Posts com Tag ‘Ai Weiwei’

Human Flow (2017 – ALE) 

Incorruptible (2015 – SEN) 

As coincidências da vida me levaram a assistir aos dois filmes, no mesmo dia. E mesmo que não tenham o tema em comum, é possível encontrar paralelos, e reflexos de urgências globais, entre os interessantes documentários. Incorruptible (disponível na Netflix) é da diretora Elizabeth Chai Vasarhelyi e trata a questão eleitoral no Senegal, novamente um governante tentando se perpetuar no poder. Human Flow é a estreia do polêmico artista chinês Ai Weiwei (um dos grandes nomes da atualidade e que merece ser descoberto) tratando a inflamada questão dos refugiados.

Em ambos os casos temos fome, miséria e a população completamente jogada à sorte frente a decisão autoritária e egocêntrica de seus governantes. No Senegal, a corrupção política, a sede de poder, e o desrespeito as leis, despotismo, políticas infelizmente comuns nos países africanos. Chai Vasarhelyi acompanha o processo eleitoral, as ameaças e os confrontos, enquanto existe a real possibilidade da oposição disputar, voto-a-voto, a eleição que era tida como certa do presidente. Talvez, o mais impactante seja a imagem, já no segundo turno, dos mais de dez candidados derrotados, se alinhando ao opositor que chegou nessa segunda etapa. É impressionante como todos podem se unir numa escolha única, que esteja além de suas convicções políticas.

É decepcionante que Ai Weiwei tenha preferido uma narrativa tão quadrada e “jornalística”. De um artista tão inventivo, poderia se esperar o novo. Ele viaja à Europa, Oriente Médio, África e fronteira do México com EUA atrás de refugiados. Algumas entrevistas, porém o foco é mais o modus-operandi da vida de refugiado. Flagra da vida desumana, da ausência de necessidades básicas, da impossibilidade de voltarem a seus países e da total desesperança de uma solução a curto, médio ou longo prazo. Weiwei ousa mais quando se apodera da força das imagens, aéreas com drones, ou no epicentro dos dramas entre tempestades de areia, incêndios ou cidades completamente destruídas. Ainda que inegavelmente interessado em seus resultados, Weiwei vende essa ideia de plural, de democrático, e de mostrar o drama como-ele-é.


Human Flow

Festival: Veneza

Mostra: Competição Principal

Prêmios:

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aiweiweineversorryAi Weiwei Never Sorry (2011 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Alison Klayman acompanhou, durante três anos, a vida do polêmico artista plástico chines Ai Weiwei. O documentário é mais uma forma de colocar Weiwei, e seu enfretamento ao governo chines, em destaque para o mundo. Por isso mesmo, trata-se de um documentário chapa branca, protocolar, que jamais o confronta.

A força de Weiwei e sua representatividade são inestimáveis, indiscutíveis. E esse material funciona para pontuar aos leigos sobre quem é, quais são suas questões políticas e em como a cúpula chinesa tem tentado minar sua força, inventando até razões para mantê-lo sobre carcere. O foco, como já era esperado, parte da obra de um artista, para sua visibilidade como ativista. Weiwei é perseguido, acusado, mas nunca perde a compostura.

Porém, apesar de tantas admiráveis atitudes, de tanta coragem, Weiwei prova que a ética de um é diferente da ética do outro. Se na esfera política ele corre riscos, luta pela igualdade, liberdade de expressão, justiça, na esfera pessoal descobrimos que a ética de Weiwei foi adaptada ao seu bel prazer. Muitos podem achar isso besteira, afinal a sociedade já se corrompeu a aceitar, mas quem defende justiça e outros aspectos morais, com tamanha veemência (e razão) não pode ter atitudes questionáveis, e um filho fora do casamento não é pregar a justiça/igualdade dentro de sua própria casa.