Posts com Tag ‘André Dussollier’

treslembrancasdaminhajuventudeTrois Souvenirs de Ma Jeunesse / My Golden Days (2015 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Arnaud Desplechin volta à boa forma com a história de Paul Dédalus (Mathieu Amalric na fase adulta, e Quentin Dolmaire jovem). O pretexto de seu passaporte pego quando deixava o Tajiquistão, serve apenas para desencadear o flashback de suas memórias mais vívidas, os romances e aventuras de uma adolescência de experiências.

Em vários momentos, lembra muito de alguns filmes de François Truffaut, há proximidade com a Nouvelle Vague, mas a complexidade familiar e romântica de Desplechin envereram o todos a outros caminhos. A história de amor trágico, e mal resolvido, é tão predominante que cerca a vida toda de Paul. Não que sua viagem à URSS e a morte prematura da mãe não tenha sido determinantes na formação de caráter de Paul. E o filme de Desplechin trata disso, dos momentos chave da vida desse adolescente, momentos estes decisivos ao antropólogo que responde os questionamentos na imigração.

É um filme ávido pelas descobertas, pela ingenuidade do primeiro amor (sempre tratado como único e maior que tudo), pelo sexo inconsequente e pelos laços familiares (irmãos, pai, e amigos).  Desplechin retorna com um filme de roteiro complexo, tal qual a vida, narrados com a beleza de um coração pulsante.

amoresparisiensesOn Connait la Chanson (1997 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Diálogos interrompidos por momentos musicais (funcionando como uma espécie de liberdade do público em enxergar a consciência, o desejo de seus personagens). A leveza por trás de tudo, Alain Resnais novamente atacando nas pequenas coisas da vida, o cotidiano. O roteiro é do casal Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri, eles também estão no elenco, juntamente com os habitués de Resnais. Os trabalhos do casal são sempre marcados por um humor ácido, e também por essa leveza que Resnais parece elevar a graus de flutuação.

Encontros e desencontros amorosos, coincidências que aproximam ou causam confusões. Amores Parisienses trata dos tipos que habitam Paris, a forma como se relacionam entre eles e a cidade. Os novos prédios, a vista da Torre Eiffel, os museus, e as decepções, os amores, e as depressões. Sorrisos, pequenos toques de genialidade, Resnais e sua trupe transformando o abstrato em real, quase tangível. É gracioso, é simpático, sem deixar de ser autêntico. Tirar o maravilhoso da simplicidade, é assim que Resnais segue flertando com todos os tipos de arte, e absorvendo cada uma delas em seu cinema, a música aqui é mais que uma ferramenta, é o puro charme.

melodiainfielMélo (1986 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Um dos maiores concatenadores das artes no cinema, Alain Resnais, trazendo teatro às telas num melodrama romântico sobre amizade e infidelidade. Um dos amantes é músico (André Dussollier), e é no primeiro diálogo, cheio de citações sobre diversas artes que ela (Sabine Azéma) se apaixona por ele, mesmo tendo o marido (Pierre Arditi) ao lado.

As tintas pesadas do melodrama conduzem o caminho dos personagens, seja no amor vivido sob o peso da traição, seja na cegueira do traído apaixonado pela espos. Até culminar na fatalidade, na incapacidade de lidar com o amor de dois homens. Resnais complementa com musica, e com sua elegância habitual, se o filme está longe da inventividade de seus poemas filmados (do início de carreira) ou da contundência de suas críticas à guerra, por outro lado há aquele sabor refinado de acompanhar um mestre nos conduzindo pela história viva, aquela pulsante que toma nossos corações quando menos se espera. A beleza desse filme está na continuidade do trabalho de seu diretor.

 

 

morrerdeamorL’amour à mort (1984 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Um emaranhado entre amor, morte e religião. Talvez um dos mais pragmáticos filmes de Alain Resnais, carregado do amor romântico. Por outro lado, outra exposição corajosa de sua visão, ou apenas meros questionamentos de quem também procura respostas, mesmo que saiba que elas não existem. Resnais faz seu protagonista (Pierre Arditi) morrer, e ressuscitar. Decide aproveitar a oportunidade e mudar os rumos de sua vida, as pessoas com quem se relacionar, dar ainda mais foco em a sua namorada (Sabine Azéma).

