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The Irishman (2019 – EUA)

Fico lembrando da imagem de Robert DeNiro, tão grisalho, sentado numa cadeira (ou cadeira de rodas, sei lá), encarnando Frank Sheeran, o irlandês, de onde ele reconta as suas histórias revisitadas em flashbacks. Antes de embarcar no filme fica essa imagem, uma espécie de trilha para relembrar do próprio cinema, de tantos personagens, muitos eles trabalhando com o próprio Martin Scorsese . Ao mesmo tempo, ele me lembra tanto meu avô, aquele mesmo semblante, aquela mesma posição, tanta coisa que passaram. Basedo no livro de não-ficção de Charles Brandt, Scorsese está de volta aos filmes com mafiosos. A primeira sensação é de novo, por quê? Mas os elogios vão se somando e as mais de três horas de duração justificando que não se trata de um novo Bons Companheiros ou O Poderoso Chefão. É um outro estágio dessas histórias, e ninguém como Scorsese, com todo o peso de sua experiência para abordar.

Não é simplesmente a história de um imigrante caminhoneiro que encontrou uma forma de subir na vida, claro que boa parte da trama trata desses detalhes, de crimes, da maneira como foi caindo nas graças de alguns chefões. Nem é um filme denuncia da relação promiscua da máfia com grandes sindicatos americanos, parte importante que o filme também conta. É um filme sobre a vida em sua reta final, um filme sobre olhar para sua longa estrada e enxergar seu legado. Muitos talvez não tenham essa oportunidade de olhar para trás e analisar o que deixaram, outros o podem fazer, e esse é o caso do Frank Sheeran do filme.

E sob essa perspectiva, cada minuto se justifica, cada cena, cada detalhe. As 2:30 horas iniciais parecem preparadas para significar a hora final, essa sim definitiva e cheia de cenas inesquecíveis. A partir da festa de homenagem, quando já conhecemos cada um dos personagens (não só Frank, mas também os personagens de Joe Pesci e Al Pacino) é que as coisas se afunilam e o charme da máfia abre ainda mais espaço para crueldade da sobrevivência. Há dois diálogos, plano e contraplano, nessa festa (DeNiro e Pacino, e DeNiro e Pesci) que o encontro do timing de Scorsese com as interpretações dos três formam um negócio que nem sei descrever. Ganancia, fidelidade, arrogância, ego, respeito, tudo ali orquestrado.

É um filme que se coloca como um novo capítulo, marca uma nova abordagem, dentro de um tipo de filme amplamente conhecido e reverenciado. Que por mais que tenha uma personagem feminina crucial, pouco a utiliza, assim como todos os coadjuvantes que ficam a segundo, terceiro plano. Mas, é um grande filme, sobre aquele senhor, sentado naquela cadeira, com seus cabelos grisalhos, carregando o misto de culpa e uma dose de arrependimento, mas um arrependimento de quem faria tudo novamente, sabendo que perderia tudo que perdeu.

margaretMargaret (2011 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrelaestrela_cinza

O nome de Kenneth Lonergan talvez fosse mais conhecido como roteirista dos filmes Máfia no Divã e Gangues de Nova York, mas devido ao sucesso de Manchester à Beira-Mar (seu terceiro longa-metragem), essas referências tendem a serem deixadas de lado, em prol da carreira desse habilidoso, e promissor diretor bissexto, da cena indie dos EUA. Vejamos o caso deste extraordinário trabalho, que foi seu trabalho anterior.

A referência à Margaret do título vem de um poema estudado em aula, e que a estudante Lisa Coehn (Anna Paquin) vê claras referências em sua vida, no momento. Aos dezessete anos, a garota vive da efervescência adolescente, entre crises diárias com a mãe, relativamente ausente, e os telefonemas conciliadores do pai (o próprio Lonergan). E também, obviamente, da relação com garotos, através da descoberta do sexo, das liberdades conquistadas pela idade, ou poor essa presença distanciada da mãe, e as besteirices da fase de transição antes de se tornar adultos. E, em uma dessas bestericies, a garota se vê envolvida num acidente de um ônibus (Mark Ruffalo interpreta o motorista)  atropelando uma mulher, por cruzar um farol vermelho (ou não).

