Posts com Tag ‘43ª Mostra SP’

Miss Marx

Publicado: maio 3, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Miss Marx (2020 – ITA)

Você nao precisa gostar dos filmes para se interessar por eles. Por enquanto tem sido assim minha relação com a diretora italiana. Se inspirar na biografia da filha de Karl Max para trazer paralelos de discurso com o mundo atual (posição da mulher, capitalismo), brincar com rock (ok, algo como fez Sofia, mas diferente), quebrar a quarta parede, todas maneiras de dar dinamismo, de colocar sua assinatura além dos discursos do filme de época.

Nem todas as ideias funcionam perfeitamente, no todo é um filme interessante, talvez mais convencional do que ela imaginava ter finalizado. O mais legal é o cinema ter espaço para novas visões, novas leituras, dando espaço e liberdade. Afinal, se excluirmos o sobrenome Marx, temos uma mulher determinado, corajosa, mas também apaixonada, mais para frente que seu tempo e ainda assim tendo que aceitar alguns sapos.

Notturno

Publicado: maio 2, 2021 em Cinema
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Notturno (2020 – ITA)

Trata-se da fórmula Gianfranco Rosi de fazer documentários num retrato dos escombros de guerras civis em países como Iraque, Curdistão, Síria e Líbano. Escombros esses dos edifícios, da geografria, mas, principalmente os escombros humanos que tentam sobreviver com tantas feridas, violência, o verdadeiro horror. Digo a fórmula porque quem conhece o estilo do documentarista italiano já pode imaginar o formato observacional, o ritmo lento, a predileção em testemunhar detalhes de cotiadiano dos personagens, enquanto fica evidente a herança que os conflitos trouxeram.

Em seu filme anterior, Rosi punha em foco os imigrantes chegando à Europa, dessa vez ele vai às origens desses imigrantes, onde estão e como vivem. É novamente um retrato bem íntimo, e até devastador, e da maneira quase poética e melodramática com que o filme usa as nuvens e os silêncios, e outros elementos, talvez um pouco explorador.

Walden

Publicado: maio 1, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Walden (2020 – FRA)

“É triste ver pessoas que no passado colocavam sua esperança no futuro, e agora, no futuro, eles colocam sua esperança no passado”

Uma história de amor que camufla a esperança com desesperança. A narrativa se divide em dois tempos, no hoje uma mulher retorna a Vilnius, após 30 anos vivendo em Paris, gostaria de voltar ao lago onde viveu bons momentos com seu primeiro amor. De outro lado a construção do romance entre a filha de um médico com um bad-boy cujo pai está desempregado, por isso vive da venda de moeda estrangeira no mercado negro. 1989, na Lituânia, que ainda fazia parte da União Soviética. Os jovens ouvem que as coisas estão mudando, mas continuam descrentes, muitos sonham em emigrar ao Ocidente.

O caso de amor, com toques de Rohmer, afinal são tantas e tantas cenas de conversas entre jovens na saída da escola, ou à beira do lago, mas há sempre a adição dos aspectos político-econômicos. O contraste entre classes, o incomodo que alguns expressam mais, outros menos, mas quase sempre de forma amena, como quem aceita seu destino. É desse contraste entre amor e esperança opaca que o filme encontra sua força, personagens que nem felizes e cheios de planos inspiram tanta alegria, de pessoas que não enxergam grandes mudanças entre passado e futuro, uma esperança opaca.

Apenas Mortais

Publicado: abril 29, 2021 em Cinema, Mostra SP
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Being Mortal (2020 – CHI)

Num melodrama simples, parte da história de uma filha cuja pai sofe de Alzheimer, e as terríveis consequencia que você pode imaginar, uma cena no banheiro, em especial, é simples e fortíssima, por mais que explore as mazelas e as vergonhas sem pudores. Mas é também um filme sobre ainda ser solteira (o) na China, sobre ser família (unida, mas longe da propaganda de margarina), sobre o sistema de saúde chinês. Enfim, é mais sobre a vida cotidiana, menos metáfora e poesia e menos realidade (pelo menos em grande parte do filme).

