Posts com Tag ‘Aleksandr Sokurov’

elegiamoscovitaMoskovskaya Elegiya (1987 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Era para ser um documentário celebrando os 50 anos de Andrei Tarkovsky, mas devido a atrasos na produção foi obrigado a ser remodelado devido ao falecimento do cineasta russo. Dessa forma, Aleksandr Sokurov presta sua homenagem ao seu amigo e grande incentivador. Como não poderia ser diferente nos trabalhos de Sokurov, não é um documentário didático da biografia de Tarkovsky, muito mais sobre as sensações e impressões de Sokurov sob Tarkovsky, focando principalmente nos meses finais de vida do retratado.

Tarkovsky teve que mudar para o Ocidente já que seus filmes eram sempre censurados e ele precisava se sustentar. Foi contratado por italianos para filmar Nostalgia, a câmera o acompanha no set ou em discussões com os produtores. Ao fundo um narrador fala um pouco de sua genialidade, de seu estilo, e de como todos gostavam de trabalhar com ele. É uma visão admirada, mais de um fã do que um trabalho do abstrato Sokurov.

Dolce

Publicado: junho 9, 2013 em Cinema
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dolce...Dolce… (2000 – RUS/JAP) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Como se abrisse as páginas de um livro da família, o cineasta russo Aleksandr Sokurov conta parte da história do poeta japonês Toshio Shimao, desde quando conheceu sua esposa, até sua morte na Segunda Guerra Mundial como um daqueles pilotos de esquadrão kamikaze.

 Impressiona o formato invasivo e melancólico com que Sokurov foca sua câmera na filha. Sufoca, não lhe permite conforto. Ela evita olhar fixamente, está sempre com o rosto encostado na parede enquanto narra e lamenta a breve vida com o pai, ou resquícios de lembrança. Mais do que a história nacionalista do poeta japonês, destaca-se essa maneira abrupta a terna, porque a exposição traz mais sentimentos que fatos à tona.

Páginas Ocultas

Publicado: junho 4, 2013 em Cinema
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paginasocultasTikhiye Stranitsy / Whispering Pages (1994 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Novamente Aleksandr Sokurov toma emprestado algo de um clássico da literatura mundial, sem que faça o que se possa chamar de adaptação. Crime e Castigo, de Dostoiévsky, é sua inspiração para narrar sua descrença da vida em metrópole, a falência da sociedade como convívio social.

 Imagens congeladas que se transformam em perfeitas representações de quadros que poderiam estar presentes em qualquer museu, Sokurov transforma a plástica inebriante de seu cinema em visões estáticas e representativas. A fome e a pobreza, um assassinato, e a grande cena em que se revela o verdadeiro assassino. Sokurov expõe seus personagens a ausência total de sentimentos, ou de doenças religiosas. Frios, como a vida ingrata e os ambientes fétidos os fazem viver, ainda assim sem crueldade.

osegundocirculoKrug Vtoroy / The Second Circle (1990 – RUS) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Se um dos temas recorrentes a Aleksandr Sokurov é a morte, aqui ele nunca foi tão explícito. A morte de um ansião, o filho cuidando dos preparativos para o funeral. Apenas isso, cada passo é vagaroso, com distanciamento invadimos a casa fétida, a pobreza e falta de cuidados, devia parecer a casa de um falecido ainda com ele em vida.

Sokurov sempre buscando aliar cinema e filosofia, até gasta algum tempo com discussões financeiras de quanto custa um funeral, mas seu interesse é outro. Com seu estilo narrativo próprio ele vasculha emoções e o reflexo da morte, flertando com o asqueroso, criando uma atmosfera que vai além daquele ambiente, com o uso do monocromático e do pouco que se materializa diante dos olhos.

Salvai e Protegei

Publicado: maio 29, 2013 em Cinema
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salvaieprotegeiSpasi i Sokhrani (1989 – RUS) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Aleksandr Sokurov utiliza o clássico de Gustave Flaubert como inspiração, sua Madame Bovary tem o ímpeto erótico, porém intimamente ligado a princípios filosóficos. Ela comemora nua com sua criança no colo por ter um amante, aliás fala em francês com seus amantes russos, num tipo de excentricidade que tanto pode ser da personagem, quanto da própria criação de Sokurov.

Se cada um está obstinado na vida há alguma coisa que fugirá completamente de seu livre-arbítrio, o dela é a insaciedade sexual. Naquele que deve ser o filme mais libidinoso de Sokurov, o corpo que desfila nu por quase todo o filme, enquanto pede o ato sexual com uma grande variedade de parceiros, sofre na carne por outras questões que essa saciedade impõe. Em sua interminável duração, Sokurov segue a aproximar seus flames a quadros, jamais vulgariza a exposição dos corpos, mas, sobretudo, cansa com seu vislumbre da heroína sofredora.

Elegia de uma Viagem

Publicado: maio 28, 2013 em Cinema
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elegiadeumaviagemElegya Dorogi / Elegy of a Voyage (2001 – RUS) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Um sonho? Um delírio? O rito de uma viagem que nos leva totalmente ao desconhecido, ao inesperado. Pelo conjunto de imagens turvas, tão presente em seus filmes anteriores, Aleksandr Sokurov parte por seu caminho, não se sabe o destino. Há ali uma espiritualidade própria, uma sensação de tocar detalhes da paisagem, a sensação de uma beleza melancólica que esse conjunto de cenas, e tonalidades, provoca.

Um vagão de trem, os carros pela rua, um sujeito balbuciando algumas palavras num bar de beira de estrada. Sokurov vaga pelo abstrato, sempre contemplando a vida, o universo ao redor, até voltar no tempo. Encontra no estrangeiro, mais precisamente no museu Bojimans (em Roterdã), uma pintura de Peter Saenredam, e de tamanha sensibilidade consegue sentir o calor da tinta. Sua poesia triste é quase hipnótica, um barco em falsa deriva.

A Pedra

Publicado: maio 28, 2013 em Cinema
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apedraKamen / Stone (1992 – RUS) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um sonho, um devaneio, a volta ao mundo dos vivos após um tempo distante. Não se sabe ao certo, mas Tchekov está de volta, entre tantas cenas oníricas num branco e preto claustrofóbico, ele se relaciona com um jovem. Como pai, como amante, na figura do grande escritor, esses papéis se confundem enquanto o embate provoca sonolência na grande maioria do público. Sokurov rascunhava o que no  futuro seria sua Tetralogia, abordando figuras por um lado mais primitivo, uma visão particular.

Aleksandr Sokurov continua sua busca pela união da pintura (alguns frames são quadros magníficos) com o som (sejam eles gemidos ou trechos de música clássica), filosofando sobre temas tão complexos quanto próximos da natureza humana. Silêncios, paradas inexplicáveis, adoração por pequenos detalhes (como o tecido de uma roupa que será vestida). Captar todas as nuances dessa presença enigmática é uma arte quase abstrata.