É do trágico que Lonergan constrói camadas, e mais camadas, através de seus personagens. Digressões morais, e ambiguidades humanas capazes de desenvolver personagens de forma tão sólida. Afinal, não só a figura central e insegura da garota, mas também, sempre à sua órbita temos o pai e sua esposa pouca afeita à enteada, a mãe atriz (J. Smith-Cameron) que vagueia entre a vaidade e o despertar de um romance (Jean Reno), fugindo o padrão de ser espelho da filha, por seus comportamentos ora meio desequilibrados, ora totalmente egoístas. Até mesmo coadjuvantes menores, que passariam despercebidos, mas aqui engrossam o caldo dessa sopa dramática, de um estudo das fragilidades e sensos de justiça do ser humano, coadjuvantes estes que podem só aparecem como vozes ao telefone e ainda assim conseguimos compreender suas motivações e comportamentos..

É impressionante a força com que Lonergan conduz personagens em suas conectividades, tanto de forma coletiva, quanto em suas próprias individualidades, e permite que seus dramas pessoais prossigam paralelamente ao desfecho desse acidente, que envolve advogados, imprensa, sindicatos, o peso da culpa e a carga de prejudicar, ou não, uma família, cujo patriarca tem relativa, ou muita culpa, dessa tragédia que pode beneficiar pessoas que nem se importavam em vida com aquela que foi a única vitima de um roteiro tão intrincado.

alulaeabaleiaThe Squid and the Whale (2005 – EUA) estrelaestrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinza

Talvez seja um dos mais celebrados filmes da recente safra dos indies americanos (se bem que não é tão recente assim). Estão lá todos os cacoetes, como personagens desregrados, um quê loser, o espírito da comédia dramática. Além, é claro, de muita câmera na mão e planos fechados, mostrando um face a face entre atores e público.

Basicamente Noah Baumbach está tratando de um divórcio, da maneira como cada um dos membros da família se relaciona com a nova situação, e a gama de personagens que orbita a volta dos Berkman. Guarda compartilhada, divisão de pertences, e o desgaste da rotina de encontros são apenas os pormenores, o diretor está mais ligado em aspectos psicológicos e comportamentais.

O filho mais novo (Owen Kline) é muito ligado à mãe (Laura Linney), enquanto o adolescente (Jesse Eisenberg) é fã incondicional do pai (Jeff Daniels), e essa é a base da relação familiar que sofre ruptura com a separação. Noah Baumbach e seu roteiro inteligente consegue desenvolver bem essas interrelações pessoais, e trazer à tona a verdade sobre cada um deles. Desfazendo mitos aos próprios personagens, é um pouco cruel, mas, a vida é assim, cheia de pequenas decepções, e da descoberta de que nossos ídolos são feitos de carne, osso e imperfeições.

voandoparacasaFly Away Home (1996 – EUA) estrelaestrelaestrela_cinzaestrela_cinzaestrela_cinza

A pequena Amy Alden (Anna Paquin) morava com sua mãe na Nova Zelândia, até perdê-la num acidente de carro. Sem saída, a garota deve mudar-se para o Canadá, morar com seu pouco presente pai Thomas Alden (Jeff Daniels). Ele não leva uma vida muito normal, trabalha numa oficina, em sua casa, e é engajado em lutas ecológicas. Thomas não estava nem um pouco preparado para cuidar de uma adolescente, vivendo entre suas causas ecológicas e seus hobbies: voar de ultraleve e construir suas próprias máquinas. Perder a mão, mudar de país, de escola, acostumar-se com o novo estilo de vida e a madrasta, Susan Barnes (Dana Delany). Crises comuns a famílias que passam por esse tipo de tragédia.

Nessa nova fase de adaptação complicada, a garota encontra alguns ovos de ganso. Passa a cuidar deles após o nascimento dos filhotes. Sua afeição aos pássaros ajuda muito em seu relacionamento familiar. No inverno, os gansos precisam fugir do frio, migrando ao sul. Porém, ao não terem contato com a mãe, não há quem lhes ensine a voar, nem o melhor caminho para um lugar seguro. Thomas e sua família resolvem ensiná-los a voar, com a ajuda de ultraleves (hobby do pai), guiando-os para um lugar mais quente ao sul do continente. Baseando-se em uma história real, o diretor Carroll Ballard recria essa história de aproximação do pai à filha adolescente por meio desse auxílio aos gansos. Uma aventura em tom de fábula, nos moldes Disney.