Francofonia – Louvre sob Ocupação

FrancofoniaFrancofonia (2015 – FRA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

É sintomático esperar um Arca Russa versão francesa, dada a relevância do grande filme que Aleksander Sokurov realizou no Museu Hermitage em 2002. Até por isso, Sokurov parte em caminho oposto em muitos aspectos, para essa versão patrocinada pelo próprio museu. Ao invés de contar a história da França, o cineasta russo versa sobre o momento delicado vivido pelo museu, a invasão Nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

O próprio diretor assume a narração, divide o docudrama entre imagens de arquivo e tomadas de grandes obras do museu, enquanto traça a história da preservação da arte, uma aliança colaborativa de um general Nazista e o diretor do Museu à época. O resultado final fica muito longe das reflexões existenciais lentas e enriquecedoras de Sokurov, se tornando mais uma diluição de parte das principais características do russo (desde sua linguagem, até seu estudo sobre o poder, e principalmente seu poder com as metáforas). O didatismo imperativo entre discussões sobre a relação arte e poder ou arte e vida, mas terminam genéricas e distantes daquele mergulho hipnótico de seus antigos filmes. Fica o gosto amargo da decepção, e de uma autopropaganda ao museu e à arte que, no mínimo, soa desnecessária.

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A Voz de Sokurov

avozdesokurovThe Voice of Sokurov (2014 – FIN) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Dividido em sete entrevistas, ocorrida em dias e locais diferentes, a diretora finlandesa Leena Kilpeläinen oferece um apanhado da carreira de Aleksandr Sokurov. O cineasta russo conta momentos de sua carreira, as dificuldades com os anos em que foi censurado, um pouco da importância de Tarkovsky, sobre críticas, seu estilo de filmagem, a relação com produtoras como a Lenfilm e a Mosfilm. Enquanto discorre sobre os assuntos, as imagens apresentando quase todos os filmes de sua carreira (principalmente os de ficção).

É interessante para quem conhece sua carreira, por mais que Kilpeläinen não consiga/tenta se aprofundar nos temas. Pequenas curiosidades, opiniões que vão desde política à arte. Sokurov fala aos seus fãs, e só a eles esse documentário é dirigido, se bem que, para quem conhece seus trabalhos, o filme não passa de um pequeno momento de recordar cenas e histórias, e ter a sensação de estar compartindo com os que estão na mesma sala escura de cinema.

Links da Semana

Vamos para a segunda parte do post sobre filmes que vem por ai!

Zama (de Lucrecia Martel) [Los Andes] [IndieWire] [Hollywood Reporter]

Francofonia: Le Louvre Under German Occupation  (de Aleksandr Sokurov) filmado no Louvre [Screen Daily] [24 FPS Verite] [C7nema]

Gone Girl (de David Fincher) – adaptação do livro Garota Exemplar [IndieWire] [Vulture] [Youtube]

Cemetery of Kings (de Apichatpong Weerasethakul) [Hollywood Reporter] [IndieWire] [IonCinema]

Jersey Boys  (de Clint Eastwood) [Variety] [Omelete]

April (de Vincent Gallo) [IndieWire] [Film Buff]

Elegia Oriental

elegiaorientalOriental Elegy / Vostochnaya Elegiya (1996 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

 Como seriam os sonhos de Aleksandr Sokurov? Não aqueles que temos acordados, imaginando metas e desejos (in) tangíveis. Me pergunto de quando Sokurov coloca sua cabeça no travesseiro, pega no sono, e sua mente trabalha, no subconsciente. Esse momento seria formado de imagens turvas e viagens midiáticas? Porque muitos de seus filmes são assim, e essa, que é a oitava elegia, mais ainda.

Uma viagem sob o abstrato, um vilarejo japonês. Uma camponesa, fluxos de consciencia e Sokurov trafega pelo imaginético, seu cinema de percepções atinge o auge, são 43 minutos de uma hipnose apoteótica, onde tudo e nada fazem sentido. E, há ainda aquele vilarejo japonês. Ele teria chegado lá ou seria outro sonho, ou fragmentos? Pouco importa, os olhos vidrados pelas obsessões do cinema de Sokurov apenas acompanham as formas e congruências que se apresentam em cena.

Maria

mariaMariya (1989 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Também conhecido como Elegia Camponesa, marca dois momentos na vida dessa camponesa retratada por Aleksandr Sokurov. Nos anos 70 ela é raio-x dos camponeses pelos campos soviéticos. Filmado em cores, a família e o trabalho estão bem representados no sorriso da loira bonachona.

Na segunda parte, Sokurov revisita Maria, nove anos mais tarde, ou pior, estamos em seu funeral. Filmado em preto e branco, as constatações do que se transformou a vida e a família da documentada, refletem a falta de esperança vivida nos anos 80, tempos de crise.

Moloch

molochMolokh (1999 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

O âmago do ditador Adolph Hitler (Leonid Moszgowoi) como você jamais imaginou. A relação com sua principal amante, Eva Braun (Elena Rufanowa), e seus assessores mais próximos, durante um mero fim de semana no campo, em plena Segunda Guerra Mundial. Uma intensa e reflexiva demonstração da intimidade do pai do Nazismo, sob uma ótica deturpadora e polêmica da imagem de grande líder da nação e mentor da série de horror promovida aos judeus. Alguns povos antigos adoravam divindades malévolas associadas a sacrifícios humanos, eram assim chamados Moloch.

