Posts com Tag ‘41ª Mostra SP’

Where Has the Time Gone? (2017 – BRA/CHI/IND/RUS/AFS) 

Essa pergunta respondida com a visão de cinco diretores tendo os países do BRICS como palco. Idealizado e produzido por Jia Zhang-ke, o filme sofre dos maiores males do filme-coletivo. A falta de unidade é tão gritante que é difícil encontrar conexões entre eles. Walter Salles abre com o acidente ambiental de Mariana, é o primeiro a levantar ao mundo a catástrofe ocorrida no Brasil. Da pungência do tema, Salles concentra no drama de uma familia cujo pai acaba sendo um dos desparecidos do desastre.

Jia fecha o filme com uma reflexão precisa da sociedade chinesa atual, a abertura para ter um segundo filho modifica diversas questões sociais, e o filme tem no cerne um casal discutindo sobre a possibilidade de uma nova gravidez, mas não fica apenas nessa única questão. De resto, melhor passar bem longe da amizade de um idoso e um garoto na Índia. Ou insosso do drama de um casal na Rússia, e mais ainda de outra ficção futurista sul-africana.

Une Vie Violente / A Violent Life (2017 – FRA) 

Após se destacar com Apaches, o cineasta francês, Thierry de Peretti, volta seus olhos agora para movimentos revolucionários em Córsega, que nos anos 90 realizaram alguns atentados pela região.  Num momento em que há tanta discussão sobre o movimento separatista Catalão, é curioso resgatar outros movimentos parecidos, numa passado bem recente.

Sempre em planos mais abertos, que buscam manter distanciamento, o filme acompanha um grupo de amigos revolucionários, que pegam em armas e pregam a separação da Córsega do domínio francês. Entre cenas de reuniões inflamados de planejar ataques, se defender dos inimigos, e ainda levar suas vidas pessoais, o filme apresenta uma mecânica mais interessada num estudo de um jovem cuja vida esteve sempre aliado á violência, do que necessariamente as questões políticas debatidas por eles. É bem menos corajoso na proposta, e mais politizado no didatismo do que Nocturama, e essa barreira, imposta pelo cineasta, na distância entre público e personagem é quase um escudo que não permite adentrar melhor a uma camada de compreensão. O filme fez parte da Semana da Crítica da última edição de Cannes e sofre da inanição emocional que o próprio Peretti impõe.

Uma Vez Mais

Publicado: outubro 26, 2017 em Mostra SP
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Encore / Once More (1988 – FRA) 

Meio musical, meio drama, é assim que Paul Vechialli encontrou sua maneira de tratar a chegada da AIDS na França. O homem disputado por mulheres, mas que acaba descobrindo-se homossexual, é o protagonista dessa trama leve, que guarda tanto afeto e outras características marcantes do cinema de Vechialli, e por outro lado demonstra uma visão tão otimista da vida. Mesmo os momentos de tristeza são marcados por carinho, ou pelo exagero caricato, quando não uma canção para quebrar o gelo. E assim, Vecchialli trata do áspero de forma tão singela e elegante.

A Salamandra

Publicado: outubro 25, 2017 em Cinema, Mostra SP
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La Salamandre (1971 – SUI) 

Que bela porta de entrada para o cinema de Alain Tanner que é esse filme. Tipico representante da nouvelle vague francesa, o cineasta suiço apresenta a leveza, a invenção, os personagens que dialogam e problematizam por tudo, e tantas outras características do movimento que eternizou o cinema francês. São dois amigos escritores que descobrem a história de uma mulher que tenta provar inocência, acusada de dar um tiro em seu tio. Um amigo quer um approach documental, o outro planeja algo ficcional.

