Posts com Tag ‘Agnès Varda’

Jacquot de Nantes

Publicado: dezembro 30, 2021 em Cinema
Tags:,

Jacquot de Nantes (1991 – FRA)

Não sei porque esse filme tem me “perturbado” por dias, talvez a possibilidade de mostrar a guerra tão perto e tão distante daquele menino, cuja família se priva, até precisam se mudar por conta da invasão alemã, e ainda assim ele está lá, mais interessado em ir ao cinema, em suas obsessões. Talvez pela declaração de amor ao cinema pela obsessão de estudar, descobrir, brincar de filmar, enfrentar o pai, tudo por seu sonho, realmente sua obsessão. Mas, talvez, acima de tudo, há a própria declaração de amor de Varda a Demy, afinal essa cinebiografia de sua infância é um estudo profundo de quem se tornaria seu marido, e essa cumplicidade pode ser notada e cada plano carinhoso, em cada cena interligada a própria carreira de Demy. Talvez seja isso, não é todo dia que se vê uma declaração de amor tão linda, que nem precisa do “eu te amo”, esse filme representa muito mais, e nos deixa com aquela vontade imensa de largar tudo e correr para ver (rever) tudo quanto é filme do Demy.

Saudações, Cubanos!

Publicado: dezembro 13, 2021 em Cinema
Tags:

Salut les Cubains (1963 – FRA)

Apenas 30 minutos e a montagem de 1800 fotos, ao som de ritmos cubanos, foram o necessário para Agnès Varda realizar um retrato vívido da revolução cubana em seu esplendor, quatro anos após a chegada de Fidel ao poder, quando a ilha caribenha era visto pelo mundo como exemplo. Um misto de política e olhos europeus vislumbrados com as diferenças, é muito sobre Cuba, mas também muito sobre quem está admirando aquele momento histórico

Os Catadores e Eu

Publicado: dezembro 8, 2021 em Cinema
Tags:

The Gleaners and I (2000 – FRA)

Ainda mais interessante do que documentar o trabalho de catadores é o mergulho em seu aspecto social, e o olhar do reaproveitamento como uma dádiva contra o desperdício, há demonstração explícita de Agnès Varda do que é um documentário, afinal documentar é sim a visão, o recorte, de alguém, sobre determinado assunto. Dessa maneira, a cineasta entra no filme, quando lhe convém, seja na narrativa, ou quando se torna uma catadora. Vai além do humanizar ao fazer daquelas histórias algo ainda mais único já que seu olhar se mistura ao todo.

Visages, Villages

Publicado: janeiro 27, 2018 em Cinema
Tags:,

Visages, Villages (2017 – FRA) 

Parece inusitado o encontro entre a veterana cineasta Agnès Varda, quase nonagenária, e o fotógrafo JR. A dupla pega a estrada percorrendo a França, longe das grandes cidades, interagindo com pessoas comuns. Como forma de marcar o fim das visitas, elegem uma fotografia e criam um pôster gigante para colocar num préio meio caído ou num caminhão.

Não deixa de ser uma forma de enxergar uma França longe dos holofotes. O carteiro de uma pequena cidade, os estivadores de La Havre, os pequenos produtores de leite de cabra. Em meio a isso, a própria relação descoladinha e engraçada da dupla, entre pequenos conflitos, discordâncias e graça. É da leveza e jovialidade da figura de Varda que a viagem tem essa sensação de total desprendimento, e a proposta dialoga muito com essa nova tendência de misturar cinema e outras artes, em busca de frescor. A riqueza de Visages, Villages é essa mistura de carisma, simplicidade de personagens e das pequenas coisas particulares que nascem com o decorrer de tanta estrada.

Cleo-de-5-a-7Cléo  de 5 à 7 (1962 – FRA)  estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Subdividido em pequenos capítulos de poucos minutos, o filme acompanha duas horas na vida da cantora francesa Cléo (Corinne Marchand). Momentos angustiantes enquanto a jovem aguarda os resultados do exame que podem indicar uma doença fatal. Nesse intervalo, ela procura uma cartomante, encontra amigas, vai às compras, anda de bonde, enfim, transforma Paris em palco de seu desfile.

