Posts com Tag ‘Alejandro Almenábar’

maradentroMar Adentro (2004 – ESP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

O aspecto que mais chama a atenção, na decisão de Ramón Sampedro (Javier Bardem), é a convicção. Em nenhum instante paira a dúvida sobre seu maior anseio. É compreensível, foram vinte e oito anos presos, numa cama, necessitando de auxílio de amigos e familiares para as mais simples atividades. Sentimento de estorvo. Ramón faz questão de deixar claro que não está julgando outros deficientes, mas ele não tem mais vontade de viver. Morrer com dignidade é seu lema, e o filme mostra a luta na justiça, para que sua morte seja feito dentro da lei, sem que alguém possa ser responsabilizado. Eutanásia, assunto delicado.

Para caminharmos pela vida do poeta, é inserida na história a advogada Julia (Belén Rueda), e por meio de suas perguntas, mergulhamos no passado e na melancólica vida de Ramón. Dificilmente a câmera de Alejandro Amenábar é estática, quando fora do quarto de Ramón. Essa sensação de movimento destoa, ainda mais, da impossibilidade de liberdade do personagem. A música pontua cada passagem melodramática, quase sufocando a voz dos personagens, seu exagero é eficaz e cansativo. Javier Bardem é intenso do início ao fim, sempre na medida certa, faz de sua atuação, a nobre razão de existir do filme. Pouco se tira quando ele não está em cena. Mas nesse pouco, há coisas de grande valor, como a surpreendente atuação de Mabel Rivera (como cunhada de Ramón). É dela a cena de maior emoção, sem pieguice, quando a pacata senhora estoura sobre o padre.

Os enlaces amorosos soam burlescos, dando um tom emotivo, e ainda mais desnecessário quando as discussões deveriam concentrar-se na eutanásia, e na situação familiar com todas essas circunstâncias. Fico imaginando a cabeça de alguém em situação parecida, quantas emoções e reflexões um filme como esse podem trazer, vibrações negativas ou alguma lição que traga ainda mais desejo de viver? No mais encerro com o pai constatando uma cruel realidade; pior do que ver um filho morrer é um filho que deseja morrer.

The Others (2001 – ESP/EUA/FRA) 

O marido foi lugar na Segunda Guerra Mundial e Grace (Nicole Kidman) vive com os filhos numa mansão afastada nas Ilhas Jersey. As crianças sofrem de uma doença rara que não lhes permite exposição a luz do sol, por isso as janelas estão sempre fechadas, a iluminação toda a base de velas. Todos os empregados simplesmente partiram, sem maiores explicações, e três desconhecidos, se dizendo serem antigos empregados da casa, batem à porta pedindo emprego. As crianças dizem ver fantasmas pela casa, a mãe, religiosa fervorosa, não acredita e o conflito é inevitável.

Bem destacável a direção de Alejandro Amenábar, e sua capacidade de resgatar o clima de terror dos filmes dos anos quarenta, sem pieguice. A narrativa lenta, a atmosfera de suspense, a iluminação sombria, e, acima de tudo, a maquiagem das crianças – os rostos sem cor, os lábios vermelhos destoando da pele branquela, são essenciais para a imersão do público. O som de portas rangendo, os figurinos, o clima criado naquelas breu danado. Os Outros é uma das gratas surpresas do ano, com Kidman dominante tanto nas cenas dramáticas, quanto no suspense, uma atuação marcante. O desfecho e seu plot twist fica para os vinte minutos finais, quando a velocidade narrativa aumenta e as respostas começam a esclarecer o que se passa naquela mansão.