O que Arde

Publicado: dezembro 15, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Lo Que Arde / Fire Will Come (2019 – ESP)

Oliver Laxe vai se firmando como um cineasta de sensações. O faroeste em Marrocos de Mimosas não me cativou, mas ficou muito a sensação do sol, da areia, do calor. Aqui ele filma na Galícia (onde cresceu) e transfere esse cinema sensitivo para a floresta, para uma cidade pequena e o ritmo pacato de vida da região. Um piromaníaco volta à cidade para cuidar da mãe octagenária depois de alguns presos por incêndio criminoso.

A segunda metade do filme é acalorada com um incêndio propriamente dito, a luta por controlá-lo, flamejante e pungente, se divide com o pré-julgamento de que seria, novamente, o piromaníaco que tenha o causado. E a reação popular é forte, com dedo em riste. Oliver Laxe não parece querer poetizar nada, mas reflete bem a busca por vilões, a intolerância e a pressa da humanidade por decidir pontos que nem vão solucionar a questão em si.  

Di Jiu Tian Chang / So Long, My Son (2019 – CHI)

Que saga dolorosa construiu aqui o diretor Wang Xiaoshuai. A incurável dor do luto, que atravessa décadas. O cineasta chinês acompanha dois casais de amigos durante anos, principalmente o casal cujo filho morre tragicamente. O filme é situado na década de 80, a partir das mudanças política, culturais e econômicas chinesas. 

A dor é comovente, o melodrama dolorido, por isso os atores foram premiados no festival de Berlim (e realmente merecem), mas Xiaoshuai vai além ao traduzir um pouco do instinto de família que move o povo chinês. É uma relação que o brasileiro tem se afastado, mas o povo chinês ainda cultiva a família como as pessoas mais presentes em suas vidas. As transformações do país são represntadas na dos dois casais, alegrias e tristezas, sucessos e insucessos, além de todo o peso da tragédia que cada um carrega, a seu modo. Prepare os lenços porque são três horas valiosas de um cinema simples e certeiro.

Pacarrete

Publicado: dezembro 5, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Pacarrete (2019)

Sensação no Festival de Gramado, o longa-metragem dirigido por Allan Deberton oferece a Marcélia Cartaxo palco para ela brilhar numa personagem controversa, divertida, e profundamente triste. Ela nos faz rir com sua empolgação dos tempos de bailarina em Fortaleza, sua mania de misturar o francês e o português, e de beber de um tipo de cultura artística que não dialoga muito com o gosto popular. Na pequena cidade de Russas, tudo soa como excêntrico, e suas manias e egocentrismo apenas a tornam uma moradora peculiar, imcompreendida, quase uma megera.

Em entrevistas, o cineasta afirma que conheceu a verdadeira Pacarrete na infância, e não é de surpreender que alguém assim viva alimentada de seus sonhos, suas paixões obsessivas e dessa fuga da realidade. De outro lado, toda essa empolgação e via cômica guarda uma pessoa tão solitária, e amargurada por suas decepções. Nesses momentos, Cartaxo volta a surpreender com com essa sensação de pesar, com o desencanto de quem não perde a pose, mas por dentro vive em frangalhos.

The Lighthouse (2019 – EUA/BRA)

Da turma dos grandes filmes do ano, o novo trabalho de Robert Eggers flerta com o cinema de Bergman, mas prefere o humor e o horror do que o estudo psicológico de um Persona, por exemplo. Talvez porque aqui estejamos diante do tese de convivência de dois homens, e sua virilidade e fragilidades estão expostas de maneiras bem diferentes do que a manipulação sugeria no clássico do cineasta sueco.

