Posts com Tag ‘42ª Mostra SP’

The Green Fog (2017 – EUA) 

Guy Maddin já conseguiu ser bem mais criativo do que aqui, onde ele tenta trabalhar só com colagens de outros filmes clássicos para criar uma homenagem a Um Corpo que Cai e à cidade de São Francisco. Codirigido pelos irmãos Evan e Galen Johnson, demora um pouco até sacar que a montagem tenta recriar o clássico de Hitchcock, e logo a seguir a proposta cansa, até porque as conexões não são tão perfeitas assim. O resultado final é um remendo curioso, e um jogo de tentar adivinhar os filmes que estão sendo utilizados na montagem enquanto surge a estranha névoa verde.


Festival: Berlim 2018

Mostra: Forum

Sueño Florianopolis (2018 – ARG/BRA) 

A diretora argetina Ana Katz construiu aquí um exemplar de cinema sulamericano made in exportação. Está todo embalado para agradar plateias que procuram o exótico do cidadão comum da região. Em tom de comédia dramática, trata argentinos e brasileiros como povos do jeitinho, que buscam glamour e sempre acabam bem longe do planejado.

Exceção à comédia de costumes (pechinchar no hotel, casa alugada que não era o esperado e etc), há o mais interessante no filme que é a integração entre o casal protagonista e o de brasileiros (Andrea Beltrão e Marco Ricca). De um lado um casamento em stand by, de outro um antigo relacionamento de quem ainda convive no dia a dia. As relações e flertes, as mutações entre relacionamentos e a necessidade de dar liberdade aos filhos soa bem mais curiosa, ainda que se apegue nesse tom de humor de personagens caricatos. No final, é uma visão pessimista da familia tradicional, nos idos anos 90.

La Quietud (2018 – ARG) 

Em seu novo filme, Pablo Trapero camufla o tema da ditadura militar argentina com uma história familiar da relação conturbada de três mulheres. Primeiramente a cumplicidade entre as irmãs, afastada do dia-a-dia por viverem em outro país, depois a relação de cada uma delas com a mãe, e com seus maridos ou antigos amores. A trama entrega lentamente a verdadeira relação entre cada um deles, além de detalhes do passado e um capítulo de filme de tribunal que oportunamente resgata, fortemente, o tema político.

Cumplicidade x rivalidade, o luto, está tudo misturado. Trapero eleva a temperatura sexual e as crises (algumas histéricas) para intensificar essa disputa familiar, dessa forma exagera onde sutilezas seriam necessárias, além de aproveitar pouco os homens, mero coadjuvantes. É um Trapero querendo ser mais sensível, flertando com a alma feminina, mas com resultados muito aquém.

The Favourite (2018 – RU) 

Yorgos Lanthimos já tratou de jogos de poder antes, mas de forma muito mais repugnante. Mas, aqui ele está falando com um público bem maior, filmado em inglês, astros do cinema, por isso mesmo uma versão bem mais palatável de seu estilo de cinema irônico, provocador e altamente manipulador, mas ainda assim um estudo sobre jogos de poder nas relações humanas, e que não poderia ser mais atual pela domínio feminino em cena e no protagonismo da direção do reinado.

Seu roteiro se baseia na história, Inglaterra do século XVIII, e três mulheres dominando e manipulando a corte britânica, são elas: a rainha Anne (Olivia Colman), sua conselheira fiel e amante (Rachel Weisz) e a prima da conselheira (Emma Stone). A rainha emocionalmente fragilizada e as duas mulheres em ambições próprias por mais espaço no poder. A eterna ironia de Lanthimos encontra aqui o veneno de constatar táticas nada ortodoxas nos movimentos de cada uma delas para alcançar o que querem, desde seguir em guerra com a França, até apenas galgar melhores posições na corte.

O mais impresssionamente mesmo é como o cineasta grego filma tudo isso, o preto presente em quase todas as cenas, a iluminação de velas em algumas cenas, a grande ocular que captam a grandeza de grandes halls do castelo. Tudo orquestrado com cenas de sexualidade seca, de frieza nos relacionamentos e de diálogos onde essa tal ironia parece serr a única tônica (ok que aqui alguns até passam do tom por tamanha perfeição de ironismo). Esse visual vigoroso, as atuações impecáveis (principalmente a desconstrução da nobreza de Colman) e a beleza de cenários e figurinos devem ser um prato cheio ao Oscar, mas o filme é mais que isso, é também esse panfleto feminista, ainda que critico de que com o poder, as mulheres também manipulam interesses e sentimentos, usam o sexo a seu favor e a violência como forma de alcançar um bem maior.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Zimna Wojna / Cold War (2018 – POL)

Não é difícil se encantar com o novo filme de Pawel Pawlikowski. O romance em preto e branco, em ritmo de nouvelle vague e cinema noir, o charme com que a câmera capta a noite em que o casal caminha por ruas de Paris ou da Polônia, nos anos 50 da Guerra Fria. E a melancolia de um amor que os atrae e, ao mesmo tempo afasta, em tantas fases da vida. É disso tudo que o filme trata, e uma história tão cara ao próprio cineasta, afinal é a história vida de seus pais.

