Manglerhorn

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Manglerhorn (2014 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A carreira do cineasta David Gordon Green começou muito bem, até se tornar essa fotografia esquizofrênica, quando se olha para o todo. Seus primeiros filmes realizados como de um discípulo de Terrence Malick, marcaram uma coesa visão sobre o americano médio sulista (seus dois mais celebrados filmes são George Washington e Contracorrente), cinema indie americano que escapava da cartilha Sundance (exceção apenas em Prova de Amor). Depois de fincar seu nome num caminho solidificado, partiu para as comédias no estilo Judd Apatow, como Segurando as Pontas.

Sua filmografia virou de ponta cabeça, e, por algum motivo, após algumas dessas comédias tolas, Gordon Green decidiu retomar de onde havia parado. Vieram Prince Avalanche e Joe (o mais próximo de chupinhar Malick que o diretor chegou), e a clara demonstração que quanto mais tenta, mais se afasta no caminho que trilhava no início da carreira.

Seu novo filme foi escrito para Al Pacino, após um encontro casual entre os dois, onde Gordon Green questinou se o ator não aceitaria trabalhar com ele. Al Pacino é outro que envelheceu e continua tentando, não tem medo de arriscar, topa papéis pequenos que possam trazer sua carreira a uma redenção (não que fosse necessário para o todo, mas ao presente sim). E juntos contam a história desse homem amargurado, que escreve cartas (que não chegam a ela) ao amor da juventude, enquanto vive em pé de guerra com o filho, e tenta demonstrar carinho à neta.

A obviedade do roteiro, aliado ao tom melancólico modorrento, transformam Manglehorn no exemplo perfeito dessa fase de retomada de Gordon Green. Alguem que segue tentando reconstruir o que perdeu, por suas próprias escolhas, e quanto mais tentativas, mais se distância doque seria reconfortante. Gordon Green cada vez mais sombra de um cinesta promissor de outrora.

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O Informante

oinformanteThe Insider (1999 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um filme sobre grandes corporações e seu poder além das leis, o lobby das grandes indústrias de tabaco, a falta de lisura da imprensa quando atingem seus interesses comerciais. Tenho essa impressão, de que você não entendeu nada do filme, se acredita que são estes seus temas. Uma impressão ofensiva, a bem da verdade, mas o filme de Michael Mann se apresenta tão rico em camadas que tornar as subtramas complementares seria como torná-lo um drama moral e quadradinho.

Há um embate forte entre dois personagens complexos: o executivo (Russel Crowe) e o jornalista (Al Pacino). Cada um deles carrega sua carga ética, e seus interesses próprios. Por isso que, mesmo jogando do mesmo lado (se é que se pode dizer isso), há tantas cenas de embate entre eles. Discussões, acusações e argumentações. No fundo eles querem a mesma coisa, a entrevista bombástica que traria a tona verdades da saúde pública. Porém, há meandros, interesses e desconfianças, A relação de confiança parece prestes a ser quebrada, e o jogo é este, mantê-la inquebrável.

O jogo de tribunais entre corporações envolve tabagistas e jornalistas, Mann tem esse poder de manter as coisas grandes como subtramas imprescindíveis, mas de dar valor as pequenas relações (afinal, são elas que perfazem os acontecimentos). Seja as discussões entre jornalistas (nisso, afigura de Christopher Plummer é essencial), seja no peso da situação financeira confortável ruir frente as verdades que o executivo demitido estaria prestes a expor. Mann cria o clima exasperante, o suspense em sua forma mais acolhedora e claustrofóbica, pelo âmbito psicológico. Tudo tão imperfeito quanto real, tão eloquente quanto assustador. Nos planos fechados na casa do jornalista, ou nos planos abertos que amplificam o poder da dúvida do executivo, tudo tão pensando, quanto milimetricamente realizado para ser esse filme que te sufoca a ponto de não ser mais tão importante a tal verdade, e sim os mecanismos que marcam os bastidores de uma matéria polêmica.

Fogo Contra Fogo

fogocontrafogoHeat (1995 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Tenho essa leitura de que o gênero “filme policial” veio ocupar a lacuna deixada pelo Western. Espécie de atualização do gênero para esse novo ambiente urbano que se formou com o desenvolvimento. Eles continuam durões, empunhando armas, normalmente em caçadas entre vilões e o mocinho. Nesse critério de western atualizado, Fogo Contra Fogo nasceu clássico. Michael demorou anos entre o primeiro roteiro que escreveu, e finalmente filmá-lo a contento. Tentou que outro diretor encabeçasse o projeto (quando seu nome ainda não tinha o peso), tentou tranformá-lo numa série de tv (dessa ideia saiu L.A Takedown), e finalmente voltou ao proeto, com orçamento e dois dos maiores astros: Al Pacino e Rober DeNiro.

