Posts com Tag ‘Alejandro González Iñarritú’

oregressoThe Revenant (2015 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Estamos no século XIX, caçadores ganham a vida se embrenhando por regiões inóspitas, em eterno conflito com indígenas locais. Na trama, Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é atacado ferozmente por um urso, e acaba traído e abandonado por um de seus parceiros (Tom Hardy). O filme se torna uma aventura de sobrevivência, até desembocar na sede de vingança. Claro que tudo isso é exagerado, afinal estamos em outro filme de excessos de Alejandro González Iñárritu.

Os longos planos-sequencias destacam mais energia em meio as lutas sangrentas. O balé da câmera focaliza potencializa o grau de urgência, as batalhas coreografadas entem e saem de foco. Nesse Survivor de época, Iñárritu falsamente discute a honra e a lealdade, seu desejo explícito é causar novo impacto com o grau de violência e a quantidade de adversidades a qual o protagonista (semi-morto) precisa passar para retonar ao grupo. E nesse quadro, DiCaprio cumpre as necessidades com uma atuação de gritos, desespero e a dor física e psicológica dos limites testados a cada instante.

birdmanBirdman: or (The Unexpected Virtue of Ignorance) (2014 – EUA) estrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Exagero, extravagância, eloquência. Não faltam adjetivos capazes de rotular o novo filme de Alejandro González Iñarritu. O cineasta mexicano, que explorou o recurso das histórias que se entrecruzam até esgotar a paciência do público, vem agora, com o ego nas alturas, discutir a inesperada virtude da ignorância. O ator (Michael Keaton) que tenta na Broadway a redenção após o estigmar de ser o herói dos cinema (Birdman) é prato cheio para Iñarritu preencher com histerismo os bastidores de uma peça prestes a estrear.

O ego de Iñarritu começa pelo falso único plano-sequencia, a qual o filme ser apresenta. Personagens berrando o tempo todo, os nervos à flor da pele, é tudo capturado pelo exagero de discursos agressivos, e pela petulância de quem tenta resumir os males do mundo em meia-dúzia de personagens caricatos. É o cinema da demasia, da loucura calculada na pretensão de um estudo psicológico humano, que não vai além da arrogância da sátira do absurdo.

Biutiful (2010 – MEX/ESP)
 
Alejandro González Iñarritú (Babel / Amores Brutos) finalmente lança seu longa-metragem sem roteiro de Guillermo Arriaga, e sem a gasta fórmula de três histórias que se entrecruzam, tendo como elo um acidente. Mas a mudança não foi tão radical assim, Uxbal (Javier Bardem) carrega todo mundo em suas costas e parece ele ser o acidente a conectar outros dramas. Cada fotograma dessa história é carregado de dor, de sofrimento, não há nada que não seja cinza, turvo, tumultuado (nem os momentos das crianças, nem as loucuras da esposa, muito menos a relação com o irmão, e pior ainda a vida dos imigrantes chineses).

Sem dúvidas, não há beleza nessa história, é o fim da linha de um homem que não poderia se despedir do mundo, e seu corpo definha, e suas relações pessoais seguem no mesmo ritmo, como se o corpo fosse reflexo do estilo de vida que ele se propôs a viver numa Barcelona imunda visualmente, triste, depressiva. A questão da pirataria é secundária, ainda assim relevante e de longe o grande destaque da história, tratada de forma crua e dura, pode nos tirar o folego pela veracidade. Por outro lado o drama cansa de tão pesado, não seriam tragédias e mais tragédias, e sim esse fim anunciado que vai chegando pacatamente e Iñarritú não nos permite nenhum fio de esperança.

Babel (2006 – EUA)

O tema está presente explicitamente no título, trata-se de um filme sobre a incomunicabilidade. Buscando abordar horizontes mais amplos, a globalização chega às telas de cinema, até então tínhamos co-produções multi-geográficas, agora a história o é. A fronteira México-EUA, Marrocos, Japão, um tiro, um feroz desencadeamento de situações dramáticas. É novamente Guillermo Arriaga no roteiro e Alejandro González Iñárritu na direção.

A meu ver, o grande problema é o próprio tiro, a preocupação em se formar uma poderosa ligação entre as três histórias (além do tema incomunicabilidade), seguindo os moldes de seus filmes anteriores, acarreta em quebra do ritmo nas histórias, em fracas interligações entre as mesmas, em exagero de coincidências. Se as histórias fossem individuais, teriam o mesmo impacto (já que de tensão Iñarritu sabe tudo e mais um pouco) e menos distorções. Poderiam assim desenvolver melhor o lado político e suas proporções, a sensibilidade da relação de alguns personagens, e os dramas das escolhas erradas em momentos de alta pressão.

Um casal norte-americano passa férias num país exótico tentando superar a crise conjugal. Uma doméstica mexicana decide levar os filhos de seu patrão para um casamento de um parente seu, por não ter encontrado quem ficasse com as crianças. Dois garotos marroquinos tentam evitar que chacais ataquem o magro rebanho que seu pai os incumbiu de levar para pastar. Uma adolescente japonesa surda-muda vive seus momentos de descoberta da sexualidade.

