Posts com Tag ‘Alfred Hitchcock’

Mostra Hitchcock a todo o vapor no CCBB-SP e nos próximos dias no CineSesc, imperdível, afinal não é todo dia que podemos assistir filmes do mestre do suspense, em película.

Lifeboat (1944 – EUA)

Nove personagens num bote salva-vida, sobreviventes de um naufrágio. A câmera nunca sairá de alto-mar, Alfred Hitchcock manipula o público por entre aquele espaço minúsculo em mais de seus trabalhos teatrais. A questão “sobrevivência” não é o mote, o roteiro (alias, o ponto baixo do filme) está mais interessado nas relações humanas (por isso há personagens ricos, arrogantes, humildes, pobres, braçais empresários), e diretamente na questão da Segunda Guerra. Afinal, um dos sobreviventes é do exército alemão e há uma larga discussão sobre manter a vida daquele “prisioneiro de Guerra”. Se Hitchcock se esforça em manter o dinamismo do filme (e consegue) num pequeno barco de pessoas sem perspectiva, a história patina nesse furor de discutir o assunto em voga à época, de maneira rasteira e conceitual. Mesmo o humor ímpar e afinado do cineasta, falta uma melhor proximidade com os personagens.

Intriga Internacional

Publicado: abril 12, 2011 em Uncategorized
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Norh by Northwest (1959 – EUA)

E um dos filmes mais badalados do mestre do suspense caiu sob meus olhos tristemente, não que seja um filme menor ou descartável (se pensarmos que foi realizado entre Um Corpo que Cai e Psicose, perde feio). Mas, lamentavelmente, está aquém de sua fama, de seu status. Que Alfred Hitchcock consegue seus momentos mágicos de tensão e suspense, era mais que esperado, mas essa história de homem confundido com agente do governo, e super-herói único quando há um batalhão de policiais chegando não cai bem. O filme é cheio de convencionalismos do gênero e simplesmente não funciona, talvez por suas cenas antológicas não serem de se tirar tanto fôlego assim (como o ataque de avião ou a perseguição nos rostos dos presidentes), talvez porque esse caso de amor não tenha tanto frisson ou até mesmo pelos vilões serem tão vilões, e a rigidez do mal seja num grau já antigo (hoje os vilões são espertos e divertidos). A influência que causou em 007 e demais filmes do gênero é nítida, ainda que sua veia percussora não o habilite a tão chamada obra-prima.

cortinarasgadaTorn Curtain (1966 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Embalados pela música, um casal troca carícias debaixo dos cobertores. O frio é de rachar no navio que se aproxima da região escandinava. Na conversa, o tema casamento é levantado, mas algum segredo reside nas entrelinhas de outros assuntos. Um radiograma, uma mentira, a letra π, um livro com mensagem cifrada. Julie Andrews interpreta a assistente e noiva de um cientista, sua figura é contraponto que tenta desfigurar o clichê da história.

A cortina do título faz menção a Cortina de Ferro, a denominação dada nos tempos de Guerra Fria aos limites que separavam o comunismo do capitalismo na Europa, mais relevantemente em Berlim, que era a cidade dividida funcionando como uma espécie de vitrine das duas superpotências, que disputavam a hegemonia mundial. Sem dúvidas, essa conjuntura é um prato cheio para filmes sobre intrigas internacionais, espionagens e coisas do gênero.

A fragilidade da concepção do roteiro perpetua um caminho sem volta ao filme. Os comunistas não chegam a ser tratados como vilões, apenas inimigos como eram, mas são subestimados de uma forma tão inconsciente que o ambiente de suspense cede espaço a descrença. Há momentos que não podem ser levados a sério (exemplo: fuga da universidade), e mesmo se algumas cenas funcionassem melhor (exemplo: a seqüência no ônibus) teríamos somente uma diluição da problemática do roteiro.

O cientista americano que finge mudar de lado, para roubar informações secretas de um físico alemão, protagoniza pelo menos dois momentos de forte emoção. A cena no teatro, com os soldados fechando o cerco, e a certeza de serem apanhados é envolvente, e com um desfecho formidável. No entanto é na morte de Gromek que Alfred Hitchcock traz algo de especial. Toda a seqüência é angustiante, em cada gesto acompanhamos a luta pela vida, a resistência até o próprio limite. Hitchcock foge do convencional no cinema e apresenta uma morte detalhada, a dificuldade para acabar com uma vida está ali estampada em cada gota de suor, em cada contra-ataque. Naquele momento nada é mais importante do que sua sobrevivência.

