Posts com Tag ‘43ª Mostra SP’

It Must Be Heaven (2019 – FRA)

Adorável a nova investida cômica de Elia Suleiman, assumindo ele mesmo o papel de protagonista de um imigrante, que deixa seu país, mas quanto mais se distancia, mais encontra proximidades. Um país que não é país, um povo sem nação. Dentro ou fora da Palestina, ele encontra racismo, problemas com a polícia ouo imigração, e essa sensação de não pertencer a lugar nenhum, o ar inferiorizado. Da rua onde mora a Paris ou Nova York, o palco muda, mas os comportamentos e dificuldades permanecem. Um jogo de esquetes de quem procura um paraíso, de quem procura oportunidades para seguir filmando, mas sempre encontra olhares desconfiados, portas fechadas e muita indiferença.

Sinônimos

Publicado: dezembro 16, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Synonymes / Synonyms (2019 – FRA)

Estamos muito acostumados a ver no cinema reflexões da cultura israelense, sempre em oposição ao Islamismo, à Palestina. Nadav Lapid e seu cinema questionador e inquieto parte para um estudo mais profundo do ser israelense. Altamente autobiográfico, Lapid conta de suas experiências quando tentou renegar sua cultura, seu idioma, seu povo e se mudou para a frança, com uma mão na frente e outra atrás, se afastando da família, das crenças religiosas e do exarcebado militarismo israelense

Yoav (Tom Mercier) é esse alterego, que em contraste com dois jovens burgueses franceses, e uma narrativa que quase se divide em esquetes, permite que o cineasta construa um personagem de complexidade ímpar. O desenrolar da trama do jovem que tem sua roupa roubada e quase morre de frio, ao chegar à Paris, é de uma explosão de sensações. Afinal, é tão latente esse desejo de aversão à sua nacionalidade e um desejo de assumir uma nova identidade, mas o choque com a realidade dessa nova sociedade causa ainda mais turbulência nessa mente inquieta. Seria a decepção por encontrar enraizado os mesmos comportamentos, mesmo numa cultura aparentemente tão diferente ou é só diferente pelo ar pedante e a falsa sensação de evoluição cultural?

Lapid filma com a urgência que o discurso de Yoav pede, como na incrível cena inicial em que ele corre por uma Paris vazia, e a imagem granulada focaliza suas pernas aceleradas. E o filme todo tem essa urgência de criticar o Estado de Israel, assim como ao França, ninguém está livre desse olhar destemido de Lapid.

Marriage Story (2019 – EUA) 

O tema da separação, do fim do matrimônio, é um tema caro a Noah Baumbach, e ele está de volta, dessa vez, provavelmente, com mais alcance do que nunca. Scarlett Johanson e Adam Driver formam o casal de atriz e diretor de teatro cujo em processo de separação. Muitos tentam comparar o filme com o clássico Cenas de um Casamento, do Bergman, não façam isso, por favor.

Temos aqui um filme que se equilibra na irregularidade dessa fase de separação. A dor da separação, sentimentos misturados, a imposição de vontades próprias, a descoberta do outro em momentos de fúria, ou de egoísmo. Mas, algumas escolhas do roteiro beiram à vilanização de personagens e situações, ou de criar algumas cenas necessárias para dar palco a interpretações mais explosivas. Há risos e choros, há longas cenas com advogados, e outras com o filho ou com a família que deixa de ser sua. Quando um casal se separa, todos se separam de alguma forma, família, círculo social, e mais adiante, tudo se reestabelece. Mas o filme de Baumbach, talvez seja, condescendente demais com a persona masculina, e o desequilíbrio na balança atrapalha. Ainda assim, é o tipo de filme que não temos visto atualmente, não dessa forma, e com um tipo de situação que segue sendo mais que rotineira. Afinal, esse amor da alma gêmea só se vive mesmo nas músicas pop e nas comédias românticas.

A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (2019 – BRA)

Melhor filme na prestigiada mostra Un Certain Regard, em Cannes, um feito e tanto para o cinema brasileiro. Agora chega aos cinemas com a possibilidade real de estar na lista final dos indicados a Filme Estrangeiro. O diretor Karim Aïnouz de volta aos holofotes, em grande estilo. Um melodrama clássico, abraçando o folhetim sem medo de ser feliz e provando que uma narrativa clássica não precisa soar envelhecida.

Da história de uma família, com duas filhas, cuja uma delas se apaixona por um homem, e é rejeitada pelo pai antiquado, nasce a narrativa paralela de duas irmãs, tão próximas e tão distantes. Numa fotografia que é um espetáculo à parte (escura e tão capaz de mostar um outro lado da cidade, distante dessa coisa solar tão presente), Karim flerta, novamente, com a boêmia carioca de Madame Satã, e principalmente com os costumes do início do século, o conservadorismo que afasta pessoas e estragava vidas.

E esses pequenos retratos da classe média brasileira à época enriquem esse amor de irmão. É tão significativa a idealização do sucesso no outro, com o fiapo de informação se cria uma narrativa do que possa ser a vida da irmã, quando a sua é de total decepção. Afinal, também há o aspecto  de ser mulher naquele momento, a sbubmissão, a obrigatoriedade de segir padrões estabelecidos. Não é um filme que encanta com cenas espetaculares, o encantamento vem do conjunto, da possibilidade de passar anos ao lado dessas duas mulheres corajosas, inquietas. Até chegar em cena Fernanda Montenegro, e ai sim arrasar com os mais sentimentais, em duas ou três cenas capazes de tocar profundamente quem se envolveu com as vidas de Eurídice e Guida.

