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O que Arde

Publicado: dezembro 15, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Lo Que Arde / Fire Will Come (2019 – ESP)

Oliver Laxe vai se firmando como um cineasta de sensações. O faroeste em Marrocos de Mimosas não me cativou, mas ficou muito a sensação do sol, da areia, do calor. Aqui ele filma na Galícia (onde cresceu) e transfere esse cinema sensitivo para a floresta, para uma cidade pequena e o ritmo pacato de vida da região. Um piromaníaco volta à cidade para cuidar da mãe octagenária depois de alguns presos por incêndio criminoso.

A segunda metade do filme é acalorada com um incêndio propriamente dito, a luta por controlá-lo, flamejante e pungente, se divide com o pré-julgamento de que seria, novamente, o piromaníaco que tenha o causado. E a reação popular é forte, com dedo em riste. Oliver Laxe não parece querer poetizar nada, mas reflete bem a busca por vilões, a intolerância e a pressa da humanidade por decidir pontos que nem vão solucionar a questão em si.  

Di Jiu Tian Chang / So Long, My Son (2019 – CHI)

Que saga dolorosa construiu aqui o diretor Wang Xiaoshuai. A incurável dor do luto, que atravessa décadas. O cineasta chinês acompanha dois casais de amigos durante anos, principalmente o casal cujo filho morre tragicamente. O filme é situado na década de 80, a partir das mudanças política, culturais e econômicas chinesas. 

A dor é comovente, o melodrama dolorido, por isso os atores foram premiados no festival de Berlim (e realmente merecem), mas Xiaoshuai vai além ao traduzir um pouco do instinto de família que move o povo chinês. É uma relação que o brasileiro tem se afastado, mas o povo chinês ainda cultiva a família como as pessoas mais presentes em suas vidas. As transformações do país são represntadas na dos dois casais, alegrias e tristezas, sucessos e insucessos, além de todo o peso da tragédia que cada um carrega, a seu modo. Prepare os lenços porque são três horas valiosas de um cinema simples e certeiro.

Pacarrete

Publicado: dezembro 5, 2020 em Cinema, Mostra SP
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Pacarrete (2019)

Sensação no Festival de Gramado, o longa-metragem dirigido por Allan Deberton oferece a Marcélia Cartaxo palco para ela brilhar numa personagem controversa, divertida, e profundamente triste. Ela nos faz rir com sua empolgação dos tempos de bailarina em Fortaleza, sua mania de misturar o francês e o português, e de beber de um tipo de cultura artística que não dialoga muito com o gosto popular. Na pequena cidade de Russas, tudo soa como excêntrico, e suas manias e egocentrismo apenas a tornam uma moradora peculiar, imcompreendida, quase uma megera.

Em entrevistas, o cineasta afirma que conheceu a verdadeira Pacarrete na infância, e não é de surpreender que alguém assim viva alimentada de seus sonhos, suas paixões obsessivas e dessa fuga da realidade. De outro lado, toda essa empolgação e via cômica guarda uma pessoa tão solitária, e amargurada por suas decepções. Nesses momentos, Cartaxo volta a surpreender com com essa sensação de pesar, com o desencanto de quem não perde a pose, mas por dentro vive em frangalhos.

The Lighthouse (2019 – EUA/BRA)

Da turma dos grandes filmes do ano, o novo trabalho de Robert Eggers flerta com o cinema de Bergman, mas prefere o humor e o horror do que o estudo psicológico de um Persona, por exemplo. Talvez porque aqui estejamos diante do tese de convivência de dois homens, e sua virilidade e fragilidades estão expostas de maneiras bem diferentes do que a manipulação sugeria no clássico do cineasta sueco.

Um farol no meio do nado, os dois homens (Dafoe e Pattinson) chegam para trabalhar por uma temporada ali, completamente isolados de qualquer sinal de sinalização. Os dias passam entre confrontos, bebedeiras, imposição de poder, e os seus maiores medos deflagrados. Eggers opta por sugerir tudo, de alguma tensão sexual à fantasia com uma sereia, até os segredos e barulhos da sala trancada em que só homem mais velho pode entrar, assim como os segredos que levaram o mais jovem a aceitar aquele emprego.

