Posts com Tag ‘41ª Mostra SP’

Nico, 1988 (2017 – ITA) 

A cinebiografia sobre os últimos dois anos de vida da cantora Nico trafega entre sua negação a sua fase no lendário Velvet Underground e os reflexos que a Segunda Guerra Mundial deixou em sua infância. Pelo menos, é por esses mares que a cineasta italiana Susanna Nicchiarelli tenta evoluir. O que temos é uma estrela decadente, mãe afetuosa e distante, e uma mulher que ainda vive dos resquícios de excessos, teima em almejar um tempo que já passou, numa carreira solo muito distante do sucesso de outrora.

Nada da figura mistica da juventude. Uma Nico cansada, viciada sem pudores e que ainda vive cada dia como se fosse o último, mas já com o gosto amargo na boca, nas amizades e na representatividade dentro da música. O tom desesperançoso está também na narrativa, Nicchiarelli conduz a tristeza escondida com lentidão e questionável habilidade em dirigir atores. O filme é a própria sombra de Nico, meio torpe, meio mambebe, e que prefere a melancolia à compreensão de sua personagem.

Napadid Shodan / Disappearance (2017 –  IRA) 

Estamos de volta as discussões de questões religiosas do Islamismo. Exibido na mostra Horizonte de Veneza, o estreante na direção, Ali Asgari, trata do tabu do sexo antes do casamento através de longos planos-sequencias em que o jovem casal de namorados correm por Terrã em busca de um hospital que possa trata-la após a primeira vez do casal, sem que os pais precisem ser informados.

Da inconsequência de jovens a toda sistemática de preservação de questões fundamentais da religião. Os jovens tentam se ajudar, dão de encontro com enfermeiras e médicos que seguem à risca das regras, que não simpatizam com o “segredo”. Sinais de uma sociedade fechada em suas questões, em seus dogmas, enquanto personagens veem, numa única noite, o risco de saúde em segundo plano, menos importante que a honra e a harmonia familiar. A juventude não se rebela, mas também não quer mais seguir algumas regras, e vive sob segredos tal qual o primeiro cigarro ou o primeiro porre, mas com consequências bem maiores do que o simples sermão quando chegar em casa.

E como fica a questão do casal sob todo o trauma de uma noite como essa? O desfecho responde, Asgari filma o frio da cidade com o frio dos corações gélidos desesperados pela solução, incapazes de transmitir carinhos, unidos pela problemática gerada pela tentação sexual.

Caniba (2017 – FRA) 

É bom conhecer o cinema da dupla Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor antes de posar em seu novo, e intrigante, documentário. Leviathan acompanha a pesca comercial e tornava os humanos monstros, só com o poder da imagem. Dessa vez, o retratado é o japonês canibal, réu confesso, que vive hoje de sua “fama”. Outra vez, a dupla foge do fácil, são planos tão fechados no rosto do personagem que a imagem fica mais desfocada do que nítida. Ele vive com o irmão, e a questão do canibalismo é central, porém não didática. Ela surge dos desenhos dele, ou da forma sensorial com que os diretores mergulham numa fotografia quase doentia e incomoda. Longe do brilhantismo do trabalho anterior, Caniba é outro exercício experimental e angustiante.

Where Has the Time Gone? (2017 – BRA/CHI/IND/RUS/AFS) 

Essa pergunta respondida com a visão de cinco diretores tendo os países do BRICS como palco. Idealizado e produzido por Jia Zhang-ke, o filme sofre dos maiores males do filme-coletivo. A falta de unidade é tão gritante que é difícil encontrar conexões entre eles. Walter Salles abre com o acidente ambiental de Mariana, é o primeiro a levantar ao mundo a catástrofe ocorrida no Brasil. Da pungência do tema, Salles concentra no drama de uma familia cujo pai acaba sendo um dos desparecidos do desastre.

Jia fecha o filme com uma reflexão precisa da sociedade chinesa atual, a abertura para ter um segundo filho modifica diversas questões sociais, e o filme tem no cerne um casal discutindo sobre a possibilidade de uma nova gravidez, mas não fica apenas nessa única questão. De resto, melhor passar bem longe da amizade de um idoso e um garoto na Índia. Ou insosso do drama de um casal na Rússia, e mais ainda de outra ficção futurista sul-africana.

Une Vie Violente / A Violent Life (2017 – FRA) 

Após se destacar com Apaches, o cineasta francês, Thierry de Peretti, volta seus olhos agora para movimentos revolucionários em Córsega, que nos anos 90 realizaram alguns atentados pela região.  Num momento em que há tanta discussão sobre o movimento separatista Catalão, é curioso resgatar outros movimentos parecidos, numa passado bem recente.

Sempre em planos mais abertos, que buscam manter distanciamento, o filme acompanha um grupo de amigos revolucionários, que pegam em armas e pregam a separação da Córsega do domínio francês. Entre cenas de reuniões inflamados de planejar ataques, se defender dos inimigos, e ainda levar suas vidas pessoais, o filme apresenta uma mecânica mais interessada num estudo de um jovem cuja vida esteve sempre aliado á violência, do que necessariamente as questões políticas debatidas por eles. É bem menos corajoso na proposta, e mais politizado no didatismo do que Nocturama, e essa barreira, imposta pelo cineasta, na distância entre público e personagem é quase um escudo que não permite adentrar melhor a uma camada de compreensão. O filme fez parte da Semana da Crítica da última edição de Cannes e sofre da inanição emocional que o próprio Peretti impõe.

Uma Vez Mais

Publicado: outubro 26, 2017 em Mostra SP
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Encore / Once More (1988 – FRA) 

Meio musical, meio drama, é assim que Paul Vechialli encontrou sua maneira de tratar a chegada da AIDS na França. O homem disputado por mulheres, mas que acaba descobrindo-se homossexual, é o protagonista dessa trama leve, que guarda tanto afeto e outras características marcantes do cinema de Vechialli, e por outro lado demonstra uma visão tão otimista da vida. Mesmo os momentos de tristeza são marcados por carinho, ou pelo exagero caricato, quando não uma canção para quebrar o gelo. E assim, Vecchialli trata do áspero de forma tão singela e elegante.

A Salamandra

Publicado: outubro 25, 2017 em Cinema, Mostra SP
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La Salamandre (1971 – SUI) 

Que bela porta de entrada para o cinema de Alain Tanner que é esse filme. Tipico representante da nouvelle vague francesa, o cineasta suiço apresenta a leveza, a invenção, os personagens que dialogam e problematizam por tudo, e tantas outras características do movimento que eternizou o cinema francês. São dois amigos escritores que descobrem a história de uma mulher que tenta provar inocência, acusada de dar um tiro em seu tio. Um amigo quer um approach documental, o outro planeja algo ficcional.

É uma espécie de Jules & Jim com um quê de Antoine Doinel, porque os dois se aproximam da “Salamandra”, e a convivência se mistura com relatos do ocorrido, casos de amor, e não só os planos dos textos, como a vida de cada um deles muda completamente. Tanner mantém essa faísca do leve irresponsável, de personagens que pouco se preocupam com o amanha. De caminhos da trama pouco prováveis ou que poderiam parecer quase irrelevantes. A Nouvelle Vague é isso, filmes que se permitem caminhar livremente, tal qual os anseios de seus personagens, e Tanner é mais uma obra que se abre para um cinema vivo e revigorante.