Posts com Tag ‘64 Festival de San Sebastián’

midnightspecialMidnight Special (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Na tv, o ano de 2016 já foi marcado pela série Stranger Things e todas suas referências (que viraram até piada) a famosos filmes dos anos 80 (ET, Goonies e outros). Porém, antes mesmo da série do Netflix fazer sucesso, Jeff Nichols lançava no festival de Berlim sua nova parceria com Michael Shannon, em temática parecida a toda essas referências.

Confesso que Nichols tem sido alvo de algumas decepções, seus filmes geram enorme expectativa e o resultado não tem respondido a toda a expectativa criada. E, dessa vez, a distância entre esperado x resultado foi ainda maior. Vejamos se Loving (seu novo filme que figura postulante a indicações ao Oscar) seja diferente.

Na trama, já entramos diretamente no jogo de gato e rato, um pai (Shannon) tentando proteger seu filho, a todo custo, de uma estranha seita religiosa e do próprio FBI. O garoto usa um óculo que cobre seus olhos, sem eles um estranho raio de luz sai de seus olhos. Entre as peças do quebra-cabeças, que lentamente começa a fazer sentido, a presença extraterrestre se torna cada vez mais evidente, porém sem a mística que os filmes dos anos 80 possuíam. Não se cria identidade nenhuma com personagens, resta uma perseguição que o cinema já apresentou versões mais inspiradas.

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American Pastoral (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

O ator escocês, com eterna cara de bom moço, estréia como diretor adaptando o denso livro homônimo de Philiph Roth com conteúdo político tão americano. A escolha é das mais ousadas, afinal o contexto envolve protestos contra Guerra do Vietña, Black Powers, e todo o aspecto político da sociedade americana da década de 60-70.

A missão era complicadíssima, e Ewan McGregor opta por um estilo cinematográfico bem acadêmico, que muito lembra o cinema dos anos 50, o american way of life. Adapta os fatos, em cena temos a total desconstrução da família burguesa perfeita, mas são apenas os fatos, nem sinal das reflexões que McGregor sonhava transpor do livro. No Festival de San Sebastián, McGregor afirmou que queria contar não só a história de uma família, mas de toda a América, no script era o que devia ser feito.

O foco é o pai de família (o próprio McGregor, sempre um ator esforçado), atleta exemplo na universidade, que assume os promissores negócios do pai, se casa com uma candidata a Miss New Jersey e vive numa casa de campo com a filha (Dakota Fanning quando adulta). Os problemas internos surgem quando a gagueira da filha é diagnosticada como possível ciumes da atenção do pai a mãe tão linda (Jennifer Connelly), e vai parar na filha na clandestinidade como terrorista. O pai é o exemplo de postura, amor à família, e perfeição burguesa no trato com os empregados e assim McGregor tenta resumir anos tão libertários e conflituosos de toda uma nação tão heterogênea e inquieta.

capitaofantasticoCaptain Fantastic (2016 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Vivemos o boom da informação, uma rápida busca no Google e Youtube e já se consegue ser especialista em assuntos até então desconhecidos, todas as respostas possíveis estão acessíveis. Nesse aspecto, criar filhos se tornou a arte obrigatória da superproteção vide cartilhas espalhadas em sites, revistas e cursos especializados. Já ultrapassaram os limites do neurótico, e em breve saberemos qual o futuro dessa geração tão superprotegida de todos os germes, males, e cobertas das mais perfeitas técnicas de educação familiar.

O diretor Matt Ross (premio de melhor direção na Un Certain Regard) tenta propor a quebra radical dessa equação. O Capitão Fantástico é John (Viggo Mortensen), pai de seis filhos que junto da esposa decidiram abandonar as regras da sociedade e criar suas crianças do seu jeito, no meio da floresta. Alfabetizados pelos pais, com acesso restrito ao convívio com outros humanos, e sob rígidos cursos familiares, a família se posiciona entre o militar e o hippie.

Metade do filme posiciona as vantagens do conhecimento adquirido, muito acima da média, pelos filhos. Até, finalmente, apresentar o elemento conflitante do roteiro, e pouco-a-pouco apontar asa fragilidades do conceito. O discurso de uma esquerda radical se perde exatamente em conceitos morais elementares, e o roteiro não se sustenta bem além de uma aventura liderada por um teimoso dono da razão. É pouco para o frisson causado em Cannes.

frantzFrantz (2016 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

É com elegância que François Ozon conduz o drama romântico, pós primeira guerra mundial, remake de Não Matarás (Ernest Lubitsch). Não é seu primeiro filme de época, mas fazia tempo que o cineasta francês não entregava um filme, relativamente, bom, como é o caso aqui. Filmado em branco e preto (apenas algumas cenas ganham cores, e tem significado velado para causar diferenciação), a trama é sobre um alemão indo à França (invertido na comparação com o original) visitar os familiares do amigo francês que morreu na guerra.

Os sentimentos dos lados opostos correm na fúria dos olhos, os resquícios do ódio entre alemães e franceses vive em cada cena do filme, não importa qual dos países seja o cenário. Adrien (Pierre Niney) visita o túmulo do soldado falecido, carregado de tristeza, saudade, remorso, não se sabe ao certo o que se passa com ele. E os segredos só são revelados, pouco-a-pouco, quanto mais ele se aproxima da família de Frantz, principalmente de sua noiva (Paula Beer).

