Posts com Tag ‘Alice Rohrwacher’

Lazzaro Felice (2018 – ITA) 

Num claro tom de fábula, o novo filme de Alice Rohrwacher faz um paralelo da miséria entre passado e presente na Itália. Na primeira parte da trama, a vilã megera é uma Condessa que trata seus empregados rurais como escravos, enquanto vive num castelo em decadência. Lazzaro (Adriano Tardiolo) é o garoto ingênuo e de bom coração, que aceita tudo com sorriso no rosto, e acaba fazendo amizade com o filho, revoltado, da condensa.

Da pobreza do campo o filme pula algumas décadas, nosso dócil Lazzaro ressuscita após um acidente, e vai parar na região metropolitana, entre mendigos que vivem de roubos e pequenos golpes. A elipse faz correspondência com alguns dos personagens, enquanto Rohrwacher se equilibra entre um cinema naturalista e a necessidade de esfregar no público a máxima de que italianos pobres continuarão pobres, enquanto a decadência absorvem a burguesia falida. A ingenuidade de nosso Lazzaro ultrapassa décadas, e a visão pessimista de Rohrwacher se mistura com essa doçura, meio Poliana, e esse tom de fábula que quase embeleza a pobreza da ruas.


Festival: Cannes 2018

Mostra: Competição Principal

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asmaravilhas

Le Meraviglie (2014 – ITA)  estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Em seu segundo longa de ficção, Alice Rohrwacher permanece com a ótica da sensibilidade feminina. De alguma forma me lembra Sofia Coppola, por incorporar elementos/sentimentos de sua vida/experiência em seus filmes. Aqui ela empresta sua infância, seja a região onde morou, seja o modo de vida da família, ou até mesmo a nacionalidade imigrante do pai.

O patriarca (Sam Louwyck), sujeito durão, mora numa casa cheia de mulheres, suas filhas, a esposa (Alba Rohrwacher), e até sua irmã. Ele, alemão, fala com suas mulheres em italiano, ou francês. Juntos tocam o apiário, de forma artesanal. Tempos difíceis, sob o foco central na filha adolescente, Gelsomina (Maria Alexandra Lungu) – referência a Fellini não para por ai – a diretora italiana cria essa fábula áspera, adocicada não só pelo mel que lambuza as meninas, principalmente pela forma como Gelsomina absorve e observa o mundo. A forma como trata seus sonhos, como a família ajeita, entre as dificuldades (o pai que tenta ser dócil ao sej jeito, as noites de verão em que dividem a mesma cama no quintal).

Gelsomina vive a puberdade, instintivamente busca sua liberdade, a aspiração pelo amor e outros sentimentos caro à idade. Alice Rohrwacher navega pelos turbulentos mares da crise econômica, do brega que domina a tv italiana (Monica Bellucci em aparição de quase uma Iemanjá do Mediterrâneo), e de como essa menina feminina tem que lidar com o mundo agrícola, com seus devaneios, o mundo. A diretora busca a essência da família, sabe-se lá se da sua exatamente, ou não, mas estamos no âmbito familiar, imersos aos olhares femininos que sonham, que fantasiam, e enfrentam a dureza dessa vida.

festivaldecannes_2-650x400Em poucas horas começará a cerimônia de premiação da 67a edição do Festival de Cannes. Diferentemente dos últimos anos, este ano, este blog, não postou a repercussão diária das exibições, é muito trabalhoso e não deu tempo. Isso não quer dizer que o festival não tenha sido acompanhado, bem de pertinho. Agora que a imprensa já foi apresentada aos 18 filmes em competição e as mostras paralelas já conhecem seus premiados, podemos ter algumas expectivas, além dos favoritos que são apontados em diversas listas na internet.

Não parece ter sido uma edição de filmes que nos deixam ansiosos para conferir, mas há destaques bem interessantes entre monstros do cinema, ou novidades desconhecidas. Para quem gosta de quadro de cotações, vale uma olhada nesse link aqui, com críticos de muitos países, ou da revista francesa Le Film Français.

