Posts com Tag ‘Anna Karina’

bandeapartBande à Part (1964 – FRA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Frescor, leveza, outra daquelas pérolas deliciosas de Jean-Luc Godard das décadas de 60-70. Filmado com um ar de travessura, Godard brinca num triângulo amoroso, com semelhanças de Jules e Jim (como na corrida no museu), porém encontrando na despretensão o alicerce de seus personagens. Quase um laboratório de experimentos, formatos, invenções para Godard. Exemplo da cena em que um dos personagens pede um minuto de silêncio, e o diretor corta o som ambiente, ficando apenas nas expressões deles enquanto o mudo prevalece.

São dois ladrões e uma garota do curso de inglês, eles se apaixonam por ela, armam um golpe. Ela é inocente e aventureira, uma inconsequente ingênua. O roteiro forma essa turma de foras-da-lei, Godard prefere seguir brincando com takes, enquandramentos, mantendo o tom de liberdade, e o delicioso viço da juventude que filma com os impertérios da criatividade absoluta.

alphavilleAlphaville (1965 – FRA/ITA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

Ao ouvir a primeira vez “Bem, obrigado, de nada.”, podes achar que houve ironia na frase proferida, mas ela segue sendo repetida, exaustivamente. Percebe-se que aquele não é um lugar comum. Todos os que vêm de fora são chamados Estrangeiros, essa cidade vive à parte da humanidade, com suas regras e leis próprias, seus habitantes não conhecem nada além de seus limites.

Alphaville foi fundada pelo profº Von Braum após suas idéias terem sido renegadas pelo mundo. Toda a cidade é controlada por um computador central (Alpha 60), que dita comportamentos, cria regras, julga infratores e olha por todos. Emoções são proibidas, aqueles que choram são condenados à morte. A liberdade intelectual também é proibida, palavras como consciência e amor não podem ser proferidas, e seus significados acabam perdidos. Provavelmente seja a segurança o motivo a sustentar o crescimento de Alphaville, mas a verdade é que quanto mais cresce, menos liberdades seus cidadãos usufruem.

Disfarçado de jornalista, o agente secreto Lemmy Caution (Eddie Constantine) chega à cidade, inicialmente com a missão de procurar duas pessoas, um antigo agente secreto Estrangeiro e o próprio profº Von Braum. Durante sua estadia em Alphaville, ele é guiado por Natasha (Anna Karina), filha do professor. Suas investigações servem de proposição para que o espectador possa entender as bases que formam Alphaville. Julgado por Alpha 60, Lemmy descobre o amor (proibido) antes de encerrar sua missão.

Uma das características da humanidade é a de tentar antecipar o futuro, almejando adivinhar detalhes do provável estilo de vida, das novas tecnologias que irão modificar nosso cotidiano, a futura situação das relações sociais. Baseado no livro de Paul Éluard, o diretor Jean-Luc Godard ousou criar essa ficção futurista, onde além de brincar com filmes policiais, imprime sua marca com reflexões interrogativas e pertinentes. Assim como nas obras de George Orwell e Aldous Huxley, aqui também somos vigiados a todo momento, também vivemos dentro de uma cartilha comportamental, onde a saída da regra é fatal.

Godard usa os artifícios que dispõe para chamar atenção, na fotografia preto e branco cria distorções dando clima diferenciado. Se há problemas em Alphaville, eles estão na artificialidade de algumas cenas, na estrutura narrativa demasiadamente dura e seca, e no próprio personagem principal que abusa do agridoce. A utilização da máquina fotográfica é bom exemplo ou ninguém vê o brilho daquele flash?

Das várias reflexões propostas, duas chamam mais atenção: a metáfora da bíblia e a posição das mulheres na sociedade. A bíblia perde sua função religiosa, mas o filme propõe uma função não muito diferente. Já as mulheres são numeradas, submissas e permanentemente dispostas a saciar os desejos sexuais masculinos. Novamente Godard não brinca em serviço, não há aquelas máquinas mirabolantes de tecnologia inimaginável, o estudo do futuro está centrado no cérebro, ele é que será manipulado.