James Stewart - vertigoVertigo (1958 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela

Alfred Hitchcock é o mestre do suspense, mas, como que numa dessas coincidências do cinema, em sua grande obra-prima, as cores do romance deixam o clima de suspense tão saboroso, a ponto de permitir a proximidade do cineasta com a perfeição. Baseado no livro “D’Entre les Morts”, dos autores Pierre Boileau e Thomas Narcejac, Alfred Hithcock divide seu filme entre o famigerado (e mais que eficiente) suspense psicológico, e um amor obcecado. A dor da perda controla Scottie Ferguson (James Stewart), chega ao ponto de pedir a uma estranha que se vista com as mesmas roupas de sua amada.

Mas, antes disso, há a cena de perseguição no telhado, a descoberta da acrofobia (medo de altura), a morte trafica e a aposentadoria de Scottie da polícia. Um antigo amigo de Scottie está preocupado com aparentes tendências suicidas de sua esposa (Kim Novak), há algum tempo ela tem apresentado comportamento estranho, por isso, o amigo, solicita a Scottie que siga seus passos. A música, as pequenas pistas espalhadas, as coincidências, dizer que Hithcock é mestre na arte de amarrar roteiro e público é um pleonasmo. A trama passa do ritmo pacato da observação para uma aproximação perigosa entre observador e observado. Até chegar a novo estágio, onde se afunila em momentos de tensão máxima, o genial efeito Vertigo (criado durante as filmagens, trazendo a perfeita sensação do medo de altura). Mas, calma, ainda faltam 30 minutos.

Chega a fase em que James Stewart invoca um personagem atormentado, não só pelo medo de altura, principalmente pela perda de seu amor. O quê paranormal, a obsessão salta aos olhos brilhantes de Stewart. Não falta clímax, não falta romance, e, principalmente, não faltam surpresas e revelações. Um dos mais imperdíveis clássicos do cinema.

ohomemquesabiademaisThe Man Who Knew Too Much (1956 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um casal feliz com uma vida econômica estável, um filho inteligente e educado, a esposa que abdicou de sua carreira pela família, a figura do machista que prefere ser bronco a sofisticado e possui sempre a última palavra em casa; resumindo: a família irritantemente perfeita do american way of life. Alfred Hitchcock realizando remake de um próprio filme seu.

O cineasta encarrega-se de espalhar pequenos assombros de mistério, enquanto confecciona essa categorização. O ar apreensivo somente climatiza a atmosfera sem causar arroubos de espanto. Refilmar seu próprio filme, não parece um desafio tão tentandor, que não economicamente, parece até pior do que forçar continuação, imaginem só se essa moda tivesse pego.

O roteiro leva essa família a uma viagem de férias em Marrocos. O médico (James Stewart) patriarca é abordado por um sujeito esfaqueado, que lhe sussurra um segredo de Estado, pouco antes de morrer. Do encontro casual, o médico passa a ser perseguido e chantageado, o filho seqüestrado, tudo para que não revele o tal segredo.

Eis a construção de mais um herói incólume. A capacidade de concluir, do personagem de James Stewart, chega a ser aborrecedora. Por outro lado, traços de humor minimizam essa estereotipação do herói comum. Hitchcock utiliza a favor do roteiro a capacidade de Doris Day soltar a voz, a música Que Sera Sera torna-se chave na trama, numa cena inábil e tola que ganha contornos heróicos.

Se todo o roteiro é alicerçado em inverossímeis acontecimentos que nem parecem fazer parte de um filme do mestre do suspense, Hitchcock concentra toda sua maestria no clímax perfeito. O majestoso Royal Albert Hall é o palco da seqüência sufocante, a câmera aponta para o assassino, corta para Doris Day aflita, vai para o primeiro-ministro, abre o plano e exibe a orquestra se apresentando ativamente, depois centraliza num dos instrumentos que será crucial. E esse vai e vem, armado na mesa de edição, é contínuo, fora de padrão. As tomadas estão embaralhadas, e essa combinação de cortes, deixa qualquer um atônito, na espera de seu desfecho. Por ser a cena principal do filme, mas não a finalização, o remate é inesperado e por isso ainda mais sufocante. Às vezes poucos momentos valem um filme, este é mais um desses casos.

asombradeumaduvidaShadow of a Doubt (1942 – EUA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Gosto desses títulos de filmes antigos, quase explicativos, que denotam resumidamente o rumo da história. Hoje são usados nomes mais fortes e curtos, que se supõe grudar mais fácil na cabeça do público. “A Sombra de uma Dúvida”, é simples, está tudo aí. A trama trata da história de uma sobrinha (Teresa Wright) que descobre a vida criminosa de seu Tio (Joseph Cotten), e fica dividida em entregá-lo a polícia e assim se tornar pivô do desgosto familiar.

