavam com o pai.

Pororoca é o fenômeno do encontro violento das águas do mar e do rio. Corre a investigação enquanto os pais tentam sobreviver à realidade desesperadora da ausência. Se equilibrar entre as buscas e a dor da perda, a responsabilidade e a culpa, o casamento dilacerado e até a proximidade com a loucura. Popescu filma toda a dureza da situação com uma câmera vigilante aos pequenos detalhes que indicam o natural afastamento do casal e da realidade com que viviam até culminar no final apoteótico num longo plano-sequencia de sentimentos desaflorando versus a inércia da própria vida.


Festival: San Sebastian

Mostra: Competição Principal

Prêmios: Melhor Ator

Nico, 1988

Nico, 1988 (2017 – ITA) 

A cinebiografia sobre os últimos dois anos de vida da cantora Nico trafega entre sua negação a sua fase no lendário Velvet Underground e os reflexos que a Segunda Guerra Mundial deixou em sua infância. Pelo menos, é por esses mares que a cineasta italiana Susanna Nicchiarelli tenta evoluir. O que temos é uma estrela decadente, mãe afetuosa e distante, e uma mulher que ainda vive dos resquícios de excessos, teima em almejar um tempo que já passou, numa carreira solo muito distante do sucesso de outrora.

Nada da figura mistica da juventude. Uma Nico cansada, viciada sem pudores e que ainda vive cada dia como se fosse o último, mas já com o gosto amargo na boca, nas amizades e na representatividade dentro da música. O tom desesperançoso está também na narrativa, Nicchiarelli conduz a tristeza escondida com lentidão e questionável habilidade em dirigir atores. O filme é a própria sombra de Nico, meio torpe, meio mambebe, e que prefere a melancolia à compreensão de sua personagem.