Posts com Tag ‘43ª Mostra SP’

Patrick (2019 – POR)

“- Do que você tinha mais saudade? Da língua”. Reproduzido um pequeno diálogo, já na reta final do filme, que não dá nenhum spoiler da história, mas me pareceu bem representativo da odisseia do personagem. Reconduzido a Portugal, apos ser raptado, levado à França, e abusado sexualmente, ainda garoto, Patrick só é identificado por molestar uma mulher.

Molestado quando garoto e agora sai de controle em prol de seus ímpetos sexuais. Talvez alimentado pelo meio em que viveu, talvez por ter aprendido na pele que esse comportamento é normal, o fato é que o jovem é reconduzido à casa dos pais e surge a difícil, quiçá impossível, tarefa, de todos os familiares, em readaptar. O estreante Gonçalo Waddington até envereda por algum tipo de respostas no final, mas até lá nos entrega um filme de silêncios, de impulsividade, de amargura, nunca de arrependimentos.

La Llorona (2019 – GUA)

Cada mais condizente incorporar o gênero do horror a temas políticos. Não há terror maior do que os abusos políticos que afetam tanto a população, mas parecem menos graves do que um bandido com uma arma na mão. Recentemente, o cinema tem explorado bem esse inesperado casamento.

O cineasta guatemalteco Jayro Bustamante se aproveita da lenda da Llorona para resgatar os genocídios de militares nos anos 80 em seu país. Milhares de indígenas foram mortos, ditos revoltosos, quando estavam mesmo na região onde se podia explorar petróleo “atrapalhando” o desenvolvimento.

Trinta anos depois, o personagem fictício do general (claramente inspirado no general ditador Efraín Ríos Montt, que governou o país entre 82-82, após um golpe de estado), está sob julgamento desse genocídio e começa a ser assombrado pelo choro de uma mulher. O encontro do realismo fantástico com o homem senil e sob forte pressão psicológica (na porte de sua casa o povo protesta) está no filme, mas as figuras centrais são as mulheres daquela casa: a filha, a mãe, as empregadas, e como elas lidam com a situação, as descobertas e tudo mais. O novo filme de Bustamente não chega a me encantar no todo, mas é de uma força importante, e lidamente filmado em todos os aspectos daquela casa em efervescência particular. A esposa que defende o marido, a filha que questiona, as empregada que abandonam. A linha tênue entre o drama político e o terror paranormal parece ser reescrita aqui.

System Crasher

Publicado: novembro 5, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Systemsprenger / System Crasher (2019 – ALE)

Um crash no sistem de todos à sua volta. O filme dirigido por Nora Fingscheidt é bem competente em causar esse turbilhão no público. Trilha sonora agitada, uma garota de 9 anos explosiva, inquieta, realmente incontrolável. Que boa surpresa o escolhido da Alemanha ao Oscar.

Sua fortaleza vem da capacidade de provocar o público, em deixar sensação parecida ao estar à flor da pele, tal qual vivem todos os responsáveis por Benni. Que precisa tanto de carinho, e sua carência se reatroalimenta em mais explosividade. Moderninho na montagem e aflitivo em tantas sequências que nem te dá tempo de ter pena desse pequeno furacão humano cuja impulsividade parece mais que o estado de espírito, mas sim o modus operandi. E quando você consegue respirar, por um segundo, bate a tristeza em constatar que é só uma criança.

Dente de Leite

Publicado: novembro 4, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Babyteeth (2019 – AUS)

Com todas as afetações dos losers de Sundance, e ainda bebendo da fonte de A Culpa é das Estrelas, o filme  constrói um coming-of-age de personagens desregrados, dependentes químicos, cheios de problemas familiares, e a adolescente com câncer. Dirigido por Shannon Murphy, funciona melhor nos momentos de comédia romântica adolescente, ou nos dramas e carências do pai, mas é tanta afetação que só poderia acabar em sentimentalistmo barato.

Official Secrets (2019 – EUA)

Um pouco da história de Katharine Gun (Keira Knightley), uma tradutora de mandarim da agência britânica de segurança nacional, que tomou coragem de trair os procedimentos e vazar à imprensa um memorando secreto que entregava mentiras do primeiro-ministro britânico quanto a posse de armas de destruição de massa por parte de Saddam Hussein, não justificando assim a Guerra do Iraque.

Dito isso, e toda a coragem de seguir seus princípios, e arcar com as consequências, Gavin Hood transforma essa história num thriller político banal, apenas preocupado em reconstituir a história, o julgamento, e os trâmites jurídicos. Um filme preguiçoso que facilmente poderia ser substituído por um bom artigo de algum órgão de imprensa.

La Odisea de Los Giles (2019 – ARG/ESP)

Seguindo a forte tradição de um cinema popular argentino, de roteiro bem amarrado e narrativa simplória, com grande penetração no mercado internacional, o diretor Sebastián Borensztein volta a trabalhar com Ricardo Darín (basta lembrar de Um Conto Chinês?) e é a aposta de nosso Hermanos para a temporada de premiações.

Alguém se lembra do corralito? Quando o governo argentino confiscou o dinheiro de todos nos bancos e causou um alvoroço inacreditável? A trama parte do fato histórico e crua uma comédia de assalto de um grupo que quer vingança de quem os enganou um dia antes do corralito. Trafegando entre o humor e uma fantasia pé no chão, o cineasta Borensztein está mesmo entregando diversão ao público pouco exigente, que pode se esbaldar com pitorestas piadas de pequenos absurdos. Atores no piloto automático, pequenas provocações de política regional. É o argentino rindo de suas próprias desgraças, em breve teremos filmes sobre medidas dos governos Kichners ou Macri, porque o material é farto para esse tipo de cinema.

Technoboss (2019 – POR)

As neuras de quem está à beira da aposentadoria e já perdeu o filtro de manter estabilidade de todas as facetas da etiqueta social. Ele é rabugento, é cínico, ele canta (todos os estilos musicais que vc possa imaginar). Technoboss é daqueles filmes que fogem dos padrões, tal qual os filmes de João Nicolau que ataca novamente com seu cinema despojado e irreverente, de humor de pequenos absurdos, das pequenas manias, sempre em direção aos mesmos dilemas que todos temos. Divertido, sem precisar ser hilário, um saboroso devaneio sobre a velhice, sobre o choque entre o velho x novo, uma pequesa sátira ao estilo português médio de ser, e às conveções profissionais que perduram até hoje.