Em todos os casos a falta de diálogo é latente, a incomunicabilidade assola cada um dos envolvidos, cada uma das vidas, é o casal que não consegue mais dialogar devido a dramas recentes. A adolescente japonesa que mesmo interagindo com a cultura J-pop sofre pelas coisas mais simples, falta-lhe compreensão, diálogo, carinho. A babá mexicana que não consegue entender o drama vivido por seus patrões, ao mesmo tempo em que não consegue encontrar uma solução plausível para seu problema. Os jovens marroquinos que se divertem como duas crianças normais, assumindo responsabilidades de adultos, quando sofrem dos mesmos dilemas pueris de qualquer parte do mundo, só que aprendem tudo pela vida, já que o diálogo familiar é escasso, cheio de tabus.

Iñarritu nos oferece uma visão preconceituosa, de que os dramas dos terceiro-mundistas resumem-se a violência e o controle de seus instintos selvagens. Enquanto os ricos sofrem com seus problemas psicológicos e intimistas. Será que o dinheiro é o único instrumento regulador à problemática da humanidade ou será que temos visões deturpadas e generalistas sobre o que afligem cada um de nós em cada canto do planeta?
Mostrar que vivemos numa torre de babel, onde não nos comunicamos como deveríamos, ocasionando em problemas, em dificuldade para enfrentar situações, é o lado mais competente do filme. Volto a frisar que a insistência em manter diálogo entre as histórias é prejudicial, como se Iñarritu fosse vítima da própria incomunicabilidade que ele mesmo criticou. Brad Pitt ao telefone com o filho, o momento de despedida do ônibus do pequeno vilarejo, são pequenos instantes de tensão-limite, impossível não se emocionar. Há também algumas cenas com Rinko Kikuchi (e toda sua sensualidade adolescente) simplesmente inesquecíveis. Uma mudança na estrutura faria muito bem ao filme, muito irregular, mas Babel tem muita coisa boa, e não é um filme que você irá esquecer facilmente.

Muito cinema ultimamente, mas não no circuito comercial, ontem sessão lotadíssima par a Mostra de Godard (pretendo ver pelo menos seis nessa semana). Fiz sessão-dupla e na segunda encontrei Marcelo V e Ana Paul. Na semana passada foi a vez da Mostra de Neo-realismo, mais uma sessão-dupla dessa vez com Eduardo Aguilar e duas amigas dele… E ainda vou dar um jeito de ver o novo do Forster, mas tá difícil.

Amores Perros (2000 – MEX) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Câmera tremendo, respiração ofegante, um cão sangrando no banco de trás. Uma alucinante perseguição, um carro cruza o sinal vermelho, um acidente. Começa assim o filme de estreia do diretor Alejandro González Iñárritu (com roteiro de Guillermo Arriaga), e que estreia! São três histórias envolvendo amores e cães, conectadas a esse acidente de carro que se torna divisor de águas na vida dos envolvidos. Um drama denso e intrigante, narrado de maneira impactante e contundente. Os cães funcionam como um brilhante artifício para potencializar os desfechos. Iñárritu demonstra-se um diretor perito na maneira de posicionar a câmera, enquadramentos não convencionais e uma fotografia suja dão impressão ainda mais forte da atmosfera carregada que persegue os personagens. Além das competentes atuações, com destaque para Gael García Bernal e Emilio Echevarría.

A estrutura narrativa e a edição bebem das potencialidades do roteiro, para unidos, apresentarem um filme único, inovador, frenético, e coberto das angústias da vida moderna. A violência circunda as vidas, o amor tanto constrói quanto destrói, a política fragmenta pessoas, desmantela famílias. Octávio (Gael García Bernal) é apaixonado pela esposa de seu irmão. Susana (Vanessa Bauche) casou-se muito jovem com Ramiro (Marco Pérez) por estar grávida e agora é constantemente maltratada por esse assaltante de farmácias. Por ironia do destino Octávio descobre que seu cão é um exímio lutador, passa a lucrar com essa particularidade, juntando dinheiro para fugir com sua amada cunhada enquanto flerta com ela. Mergulha num sonho sem nem se preocupar se está devidamente acompanhado.

Daniel (Álvaro Guerrero) anda infeliz em seu casamento e decide largar sua esposa e família para morar com sua amante, a famosa modelo Valeria Maya (Goya Toledo). O acidente vem de encontro ao ápice da felicidade do casal, Valéria é submetida a delicadas cirurgias e fica presa a pinos e camas de hospital. De volta ao lar, o casal passa por momentos difíceis, Valeria vê seu sucesso profissional desmoronar ao perder toda a beleza e encanto que possuía. Sua situação deteriora-se quando seu estimado cão cai num buraco no assoalho e fica preso, a falta do querido animal de estimação atrapalha diretamente a recuperação de Valeria e a continuidade do relacionamento do casal.

Chivo (Emilio Echevarría) vive como um mendigo, anda moribundo pelas ruas, cercado por seus cães, ou isso é apenas um disfarce para seu trabalho como matador de aluguel? Passou muitos anos na cadeia após ter sido guerrilheiro e agora sobrevive desses “trabalhinhos”, mas é atormentado pela distância que o separa da filha. O fato divisor de águas funciona como sinal de mudança para que esse homem, a oportunidade de rever sua vida e traçar novos planos para seu futuro.