Casais valsando durante os créditos iniciais. Uma abertura peculiar para um thriller. Depois, a câmera fixa num homem deitado, há dinheiro espalhado pelo quarto e dois sujeitos o procurando no hotel. A música aumenta de volume, gradativamente, revelando que realmente estamos diante de um suspense.

Passada essa sequência, Alfred Hithcock nos apresenta a pacata cidade de Santa Rosa. Uma música alegre enquanto a câmera aponta para construções, flores, tudo para dar aquele ar de cantinho do céu, a típica cidade interiorana dos EUA. Tio Charles (aquele com cara de culpado deitado na cama) vem passar uma temporada com a família de sua irmã.

O aspecto mais interessante de todo o filme é a estrutura criada por Hitchcock para compor essa família, típica numa fase pré american way of life. A jovem reclama da monotonia familiar, da cartilha seguida por todos dentro da sociedade (o homem trabalha, a mulher cuida da casa, o jantar com todos à mesa no mesmo horário, freqüentam a igreja, as formalidades e etc.). Ela anseia pela chegada do Tio, alguém que ela vê como fora desse padrão que poderia trazer alento para sua mente.

A convivência com o Tio desperta em Charlie desconfianças, que cada vez mais comprovam se tratar ele do criminoso das “Viúvas Alegres”. O peso da dúvida do título. Quando o filme parte para sua fase realmente thriller, as cenas ficam meio abruptas, como se o roteiro não cobrisse as arestas e precisasse jogar algumas informações de maneira atropelada, para não perder o sentido. Causando ruptura na retocada preocupação de Hitchcock em criar o panorama que o filme deveria obedecer, se o cineasta filma com perfeição a vida cor-de-rosa da jovem Charlie, o lado psicológico não alcança vôos marcantes.

O Homem Errado

Publicado: outubro 21, 2002 em Cinema
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The Wrong Man (1956 – EUA) 

Não é surpreender acreditar que fosse possível, mas surpreendente é confirmar, como o estilo de fazer cinema de Hitchcock, consegue se encaixar, tão perfeitamente, num outro tipo de filme. Com introdução inicial do próprio diretor, o rei do suspense, mergulha na verídica história de um homem, que levava uma vida pacata, até ser confundido com um assaltante, muito temido num bairro comercial de Nova York. De início a narrativa o situa como um musico de clube noturno, uma vida sem luxo, com esposa (Vera Miles) e dois filhos.

Voltando de mais uma noite de trabalho, Manny (Henry Fonda) é levado por policiais, já na porta de sua casa, para algumas averiguações. Acusado de assaltar alguns estabelecimentos aterrorizando lojistas, a polícia chegou nele após ter sido reconhecido por algumas funcionárias de uma seguradora, em que ele esteve solicitando um empréstimo para um tratamento dentário de sua esposa. Tem início o calvário dessa humilde família, em provar a inocência desse homem, que está sendo reconhecido por testemunhas, e não consegue um álibi confiável.

Alfred Hitchcock nos remete ao mundo dessa gente singela e humilde, transportando o público para a casa dessa família. O rosto sofrido de Henry Fonda e sua expressão complacente são a grande carga dramática da narrativa, enquanto a música aparece nos momentos cruciais, é novamente Hitchcock se aproveitando das ferramentas que tem. É curioso como duas situações bastante complicadas são bem retratadas pelo filme; de um lado um homem honesto e preocupado com seus valores morais é reconhecido por algumas mulheres amedrontadas e vê sua vida ruir, em virtude desse fato a situação em casa fica abalada e as pessoas, nestes casos, tendem a perder o controle e ultrapassar seus limites. Hitchcock traz a discussão para dentro da vida cotidiana, e acerta de novo.