As frustrações começaram pelo filme de abertura, Grace de Monaco (Olivier Dahan) não agradou ninguém. The Search (Michel Hazanavicius) foi o mais vaiado com seu drama sobre a Chechenia, impressão de que o diretor de O Artista é realizador de um filme só. Captives (Atom Egoyan) foi outro que ninguém entendeu o que estava fazendo na competição (e eu não entendo porque ele sempre está lá), o filme é sobre sequestro infantil e pedofilia.

saint-laurent-cannes-2014No bloco dos que dividiram as opiniões estão: Saint Laurent (Bertrand Bonello) cinebiografia do estilista francês, com foco na relação com drogas e sexualidade. Jimmy Hall (Ken Loach) foi outro que passou quase batido, sobre um irlandês reabrindo um salão de dança, no meio de uma crise financeira-política, Loach e sua eterna visão socialista. A sensação é que erraram no argentino, Jauja (Lisando Alonso) acabou não premiado na Un Certain Regards, mas foi um dos filmes mais celebrados do festival, porém, na competição estava Relatos Salvajes (Damian Szifron), que até agradou, com suas 6 tramas cheia de atores argentinos conhecidos e humor negro.

Maps to the StarsAinda dividindo opiniões, mas já com alguns elogios que podem levar os filmes a serem lembrados na premiação ficaram: Foxcatcher (Bennet Miller), história real de um milionário e dois medalhistas olímpicos, e um assassinato. Os elogios as inesperadas grandes atuações de Channing Tatum e Steve Carrel foram entusiasmados (desde já um dos postulantes ao Oscar). Maps to the Star (David Cronenberg) ninguém aposta que a sátira sobre Hollywood será premiada, mas o filme agradou muita gente. The Homesman (Tommy Lee Jones) é outro western do diretor, dessa vez com foco em três mulheres cruzando o velho-oeste. O último dia de competição trouxe Clouds of Sils Maria (Olivier Assayas) e as reverências, inesperadas, a atuação de Kristen Stewart (crítico Guy Lodge acha que se ela ganhar a internet vai travar), e o filme também agradou, mas o último filme exibido é sempre carta fora do baralho.

Still-The-WaterAgora chegamos no pelotão da frente. Logo após a exibição, o japonês Still the Water (Naomi Kawase) parecia que ia passar em branco, mas vem crescendo no boca-a-boca, a história trata de dois irmãos numa pequena ilha no Japão. Há quem ame o cinema de Kawase, ela disse que este é seu melhor trabalho, mas muita gente questiona porque tanto ibope para seus filmes. Mommy (Xavier Dolan) é outro sempre questionado, aos 25 anos e com 5 filmes, Dolan é uma aposta dos festivais, muito prestigio (eu só vi o primeiro filme dele é gostaria de ficar bem longe). Se em seu primeiro trabalho ele queria matar sua mãe, este novo filme é uma espécie de vingança. A cinebiografia Mr. Turner (Mike Leigh) sobre o pintor e mulheres complexas a sua volta vem com força para uma possível premiação a Timothy Spall.

Nesse mesmo pelotão ainda estão: o italiano Le Meraviglie (Alice Rohrwacher), a segunda mulher em competição ganhou elogios crescentes com sua história de uma familia cuidando de uma fazenda de mel. A diretora, novamente, foca na adolescencia feminina. Timbutktu (Abderrahmane Sissako) foi exibido logo no começo, nunca foi considerado favorito, mas sempre elogiado por seu drama contudente sobre todas as mazelas religiosas que vive o norte da África, corre por fora em muitos prêmios.

Cannes2014DeuxjoursunenuitFavoritos, chegamos a eles. Pelo que tenho apurado são 4. Porém, um deles com chances nulas de tão reduzidas. Deux Jours, Une Nuit (Jean-Pierre e Luc Dardenne), os irmãos belgas já ganharam a Palma duas vezes. Nunca alguém ganhou uma terceira. A regularidade deles é impressionante, desde A Promessa que eles lançam um filme a cada 3 anos, e sempre estão entre os premiados. Não deve ser diferente, Marion Cotilard é a principal favorita (mas há muitas competidoras) ao premio de atriz. O filme é um fábula moral, um final de semana e uma mulher tentando mendigar seu emprego aos colegas de trabalho.