Um farol no meio do nado, os dois homens (Dafoe e Pattinson) chegam para trabalhar por uma temporada ali, completamente isolados de qualquer sinal de sinalização. Os dias passam entre confrontos, bebedeiras, imposição de poder, e os seus maiores medos deflagrados. Eggers opta por sugerir tudo, de alguma tensão sexual à fantasia com uma sereia, até os segredos e barulhos da sala trancada em que só homem mais velho pode entrar, assim como os segredos que levaram o mais jovem a aceitar aquele emprego.

Memórias, histórias, respeito e desaforo. O Farol é sobre essa relação masculina, é sobre os altos e baixos, sobre angústia e caos. Interessante como o filme não ganha tom teatral, Eggers opta pela fotografia em preto e branco, por enquadramentos que explorem corpos, relações e espaços, e além de dar sua dose de fantasia, realizando assim um filme que foge muito dos padrões mais comerciais, que grita por uma tela grande e som potente, e pela possibilidade de imersão do público nesse lugar fétido e misterioso.

Savovi / Stitches (2019 – BOS)

Mais de 500 bebês desapareceram entre 1998-99, na Guerra de Kosovo. O diretor Miroslav Terzic resgata esse período conturbado, que ainda nem está totalmente resolvido, entre os países da região dos Balcãs, e o faz por um trauma como esses. Já se passaram dezoito anos que seu bebê ter sido declarado morto no parto, ela (Snezana Bogdanovic) tem outra filha, um emprego, sua família, mas o desespero por não superar e duvidar que seu filho não tenha sido sequestrado é latente em seu rosto. O que lhe resta é investigar, tantos anos insistindo com a polícia, com órgãos da prefeitura, com quem se possa imaginar.

São cicatrizes que se fecham, a vida dessa mulher não vai além do piloto-automático, entre o robotizado e o catatônico. Quer resposta, quer o filho, por mais que esteja anos negligenciando a tudo à sua volta. Quem descobrir o filme vai acompanhar a trama e seu desenrolar, o mais importante é como Terzic e sua atriz conduze o filme de forma sóbria, e nunca melodramática, de maneira que possa aprofundar nas cicatrizes e buscar um fio de esperança, onde quer que seja.

The Two Popes (2019 – EUA)

Em alguns momentos, o filme chega a ser delicioso, o confronto de estilos das duas figuras eclesiásticas oferece uma comédia saborosa entre o sisudo alemão e o simpático sulamericano. E, estamos falando dos dois últimos papas da Igreja Católica, figuram tão conhecidas quanto famosas recentemente, o que torna tudo mais difícil.

Os últimos trabalhos internacionais de Fernando Meirelles não vinham obtendo aquele sucesso todo, mas esse filme produzido pela Netflix, e exibido no Festival de Veneza, recoloca o brasileiro na mira dos cinéfilos. Estamos diante da duas últimas sucessões do papado, tanto a que escolheu Bento XVI (Anthony Hopkins), quanto a que tornou Papa Francisco (Jonathan Pryce) o líder do Vaticano. E Meirelles conduz a trama entre curiosidades do processo de votação e outros rituais internos, e esse processo surpreendente que culminou na passagem de bastão entre eles.

É também um veículo interessante para resgatar a biografia do Papa Francisco, ainda que seja a parte mais protocolar e apenas informativo do filme que filma em preto e branco situações na Argentina sob ditadura militar, por exemplo. Bom mesmo são os encontros ensolarados, ou em quartos com tv ligada, entre os dois, divergindo sobre pontos cruciais da Igreja, discutindo aposentadoria, e criam um convívio cuja harmonia quase se alimenta do caos. Meirelles abre um canal de intimidade do público com aquelas duas figuras, cujas interpretações de Hopkins e Pryce evidenciam ainda mais essa familiaridade surpreendente e espontânea. É claro que o filme tem um quê de chapa-branca, que mesmo em assuntos tabus prefere um ar mais leve, mas é realmente calcado nesse embate de estilos, e não o filme definitivo sobre a Igreja Católica e seu lado obscuro.