Estão jogadas as cartas à mesa que permitem a Resnais discutir o amor romântico, o morrer de amor. Com o casal de amigos religiosos (Fanny Ardant e André Dussollier) vem a oportunidade de envolver a religião, as crenças. Por exemplo, Resnais resgata uma questão interessante, a tradução incompleta de “amor”, para o latim, dos termos do grego antigo Eros (amor possessivo) e Ágape (amor desinteressado).

Os nomes com conotação religiosa não está ali por acaso. Um personagem, apenas citado, comete suicídio, outra oportunidade de trazer o assunto à tona, e o discutir sob os aspectos da morte e religião. É Resnais talhando seu filme para abordar seus questionamentos, e, com interpretações bastante densas, e clima por vezes carregados, ainda assim imprimir seu estilo de promover a reflexão, dessa vez com um conjunto de observações antagônicas.

avidaeumromanceLa Vie Est Un Roman (1983 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Alains Resnais volta com outra proposta grandiosa. Narrado em dois tempos, aborda os sonhos revolucionários de um conde milionário (Ruggero Raimondi) de criar um palácio, ou mais que isso, uma sociedade formada por seus amigos, que viveria isolada, sob o alicerce do amor e outras crenças próprias. Porém, veio a primeira guerra mundial.

Na década de oitenta, o palácio se tornou uma escola experimental que está prestes a sediar um congresso sobre “Educação e Imaginação” recebendo especialistas das mais diversas áreas da educação, que não só discutem o tema, mas se inter-relacionam.

Outra ousadia de Resnais, dessa vez nem tão bem realizada que seus trabalhos anteriores. Por mais que haja pontos interessantes por todos os lados. Uma espécie de fábula musical que mistura imaginação, libido, formas de se relacionar com amor, loucuras eloquentes. Resnais trata de tantos temas, métodos educacionais, relações humanas de forma leve, ainda assim intensa. Fragilidades e conquistadores, influciáveis e influenciadores, e no meio desse pandemônio de opiniões e experiências, as crianças que se divertem com o que tiverem a seu alcance.

amarbeberecantarAimer, Boire et Chanter (2014 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Os últimos dias de Alain Resnais já tinham na morte um de seus cernes. E, foi poucas semanas após esse presente que o cineasta francês nos deixou. Jamais deixou de lado sua inventidade, a capacidade de adaptar outros tipos de arte ao cinema (em especial o teatro), sempre com o charme sedutor de seu cinema complexo e simples (em alguns aspectos).

Lembra muito a estética de Smoking/No Smoking (os cenários que se repetem e fazem alusão ao palco de teatro, a simplicidade artificial do ambiente, os tipos de diálogo dos personagens), mas sem as vindas da história. Trata-se de três casais, ligados por George (citado em todos os segmentos, nunca aparecerá em cena) que sofre de uma doença terminal. Os amigos decidem ensaiar o peça e o convidá-lo a participar. Desse mote surgem saborosos desencontros amorosos, confidencias íntimas, disputas pelo mesmo homem. Alegria, decepções, e Resnais utilizando outra peça de teatro de Alan Ayckbourn para divagar sobre a vida.

A falsa ingenuidade nos diálogos, a doçura com que emoções (e confusões) são expostas, Resnais segue encantando sua plateia com o tempero e a jovialidade de sempre, genial como outrora mostrando como se faz uma comédia, com sofisticação e bom gosto. Um típico Resnais para coroar uma carreira irretocável de um dos grandes.

Impardonnables (2011 – FRA)

O escritor (André Dussollier) busca em Veneza paz para escrever seu próximo livro. Pretende alugar uma casa. Ao visitar uma delas pede a agente imobiliária (Carole Bouquet) em casamento, assim, sem mais nem menos. Dá até para entender, a beleza de Carole Bouquet, passando os 50 anos, é invejável. A trama se perde entre os coadjuvantes, André Téchiné tenta fazer como a vida, onde vários dramas e acontecimentos desencadeam-se ao mesmo tempo. Mas um filme não é a vida, e dentro de suas limitações os coajuvantes somem e reaparecem, as histórias ganham e perdem força, a irregularidade toma conta de tudo.

A filha que larga a família para viver uma paixão, a ex-amante de sua esposa que sofre com a velhice e com o filho presidiário. A própria relação do escritor com o garoto, além da descoberta, tardia, dessa coisa louca chamada ciúmes. Esse conjuntos de dificuldades, aliado ao desgaste de uma relação, questões financeiras-profissionais, enfim, as trivialidades da vida, fazem de Imperdoável uma salada bem temperada, mesmo que não tão apresentável e nem apetitosa.