A trama foi baseada numa história real, um policial de Chicago, nos anos 60, que viveu uma caçada contra um criminoso meticuloso. Em quase três horas, Michael Mann é meticuloso em construir a relação de rivalidade/admiração entre policial (Pacino) e chefe da quadrilha (DeNiro). Lados opostos, personagens que se assemelham, seja na solidão, seja na adrenalina de perigo que os contamina, ou na integridade de sua integridade.

fogocontrafogo2Como uma panela com água no fogo, a fervura com que o policial aproxima-se na caçada de seu alvo torna o filme um labirinto que encurrala a quadrilha, enquanto isso, suas vidas seguem. Cada um deles tem seus laços afetivos: mulheres, filhos, família. As vidas não param no tempo, seguem simultaneamente, e Mann dá cabo dessa teia de relações complexas e problemática com alguns destes personagens. Dessa forma desenvolve frentes, constrói camadas e mais camadas, são mágoas e frustrações. Casamentos se acabando, outros em crise, amores surgindo. A vida náo para, as inventigações seguem, os planos de um novo assalto também.

A elegância com que filma a cidade: noturna, as luzes. A explosão que o policial carrega em sua vida (a cena em que ele leva a tv embora, por exemplo), são pequenos peticos deixados por Mann, enquanto prepara o público para as grandes cenas, tiroteios e perseguições em que o cineasta destila seu estilo, alucina com essa elegância transformada numa violência romântica. Cenas de tirar o fôlego, e ainda tão plasticamente bem planejadas, O embate num café, o plano e contra-plano, cada um desvendando seu oponente, o assalto ao banco e as perseguição nos minutos finais. O novo western, um clássico desde sua concepção.

O Último Ato

oultimoatoThe Humbling (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Anda meio esquecido o nome do diretor Barry Levinson, cujo auge foi nos anos 80. Al Pacino também é outro que na velhice não é nem sombra do ator do passado. Juntos nessa história que tenta ser moderna, e trazer o mundo do teatro ao cinema, baseado num livro de Philip Roth. Seu resultado é, no mínimo, equivocado.

As histórias de atores famosos em crise são costumeiras no cinema moderno, a depressão e tendências suicidas são caminhos clichês. Enquanto tenta se recuperar da fase complicada, Simon Axler (Pacino) se envolve com uma lésbica (Greta Gerwig), além de mais jovem, filha de um casal de amigos. O que deveria ajudar, graduamente eleva o caos. Inseguranças e fragilidades, a rotina da relação enquanto Axler percebe a decadência financeira, e natural necessidade de reencontrar maneiras de trabalhar. Há ainda o psiquiatra via Skype, uma forma de tentar organizar melhor as ideias da própria audiência. Tudo tão equivocado que explica bem porque os filmes de Barry Levinson passam em branco, e praticamente não são mais lançados no cinema brasileiro.

Um Dia de Cão

Dog Day Afternoon (1975 – EUA)

Colocando de maneira muito rala, é a história de um assalto a banco frustrado. O que desencadeia esse fato é o que Sidney Lumet estava verdadeiramente filmando. Seu filme é vibrante, pungente, excêntrico e até desafiador. Al Pacino é o estopim, a chama que acende e mantém viva a alma do filme, e de maneira visceral, empolgante, anárquica. Primeiro que aos olhos da atualidade, os fatos reais parecem amadores, não é possível imaginar um assalto a banco administrado daquela forma, os tempos são outros, os assaltantes são outros. Porém, o que acontece ali é a transformação do bandido em herói, Sonny (Al Pacino) conquista a opinião pública, atrás da polícia uma multidão grita seu nome, torce a favor, o assalto se transforma numa grande manifestação contra repressão, as autoridades e a polícia.

E, nesse ponto, os gritos inflamados de Sonny contagiam a torcida, sua vibração vai além das motivações que o levaram a tal ato violento e “injustificável”. Sob as lentes da tv, nasce um mártir, dentro dele se misturam tantos sentimentos, que o controle da situação acaba perdido pelas proporções. Os coadjuvantes estão espalhados pelo banco ou na rua, mas o filme é Pacino e Lumet, um colocando lenha e o outro ardendo numa fogueira de sentimentos e frustrações, de conflitos (que envolvem até sua sexualidade) e decisões. Sonny pulsa e com ele todo o público que pode presenciar a verborragia triunfal dos gritos de “Attica, Attica, vocês se lembram”.

O Poderoso Chefão – Parte III

opoderosochefao3The Godfather, Part III (1990 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

As primeiras cenas resgatam a casa, do filme anterior, abandonada. Folhas secas, vento, móveis empoeirados, solidão. Em poucos instantes, Francis Ford Coppola posiciona Michael Corleone (Al Pacino) em sua nova função social de ex-marido. Ele fracassou com a família, e o filme todo será sobre redenção e a tentativa de reconstruir o vaso esfacelado que se tornou sua vida. Da legalidade dos negócios à reconstituição da harmonia familiar – dentro do que seja possível, já que o divórcio de Kay (Diane Keaton) foi inevitável. A Igreja Católica chega forte como um dos pilares desse terceiro capítulo, é nela que Michael foca seus esforços, o desejo de deixar o passado negro e viver de negócios lícitos. Essa inclinação causa o interesse das demais famílias em entrar no negócio do Vaticano, e a inimizade da máfia italiana que ali estava. Quando mais alto, maior o grau de corrupção humana.