A diretora Agnès Varda encontra o timing perfeito entre tensão e leveza, além das possibilidades de explorar a personalidade de Cléo em sua plenitude. A ingenuidade, a futilidade, as inseguranças, o ar romântico, a esperança. Varda filma como seu pintasse um afresco, com sensibilidade, e frescor, enquanto rivaliza o tempo de Cléo entre medos e incertezas e as companhias que cruzam seu caminho nessas 2 horas fatídicas. A diretora transpira Nouvelle Vague (ela como um dos expoentes femininos, ainda que sua carreira seja anterior ao movimento), enquanto busca a efervescência da juventude na forma narrativa. Como na cena inicial, a imagem centrada nas cartas, enquanto a cartomante lê o futuro da jovem, sem que tenhamos outra visão que não sejam as cartas.

longedovietnaLoin du Vietnan (1967 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Como é a grande a oferta de critica e opiniões, nos dias atuais, que tentam ser contundentes, trazer à tona a verdade, o horror da guerra, o terror. Melodramas aproveitadores aos montes, deles pouca contundência e criatividade. Até que, às vezes, você acaba se deparando com um trabalho como esse, idealizado por Chris Marker, no meio da Guerra do Vietña, uniu outros diretores de cinema e constroem um filme protesto tão legítimo, complexo, político e decisivo.

Alains Resnais, Jean-Luc Godard, Agnès Varda, Claude Lelouch, William Klein e Joris Ivens, filmando a Guerra, os protestos, os vietcongs. Comunista por excelência, esse misto de documentário e cenas gravadas com poderosos diálogos é uma pequena pérola anárquica, um ode à paz e a liberdade. Conta em detalhes as tramas políticas da sucessão da França pelos EUA na Indochina e Vietnã, a guerrilha do dia-a-dia dos colonos frente o poderio bélico dos americanos.

É um raio-x impressionante, um resumo de conflito descabido, cujas opiniões são expressadas de maneira poética, anárquica, verborrágica, e dentro da mais clarividência da situação político-cultura da época. Um planeta em plena ebulição que resultaria nas revoluções estudantis do ano seguinte.

semtetonemleiSans Toit Ni Loi (1985 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O mais impressionante é o senso de liberdade a cada cena reafirmado pela andarilha (Sandrine Bonnaire) que abre o filme morta pelo frio numa vala qualquer. O filme reconstitui as derradeiras semanas da mendiga, partindo de relatos dos que a conheceram recentemente. A jovem vive exatamente o que podemos chamar de espírito-livre, sem amarras, sem preocupações, sem interesse por qualquer coisa que não seja sua liberdade.

Liberdade essa não só pelo ir e vir, pelo desapego de bens ou de uma vida regrada. Não, vai muito além, sua liberdade é oca, livre de qualquer estigma político, psicológico, familiar. Livre de qualquer desejo, obsessão, necessecidade, simplesmente livre. Ela cruza a vida de personagens, dorme na rua, no carro, na sala da casa, trabalha aqui, vagabundeia ali, age conforme sua própria vontade do momento. Não demonstra qualquer preocupação com sua situação, qualquer espírito de mudança.

E como uma cirurgiã, Agnès Varda calcula friamente cada plano, cada situação, sua direção demonstra essa frieza de não se envolver, de deixar que esse senso de liberdade tome totalmente conta do filme, crie as interrelações pessoais. A andarilha nos surpreende pelo estreito pensamento no agora, enquanto isso outros personagens sofrem numa visão social crítica da diretora, interesses escusos, a vergonha social acima da fraternidade, de um lado uma personagem livre, de outro todos amarrados a suas convenções sociais.

As Praias de Agnès

Publicado: junho 13, 2012 em Uncategorized
Tags:

Les Plages D’Agnès (2008 – FRA)

Não fosse Agnès Varda quem é não diminuiria o brilho do documentário autobiográfico da cineasta/fotógrafa de obras tão importantes e vida ainda mais, com seu casamento com Jacques Demy e sua proximidade com a Nouvelle Vague. Uma senhora gordinha e simpática filmando uma série de espelhos espalhados numa praia, dessa ideia inusitada parte uma sensível viagem para dentro de sua própria vida criando um estilo tão peculiar de narrar uma biografia, de reviver histórias e momentos, de expor um olhar para coisas tão pequenas e tão grandes.

Agnès Varda se intitula apaixonada por praias, mais apaixonante é ouvir suas histórias, se deixar viajar por seu jeito doce de contar, mergulhar em sua visão feminina das influencias do Vichy na França, de sua saída da Bélgica, das transformações do cinema dos anos 50-60, da vida construída com Demy entre as filmagens de seus filmes (independentes e de linguagem tão particulares). Varda exalta seu amor pela praia, como Neruda exaltava o mar, enquanto o público pode visitar as “praias” por onde Varda viveu e deixou suas influências simples ou poéticas, de mãe, amiga, esposa, cineasta, de mulher ímpar.