O diretor Aleksandr Sokurov faz uma reconstrução impecável da época, tudo acontece em torno do casarão isolado onde vivia Eva Braun, nos Alpes da Bavária. Apoiando-se no clima sombrio de seus trabalho anteriores o diretor abusa das imagens granuladas e imperfeitas, do tom marrom e verde musgo, da sensação de nuvem, de neblina. Sua presença pode ser notada em cada movimento de câmera, em cada gesto dos atores. O ritmo lento, o olhar vagaroso, como se o público admira-se um quadro num museu, olhando, com prazer e atenção, a cada detalhe, vivenciado cada cena.

A frieza da abordagem e a parcialidade com que a plateia vê a figura do ditador são elementos atenuantes, causadores de uma reflexão muito mais profunda de cada palavra, de cada discurso proferido pelo Führer. O olhar ensandecido do ator Leonid Mosgowoi refaz com muita propriedade o espírito do ditador, vagando pela ópera ou degustando uma insignificante sopa. Nesse refugio, Hitler, acompanhado do Ministro da Propaganda, Joseph Goebbles (Leonid Sokol), e seu principal assessor, Martin Bormann (Vladimir Bogdanov), procura desfrutar de momentos tranquilizadores, em passeios pelo jardim ou nos braços de sua amante. Neste clima Sokurov sai à procura de características íntimas do ditador, apresentando um homem patético, hipocondríaco e covarde. Eva Braun é a única que ousa afrontá-lo, enquanto todos se humilham em momentos de “puxa-saquismo” flagrante.

Esse Hitler esquizofrênico, amante das artes, cercado de figuras decorativas, demonstra-se desinteressado pelos assuntos da guerra e esquiva-se quando tem chance. Mantém as aparências com discursos ensandecidos sobre urtiga, a Ucrânia, ou os problemas dos tchecos e dos finlandeses. Nem mesmo o Duce escapa de críticas, mas é com Eva que o Führer desprende-se de sua máscara e escancara suas fragilidades. Sokurov ousa tratá-lo como humano, explorando o amor e ridicularizando-o cada vez mais. Por vezes, é difícil acreditar em uma figura tão lamentável, afinal, acreditar num fantoche produzido pelos Nazistas seria muita fantasia.

Arca Russa

arcarussaRússki Kovtcheg/Russian Ark (2002 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

O Hermitage, em São Petersburgo, imponente palácio que abrigava os Czares é hoje um dos maiores museus do mundo. Entre seus longos corredores e câmaras estão expostos toda a sofisticação de uma época monárquica onde a burguesia desfrutou de todos os prazeres enquanto o povo vivia à margem. São três séculos de história, escondidos entre obras de arte e delicados objetos resgatados do czarismo.

Dessa vez o diretor Aleksandr Sokurov ousou em toda a forma estética, seu filme foi constituído sob uma única tomada, não havendo nenhum corte, noventa e tantos minutos de um único plano-seqüência. Os atores entram e saem de cena, e a câmera continua ligada, flagrando esculturas e pinturas, viajando dentro do museu enquanto aguarda até que se abra a próxima porta. Um trabalho meticuloso, perfeccionista, presunçoso também, é verdade, mas acima de tudo cirurgico.

Os figurinos são extasiantes, a fotografia permite que todas as obras sejam apreciadas com total lisura, tamanho grau de beleza e qualidade, o ouro dos talheres, as pinturas renascentistas, as esculturas majestosas e os trajes aristocráticos. Como mestre de cerimônias dessa viagem pelo tempo temos um fantasma diplomata-europeu (Sergei Dresden, em momento de profunda inspiração). Apreciador das artes e profundo instigador do público do museu, o personagem flutua pelos corredores questionando a alma desse país continental e discutindo, com o narrador, representado por câmera e voz (o próprio diretor), além de funcionar como conexão e ajudar no ritmo narrativo.

A cega que aprecia esculturas pelo tato, a senhora que interage dançando com os quadros, jovens que analisam pinturas de maneira superficial, a cena reconstituindo um formal pedido de desculpas do Rei da Pérsia, trajes militares e saraus aristocráticos. O requinte do Hermitage fica impresso pela vagarosa e detalhista lente de Sokurov. A influência européia sob a cultura russa está por todos os lados e apontada com maior veemência quando o fantasma do diplomata destaca os russos como ótimos copiadores. Um berço de história nessa arca que se transformou o Hermitage, desfilamos por diversos momentos históricos e diferentes governantes, aprofundamos os conhecimentos de um país tão intrínseco e de individualismo tão prosaico.

No fim a burguesia despede-se triste, parte do museu sem o brilho ofuscante que a caracterizou, e sem notar as profundas mudanças que viriam pela frente com o fim da Primeira Guerra e a reviravolta da Revolução Russa. O saudosismo poético de Sokurov dá vida a um tempo artisticamente perfeito e socialmente egocêntrico.