Hitchcock/Truffaut

Hitchcock-TruffautHitchcock/Truffaut (2015 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Não se apegar a simplesmente adaptar o célebre livro deixa o documentário de Kent Jones com liberdade de ir e vir ao material. Algumas gravações, e fotos, dos encontros entre Truffaut e Hitchcock são intercalados com depoimentos de cineastas como Martin Scorsese, Wes Anderson, David Fincher ou Olivier Assayas. Enriquecendo assim o mergulho no cinema de Hitchcock, e até complementando ao livro, mas também trazendo o interesse da audiência que vê os consagrados diretores brincarem de fãs do mestre do suspense.

A estrutura convencional do documentário deixa claro que a proposta de Jones é deixar o deleite cinéfilo por conta do resgate dos filmes, dos detalhes de bastidores, e da relação de amizade construída entre os dois. Termine o filme e decida se a vontade maior é de comer o livro ou voltar para rever os filmes do Hitch.

Hitchcock

hitchcockHitchcock (2012 – EUA)

Na caricata visão oferecida pelo diretor Sacha Gervasi, os produtores de cinema são aqueles homens durões cujos diretores expulsam dos sets. Ao invadir, não só, toda a história das filmagens de Psicose, mas principalmente da vida do casal Alfred (Anthony Hopkins) e Alma (Helen Mirren), Gervasi abre as portas a universo riquíssimo da curiosidade humana – o por dentro da coisa.

É a figura de Hitchcock tão repleta de charme, e suspense, a capaz de dosar humor e toda essa deliciosa curiosidade por trás do mito, de seus métidos, e de como um filme pode se tornar um clássico – mesmo contra tudo e todos. Porém, o diretor prefere perder tempo com a amizade de Alma e um escritor – mote para o ciumes de Alfred. O adentrar as intimidades do casal oferece um quê de ingênuo, a ponto de transformar o mestre do suspense num garoto mimado.

Por outro lado, há a cena do banheiro, que ganha ares de ator coadjuvante na trama (talvez mais importante que Scartett Johasson), com seu clímax na primeira apresentação nos cinemas. Enfim, é um filme de momentos, principalmente pelo humor hitchcockiano, mas de um todo tão raso e tolo que a biografia não faz jus à curiosidade que o bonachão desperta.

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Jogo Duplo

Double Take (2009 – BEL/HOL)

Alfred Hitchcock diz “se voce encontrar  seu duplo , deveria matá-lo”. O cineasta Johan Grimonprez aproxima, numa linha tênua alguns dos filmes do cineasta (além do óbvio Topázio, e Intriga Internacional, o principal é Os Pássaros) da Guerra Fria. Num documentário que mais parece uma tese ele coloca Hitchcock sendo preso durante o período bipolar de disputa acirrada pela hegemonia mundial. Com inúmeras imagens de arquivo entre comerciais e programas de TV com o Mestre do Suspense, e telejornais e debates envolvendo os presidentes dos EUA e URSS, o filme brinca com personagens e situações (como nos comerciais de uma marca de café em que homens são ofensivos com o café ruim feito pelas esposas).

EUA e URSS não seria o duplo do outro e portanto deveriam tentar anular o outro? Entre Kennedy, Nixon, Khrushchev, e Fidel Castro, até figuras mais atuais como Putin e Bush filho, o resgate da corrida espacial e a crise dos mísseis em Cuba são refletidas nos filmes e na figura de Hitchcock, criando-se uma intrigante visão sobre a época e sobre parte da obra de Hitchcock, tudo isso partindo de um fictício encontro imaginado por Jorge Luis Borges entre Hitckcock real e seu duplo no set de filmagem de Os Pássaros. E a tv não sai ilesa dessa história, com novas críticas de que ela mataria o cinema ou estaria pasteurizando o gosto do público, Grimonprez segue o tom do humor negro e nada ingênuo das aparições de Hitchcock, e coloca em debate novamente a disputa desenfreada que dividiu o mundo.

O Terceiro Tiro

Finalizando os filmes vistos na Mostra Hitchcock.

