Posts com Tag ‘Abderrahmane Sissako’

Bamako

Publicado: janeiro 27, 2015 em Cinema
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bamakoBamako (2006 – Mali) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um tribunal africano julgando instituições como o FMI e o banco Mundial. Essa a ideia proposta por Abderrahmane Sissako, entre as discussões a dependência econômica de países como Mali frente o pagamento dos altos juros da dívida externa. A relação do PIB entre educação, saúde e juros, sempre desequilibrada impedindo algo muito maior que o desenvolvimento econômico, e sim a sobrevivência da população que carece de tudo, incluindo comida.

Um júri a céu aberto, no pátio de uma casa dividada por diversas famílias, advogados franceses tentando defender a justiça dos contratos, de outro locais que questionam a moralidade, o intervencionismo e a dependência econômica imposta. Enquanto Sissako expõe de maneira clara opiniões diversas e necessidades básicas, ainda encontra espaço para tratar das famílias que vivem naquele pequeno vilarejo. Principalmente da cantora de bar e seu marido, a vontade de trabalhar no exterior, a tragédia diária. Sissako traça uma vértice entre a questão macro africana e o microcosmos de seu povo carente, desesperançado, simplório e ainda assim tão belo.

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A Vida na Terra

Publicado: janeiro 25, 2015 em Cinema, Domingo de Clássicos
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avidanaterraLa Vie Sur Terre (Mal – 1998) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Parte de um projeto de filmes sobre a virada do milênio, o diretor Abderrahmane Sissako assume o protagonismo desse filme construído sem roteiro, que permite que a trama se desenvolva livremente entre a idiossincrancia da tecnologia dos anos 2000 e o atraso, e distância do “mundo”, de uma região simplória da África. A pequena rádio diverte a população, a comunicação via telefone é precária, o filme faz questão de repetidamente ter cenas demonstrando a dificuldade em trocar meio dúzia de palavras com o estrangeiro.

Há a questão da necessidade de partir, a questão do movimento é algo mais poético no trabalho de Sissako, contraponto com a aspereza seca com que vivem os locais de Sokolo, essa pequena vila no Mali. É tão belo e provocador, afinal, estamos imersos por novos computadores, a globalização, e há povos que vivem tão alheios a esses confortos, que nem sabem que precisam de tantas novidades que o novo milênio trazem. Ou melhor, eles não precisam, não são afetados pelo capitalismo que nos impõe necessidades, Sissoko mostra que há vida na Terra, mesmo que dessa forma tão “rudimentar”.

Timbuktu

Publicado: janeiro 24, 2015 em Cinema
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timbuktuTimbuktu (2014 – MAU/FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Nos filmes anteriores de Abderrahmane Sissako, a narrativa era sempre dividida em um painel de personagens interagindo com regiões africanas. Esse formato persiste na primeira metade, um pequeno painel das influências da ocupação de um grupo de rebeldes islâmicos em Timbuktu. É fácil perceber que será um filme sobre as mazelas africanas, sobre dor. Com financiamento francês, portanto mais dinheiro, são nítidas as novas possibilidades de Sissako, como, por exemplo, os planos abertos, aproveitando a paisagem árida, pequenos lagos, ou a arquitetura típica.

Nesse grupo de pequenas histórias que, aparentemente, se formam livremente, prevalece a do homem dono de um pequeno rebanho de gado. A esposa cobiçada pelos invasores, a confusão com um pescador que mata um de seus bezerros, o homem vai a julgamento do grupo que agora comanda militarmente a região. Sissako tenta expressar a nova ordem sob a regida dos invasores, maior impacto é a genuína vida tão distante das metrópoles. O filme não consegue diferenciar a vida do antes e depois, além de partir fortemente para a concentração de tragédias nos mesmos personagens. Poderia ficar com as pequenas histórias, com os dramas individuais, mas não, a necessidade de intensificar o clímax diminui a potência da agressividade distribuída.

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.