Posts com Tag ‘André Téchiné’

ohomemqueelasamavamdemaisL’Homme que’on Aimait Trop (2014 – FRA) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

O novo elegante drama de André Téchiné é baseado numa polêmica que balançoou a França há poucos anos. Revive uma história ocorrida há 30 anos, envolvendo uma dona de cassino na Riviera Francesa, sua filha e um advogado conselheiro da família. Téchiné realiza uma adaptação livre de Une Feem Face à la Mafia, escrito por Jean-Charles e Renée Le Roux. Estranhamente o cineasta tenta esconder a fase atual da história, focando quase toda a duração de seu filme em possíveis fatos que formaram a relação entre as mulheres da família Le Roux e o advogado.

Os personagens são criados de forma rica, a matriarca poderosa e astuta para os negócios. O advogado manipulador, conquistador e interesseiro. A jovem, reçem-divorciada, romântica e carente, que pouco interesse tem com os assuntos financeiros da família. Téchiné e seu costumeiro requinte, repetindo o piloto automático de seus trabalhos anteriores, confirma (o que nem necessário era) sua capacidade de exímio narrador, mas ainda tento entender porque um filme tão francês guarda segredo do paradeiro de seus personagens, para ser encerrado de forma tão acelerada e abrupta, como um filme de tribunal. Os créditos finais revelando os últimos fatos, tudo tão corrido, apressado, enquanto Téchiné calmamente desenhava as relações políticas entre cassinos e máfia, ou a doçura da paixão que a frágil mulher deixara se entregar por completo.

Impardonnables (2011 – FRA)

O escritor (André Dussollier) busca em Veneza paz para escrever seu próximo livro. Pretende alugar uma casa. Ao visitar uma delas pede a agente imobiliária (Carole Bouquet) em casamento, assim, sem mais nem menos. Dá até para entender, a beleza de Carole Bouquet, passando os 50 anos, é invejável. A trama se perde entre os coadjuvantes, André Téchiné tenta fazer como a vida, onde vários dramas e acontecimentos desencadeam-se ao mesmo tempo. Mas um filme não é a vida, e dentro de suas limitações os coajuvantes somem e reaparecem, as histórias ganham e perdem força, a irregularidade toma conta de tudo.

A filha que larga a família para viver uma paixão, a ex-amante de sua esposa que sofre com a velhice e com o filho presidiário. A própria relação do escritor com o garoto, além da descoberta, tardia, dessa coisa louca chamada ciúmes. Esse conjuntos de dificuldades, aliado ao desgaste de uma relação, questões financeiras-profissionais, enfim, as trivialidades da vida, fazem de Imperdoável uma salada bem temperada, mesmo que não tão apresentável e nem apetitosa.

Le Fille du RER (2009 – FRA)

A história é fictícia, adaptação de um livro de Jean-Marie Besset, porém houve um caso real durante o governo de Jacques Chirac. O cineasta André Téchiné traça duas linhas de tramas que seguem paralelamente durante a primeira metade até confluírem. Por um lado, mãe (Catherine Deneuve) e filha (Émile Dequenne), a garota procura emprego, se apaixona por um lutador de luta greco-romana. De outro lado um advogado judeu (Michel Blanc) e a rotina de sua família. Entre os noticiários as agressões antissemitas que deixam perplexos os franceses.

A discussão está no alarde da mídia, na visão “cega” das autoridades, alguém inventa uma agressão por um grupo de antissemitas, as duas tramas finalmente se encontram. Parte-se da verdade máxima, sem que haja qualquer prova além de um depoimento, é o peso da culpa sobre a própria sociedade que simplesmente aceita passiva a mais um caso de preconceito. A farsa se torna verdade, Téchiné não se resolve bem entre os cotidianos familiares e o “grande tema”, dessa forma temos um filme frio, calculista, e moderadamente interessante.

Les Temps qui Changent/Changing Times (2004 – FRA)

Há aqui um fenômeno migratório, os personagens são atraídos a Tanger, Marrocos, por amor sob diversas formas, porém essencialmente por amor. É assim que Antoine (Gérard Depardieu) finalmente toma coragem de resgatar seu amor platônico congelado por mais de trinta anos por Cécile (Catherine Deneuve), ou que o filho dela vem acompanhado da namorada não só rever os pais mas encontrar sua relação proibida enquanto que a namorada liberal busca sua irmã gêmea após anos sem se reencontrarem.

André Téchiné filma tudo com câmera na mão, planos fechados (muitas cenas observadas pela nuca de um dos atores). Esse formato traz vitalidade, um pouco de desassossego, trazendo a imagem para dentro de como as relações pessoais se desenvolvem. Aliás, acima do mote amor, são as relações pessoais o grande tema do filme, não só os casais, principalmente essas inter-relações entre medico e amigo da esposa, mãe e namorada do filho, são essas pequenas diferenças entre como tratamos os mais íntimos e como se sentem desconfortáveis os menos íntimos que Téchiné trata de maneira bem elaborada e conflitante.

Alice et Martin (1998 – FRA)

Qualquer sinopse escrita sobre esse filme tentará te vender uma história guardando um segredo perturbador. Não dê a mínima importância, o filme de André Téchiné vai muito além, aborda outros assuntos e principalmente esse do tal segredo, só que de maneira mais profunda e inflamada do que um surpresinha de filme de suspense. Uma história de amor entre uma violinista, Alice (Juliette Binoche) e um garoto bem mais jovem, Martin (Alexis Loret). Uma relação conturbada entre pai e filho, um sentimento quase doentio que pode se transformar em destrutivo, familias problemáticas.

Téchiné vai desenvolvendo cada um dos temas como quem escreve um e-mail e separa os parágrafos por assunto, e depois vai misturando, retornando aos temas, os parágrafos finais são humanos, essa mistura de temas e dramas. A ruína de um relacionamento quando os temas se entrecruzam, traumas, dificuldades, medos, ou o simples não saber lidar. O que parecia seguir nos dramas básicos de uma relação, se torna uma forte declaração de amor de alguém empenhada em apoiar seu amado, mesmo sob o risco de humilhações e descasos.