Novamente o filme é aberto com uma festa, Michael condecorado pela Igreja. Mas a primeira aparição em cena é de Connie (Talia Shire), que dessa vez se torna figura central, uma mulher forte, cruel e agora de participação determinante nos negócios dos Corleones. Ela assume a função firme feminina, que no filme anterior era de Kay, mantém a união familiar, mesmo que para isso tenha que definir pela violência. Michael é um homem amargurado e solitário, as tragédias de sua vida estão estampadas em sua tristeza, e a culpa pelo assassinato de Fredo o acompanha eternamente. Os filhos cresceram, Anthony quer ser cantor, já Mary (Sofia Coppola) mantém a doçura e proximidade com o pai, enquanto apaixona-se pelo primo, filho bastardo de Sonny, Vincent Mancini (Andy Garcia) que acaba por se tornar o sucessor de Michael enquanto uma nova guerra entre os mafiosos é iniciado (é assim, os jovens sucedem aos velhos).

opoderosochefao3_2A corrupção do Vaticano, imagino o furor causado pelo roteiro ter acusado o assassinato do Papa João Paulo I (baseado nas inúmeras teorias que cercam o caso). Coppola seguiu firme, provocando a todos e criando cenas antológicas. Continua a presença marcante das laranjas e cavalos nas cenas que precedem mortes, a trilha sonora magistral de Nino Rota (que faz o coração bater forte a cada aparição), e as festas que guardam encontros que desencadeiam as tramas posteriores. A cena da confissão de Michael, em pleno Vaticano, filmada por entre arbustos, o romantismo das mãos dadas (Mary e Vincent) em meio aos pedaços de nhoque, mas nada se compara a longa sequencia de suspense no teatro, tantas tragédias acontecem enquanto a ópera Cavalleria Rusticana encanta o público. Dentro e fora do teatro, os destinos são fechados, até o gran-finale na escadaria e o grito mudo. Falta uma atriz que interpretasse minimamente Mary, sobre a herança dos filmes anteriores, que juntos constituem a maior trilogia do cinema. A trilogia de O Poderoso Chefão é uma novela elegante e brega, magnânima e crítico, essencialmente humana por mais que seja o retrato horrível da crueldade dessa humanidade. O retrato de duas realidades, a do crime organizado e da desestruturação das famílias ao longo do tempo.

O Poderoso Chefão – Parte II

opoderosochefao2The Godfather: Part II (1974 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Lealdade é a palavra de ordem da saga dos Corleone. Ela está acima dos interesses comerciais, dos sentimentos. É a lealdade que move as decisões, dá credibilidade e camufla outros erros. Tudo pode ser perdoado, exceto a falta dela. O segundo capítulo da saga marca a consolidação de Michael (Al Pacino) como o chefe da família Corleone, colocando sua maturidade à prova entre tantos interesses individuais, dentro e fora do clã. O diretor Francis Ford Coppola materializa a lealdade como figura máxima, partindo de duas frentes: a nova configuração da família Corleone, sem o pai; e o flashback da migração de Vito (Robert De Niro) para os EUA, e seu início no mundo do crime.

Cassinos e hotéis, investimentos em Cuba (concomitantemente com a revolução de Fidel prestes a explodir), as insatisfações dos aliados que querem mais poder, novas conspirações do mundo máfia e o governo investigando os negócios da família Corleone. Michael enfrenta crises, sua liderança com pulso firme é contestada. As crises matrimoniais com Kay (Diane Keaton). Coppola não se cansa de planos fechados no rosto de Pacino, no auge o ator corresponde com o peso do amargor e a necessidade de ser firme. É um filme com menos sangue, porém muito mais sentido.

De outro lado, a ascensão de Vito Corleone, a fuga da Itália, os tempos difíceis em Nova York, os primeiros assaltos, até outra antológica cena: a morte de Fanucci (Gastone Moschin), com a arma enrolada numa toalha, a vingança que corre pelas veias. Novamente a lealdade de pé, à família, à honra, lealdade aos seus, mas principalmente aos princípios que regem as famílias italianas.

A segunda obra-prima de Coppola é de uma densidade nebulosa, a abertura, com a cadeira marcada pelo uso, após um respeitoso beijo na mão do Padrinho, são detalhes, cenas que representam pela força do silêncio, pelo peso que Coppola sabiamente carrega. O beijo de Michael em Fredo (John Cazale), o filme pede envolvimento total do público para distinguir nuances, compreender o peso da lealdade. Não se trata de meras histórias de mafiosos, o Poderoso Chefão é sobre o poder, sob as dificuldades de tomar decisões, tudo isso elevado ao limite extremo.