Posts com Tag ‘Abbas Kiarostami’

ondeficaacasadomeuamigoKhane-ye Doust Kodjast? / Where is the Friend’s Home (1987 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

É só um filme sobre um garoto à procura da casa de seu amigo, querendo devolver-lhe seu caderno. Ou, pelo menos, é com essa simplicidade que Abbas Kiarostami vende seu filme. O garoto aflito com o risco do amigo ser expulso da escola, se novamente retonar sem o caderno, parte em busca de encontrar sua casa. Sequer sabe o endereço, age no impulso carregado de boa-vontade e solidariedade.

Kiarostami segue os passos do garoto por pequenos vilarejos. O tom é quase documental. O garoto mais que persistente, encontra idosos, crianças, adultos que não lhe dão atenção, é repreendido pela mãe. Nesse tomo de simplicidade que o cineasta iraniano estabelece a relação de seu cinema com a vida cotidiana do iraniano. A pobreza, os costumes tradicionais, o ritmo pacato, os esforços físicos. É um filme sobre este garoto e seu gesto nobre, mas, acima dele está a percepção de Kiarostami em expor ao mundo como vive seu povo, nas profundezas de sua câmera sincera.

oventonoslevaraBad ma ra khahad bord / The Wind Will Carry Us (1999 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Uma equipe de TV passa alguns dias num vilarejo da zona rural do Irã. Pretendem filmar os detalhes do ritual local de um funeral. O povoado não sabe dos propósitos deles, mas os acolhe com simplicidade. Há no vilarejo uma idosa com saúde debilitada, enquanto aguardam (ou torcem) pela morte da senhora, a equipe (mais precisamente aquele que chamam “engenheiro”) se envolve com o dia-a-dia do lugar. Faz barba, vê a vizinha colocar a roupa no varal, acompanha o garoto-guia ao colégio. São pequenas atividades que formam a passagem do tempo, até que mais um dia se esgote.

Abbas Kiarostami retrata essa vida paupérrima do iraniano rural, de terra batida, de uma vegetação seca, cansada. As casas sem pintura, as construções que se amontoam. É tudo precário, e eles vivem. O celular do “engenheiro” toca, e ele precisa ir de carro, ao ponto mais alto do vilarejo, para que possa se comunicar.

Eles não sabem o que é internet, pouco se importam com a globalização. Uma jovem de dezesseis anos passa o dia todo numa caverna, ordenhando uma vaca para os que querem leite. Quais as pespectivas dessa garota? Kiarostami expõe sem agredir, ele traz à tona vidas e cotidianos que simplesmente vivem sem as necessidades e confortos. Seu trabalho é genial por criar, à repetição (quase um documentário), essa pequena sociedade e incorporar o incômodo absurdo dos forasteiros, que se desesperam porque as perspectivas de um funeral parecem cada vez mais remotas.

Neste e no próximo sábado, infelizmente, não será possível o post regular com os links da semana. Estou em viagem, e por aqui o WordPress é bloqueado. Mas não ficaremos sem atualizações. E como o Festival de Cannes está chegando, e em breve saberemos quais filmes será escaladas para a Mostra Competitiva, e demais mostras paralelas. Resolvi realizar uma pequena pesquisa e postar links sobre alguns dos mais interessantes filmes que devem estar escalados para Cannes. Portanto, divirtam-se e ficaremos na expectativa.

Clouds of Sils Maria (de Olivier Assayas) dizem já estar confirmado em Cannes. [IonCinema] [Omelete] [Wikipedia]

Fairyland (de Sofia Coppola) [Variety] [Empire] [Ipsilon] [Deadline]

Maps to the Stars (de David Cronenberg) [Website do Filme] [Collider] [IndieWire]

Two Days, One Night (de Jean-Pierre e Luc Dardenne) [Pipoca Moderna] [Wild Bunch] [The Film Stage]

The Assassin (Hou Hsiao-Hsien) [David Bordwell] [Filmbiz.Asia] [Next Projection]

Horizontal Process (Abbas Kiarostami) [IndieWire][Variety]

Like Someone in Love (2012 – FRA/JAP)

Um simples recorte de um dia, um momento, na vida de três (talvez quatro) personagens. Abbas Kiarostami está sempre buscando novas formas de contar suas histórias, muitas vezes não querendo nada além do trivial (dessa vez mais que das outras). Um professor-tradutor idoso e carinhoso, uma universitária prostituta, um noivo ciumento, e a participação especial de uma vizinha apaixonada (uma cena, uma mulher irritante, uma presença tão bem definida).