Patrick (2019 – POR)

“- Do que você tinha mais saudade? Da língua”. Reproduzido um pequeno diálogo, já na reta final do filme, que não dá nenhum spoiler da história, mas me pareceu bem representativo da odisseia do personagem. Reconduzido a Portugal, apos ser raptado, levado à França, e abusado sexualmente, ainda garoto, Patrick só é identificado por molestar uma mulher.

Molestado quando garoto e agora sai de controle em prol de seus ímpetos sexuais. Talvez alimentado pelo meio em que viveu, talvez por ter aprendido na pele que esse comportamento é normal, o fato é que o jovem é reconduzido à casa dos pais e surge a difícil, quiçá impossível, tarefa, de todos os familiares, em readaptar. O estreante Gonçalo Waddington até envereda por algum tipo de respostas no final, mas até lá nos entrega um filme de silêncios, de impulsividade, de amargura, nunca de arrependimentos.

La Llorona (2019 – GUA)

Cada mais condizente incorporar o gênero do horror a temas políticos. Não há terror maior do que os abusos políticos que afetam tanto a população, mas parecem menos graves do que um bandido com uma arma na mão. Recentemente, o cinema tem explorado bem esse inesperado casamento.

O cineasta guatemalteco Jayro Bustamante se aproveita da lenda da Llorona para resgatar os genocídios de militares nos anos 80 em seu país. Milhares de indígenas foram mortos, ditos revoltosos, quando estavam mesmo na região onde se podia explorar petróleo “atrapalhando” o desenvolvimento.

Trinta anos depois, o personagem fictício do general (claramente inspirado no general ditador Efraín Ríos Montt, que governou o país entre 82-82, após um golpe de estado), está sob julgamento desse genocídio e começa a ser assombrado pelo choro de uma mulher. O encontro do realismo fantástico com o homem senil e sob forte pressão psicológica (na porte de sua casa o povo protesta) está no filme, mas as figuras centrais são as mulheres daquela casa: a filha, a mãe, as empregadas, e como elas lidam com a situação, as descobertas e tudo mais. O novo filme de Bustamente não chega a me encantar no todo, mas é de uma força importante, e lidamente filmado em todos os aspectos daquela casa em efervescência particular. A esposa que defende o marido, a filha que questiona, as empregada que abandonam. A linha tênue entre o drama político e o terror paranormal parece ser reescrita aqui.

System Crasher

Publicado: novembro 5, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Systemsprenger / System Crasher (2019 – ALE)

Um crash no sistem de todos à sua volta. O filme dirigido por Nora Fingscheidt é bem competente em causar esse turbilhão no público. Trilha sonora agitada, uma garota de 9 anos explosiva, inquieta, realmente incontrolável. Que boa surpresa o escolhido da Alemanha ao Oscar.

Sua fortaleza vem da capacidade de provocar o público, em deixar sensação parecida ao estar à flor da pele, tal qual vivem todos os responsáveis por Benni. Que precisa tanto de carinho, e sua carência se reatroalimenta em mais explosividade. Moderninho na montagem e aflitivo em tantas sequências que nem te dá tempo de ter pena desse pequeno furacão humano cuja impulsividade parece mais que o estado de espírito, mas sim o modus operandi. E quando você consegue respirar, por um segundo, bate a tristeza em constatar que é só uma criança.

Dente de Leite

Publicado: novembro 4, 2019 em Cinema, Mostra SP
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Babyteeth (2019 – AUS)

Com todas as afetações dos losers de Sundance, e ainda bebendo da fonte de A Culpa é das Estrelas, o filme  constrói um coming-of-age de personagens desregrados, dependentes químicos, cheios de problemas familiares, e a adolescente com câncer. Dirigido por Shannon Murphy, funciona melhor nos momentos de comédia romântica adolescente, ou nos dramas e carências do pai, mas é tanta afetação que só poderia acabar em sentimentalistmo barato.

Official Secrets (2019 – EUA)

Um pouco da história de Katharine Gun (Keira Knightley), uma tradutora de mandarim da agência britânica de segurança nacional, que tomou coragem de trair os procedimentos e vazar à imprensa um memorando secreto que entregava mentiras do primeiro-ministro britânico quanto a posse de armas de destruição de massa por parte de Saddam Hussein, não justificando assim a Guerra do Iraque.

Dito isso, e toda a coragem de seguir seus princípios, e arcar com as consequências, Gavin Hood transforma essa história num thriller político banal, apenas preocupado em reconstituir a história, o julgamento, e os trâmites jurídicos. Um filme preguiçoso que facilmente poderia ser substituído por um bom artigo de algum órgão de imprensa.

La Odisea de Los Giles (2019 – ARG/ESP)

Seguindo a forte tradição de um cinema popular argentino, de roteiro bem amarrado e narrativa simplória, com grande penetração no mercado internacional, o diretor Sebastián Borensztein volta a trabalhar com Ricardo Darín (basta lembrar de Um Conto Chinês?) e é a aposta de nosso Hermanos para a temporada de premiações.

Alguém se lembra do corralito? Quando o governo argentino confiscou o dinheiro de todos nos bancos e causou um alvoroço inacreditável? A trama parte do fato histórico e crua uma comédia de assalto de um grupo que quer vingança de quem os enganou um dia antes do corralito. Trafegando entre o humor e uma fantasia pé no chão, o cineasta Borensztein está mesmo entregando diversão ao público pouco exigente, que pode se esbaldar com pitorestas piadas de pequenos absurdos. Atores no piloto automático, pequenas provocações de política regional. É o argentino rindo de suas próprias desgraças, em breve teremos filmes sobre medidas dos governos Kichners ou Macri, porque o material é farto para esse tipo de cinema.