É uma espécie de Jules & Jim com um quê de Antoine Doinel, porque os dois se aproximam da “Salamandra”, e a convivência se mistura com relatos do ocorrido, casos de amor, e não só os planos dos textos, como a vida de cada um deles muda completamente. Tanner mantém essa faísca do leve irresponsável, de personagens que pouco se preocupam com o amanha. De caminhos da trama pouco prováveis ou que poderiam parecer quase irrelevantes. A Nouvelle Vague é isso, filmes que se permitem caminhar livremente, tal qual os anseios de seus personagens, e Tanner é mais uma obra que se abre para um cinema vivo e revigorante.

Lucky (2017 – EUA) 

O sabor de envelhecer. John Carrol Lynch e seu simpático filme sobre a inevitável luta contra o envelhecimento, esse caminho sem volta para a máquina que é o corpo humano. Em seu último filme, o ator Harry Dean Stanton expõe toda as marcas do tempo em seu corpo, enquanto o filme constrói um sólido personagem através da sua rotina e de seus relacionamentos sociais. Teimosia, passatempos, e o sabor agridoce de enfrentar o medo da morte, a solidão e a forma como encarar o mundo. David Lynch faz participação especial, mas é a entrega de Harry Dean Stanton e seu estilo tão expressivos que tornam o filme nessa bela homenagem à velhice.

Esplendor

Publicado: outubro 23, 2017 em Cinema, Mostra SP
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Hikari / Radiance (2017 – JAP) 

Figura carimbada na competição de Cannes, a japonesa Naomi Kawase se destaca pela beleza com que filma a natureza, a luz do sol e a maneira como transborda emoções entre esse conjunto de imagens tão lindo que configura seus filmes. Por outro lado, o tempo vai passando, e seus filmes tem cada vez mais a tentativa de representar sentimentos. É quase uma tentativa de tornar tangível o que é abstrato. Seu melodrama, cada vez mais carregado, mistura essa beleza visual, com cenas que cruzam a linha da poesia para desembocar no piegas.

Com esse quadro faz todo o sentido que seu novo trabalho tenha um personagem cego, afinal, as emoções mais afloradas e o tato formam sentidos chave para quem perdeu a visão, o cinema de Kawase é uma espécie de representação desse estado de cegueira em que você poderia apenas senti-lo. No centro da trama, um ex-fotografo perdendo a visão e uma escritora de narrações para as versões dos filmes voltadas a deficientes visuais. Espero pro emoções diversas, por muito contato físico carinhoso, e trilha sonora melosa para dar aquela açucarada no que já estava doce. Kawase demonstra um cinema cansado, e preguiçoso em evoluir ou simplesmente se desafiar.

Sweet Country (2017 – AUS) 

O australiano Warwick Thorton volta a tratar da discriminação e violência aos aborígenes numa espécie de western à australiana. Um filme muito duro, denúncia de um passado de culpa que paira sob a sociedade australiano. Curioso como o diretor cria tantos frames de beleza impar enquanto filma a aridez da vida subalterna dos aborígenes, feitos de escravos ou maltratados pelos endinheirados brancos que servem ao rei da Inglaterra.

A preocupação estética de Thorton revela proximidade com a beleza dos filmes de Terrence Malick. Mas, ele ousa algo mais. A primeira cena mostra uma panela com água fervendo, enquanto ouvimos o som de uma briga. Numa cena de violência a uma mulher, a imagem escurece lentamente, e você tem o som e a imagem se forma na cabeça do púlico. Roupas empoeiradas, essa beleza visual funde a paisagem a personagens e o contexto histórico. Outro ponto curioso é a utilização de pequenos frames (dois ou três segundos, com flashbacks ou cenas futuras) no meio de uma cena qualquer, revelando destino ou passado de um dos personagens em foco. É uma forma de responder questionamentos ou causar curiosidade.

Fora tudo isso, há a força da própria trama. Os abusos e injustiças, além da capacidade de desenvolver seus personagens dentro de seus costumes ou da aceitação de sua realidade, que pode estar ligada a seus princípios, ou apenas a sua raça com todas as limitações impostas pela sociedade.