winter-sleep-cannes-2014-3Winter Sleep (Nuri Bilge Ceylan), o turco é um daqueles que está cada vez mais próximo da Palma, ontem ganhou melhor filme pela Fipresci (ano passado quebrou-se a maldição, mas normalmente quem ganha o Fipresci não leva a Palma). Desde que saiu o lineup eu já considerava ele, e o russo, como os favoritos, e os dois realmente encabeçam a lista. São 3 horas na Capadócia, ao estilo de Ceylan, poucos diálogos, tom poético, cavernas, pequenas tramas com um ator aposentado (Haluk Bilginer, outro com chances) no centro delas.

adieuAdieu au Langage (Jean-Luc Godard), seus filmes estão sempre em Cannes, em mostras paralelas, sua presença na competição significava alguma coisa. Desde os anos 80 que seu cinema chegou a um ponto de agradar a um seleto público (bota seleto nisso), cada vez mais resmungão e de narrativa fragmentada. Dessa vez ele vez com um 3D, e a crítica saiu estarrecida. A sensação que dá é que ele acertou no tom do que vem fazendo há anos, e se aproveitando da nova tecnologia. Seria uma decisão corajosa dar a Palma a Godard, ele nunca ganhou, é um ícone do cinema de autor e uma quebra com todo o cinema tradicional. Mesmo não gostando de seus filmes mais recentes (exceção ao belo Elogio ao Amor), gostaria de ver Godard ganhando para dar essa quebrada com o formalismo protocolar.

Leviathan 1Mas, se eu tivesse que colocar meu rico dinheirinho em alguma bolsa de aposta, ele iria para o russo Leviathan (Andrey Zvyagintsev). Muita gente torce o nariz, eu, particularmente, gosto de seus filmes. Começou com O Retorno (Leão de Ouro em Veneza), depois The Banishment passou batido, e o último, Elena foi premiado na Un Certain Regard (há quem reclame que devia ter passado na competição, naquele ano). Sua exibição de gala na quinta-feira é sinal de prestígio dentro da competição. E, se não é unanimidade, a proporção de admiradores é muito superior, não foram poucos os que pediram a Palma após sua primeira exibição. Poderia ganhar ator, roteiro, direção, mas a aposta é mesmo para ser a Palma de Ouro. Veremos. O filme é ambicioso, com um título desses não era para menos. O filme parece ser um contundente drama sobre a vida russa contemporanea, a corrupção política, a presença da igreja Ortodoxa, o poder, a polícia.

Fora da Competição, além de Jauja, destaques para Welcome to New York (Abel Ferrara) contando o escandaloso caso de Dominik-Strauss. Force Majeure (Ruben Ostlund) sobre o poder de avalanche. O polêmico, e eleito melhor filme na Un Certain Regard, White God (Kornél Mundruczó) e os ucranianos The Tribe (Myroslav Slaboshpytskiy) sem falas, personagens surdos-mudos, e o documentário Maidan (Sergei Loznitsa) sobre os recentes acontecimentos políticos na Ucrânia.

corpo-celesteCorpo Celeste (2011 – ITA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

A escalação do novo filme de Alice Rohrwacher à Mostra Competitiva, em Cannes, me levou a conhecer o trabalho anterior da italiana. Trata-se de um estudo interessante sobre a adaptação de uma adolescente em uma comunidade muito devota do catolicismo. Se a puberdade já é uma fase de contestação e rebeldia, no caso de Marta (Yle Vianello) a adaptação parece ainda mais dificultada. Com boa dose de sensibilidade, Rohrwacher desenha a tipicidade do italiano médio, devoto da religião, preso a ela por sua comunidade.

A relação com a mãe, e principalmente as críticas da irmã mais velha, a pressão por se adaptar aos cânticos e rezas. Marta sente-se pressionada, incapaz, ou mais precisamente, não pertencente àquele mundo. O filme não tem expor essa adaptação, apenas lidar com ela, observar a garota e todo esse microcosmos que se forma, de padre e beatas, da necessidade de se adaptar, e da extravagância da liberdade.