Posts com Tag ‘Anna Muylaert’

maesohaumaMãe Só Há Uma (2016) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

E Anna Muylaert vem enfrentar o dilema do filme seguinte a um grande sucesso (Que Horas Ela Volta?). Em seu quinto longa, a diretora finca definitivamente sua carreira num estudo comportamental da classe média urbana (Chamada a Cobrar, É Proibido Fumar, Durval Discos). E nesse contexto financeiro traça diferentes perfis de personagens, misturando idades e comportamentos, ora com narrativa bem popular, e ora explorando mais possibilidades cinematográficas. Mas, acima de tudo, marcando sua assinatura.

Seu novo trabalho é um prato cheio para discussões e observações. Adaptado livremente do caso Pedrinho (que ganhou notoriedade em 2002), resgata a história de crianças roubadas na maternidade. O grande lance de Muylaert é não se apegar unicamente ao drama das família, ou ao processo penal. Com as lentes focadas, principalmente, no adolescente Pierre (Naomi Nero), o roteiro busca explorar a identidade do garoto antes, durante e depois de “concluído” o processo de viver com os pais biológicos. Durante este processo, ele tem sua vida escolar, seus amigos, e sua sexualidade exposta.

É bem verdade que Muylaert ainda mantém alguns comportamentos da classe média que hoje já não condizem com nossa sociedade de modo geral, mas ela prova que está realmente interessada nos comportamentos e nas correlações humanas, por isso se permite se esquivar do processo penal para desenvolver as relações entre pais e filhos, entre irmãos, e a dificuldade de todos em se adaptar naturalmente. Não há naturalidade numa situação dessas e Muylaert vai de encontro à sensibilidade para tornar essa história única, e não apenas contar os fatos do que ocorreu realmente no caso a qual foi baseado. Outro belo filme, com planos muito mais ousados. Um filme com escolhas arriscadas, desde sequencias de sexo, até enquadramentos que fogem do comum, em prol dessa possibilidade de explorar o espaço dos personagens.

O cinema nacional continua sobrevivendo de comédias muito populares, ou filmes para um público super restrito. Esses filmes menores ganham pequenos lançamentos, com pouquíssimas sessões, de forma que assisti-los se torna um esforço logístico. A exibição no Canal Brasil ou no Now tem sido mais interessante do que o circuito comercial deles. Entre esses dois tipos de filmes restam poucos lançamentos que estejam entre essas duas características, e normalmente eles são boa parte do que de melhor nos é apresentado. Segue abaixo meus 5 filmes nacionais lançados em 2015 nos cinemas brasileiros.

 

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  1. Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert
  2. Ausência, de Chico Teixeira
  3. Jia Zhang-ke, Um Homem de Fenyang, de Walter Salles
  4. Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós
  5. California, de Marina Person

 

Top 5 – 2014 – Cinema Nacional

Top 5 – 2013 – Cinema Nacional

quehoraselavoltaQue Horas Ela Volta? (2015) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Interessante que, num curto espaço de tempo, tenhamos dois filmes abordando a classe média alta, de seus casarões antigos e costumes antiquados, e uma relação empregatícia tão arcaica. Se Casa Grande trata da crise financeira de parte dessa sociedade, o novo filme de Anna Muylaert explora o cotidiano minimalista, aproxima-se da vida dos empregados e da relação “umbilical” com os patrões.

Há outras camadas nessa história, desde uma visão feminina de conflitos, da sexualidade, e da fascinação irracional causada no sexo oposto, como também a questão da imigração (do nordeste para o sudeste), causando afastamento no âmbito familiar em busca do sustento que possa ajudar economicamente os que ficaram por lá. Mas, sem sombra de dúvida, é a relação patrão-empregado a grande válvula de desenvolvimento da história.