Ele é Wiktor, o diretor musical de um grupo de música folclórica polonesa, entre as cantoras escolhe Zula, e se apaixona pela jovem. Lá se vão quinze anos das aventuras românticas que o filme faz questão de apresentar em tom de amor platônico entre exílios, casamentos que permitem cruzar a froneira oriental da Europa, separações e perseguição política. Além da tentativa de cada um desenvolver sua carreira, Pawlikowski oferece travelings charmosos, olhares tórridos, e muitas cenas de canções (folclóricas, jazz, cantadas em francês, polonês, até russo) capazes de quase hipnotizar parte do público com sofisticação e nuances dos altos e baixos desse amor celebrado com a belíssima cena final. Há tantos filmes que não sabem terminar, aqui  Pawlikowski não poderia encerrar tão bem.

3 Faces

Publicado: outubro 31, 2018 em Cinema, Mostra SP
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Se Rokh / Three Faces (2018 – IRA)

Jafar Panahi não para, mesmo proibido pelo governo iraniano de filmar, e em prisão domiciliar, ele segue criando seus filmes e refletindo seu país e seu povo. E, dessa vez, um dos melhores filmes dessa sua safra mais recente, pós-proibição. Um vídeo de celular com o suposto suicídio de uma jovem que queria estudar para ser  atriz, mas foi probida pela familia. O próprio Jafar e a atriz Behnaz Jafari viajam até a aldeia para saber os fatos pela jovem, afinal o vídeo não é conclusiva se a tentativa de suicídio foi efetiva.

Desse mote, o cineasta iraniano propõe uma imersão a locais parecidos com o que filmava Abbas Kiarostami, a proximidade com o povo mais ingênuo e singelo, os tabus religiosos e convenções sociais, as crenças populares de como auxiliar no futuro sucesso dos filhos. De maneira pacata o filme reflete três gerações de atrizes, compar as liberdades entre o velho e o novo, enquanto se permite investigar mais sobre essa cultura popular, pela vida ao lado do desertoe por suas crenças no que é realmente fundamental. Um filme feminista sem discurso-panfletário e nem timidez, Panahi vai se especializando em se colocar em seus filmes e criar histórias que refletem os que menos voz ativa.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Amanda

Publicado: outubro 31, 2018 em Cinema, Mostra SP
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Amanda (2018 – FRA) 

Mikhaël Hers volta a falar de perda, com sua melancolia colorida, a fluidez da tristeza. Em seu filme anterior, o surpreendente Aquele Sentimento do Verão, a morte da de uma garota aproximava a irmã dela do namorado, mas não um envolvimento romântico, e sim um companheirismo pelo luto, um sentimentoq eu não estamos muito acostuamados a ver retratado.

A figura central é de um jovem, de 24 anos, que vive de empregos temporários e é muito ligado a sua irmã e sobrinha. Uma tragédia assola a familia, Hers insere aqui questões da violência e da intolerância com um ataque terrorista em Paris, e a dinâmica de todos os personagens muda drasticamente. Equilibrando a narrativa entre o drama e a leveza, é encantador descobrir cada um se adaptando a nova realidade, os relacionamentos que se fragmentam, as responsabilidades que aumentam, a adaptação que é delicada e pede urgência.

É pela leveza da nova rotina e das tarefas diárias que Hers insere a dor, a tristeza, uma saudade que traz lágrimas aos personagens, ao público, a qualquer um que se envolva minimamente com dramas tão possíveis e doloridos. E Hers faz tudo isso sem jogar sujo, a dor vem de repente, num momento qualquer, e passa, por um tempo, mas passa. Casos amorosos, a ajuda da familia e o se redescobrir, é tudo uma tarefa que não há cartilha, mas que enfrentar é a única solução. O filme é lindo por essa capacidade de ser tocante e puro, de olhar o futuro com otimismo, mas sem se esquecer das pedras que surgem pelo caminho.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Horizonte

Ahlat Agaci / The Wild Pear Ter (2018 – TUR) 

De volta ao local onde nasceu, o jovem Sinan briga com o pai (que atola a familia em dividas ao perder tudo em apostas), com a mãe, com a irmã, com o escritor mais conhecido da cidade, com a garota que ele gostava na infância, com os amigos. Pretende ser escritor, mas vê na carreira de professor suas possibilidades mais reais. Durante três horas, o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan desenvolve uma rede de personagens ao entorno do jovem idealista, e teimoso, capaz de uma construção forte do personagem, tanto intelectual quanto sentimental.