Memórias, histórias, respeito e desaforo. O Farol é sobre essa relação masculina, é sobre os altos e baixos, sobre angústia e caos. Interessante como o filme não ganha tom teatral, Eggers opta pela fotografia em preto e branco, por enquadramentos que explorem corpos, relações e espaços, e além de dar sua dose de fantasia, realizando assim um filme que foge muito dos padrões mais comerciais, que grita por uma tela grande e som potente, e pela possibilidade de imersão do público nesse lugar fétido e misterioso.

Savovi / Stitches (2019 – BOS)

Mais de 500 bebês desapareceram entre 1998-99, na Guerra de Kosovo. O diretor Miroslav Terzic resgata esse período conturbado, que ainda nem está totalmente resolvido, entre os países da região dos Balcãs, e o faz por um trauma como esses. Já se passaram dezoito anos que seu bebê ter sido declarado morto no parto, ela (Snezana Bogdanovic) tem outra filha, um emprego, sua família, mas o desespero por não superar e duvidar que seu filho não tenha sido sequestrado é latente em seu rosto. O que lhe resta é investigar, tantos anos insistindo com a polícia, com órgãos da prefeitura, com quem se possa imaginar.

São cicatrizes que se fecham, a vida dessa mulher não vai além do piloto-automático, entre o robotizado e o catatônico. Quer resposta, quer o filho, por mais que esteja anos negligenciando a tudo à sua volta. Quem descobrir o filme vai acompanhar a trama e seu desenrolar, o mais importante é como Terzic e sua atriz conduze o filme de forma sóbria, e nunca melodramática, de maneira que possa aprofundar nas cicatrizes e buscar um fio de esperança, onde quer que seja.

The Two Popes (2019 – EUA)

Em alguns momentos, o filme chega a ser delicioso, o confronto de estilos das duas figuras eclesiásticas oferece uma comédia saborosa entre o sisudo alemão e o simpático sulamericano. E, estamos falando dos dois últimos papas da Igreja Católica, figuram tão conhecidas quanto famosas recentemente, o que torna tudo mais difícil.

Os últimos trabalhos internacionais de Fernando Meirelles não vinham obtendo aquele sucesso todo, mas esse filme produzido pela Netflix, e exibido no Festival de Veneza, recoloca o brasileiro na mira dos cinéfilos. Estamos diante da duas últimas sucessões do papado, tanto a que escolheu Bento XVI (Anthony Hopkins), quanto a que tornou Papa Francisco (Jonathan Pryce) o líder do Vaticano. E Meirelles conduz a trama entre curiosidades do processo de votação e outros rituais internos, e esse processo surpreendente que culminou na passagem de bastão entre eles.

É também um veículo interessante para resgatar a biografia do Papa Francisco, ainda que seja a parte mais protocolar e apenas informativo do filme que filma em preto e branco situações na Argentina sob ditadura militar, por exemplo. Bom mesmo são os encontros ensolarados, ou em quartos com tv ligada, entre os dois, divergindo sobre pontos cruciais da Igreja, discutindo aposentadoria, e criam um convívio cuja harmonia quase se alimenta do caos. Meirelles abre um canal de intimidade do público com aquelas duas figuras, cujas interpretações de Hopkins e Pryce evidenciam ainda mais essa familiaridade surpreendente e espontânea. É claro que o filme tem um quê de chapa-branca, que mesmo em assuntos tabus prefere um ar mais leve, mas é realmente calcado nesse embate de estilos, e não o filme definitivo sobre a Igreja Católica e seu lado obscuro.

It Must Be Heaven (2019 – FRA)

Adorável a nova investida cômica de Elia Suleiman, assumindo ele mesmo o papel de protagonista de um imigrante, que deixa seu país, mas quanto mais se distancia, mais encontra proximidades. Um país que não é país, um povo sem nação. Dentro ou fora da Palestina, ele encontra racismo, problemas com a polícia ouo imigração, e essa sensação de não pertencer a lugar nenhum, o ar inferiorizado. Da rua onde mora a Paris ou Nova York, o palco muda, mas os comportamentos e dificuldades permanecem. Um jogo de esquetes de quem procura um paraíso, de quem procura oportunidades para seguir filmando, mas sempre encontra olhares desconfiados, portas fechadas e muita indiferença.