9 Dedos

Publicado: outubro 22, 2017 em Cinema, Mostra SP
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9 Doigts / 9 Fingers (2017 – FRA) 

Sempre filmando em branco e preto, F.J. Ossang é uma espécie de Jim Jarmusch francês. Músico, cineasta e outras tantas atividades artísticas, com seu novo filme saiu premiado como melhor diretor em Locarno, e, realmente, são os aspectos visuais e seu virtuosismo estético que torna seu noir expressionista experimental num interessante representante do cinema dos festivais de 2017.

De uma simples fuga para evitar que a polícia cheque seus documentos, um encontro com um homem á beira da morte e passa a ser perseguido por uma gangue que o obriga a embarcar num navio, com alguma mercadoria valiosa. O fagulho de roteiro que permite a Ossang destilar seu estilo narrativo, seus planos fechados, ou cenas belíssimas com mar. Diálogos complexos, ritmo quebradiço, é um filme que vislumbra mais pelo que pode ser visto, do que pelo que tem a dizer. É cinema puro, ainda que guarde atenção de poucos.

Félicité (2017 – FRA) 

O novo filme do senegalês Alain Gomis levou o prêmio do júri no último festival de Berlim. É mais um drama social africano, financiado pela francês, com o tom de critica social e fortes elementos autoriais na estética. Muitos planos fechados no rosto dos atores, principalmente Véronique Beya Mbutu, privilegiam a presença marcante de seus rostos e o clima de desesperança geral.

Estamos no Congo, ela é a cantora (as melhores cenas são dela cantando num bar, ou aquele lugar seria uma casa de show, com o público interagindo, o colorido das roupas abagado pela iluminação escura), que é surpreendida pela noticia do acidente de moto do filho. A necessidade de pagar uma cirurgia, sem que tenha os recursos. Nesse ponto lembra o filme dos Dardenne com Marion Cotillard pedindo seu emprego de volta, de casa em casa, aqui ela sai em busca de doações.

No segundo ato, com as questões médicas já resolvidsa, Gomis parte para algo mais abstrato, seja na aproximação sentimental, seja na desesperança de seus personagens. Nesse ponto, a geladeira quebrada se torna metáfora para os próprios personagens, que tentam formas de sobrevivência, e o que era cru e doloroso se torna essa quase poesia abstrata meio cansada, meio sem rumo.

Toivon Tuolla Puolen / The Other Side of Hope (2017 – FIN) 

Dentro das obsessões estéticas e narrativas de seu cinema, o finlandês Aki Kaurismaki é mais um a trazer o tema dos refugiados sírios à Europa. Seus planos fixos, os ambientes sempre em cores frias e os diálogos que nunca saem do tom dão a tônica de seus filmes, e mesmo quando trata o melodrama do refugiado renegado pelo governo local, o cineasta faz o tema caber bem dentro de seu estilo cinematográfico. E o faz com boas doses de humanismo e otimismo (prática nem tão comum assim em seus trabalhos anteriores).

Se de um lado está o sírio clandestino em busca de abrigo, de outro o homem cansado de seu emprego e casamento que larga tudo para abrir um restaurante. O destino os confronta e o finlandês resolve ajudar ao refugiado desesperado, enquanto os toques de humor de Kaurismaki permeiam as relações sociais. É a bandeira da tolerância sendo estiada, por mais que seus roteiros sempre gostem de criar situações incomuns, discutíveis, ou até exageradas (que dentro da passividade e calma de seus personagens, talvez camufle muito desse exagero).

Não é um cinema que empolgue a muitos, principalmente pela lentidão, ou até pela clareza com que trata de seus temas. Mas, não deixa de ser uma voz importante que não abuse da miséria humana em imagens chocantes, e prefere encontrar personagens e situações que dialoguem com a reflexão de qual Europa “estamos” construindo. Um de seus melhores filmes, vencedor do prêmio de melhor direção no festival de Berlim.