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codigodesconhecidoCode Inconnu: Récit Incomplet de Divers Voyages (2000 – FRA/ALE/ROM)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Estava louco para rever Cachê, após assistir Código Desconhecido não me contive e no dia seguinte corri ao cinema. No meu entender esse filme serviu como esboço para que Michael Haneke desenvolve-se aquela que seria sua obra-prima (Cachê). Há algumas semelhanças, parte delas são marcas do estilo próprio do cineasta, outras não são tão gratuitas. E não é só do tema que estou falando, ressalto a incompreensão presente nos personagens (ou melhor, na vida humana), a estante cheia de livros no apartamento de Anne, seu modo de se vestir. Desde pequenas coisas às obsessões de Haneke.

Por me parecer um esboço, o filme tornar-se-ia, plausivamente, irregular (sem procurar desculpas para suas falhas). Quando se fala em fragmentos, falamos em pedaços de histórias, em pequenos esquetes sem começo, sem fim que acabam ligadas, de alguma forma, ao contexto geral.

As principais cenas do filme foram filmadas em longos takes sem cortes, a xenofobia está escancarada em cada uma dessas pequenas histórias que se entrecruzam. É no primeiro longo plano-seqüência que os personagens principais interagem, há um garoto que fugiu do sítio que morava com o pai, procura a namorada de seu irmão, quer refúgio. Ela (Anne) é atenciosa, mas deixa claro que ele não pode ficar, se despedem. Irritado o garoto joga um papel amassado numa mendiga (imigrante romena), um rapaz negro traz o garoto pelo pescoço a fim de obrigá-lo a desculpar-se pelo insulto causado.

Temos ainda um jovem francês, um negro e um imigrante, e o incômodo que eles causam. Os comerciantes querem se livrar da mulher mendigando, e o garoto negro, que almejava justiça e respeito, se torna o bode expiatório que vai parar na delegacia.

Temos a incompreensão entre raças, faltava a guerra. Georges (o namorado de Anne) é fotografo de guerra, vive nos perigos do front, presenciando o horror daquela estupidez. Uma discussão com uma amiga que não entende o porquê desse trabalho, quem estaria interessado em ver tais horrores, qual o intuito?

Haneke se põe na pele de Georges, defende o seu cinema. A imigrante é deportada, mas prefere mentir e voltar a Paris a ficar em seu país, mendigando consegue ajudar mais sua família. Chega de contar a trama, ela é toda marcada por pequenas situações, conversas, discussões, pseudo-explosões emocionais, tudo voltado para a incompreensão em diversas formas. A violência está presente o tempo todo, a xenofobia, o ódio, o interesse próprio, o egoísmo e o egocentrismo, Haneke monta um quebra-cabeças torto, mas suas peças são claras e objetivas. O Código Desconhecido a que se refere é esse código de conduta que não está escrito em livro nenhum, em lei nenhuma, mas é seguido por toda a sociedade, devorando o próximo. E se depois de tudo isso, você também achar que o filme é irregular, lembre-se, há Juliette Binoche, e ela dispensa comentários.