Sinônimos

Publicado: dezembro 16, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Synonymes / Synonyms (2019 – FRA)

Estamos muito acostumados a ver no cinema reflexões da cultura israelense, sempre em oposição ao Islamismo, à Palestina. Nadav Lapid e seu cinema questionador e inquieto parte para um estudo mais profundo do ser israelense. Altamente autobiográfico, Lapid conta de suas experiências quando tentou renegar sua cultura, seu idioma, seu povo e se mudou para a frança, com uma mão na frente e outra atrás, se afastando da família, das crenças religiosas e do exarcebado militarismo israelense

Yoav (Tom Mercier) é esse alterego, que em contraste com dois jovens burgueses franceses, e uma narrativa que quase se divide em esquetes, permite que o cineasta construa um personagem de complexidade ímpar. O desenrolar da trama do jovem que tem sua roupa roubada e quase morre de frio, ao chegar à Paris, é de uma explosão de sensações. Afinal, é tão latente esse desejo de aversão à sua nacionalidade e um desejo de assumir uma nova identidade, mas o choque com a realidade dessa nova sociedade causa ainda mais turbulência nessa mente inquieta. Seria a decepção por encontrar enraizado os mesmos comportamentos, mesmo numa cultura aparentemente tão diferente ou é só diferente pelo ar pedante e a falsa sensação de evoluição cultural?

Lapid filma com a urgência que o discurso de Yoav pede, como na incrível cena inicial em que ele corre por uma Paris vazia, e a imagem granulada focaliza suas pernas aceleradas. E o filme todo tem essa urgência de criticar o Estado de Israel, assim como ao França, ninguém está livre desse olhar destemido de Lapid.

Marriage Story (2019 – EUA) 

O tema da separação, do fim do matrimônio, é um tema caro a Noah Baumbach, e ele está de volta, dessa vez, provavelmente, com mais alcance do que nunca. Scarlett Johanson e Adam Driver formam o casal de atriz e diretor de teatro cujo em processo de separação. Muitos tentam comparar o filme com o clássico Cenas de um Casamento, do Bergman, não façam isso, por favor.

Temos aqui um filme que se equilibra na irregularidade dessa fase de separação. A dor da separação, sentimentos misturados, a imposição de vontades próprias, a descoberta do outro em momentos de fúria, ou de egoísmo. Mas, algumas escolhas do roteiro beiram à vilanização de personagens e situações, ou de criar algumas cenas necessárias para dar palco a interpretações mais explosivas. Há risos e choros, há longas cenas com advogados, e outras com o filho ou com a família que deixa de ser sua. Quando um casal se separa, todos se separam de alguma forma, família, círculo social, e mais adiante, tudo se reestabelece. Mas o filme de Baumbach, talvez seja, condescendente demais com a persona masculina, e o desequilíbrio na balança atrapalha. Ainda assim, é o tipo de filme que não temos visto atualmente, não dessa forma, e com um tipo de situação que segue sendo mais que rotineira. Afinal, esse amor da alma gêmea só se vive mesmo nas músicas pop e nas comédias românticas.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019 – BRA)

Melhor filme na prestigiada mostra Un Certain Regard, em Cannes, um feito e tanto para o cinema brasileiro. Agora chega aos cinemas com a possibilidade real de estar na lista final dos indicados a Filme Estrangeiro. O diretor Karim Aïnouz de volta aos holofotes, em grande estilo. Um melodrama clássico, abraçando o folhetim sem medo de ser feliz e provando que uma narrativa clássica não precisa soar envelhecida.

Da história de uma família, com duas filhas, cuja uma delas se apaixona por um homem, e é rejeitada pelo pai antiquado, nasce a narrativa paralela de duas irmãs, tão próximas e tão distantes. Numa fotografia que é um espetáculo à parte (escura e tão capaz de mostar um outro lado da cidade, distante dessa coisa solar tão presente), Karim flerta, novamente, com a boêmia carioca de Madame Satã, e principalmente com os costumes do início do século, o conservadorismo que afasta pessoas e estragava vidas.

E esses pequenos retratos da classe média brasileira à época enriquem esse amor de irmão. É tão significativa a idealização do sucesso no outro, com o fiapo de informação se cria uma narrativa do que possa ser a vida da irmã, quando a sua é de total decepção. Afinal, também há o aspecto  de ser mulher naquele momento, a sbubmissão, a obrigatoriedade de segir padrões estabelecidos. Não é um filme que encanta com cenas espetaculares, o encantamento vem do conjunto, da possibilidade de passar anos ao lado dessas duas mulheres corajosas, inquietas. Até chegar em cena Fernanda Montenegro, e ai sim arrasar com os mais sentimentais, em duas ou três cenas capazes de tocar profundamente quem se envolveu com as vidas de Eurídice e Guida.