É um costume muito brasileiro essa relação com a empregada doméstica, ao ponto de morar na mesma casa que os patrões, e ter sua vida intimamente ligada a deles. O “quase” da família significa uma relação sem regalias, limites impostos pelo bom-senso de quem sabe exatamente onde fica o seu espaço. Discutir o tratamento imposto nessa relação patrão-empregado, é quebrar a zona de conforto da classe média, que vai trabalhar e tem sua casa e filhos sob cuidados de alguém que está abdicando de sua própria vida, em face da daquela família. É uma discussão complicada, porque o empregado tem seus ganhos e seus interesses econômicos, por outro lado acaba se colocando como um ser humano de segunda classe.

Na história da emprega Val (Regina Casé), e sua patroa (Karine Teles), tudo muda com a chegada temporária da filha (Camila Márdila), e seu comportamento invasivo a essa relação de limites imposta pela cartilha da sociedade. Ela causa atração do patriarca (Lourenço Mutarelli), rivaliza com o príncipe adolescente da casa (Michel Joelsas), e deixa a própria mãe louca com sua “insensibilidade” aos limites. Muylaert filma pela casa toda, causa pequenos eventos que se tornam uma bola de neve em todas as relações da casa. A chegada de uma estranha estremece os alicerces daquela micro-sociedade.

Todos os filmes da diretora Anna Muylaert guardam o tom popular, aliado a uma linguagem cinematográfica definida, tratando de maneira simples questões do cotidiano da classe-média. Um tipo de cinema carente dentro do universo nacional, nem televisivo, e nem artístico/experimental ao extremo. Se os três anteriores pareciam problemáticos (Durval Discos, É Proibido Fumar e Chamada a Cobrar) chegaram, uns mais, outros menos, seu novo trabalho finalmente caiu no gosto popular, já é sucesso comercial, e como a grande obsessão nacional é ganhar o Oscar de filme estrangeiro, já está bem cotado e cheio de expectativas ao seu entorno. A verdade é que esse jeito afável e popular de Regina Casé conquistou, não só o público nacional, já é sucesso em muitas partes do mundo.

Chamada a Cobrar (2012) estrelaestrelaestrela1_2estrela_cinzaestrela_cinza

Quem não conhece alguém que recebeu o telefonema dizendo que seu filho (a) sofreu um acidente, para, logo a seguir ser informado que ele (a) foi sequestrado? E, no fim, era apenas um golpe, um trote, uma tentativa desumana de extorquir dinheiro da ingenuidade de uma situação. Anna Muylaert traz ao cinema a encenação dessa situação, uma mãe (Cida Almeida) burguesa-arrogante, enfrentando o desespero que cega. Um filme tenso, do início ao filme, sobre alguém desesperado, e completamente fora de si. Muylaert não cobre todas as arestas do roteiro, mas consegue o mais relevante, que é te deixar com os nervos à flor da pele e expor esses absurdos do nosso cotidiano de um mundo cão.

É Proibido Fumar

Publicado: agosto 3, 2010 em Cinema
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eproibidofumarÉ Proibido Fumar (2009) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

Tudo ia bem, no filme de Anna Muylaert, o drama da solitária professora de violão (Glória Pires), que briga com as irmãs, por quem ficará com o sofá da tia de herança, é retrato de uma classe média pobre de espírito, sem ideais. Uma classe-média focada apenas em sua rotina cansada, de nenhuma emoção, e em busca dos clichês da sociedade (casamento, família, novela).

Chega o vizinho no apartamento do lado, pouco refinado, o cantor de churrascaria (Paulo Miklos), todo metido a boa lábia, engata um romance com a vizinha. A vértice musical une o casal, ela gosta de Chico, ele de Jorge Ben. O roteiro não empolgava, mas caminhava agradável. O ciúme dela, as visitas para depilação no salão de beleza, Muylaert pontuava bem seus personagens, até que resolveu aparecer com a ex-esposa. e dá dó ver o que vem a seguir.

O resultado é de uma fragilidade criativa decepcionante, o levemente agradável passa a incomodo, tendo o intuito de provar que o amor pode ser condescendente, pode ser compreensível, que perdoar não é necessariamente expressar verbalmente isso.