The Trouble with Harry (1955 – EUA)

O humor negro empregado por Alfred Hitchcock flerta tanto com a ingenuidade que é impossível ficar indiferente aos tantos sorrisos que saltaram dos seus lábios. Um sujeito aparece morto num morro de uma pequena cidade, vários personagens acabam se envolvendo de alguma forma com o corpo e acreditando ter relação com a morte. E começa um tal de enterra e desenterra para proteger esse ou aquele, escondendo o cadáver do “xerife” da cidade, que a confusão toma proporções inimagináveis. Humor puro, direto, desde gente que tropeça no corpo por estar lendo um livro enquanto caminha (e não percebe que tropeçou num morto) até toques mais refinados como o pintor que esnoba a possível primeira venda de seus quadros por estar preocupado com o novo penteado de uma senhora da terceira idade que ele se propôs a mexer. Hitchcock nunca está falando sério, uma porta que teima em ficar aberta, um bando de gente com feições suspeitas e um filme de clima leve e divertido, forçando sua própria ingenuidade como forma genuína de humor.

Disque M para Matar


Dial M for Murder
(1954 – EUA)

Mais um dos trabalhos teatrais de Alfred Hitchcock, aqui quase todas as cenas são filmadas dentro da sala de um apartamento num minimalista conjunto de situações saídas de um fato único, envolvendo romance e traição, intrigas e morte, e uma surpreendente investigação policial. Um crime planejado meticulosamente, sua realização numa sequência de suspense atordoante (a cena do telefone é angustiante ao limite), e por fim os meandros que trazem à cena um investigador excêntrico e engraçado que rouba as atenções em poucas aparições. Falar da capacidade de Hitchcock em nos deixar atônitos com pouco é redundante, mas aqui ele talvez consiga um de seus trabalhos mais invejáveis, são os meros detalhes no roteiro os capazes de tornar tudo tão dirigido e óbvio, mas é pelas mãos de Hitchcock que esse todo ganha um clima exasperante, e, ao mesmo tempo, elegante

Interlúdio

Notorious (1946 – EUA)

Estou para ver um final de filme mais genial e lindo do que este, alias que história de amor Alfred Hitchcock os contou. De uma beleza imensurável, de uma entrega complete aos sentimentos, a pergunta é clichê mas quem não gostaria de viver um amor assim? E isso tudo sem perder o lado de suspense e trama de espionagem que tanto faz parte do universo hitchcockiano (e tem mais, todo passado no Rio de Janeiro). Uma mulher (Ingrid Bergman) é “chantageada” pelo serviço secreto Americano a se envolver com um nazista e delatar segredos, for a dos planos estava a paixão avassaladora entre ela o agente (Cary Grant) que lhe daria suporte na missão. Começa uma história de obrigações e ciúmes, o risco da missão torna-se duplo (espionagem e adultério), e o cineasta conduz toda a trama de forma sublime, elegante, e obviamente tensa. O olhar dos personagens reflete emoções, incertezas, expõe o amor. E a tensão chega ao limite no desfecho magistral, aquele descer de escadas e o clima criado para a situação talvez seja o ápice do que um desfecho possa representar.

O Inquilino Sinistro

The Lodger:  A Story of the London Fog (1927 – ING) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Há muitos pontos interessantes nesse filme de Alfred Hitchcock, ainda em sua era muda. Porque há um diálogo muito forte entre o que seria a carreira do cineasta e o universo do cinema mudo. Encontramos desde o clima de suspense, as mortes, até o terror de saber se o inquilino é ou não o serial killer de mulheres loiras, que está aterrorizando a cidade ou apenas um inocente acusado injustamente.

Por outro lado, há um quê da ingenuidade que os filmes mudos traziam, os pais tolinhos e divertidos (cheios de moralismo), o detetive bobalhão que é apaixonado pela moça (triangulo amoroso à vista). E dentro desses dois universos, Hitchcock desenvolve sua trama, deixa em dúvida seu público e mostrava a todos o que ele seria capaz de fazer no mundo do suspense (sem esquecer das tramas amorosas e de seu humor peculiar).