Kiarostami prefere dividir seu filme em poucas sequencias, longas, que guardam momentos chave da história (que nos fazem entender a cada um deles), aliados a coisas bem corriqueiras (como ouvir 7 mensagens gravadas, quando apenas 3-4 eram importantes à história). O título fala de amor, o filme nem tanto. Solidão, ciumes, dedicação, e uma grande dose de desconsolo marcam esses corpos que vagam por uma Tóquio lindamente iluminada à noite e solar ao dia.

 

Copie Conforme (2010 – FRA/IRA/ITA)

Os “radicalismos” de alguns dos filmes anteriores de Abbas Kiarostami estão sendo colocados em prática aqui. Logo no começo, um escritor abre explicações de seu livro para uma platéia, durante muito tempo a câmera focaliza as reações da platéia (Shirin), mais adiante duas pessoas conversando num carro em movimento, e a câmera muitas vezes sai da trivial posição de manter em foco, para closes fechados laterais (Dez). Isso não é nada perto da genialidade impressa por Kiarostami nessa história (que sim, em alguns momentos parece um Before Sunset dos 40-50 anos). O livro do escritor britânico traça uma discussão sobre cópias e originais (falamos em obras de arte, em pinturas), e a estrutura do filme arma contra o espectador nessa direção. Um possível romance entre o escritor e uma francesa (Juliette Binoche cada dia mais hipnótica) dona de ma loja de antiguidades, eles visitam a região da Toscana numa tarde e conversam, seus temas são muitas vezes ligados a relação homem-mulher, ao educar filhos, até maneiras de interpretar uma obra de arte. Viajamos pela conversa dos dois, nos deliciamos por visões tão maduras da vida (num momento ela explode ao ver recém-casados sorrindo para uma foto, ela se refere ao fim desse sorriso quando tiverem filhos), Kiarostami troca um possível arrombo de paixão, pelas aguras da solidão e da decepção que em certa idade ficam mais evidentes. Daqueles filmes para se rever á exaustão, encontrar ali novas verdades que só você percebe, ou que ainda não percebera, coisas como a constatação de que as pessoas (em sua grande maioria) não percebem que o importante na vida são seus momentos de diversão e prazer. Cópia e original, qual a importância de cada um deles, uma cópia é algo que mereça todos descrédito?

Ainda não conhecia a aconchegante Sala Uol, típico (e quase único) cinema de rua, com charme e simplicidade. Enquanto aguardam, os frequentadores colocam em dia a leitura. Nas colunas do hall há, sobrepostos, posters de filmes que há pouco saíram de cartaz. E na parede que dá acesso aos banheiros, uma reprodução do poster da 14ª Mostra. E, mais uma vez, a sessão contava com a ilustre presença de Bernardo Vorobow.

Hussein Emadeddin as HusseinOuro Carmim (Talaye Sorkh/Crimson Gold, 2003 – IRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A narração começa num assalto desastrado, numa joalheria de bairro chique em Teerã. O cineasta Jafar Panahi começa pela explosão da panela de pressão, para então iniciar o longo flashback que trará os personagens até a situação trágica. O roteiro é de Abbas Kiarostami, ele observa a situação iraniana pelos olhos de um entregador de pizza, que sofre com o transito caótico, bate carteiras durante o dia, frequenta apartamos luxuosos para realizar suas entregas.

O disparate entre classes sociais e a mão opressora do Estado para com a classe média baixa, de apartamos minúsculos em lugares inóspitos, forma o caldo desse filme. Hussein (Hossain Emadeddin) se sente discriminado, humilhado, quer ser bem tratado, passa a usar terno e gravata, ainda assim não consegue negar suas origens. A humilhação fica ainda maior, fato gerador que culminará na panela de pressão que se tornará a joalheria, ouro carmim torna-se cor de tragédia.

Mas além do contraste social o filme trata da indiferença, que exerce função de locomotiva psicológica na história. Um garoto de quinze é militar, ele não tem idade para estar lá, mas seu irmão morreu e ele herdou a carteira de identidade. É nítido em seu rosto sua pouca idade, mas é indiferente ao Estado que precisa manter seu exército para controlar as rédeas desse povo discriminado e reprimido.

Os meus 10 Melhores Filmes que entraram em cartaz , no Brasil, em 2003.

arcarussa

  1. Arca Russa, de Aleksandr Sokurov
  2. Sobre Meninos e Lobos, de Clint Eastwood
  3. Dolls, de Takeshi Kitano
  4. Segunda-Feira ao Sol, de Fernando León de Aranoa
  5. As Horas, de Stephen Daldry
  6. Embrigado de Amor, de Paul Thomas Anderson
  7. Femme Fatale, de Brian de Palma
  8. Longe do Paraíso, de Todd Haynes
  9. Dez, de Abbas Kiarostami
  10. O Filho, de Jean-Pierre e Luc Dardenne