O filme caminha para um desenlace romântico inesperado, mas ganha contornos inesperados após revelações, cartas, e a ida da jovem à França. Dessa forma, o filme mostra o outro lado aos olhos da jovem corajosa, e nos permite vagar por um desfecho inesperado, coerente, que é apenas o melhor resultado para um filme que vai crescendo perto do seu fim. Sempre com essa elegância que Ozon teima em impregar em seu trabalho, dessa vez um tiro certo.

sieranevadaSieranevada (2016 – ROM) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Cristi Puiu pega emprestado os dramas de uma família para criar um crítico retrato de seu país. A primeira cena já dá os indícios dessa espécie de testemunho que a câmera irá permitir ao público, num longo plano acompanha um carro parado, atrapalhando o transito. A rua espremida, pessoas buzinando, enquanto o casal pega a filha (na escola, num curso, algo do tipo). O pai precisa manobrar, virar a esquina, o caos está formado, e a câmera segue acompanhando o desfecho, como se estivéssemos do outro lado da rua, vendo algo cotidiano.

Grande parte do filme (de quase 3 horas) transcorrerá dentro de um casa, e as tomadas se dividem entre cada um dos ambientes, e em particular no corredor, onde é possível observar umas quatro portas de cômodos, onde podemos ouvir as conversas, se estar propriamente naquele quarto. A família se divide entre os ambientes enquanto os preparativos para uma espécie de celebração fúnebre está prestes a acontecer. Algumas mulheres na cozinha terminam o almoço, outras fofocam num quarto. Os homens discutem sobre o 11 de Setembro e outras teorias da conspiração. Tudo isso enquanto o celebrante religioso não chega.

Do caótico Puiu faz o retrato cotidiano dessa família, brigas e escândalos, o choque entre o conservador e a juventude, os costumes e a incomunicabilidade. Nesse universo rico e heterogênea, surgem inúmeras possibilidades para o cineasta flagar comportamentos e causar reflexões (sobretudo heranças das mutações políticas da Romênia desde os anos 90). Engraçado e provocador, muitas vezes beirando o absurdo de só quem tem família grande pode compreender, mas Puiu novamente entrega um filme vigoroso, e repleto de interpretações de quem está enxergando sua cultura e o caos pós-tempestade.

yourselfandyoursDangsinjasingwa dangsinui geot / Yourself and Yours (2016 – COR) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo filme de Hong Sang-soo, presente na última edição do Festival de San Sebastián e escolhido melhor direção na mostra principal) traz uma das obsessões do cineasta para tema central da trama. Seus personagens continuam se encontrando em restaurantes e bebendo Soju enquanto falam da vida e vivem encontros e desencontros amorosos. Só que, dessa vez, o álcool também é um problema particular, a ponto de um casal de namorados discutir, impor limites a quantidade que ela poderia consumir, e até colocar fim ao relacionamento pelos excessos.

Sang-soo começa a brincadeira quando não sabemos bem se a personagem central tem uma irmã gêmea, sofre de amnésia alcoólica, ou simplesmente é dissimulada. E o filme brinca com essa possibilidades enquanto a moça encontra diferentes homens no bar, afirma não conhece-los, causa paixões e irritações. É um argumento meio ingênuo, mas não deixa de manter o ritmo prazeroso dos diálogos de seus filmes e desenvolver situações cômica, românticas ou dramáticas. Enquanto isso, o ex-namorado vive o sofrimento da perda, até o reencontro e acerto de contas, numa da cenas finais mais simples e bonitas do cinema de Sang-soo.

idanielblakeI, Daniel Blake (2016 – Reino Unido) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Ken Loach é algo tipo o Woody Allen do cinema britânico trabalhista de esquerda. Firme e forte faz seus filmes parecidos, alguns melhor desenvolvidos e interessantes que outros, mas todos num mesmo formato, ritmo narrativo, e senso de urgência afastam paete do público pela ausência de novidade cinematográfica.

Mas, Ken Loach tem o que dizer, e seus filmes seguem na crista da onda dos festivais (sempre em Cannes, este então ganhou a Palma de Ouro). Mira sua artilharia às regras estapafúrdias do serviço social britânico, na trama, Daniel Blake (Dave Johns) sofre um problema do coração e a cardiologista não o libera para trabalhar. Porém, segundo as regras do serviço social ele não atende as exigências para receber auxílio e deve procurar emprego para ganhar o seguro-desemprego. Eis a questão: ter que procurar emprego e não poder aceitá-lo.

Com humor britânico típico, Loach desenvolve esse pequeno absurdo enquanto outros personagens transitam pela órbita de Daniel Blake, sobretudo a mãe (Hayley Squires) de dois filhos, desempregada, que acaba criando laços afetivos (do tipo tio e sobrinha) com o carpinteiro. Aliás, a maior carga dramática vem dela, principalmente numa cena dura num banco de alimentos. Enfim, Loach ganha reconhecimento mais pela mensagem legítima de protesto que acampa do que por alguma proposta de cinema que estabeleça novos rumos.