Estamos falando da falta de perspectiva jovem (a carreira de policial para a última possibilidade para tantos), o choque de gerações com pais, aspectos econômicos e sociais em confronto com costumes. Boa parte dos encontros e diálogos tem mais de vinte minutos, as conversas demoram a entrar em seu tema principal, dessa forma Ceylan investiga pessoas e lugares, cultura e formas de pensar. E, se parece um filme menos poético e metafórico do que Sono de Inverno, demonstra sua capacidade em refletir sobre comportamentos humanos, em olhar ao passado de cada um com pespectiva do futuro, sobre relações familiares, os altos e baixos de cada um, e provar, que todos sempre tem seu valor.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição

Double Vies / Non-Fiction (2018 – FRA) 

As mutações do mercado literária frente o crescente avanço do digital. Olivier Assayas traz o debate ao cinema através das figuras centrais que protagonizam seu novo filme. O editor (Guillaume Canet) que tem dúvida quanto a modernidade editorial de abandonar livros e viver de e-books e áudiolivros, de perder a figura do critico em detrimento de algoritmos e robôs que indicam o que os leitores devem apreciar. A trama não cansa (o público talvez um pouco) em trazer a discussão à tona em casa, no escritório, em paletras, ou na cama com a amante. Em alguns momentos o discurso soa gasto, meio ultrapassado, em outros mais vívido e interessante frente a realidade que bate à porta dessa indústria cultural.

De outro lado há o autor (Vincent Macaigne), que só consegue escrever autoficção (ou seus relacionamentso amorosos com alguma licença poética). É ele quem traz o tem que vai se tornando central na segunda parte do filme, essa questão do desgaste dos casamentos, da infidelidade, do amor por mais que haja traição. Enfim, as vidas duplas do título. Nesse ponto a trama cai em mais estereótipos de como o mundo vê os franceses, além de tecer uma frágil convicção de que a monogamia está fradada ao completo fracasso e que os adultos são maduros o bastante para tais tipos de relacionamentos.

Assayas tenta intricar um pouco isso tudo, traz doses de humor mordaz (mas pouco usual), e desequilibra ainda mais com outros temas e complexidades: como Juliette Binoche como a atriz de teatro fazendo sucesso em uma série qualquer de tv. A vida e os caminhos econômicos da literatura são ainda mais complexos do que tudo isso.


Festival: Veneza 2018

Mostra: Competição

Le Livre D’Image (2018 – FRA) 

Gosto muito quando Jean-Luc Godard está inventado, radicalizando, e também critico, e menos quando se coloca apenas como um velho rabugento balbuciando uma ideia. Nessa safra mais recente safra de seus trabalhos há  ambos os casos, incluindo esse novo que já nasce como um dos acontecimentos audiovisuais do ano. Começa com imagens de grandes clássicos como Johnny Guitar, Um Corpo que Cai e Interlúdio, intercalando com imagens de violência ao redor do mundo. A guerra está aqui.

O experimentalismo também está presente, a desconstrução da imagem, das cores, contraponto a narração em off do próprio cineasta (que nem sempre ganha legendas, propositadamente). Uma palavra se repete inúmeras vezes: Remake. Estaria Godard pedindo para uma refilmagem da proria vida no planeta, vamos contar essa história novamente para tentar fazer melhor?

A parte final tem grande foco sob o mundo árabe. De novo a violência escancarada sob nossos olhos, mas uma urgente preocupação em demonstrar respeito e aceitação a muçulamos e árabes em geral. A ideia de não demonizar todo um povo, de tornar inimigos, de relembrar o quanto sofrem (pobreza, seca, violência), a dor do povo que os governantes só enxergam quano interessa. E assim, Godard provoca todo o Ocidente, entre montagem desconexa, frases que parecem incompreensíveis e um conjunto de colagens de fotos, arquivo e suas criações, que formam esse filme-retrato da violência mundial, do absurdo das interrelações e que comprava que a guerra está aqui.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição